4 Koding og analyse av datamaterialet
4.5 Presentasjonen av leseforståelsesstrategiene
Após a expulsão do Paraíso, verifica-se uma transposição da ação para o plano terreno, tendo como protagonistas os descendentes do primeiro casal. Um anacronismo inicial faz de Seth contemporâneo de Caim e Abel, quando a Bíblia diz que Deus o concedeu a seus pais para substituir Abel. Este segundo episódio da primeira parte relata novo passo do Antigo Testamento, e principia com uma «prática» entre Abel, Seth e Caim sobre o valor das oferendas a Deus. Seth é piedoso, temente a Deus, e o doutrinador da família. Lembra aos irmãos as consequências do pecado de Adão e Eva. É pragmático e as suas falas, bem como as de Abel, revelam grande domínio dos livros sapienciais da Bíblia. Estes filhos de Adão, divididos entre agricultores e pastores, refletem uma organização social facilmente identificável por quem estava assistindo à função teatral, e expõem conceitos de relacionamento interpessoal.
Do «Paraíso» para o «Mundo», a ação narrativa alarga-se da esfera familiar para a esfera social, equacionando o problema da desarmonia existente nas relações interpessoais. Se Abel representa um lado solar, apolíneo, racional, Caim representa a sua antítese, o lado telúrico, dionisíaco, emocional. Através do seu diálogo, o público é levado a compreender as razões que podem conduzir à desagregação social, patentes no exacerbamento dos defeitos individuais de Caim, que se mostra orgulhoso e prepotente, cioso dos seus direitos de primogenitura:
Deveis-me muito respeito cada qual de vós, irmãos se algum me insultar
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Repare-se na expressividade onomatopeica do termo rezingar (v3), de forte sonoridade que surge em outras versões em substituição da palavra insultar, a sugerir um tom de voz mais alto e a expressar a imagem de quem discute (119). Abel é humilde, mas digno, com a autoridade da razão que nada teme:
Pois, manda-nos tu bem sempre te obedecerei em tudo o que for de razão e conforme manda a lei. (CCLIII)
Neste passo, a Seth cabe um papel de juiz, uma posição de equilíbrio, introduzindo a doutrina do bem-fazer, da entrega genuína espontânea, através da qual se demonstra o arrependimento e se consegue a remissão do pecado original. Seth procura convencer Caim da inutilidade da arrogância em ser «morgado soberano» - o direito de primogenitura -, e a demonstrar arrependimento nas suas ações, tal como seus pais o haviam manifestado, alcançando o perdão. Exorta-o a não esquecer o destino trágico da raça humana, que o Anjo anunciara anteriormente a Adão e Eva.
A argumentação de Seth encontra oposição na do Diabo, cuja elocução evoca a utilizada no momento da tentação de Eva no Paraíso. Caim é exortado a tratar os seus semelhantes «como escravos», e a confundir a noção de respeito, chave para a tranquilidade e harmonia social, com um poder absoluto assente num direito de emanação divina:
Diabo
Se algum se recusar ao teu respeito devido trata logo de matá-lo
como vil e atrevido. (CCLXXIII)
Caim
Andem-me debaixo dos pés reconheçam senhorio se algum me rezingar
matá-lo-ei com muito brio. (CCLXXIX)
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Para agudizar a tensão entre os irmãos, o Diabo exerce uma influência incontornável quando aborda Caim:
Diabo
Bem seria que ele comesse o trigo limpo da joeira e depois comesses tu
a lerica e a mosqueira. (CCLXIX)
“Lerica” e “mosqueira” são termos populares que designam ervas parasitas do trigo, sendo também possível ainda ouvir na região a palavra joio.
Obstinado no ódio e cego pelo despeito de ter sido preterido por Abel no coração de Deus, Caim mata o irmão. Seguem-se as recriminações de Seth, acusando Caim de presunçoso, perverso, e exaltando, por antítese, a humildade e a inocência de Abel. O Diabo, após ter conseguido manipular Caim, elabora uma estratégia para fazer também perder a descendência dos filhos de Abel, mas não consegue:
Agora, vamos cuidar em armar um aranzel que casem os de Caim
com os de Set e Abel. (CCCLIII) E são uns santinhos
mas, juntos uns com outros e nós metidos com eles
tais serão uns como outros. (CCCLIV)
A tragédia de Caim assume um aspeto exemplar, reflete a condição humana sujeita ao erro, cuja cegueira obstinada leva à perdição final. O fratricídio condena-o à errância permanente. Se Adão fora condenado ao desterro do Paraíso, Caim estará condenado à eterna intranquilidade. Abandonado por todos, refugia-se nos montes onde estará sujeito a maldições e ao remorso, que lhe faz ver inimigos, até em seres inanimados:
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Ó miserável de mim já me cai a maldição pois clama o Céu, justiça
contra o sangue de meu irmão. (CCCLVI) Já me tremem pés e mãos
já me treme o corpo todo qualquer vulto que vejo
me parece urso ou lobo. (CCCLX)
Em nenhum caso, a morte física se assume como punição legítima para o crime. A moral que se extrai deste passo leva-nos a compreender que a desigualdade equivale a desarmonia, e que apenas pela contrição se atingirá a redenção e a reposição da ordem. O pranto de Caim possui efeito catártico, levando o espectador a compreender que o arrependimento passa pela tomada de consciência do próprio erro e da sua confissão. Segundo a doutrina, é o modo de alcançar a absolvição.
Com o mesmo sentido com que as Erínias gregas perseguiam aqueles que derramavam o sangue do seu sangue, também Caim será perseguido pelo remorso. Abandonado, vagueará por montes e vales, sem destino aparente, até que, num breve momento de pretenso descanso, Lameque, «caçador afamado» e seu descendente, confundindo o seu aspeto miserável com o de uma fera, alveja Caim. Esta passagem surge como um anacronismo, dado que Lameque pertence à sétima geração de Caim.
Caim é transportado ao Inferno pelo Diabo, que, em breve epílogo, extrai a moral deste episódio. O debate termina com uma “leal” advertência por parte de quem menos se espera,
apelando ao senso comum dos ditados “quem te avisa teu amigo é” ou “o diabo não é tão mau como o pintam”:
Diabo
O Inferno é uma casa de portas tão decantadas abertas para entrar
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Vamos ambos para lá dizendo aos pecadores se nos quiserem seguir
me fazem grandes favores. (CCCXCIII) Reparem bem pecadores
olhem que isto é assim se me querem escapar
nunca se fiem em mim. (CCCXCIV)
Este episódio perspetiva conceitos particulares à região transmontana. A divisão entre agricultores, pastores e caçadores, com que se definem os descendentes de Adão, patenteia um tipo de organização comunitária e de modus vivendi local. A reflexão sobre a qualidade das oferendas de Caim e Abel parece refletir o modo como o «filigrês» deveria contribuir para a igreja através da côngrua (120), tornando claramente identificáveis ao espectador os fundamentos doutrinários.
Neste ponto, ganha particular interesse a utilização de alguns termos populares, como “lerica”, “mosqueiras”, ou “rabeiras”,formas depreciativas para definir as mesquinhas ofertas de Caim, mas também do termo popular injurioso “safuril” (CCLXXXVII/ v1), possivelmente uma deturpação de “cafrael”, significando “bárbaro”, que remetem para versões arcaizantes da
linguagem popular, mais conservadora de formas residuais do passado.