A interdependência existente entre os dois sistemas, a família e a escola, assinala-se também claramente na interacção específica dos respectivos processos evolutivos, suas etapas e momentos de transição.
No que se refere à família, o seu ciclo vital pode ser definido como o processo de desenvolvimento da família ao longo do tempo, pontuado por uma sequência previsível de acontecimentos que conduzem a transformações na organização familiar. Essas transformações marcam e caracterizam cada uma das etapas desse processo que constitui, ao fim e ao cabo, a história de cada família (Alarcão, 2000a; Alberto, 2005; Relvas, 2006).
Situando-nos numa perspectiva diacrónica da vida familiar, podemos, pois, afirmar que o percurso de cada família se faz através de uma sequência previsível de etapas “que parecem ser universais apesar de variações culturais e sub-culturais” (Falicov, 1988a, p. 13).
Embora possamos encontrar diferentes categorizações do ciclo vital no que diz respeito ao número de etapas e seus marcadores (Carr, 2006; Nichols & Schwartz, 2006; Relvas, 2006), optou-se pela proposta de Relvas (2006), cujas etapas são: 1/ formação do casal; 2/ família com filhos pequenos; 3/ família com filhos na escola; 4/ família com filhos adolescentes; 5/ família com filhos adultos (empty-nest). Esta opção prende-se fundamentalmente com o facto de esta autora considerar especificamente a entrada na escolaridade básica como um acontecimento normativo que conduz a transformações na organização familiar.
Na literatura existente sobre o tema encontra-se, por vezes, uma coincidência ou mesmo um uso indistinto entre os termos de ciclo vital ou de desenvolvimento familiar. Contudo, Falicov (1988a) distingue o conceito de ciclo vital da família do conceito de desenvolvimento familiar.
Segundo esta autora, o conceito de ciclo vital diz respeito aos acontecimentos da vida familiar relacionados com as entradas e as saídas dos elementos da família no sistema familiar. Estes acontecimentos produzem mudanças que implicam reorganizações no sistema familiar, quer
a nível de papéis quer a nível de regras. Por sua vez, o conceito de desenvolvimento familiar é apresentado como um conceito abrangente, que se refere a “todos os processos co-evolucionários transaccionais relacionados com o crescimento de uma família” (Falicov, 1988a, p. 13).
Assim, o ciclo de vida da família estaria relacionado com as mudanças organizacionais decorrentes de alterações normativas na composição familiar, enquanto o desenvolvimento da família diria respeito a todo o processo desenvolvimental, no sentido mais lato, decorrente de todos os acontecimentos que afectam a organização familiar, relacionados ou não com as mudanças do ciclo vital.
Enquanto instrumento conceptual que permite uma leitura e abordagem da família, o ciclo vital teve subjacente um modelo de família comummente encontrado na sociedade ocidental do século XX. Esse modelo corresponde basicamente a uma estrutura composta por pai, mãe e filhos, coabitando no mesmo agregado familiar, que para além de ter prevalecido na realidade social durante muito tempo foi também tido como desejado ou idealizado.
Actualmente a noção de família e suas possíveis configurações têm vindo a ser transformadas por factores de ordem social e cultural ligadas ao aumento de divórcios, monoparentalidade, recasamentos, transformações sociais do papel da mulher, adopção, imigração, aumento da esperança de vida (Carr, 2006; Falicov, 2001; Relvas, 2002a; Relvas & Alarcão, 2002; Rodríguez, 2001; Wagner & Levandowski, 2008).
Cada vez menos faz sentido considerar um tipo de família normal ou tradicional, mas agora impõe-se falar de famílias, na especificidade das suas formas e diversidade dos seus contextos sociais, culturais, étnicos e religiosos (Nichols & Schwartz, 2006). As famílias, para além da sua configuração e constelação, e ainda para além das vicissitudes e dificuldades do seu próprio percurso, encerram em si competências e potencialidades de crescimento e evolução.
Como sublinham Nichols e Schwartz (2006), o verdadeiro valor do conceito de ciclo vital não é tanto saber o que é normal ou esperado em cada fase, mas sobretudo reconhecer que as famílias muitas vezes desenvolvem problemas nas transições do ciclo vital.
Compreendendo a relação entre o desenvolvimento do indivíduo e o desenvolvimento da família, adoptou-se a ideia de que “inserido numa vasta cultura sócio-política, o ciclo de vida individual toma forma à medida que se movimenta e desenrola dentro da matriz do ciclo de vida familiar” (McGoldrick, Heiman & Carter, 1993, p. 405).
A compreensão do desenvolvimento individual implica pois a sua contextualização quer no contexto familiar quer no contexto cultural. Deste modo, e de acordo com McGoldrick et al. (1993), cada um dos sistemas (individual, familiar ou cultural) deve ser posicionado em relação à dimensão histórica e à dimensão desenvolvimental (figura 6).
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Figura 6: Modelo sistémico do desenvolvimento humano: o indivíduo, a família e a cultura (adaptado de McGoldrick et al., 1993, p. 409).
Para Nichols e Schwartz (2006) a noção de ciclo vital enriquece a nossa compreensão do desenvolvimento individual na medida que nos permite compreender que as famílias se reorganizam para se acomodarem ao crescimento e mudança dos seus elementos e que o desenvolvimento ou mudanças em qualquer uma das gerações familiares tem impacto num ou em todos os membros familiares.
A compreensão da relação fundamental entre o desenvolvimento individual, familiar e do contexto envolvente será facilitada e enriquecida se acrescentarmos a noção de co-evolução, tal como foi proposta por Gregory Bateson (1987).
Para Bateson (1987), “as mensagens deixam de ser mensagens, quando ninguém as consegue ler. (…) Para ser significativa — mesmo para ser reconhecida como padrão — toda a regularidade tem de se encontrar com regularidades complementares, talvez capacidades, e estas capacidades são tão evanescentes como os seus próprios padrões. Também elas estão escritas na areia ou na superfície das águas” (p. 49). Enquanto génese da capacidade de responder à mensagem, a co-evolução seria, portanto, o outro lado do processo da evolução.
Mais concretamente, Bateson (1987) encontrou a seguinte explicação de co-evolução: “um sistema estocástico de alteração evolucionária em que duas ou mais espécies inter-actuam de maneira a que as alterações na espécie A preparem o caminho para a selecção natural de alterações na espécie B. Por sua vez, as alterações posteriores na espécie B preparam o caminho para a selecção de alterações semelhantes na espécie A” (p. 197).
Ao pensar em co-evolução pensa-se pois em transformações co-relacionadas, “produto óbvio da interacção e da comunicação na sua vertente pragmática” (Relvas, 2006, p. 16). Neste enquadramento pode-se configurar a relação entre a escola e o desenvolvimento familiar: as suas
relações transformam-se consoante a fase do desenvolvimento da criança, o seu significado e importância na estrutura e organização familiar.