3 Metode
3.3 Før datainnsamling
Organizámos este trabalho por fases. No primeiro capítulo, abordámos a caracterização e o reconhecimento da região para delimitar o nosso campo de estudo, bem como a visualização das principais tradições ligadas ao Natal, de forma a encontrarmos pontos de apoio que sustentassem a continuidade da tradição sob diversos rituais praticados pelo povo transmontano durante a época natalícia.
No segundo capítulo, relatamos a pesquisa feita no terreno, a partir de entrevistas, quer centrada no tem, quer como entrevista livre sobre um tema geral, ou ainda como conversa informal. Através deste método, os informantes foram gradualmente expressando as suas recordações, contando as suas experiências, e aproveitando para reproduziram os versos que anteriormente haviam recitado enquanto personagem do Auto ou Ramo. Estas técnicas permitiram-nos obter dados sobre os sentimentos, atitudes, reações emotivas e afetivas dos informantes relacionados com a sua vivência pessoal ou
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coletiva que atestasse a permanência de práticas teatrais que se relacionassem com o ritual de oferta.
No terceiro capítulo, procurámos identificar as fontes, processos, e formas de que o povo se serviu para a escrita dramática do Auto, e para a sua representação; partimos da abordagem linguística, do estudo de estilo, da retórica dramática para a oratória cénica, através da análise da elocução, da linguagem verbal e da cénica, da música, das marcações de palco, da cenografia, dos adereços e dos figurinos. Procedemos ao registo áudio, escrito e fotográfico, de forma a ordenar as diferentes informações e a estabelecer relações espácio-temporais e organizacionais entre elas, uma vez que verificávamos disparidades, de cada vez que comunicávamos com os informantes que, de alguma forma, recordavam as representações ocorridas em localidades transmontanas onde a tradição da representação do Auto ou Ramo tinha lugar em tempos diferentes. Após este estudo preliminar, demo-nos, todavia, conta de que, durante o trabalho de campo, os versos foram adquirindo ou, pelo menos, foram-se aproximando da estrutura formal que terá estado na origem das versões representadas. Assim sendo, procurámos seguir as pistas que nos conduzissem a uma correspondência entre os testemunhos orais e os cascos, os manuscritos do Auto ou Ramo. Os vários testemunhos, entre eles o de Fernando Augusto Alves (13), no caso da aldeia de Urrós, registado em noite de Inverno junto à lareira, tornaram patente a existência de duas datas credíveis da sua representação, a 4 de Maio de 1924 (já referida no casco) e a de 5 de Maio de 1949 (14), contrariando o testemunho de
13 Fernando Augusto Alves contava, em 2002, 68 anos e possuía, como habilitações literárias, o 2º ano do
liceu. Residente em Urrós, em 1949, tomou parte na representação do Auto da Criação do Mundo ou
Princípio do Mundo, interpretando o papel do Anjo. O seu testemunho revelou-se importante, visto que
pronunciou, ainda que de forma aleatória, trezentos e setenta e três versos, num encontro realizado em 20 de Dezembro de 2007.
14 O Pe. António Maria Mourinho refere que este auto se representou “por três vezes, sendo a última em
1949, de que [recolheu] algumas fotografias” (1952: 15). No Casco de Urrós surgem, a lápis na página 18a, as datas de 1924 e 1935. Deduzimos que neste último ano tenha ocorrido uma representação apesar da inexistência de qualquer registo oral.
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Dinis Morais dos Reis (15), da aldeia de Nozelos, que referiu a passagem do dia 24 para o 25 de Dezembro como marco temporal, inalterável de geração em geração, em que a representação do Ramo se ligava à celebração litúrgica, antecedendo a celebração do nascimento de Jesus, já de madrugada.
Este momento tornou-se crucial para a perceção da importância e da influência que a representação do Auto (16) ou do Ramo exercia nestas pessoas, cujo nível de literacia se apresentava baixo ou quase nulo. A nossa investigação permitiu concluir que a versão do Auto foi representada exclusivamente na aldeia de Urrós, entre os anos de 1924 e 1949 (17), e as versões do Ramo foram, de aldeia em aldeia, sendo transformadas, de acordo com a perceção de cada regrante. No entanto, a partir do que conseguimos apurar, julgamos que a matriz original dos diversos dramatículos que constituem o Auto ou do Ramo se encontra intimamente ligada às representações sob a forma de Loas, Ramos ou Embaixadas, dentro e fora da Igreja, e que eram, sem dúvida, autênticas realizações culturais. (Geertz 2000:129).
No quarto capítulo, identificamos os informantes que, direta ou indiretamente, tiveram contacto com a representação, os quais funcionaram como meios da sua difusão, repositórios que são da “pequena” notícia quotidiana oral, ou manuscrita, que até nós
chegou, e que pretendemos fixar para memória futura. Não conformados com o sentimento de perda da tradição espetacular, manifestado pelos informantes nos nossos encontros de trabalho, lançámos um repto revivalista aos habitantes da aldeia de Urrós,
15 Dinis Morais dos Reis, de geração em geração, é o atual detentor do Casco de Nozelos e foi o responsável
pela execução do Ramo em 1999, na aldeia, bem como a representação de alguns papéis de destaque no
Ramo.
16 Para além do Auto da Criação do Mundo, foi a comédia Os Dozes Pares de França, representada em
Urrós (Baptista 2001: 61-74).
17 Existe uma informação prestada pelo Pe. Mourinho, na qual se refere o ano de 1935, (data provável) de
uma outra representação do Auto na aldeia de Urrós. Das informações recolhidas, foi possível, também, estabelecer o dia 5 de Maio de 1971. No entanto, durante os ensaios e sob as orientações de José Francisco Ferreira e por incompatibilidade de papéis entre os elementos femininos, a representação acabou por não se realizar. Possuímos a cópia do texto utilizado nesta representação, que apresenta alterações em relação ao original.
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para que, transcorridos sessenta e dois anos sobre a última representação do Auto Criação do Mundo, fosse levada a cabo a recriação do espetáculo na praça da aldeia, tal como ocorrera em 1949, para o que muito contribuíram as informações recebidas dos intervenientes sobrevivos desse momento.
Como conclusão, formulamos as considerações finais que nos levaram a concluir que a variabilidade textual existente no Auto ou Ramo, parte de uma estrutura comum, sendo que os agentes de transmissão oral procederam a alterações, em alguns casos significativas, e que o espírito criativo, artístico, cultural e linguístico dos textos foi transportado pela memória daqueles que contactaram com a representação. De referir também que a possível interpenetração de diversos elementos como as “Loas”, as “Embaixadas” e os “Ramos”, tradição muito arreigada na região, permitiram a construção
de um drama coeso e que acabou por adquirir o selo de originalidade consoante a interpretação de cada regrante, a partir dos dramatículos existentes.
Chegamos, por fim, à Edição Crítica, em que conjugamos diversas versões até agora coligidas do Auto da Criação do Mundo ou Ramo, propondo a fixação do texto, numa perspetiva comparatista dos textos dramáticos que foram representados na zona transmontana.
O presente trabalho de recolha e de edição escrita dos diversos textos que foram utilizados na representação do Auto da Criação do Mundo ou Ramo, tanto as versões escritas, precariamente preservadas, como as versões orais, exclusivamente suportadas pela memória popular, pretende contribuir para a História do Teatro em Portugal, no âmbito específico de Teatro Popular Tradicional, evitando, por um lado, a erosão do esquecimento, e, por outro, expondo as variações textuais, resultantes do processo evolutivo característico da transmissão oral.
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