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5 Presentasjon og drøfting av resultater

5.4 Avsluttende refleksjoner

5.4.2 Implikasjoner

O termo colóquio é frequente em Trás-os-Montes para designar este tipo de representação dialogada, concorrendo também com o nome de estrelóquio. Dormindo estão os pastores Roque, Felino, Lucas e Justo, quando o Anjo lhes anuncia a boa nova, numa clara mistura de profano e religioso, bem como de lirismo e rusticidade, à semelhança de muitos autos pastoris quinhentistas. Neste colóquio (126), o pastor Roque, como o Tibaldinho do Auto de Mofina Mendes, diz que prefere continuar dormindo a ir ver o Menino Deus, desculpando-se com o efeito do álcool consumido:

Ora, deixai-me dormir não me estejais a cismar a culpa é da borracha

que te fez extraviar. (MCXXXVIII)

Estremunhados a princípio, duvidam dos sentidos e conversam sobre a veracidade da sensação, fruto talvez do excesso de bebida, «da borracha/ que [os faz] extraviar». A explicação de Lucas, de que a voz suave provinha do coração, tranquiliza-os.

126 O termo colóquio é frequente em Trás-os-Montes para designar este tipo de representação dialogada,

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Um a um vão explicando as sensações sonhadas: a voz que emana de uma luz intensa, a entrada de «um grande rei em Belém» (MCLXII/v4), a voz de Isaías (MCXLIII/v2), ou a profecia cumprida da «vinda daquele Rei Messias» (MCXLIII/v4).

O vocabulário presente, nas falas destes Pastores, e em diversas versões recolhidas sobre o Auto, é corriqueiro e próprio do meio rural. O termo “borracha” designa “vasilla”, também denominada “bota”, um recipiente próprio para transportar o vinho, espécie de fole em pele de

cabra, ou de outro animal, que termina por um gargalo, por onde os homens bebiam o vinho. A “bota de vinho” era, de facto, um acessório usado por todos os pastores da região, quando

andavam de pastoreio. A razão deste nome poderá estar relacionada com a maleabilidade da pele, semelhante a uma borracha. Estes rústicos pastores, em nossa opinião, manifestam grande sensibilidade aos valores espirituais; alguns saúdam o Menino com versos cheios de Fé e de lirismo. Nos “ditos” de Justo e de Felino (ou Fileno, em outras versões), a expressividade reflete

a afeição religiosa que o povo transmontano manifestava em relação à época natalícia, traduzida em quadras elaboradas para a ocasião.

As dúvidas existenciais destas gentes refletem a natureza da sua perceção sobre a relação entre a transcendência do Deus Menino, a quem compete ofertar o melhor, e a constatação da sua pobreza, em não o poder cumprir. Mas logo o senso comum de um pastor mais esperto dissipa as dúvidas, e logo partem a adorar o Deus Menino, com a suprema ingenuidade de quem mal não cuida senão em oferecer suas almas «com vida e coração» (MCLII/v4):

Roque

Vamos por nosso caminho como assim nos convém se virmos que ele precisa compra-se lá em Belém. (MCL)

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Neste momento, «Cantam os anjos» que, acompanhando a jornada dos pastores, e estes deslumbrados com os prodígios da natureza que vão observando. Chegando à lapinha, rodeada por anjos, os pastores prostram-se em adoração e pedem perdão pelos seus pecados e oferecem o modesto produto da terra - trigo, lã, figos e passas - como sinal de amor.

Justo

Ó meu Deus, ó meu amor meu menino, Vós por cá deixais por trevas e luz

e quanto bem no Céu há. (MCLXI)

Felino

Quem Vos pôs nessa miséria ricos olhos, bela flor

bem sei que são meus pecados

meu menino meu amor. (MCLXXII) (127)

Repare-se no valor afetivo destes vocativos repetidos e reforçados pelo possessivo “meu” e também nas metáforas escolhidas entre o que há de mais belo no mundo, “ricos olhos

bela flor” (MCLXXII/v2). Este acumular de imagens e de expressões ternas patenteia não só o impulso afetivo das pessoas envolvidas por um ambiente sagrado, muito peculiar na região transmontana durante a representação das Loas, das Embaixadas e Ramos, mas também um esforço para definir os profundos sentimentos do coração exteriorizados durante a celebração litúrgica do Natal.

Próprio do meio rural, onde o único sustento provinha do cultivo da terra, também Felino tem pena de ser pobre e de não poder oferecer mais que uns figuinhos colhidos “à unha” com manha (128):

Felino

Ó quem tivesse riqueza para Vos oferecer pois, me quereis dar tudo

127Sublinhado nosso.

128 Expressão utilizada para definir a ação de apanhar os frutos diretamente da árvore com dificuldade. Exemplo.

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sem eu vos merecer. (MCLXXIV) Aceitai este figuinhos

mais nada me acompanha que para os colher à unha

vali-me de minha manha. (MCLXXV)

Para o Pastor Lucas, sendo pobre também, importa estar presente e manifestar o seu amor, muito embora vá pedindo ao Menino que lhe roteja o gado, para que lhe possa oferecer “lã para umas meias” (129)

:

Lucas

Vós, Senhor, bem sabeis que só venho por vos ver dávidas não as tenho

para vo-las oferecer. (MCLXXVII) Bem sabeis e conheceis

aquele pobre pastor Lucas se o gado se não pelar

dar-vos-ei lã para umas luvas. (MCLXXVIII)

Por seu lado, o pastor Roque, admitindo a sua extrema pobreza, solicita ao Menino Deus que lhe dê a dádiva de “pão e salvação em morrendo”. Entretanto, oferece o cereal próprio das

principais colheitas da região, trigo:

Roque

Como Vos vejo muito pobre bem sei que sou confiado aceitai este triguinho

que ainda hoje foi comprado. (MCLXXI)

Este tipo de ofertas, que os pastores entregam ao Menino, exorta à noção de partilhar o que se tem, e se pode dispensar, pelos que nada têm. As ofertas do pastor Justo evocam uma prática transmontana fortemente arreigada na região, que ainda hoje se verifica. Após a apanha dos figos, durante o mês de Julho, é comum secarem-se os mesmos e acondicionados em

129 Recorde-se que em tempos passados os pastores da região transmontana teciam a lã dos seus rebanhos para fazer

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farinha de trigo, para serem consumidos no Inverno. O mesmo ocorre com as passas, que após o período da vindima, em que se recolhem os melhores cachos de uvas, estas são colocadas em palha para evitar qualquer contacto com outras superfícies, deixando-as secar, para serem consumidas na época festiva.

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