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A perspectiva sistémica constitui um instrumento conceptual que permite compreender a especificidade da família enquanto grupo e a complexidade relacional que a caracteriza, através de uma lógica circular que evita que se descreva e se leia a família com base numa sucessão estéril e infinda de causas e efeitos.

A partir dos conceitos fundamentais da perspectiva sistémica podemos definir família, utilizando as palavras de Relvas (2000c), como “um sistema auto-organizado, social e aberto” (p. 22). Mais concretamente, uma família constitui um grupo de indivíduos que para além dos laços legais ou biológicos “desenvolvem entre si, de forma sistemática e organizada, interacções particulares que lhe conferem individualidade grupal e autonomia” (Relvas, 2000c, p. 24). No fundo, a família caracteriza-se fundamentalmente pelas pessoas que dela fazem parte e pela complexa rede de relações que se estabelecem entre elas.

Para além dos vínculos e das interacções, as famílias definem-se pela forma como dão significado às relações interpessoais (Alberto, 2005; Fuster & Ochoa, 2000; Relvas, 2002a). Assim,

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através das interacções que desenvolvem, as famílias constroem histórias e narrativas sobre si que organizam e dão sentido às suas experiências (Nichols & Schwartz, 2006).

A família é, no fundo, uma construção social elaborada a partir dos significados que lhe atribuem os seus elementos e que são co-construídos através do discurso, ao longo do tempo e num determinado contexto. Como afirma Relvas (2002a), “a família é uma produção do discurso familiar que, simultaneamente, constrói” (p. 310).

Uma maneira de compreender e analisar a família é situá-la em referência a duas dimensões ou eixos (figura 2): um eixo espacial ou relacional, da organização e estrutura familiar; e um eixo temporal, da continuidade e história familiar em que se enquadra o desenvolvimento e o desenrolar da vida familiar (Alarcão, 2000a; Alberto, 2005; Relvas, 2006).

Figura 2: Eixos de compreensão da família: o espaço e o tempo

O desenvolvimento e funcionamento da família são basicamente orientados por alguns objectivos traduzidos em funções primordiais da família. Uma dessas funções, a função interna, corresponde ao desenvolvimento e protecção dos seus membros; a função externa consiste na socialização dos membros da família, adequação e transmissão de determinada cultura (Alarcão, 2000a; Fontaine, 1985; Minuchin & Fishman, 1981; Relvas, 2006).

Nesta lógica, e em estreita correspondência com estas funções, a família terá que desempenhar duas tarefas. Por um lado, o suporte ao processo de individualização/autonomização dos seus elementos e, por outro lado, a criação de um sentimento de pertença.

A resolução destas tarefas será feita por cada família tendo em conta a sua própria organização e a sua capacidade auto-organizativa, para além de toda e qualquer influência

co-evolução indivíduo sistemafamiliar TEMPO ESPAÇO escola lazer trabalho famíliaalargada sociedade

exterior. Embora em constante interacção com o meio, a família não depende das influências exteriores, mas possui capacidades organizadoras, decisórias e reguladoras que lhe conferem coerência e consistência no equilíbrio da dinâmica interior-exterior. Citando Relvas (2000c), “uma família evolui e transforma-se, os membros que a constituem alteram-se, mas ela não deixa de ser família, aquela família" (p. 24).

Sendo um sistema informacionalmente aberto e organizacionalmente fechado, a família muda a sua estrutura ao longo do tempo, mas mantém a sua organização que lhe confere a coerência enquanto sistema distinto dos outros.

De acordo com Alarcão (2000a), por estrutura entende-se o conjunto de relações que se estabelecem em cada etapa da vida e que lhe vão conferindo configurações particulares sem nunca lhe modificar a identidade básica.

A família enquanto totalidade estrutura-se numa hierarquia sistémica (figura 3) composta por vários subsistemas e integra-se, por sua vez, numa hierarquia mais vasta da qual constitui um subsistema.

Para além dos subsistemas individuais, constituídos por cada um dos elementos que compõem a família, podemos distinguir outros (compostos por um ou mais elementos) que se diferenciam por possuírem uma estrutura relacional própria e funções específicas dentro do sistema familiar. Alguns elementos da família pertencem simultaneamente a diferentes subgrupos, como é o caso do subsistema parental e do subsistema conjugal, do subsistema fraternal e do filial. Por outro lado, a família faz ela própria parte de outras totalidades mais vastas tais como a comunidade e a sociedade.

Figura 3: Hierarquização do sistema familiar

Podemos assim descrever a família em referência a uma hierarquização sistémica organizada. Cada uma das partes pode-se designar por “holão”: “todo o holão — o individual, a família nuclear, a família alargada e a comunidade — é simultaneamente um todo e uma parte,

sub-sistema parental/conjugal sub-sistema fraternal/filial pai mãe Ana João filho filha Pedro Joana indivíduo família nuclear família extensa comunidade

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não mais um do que o outro, sem que um rejeite ou conflitue com o outro” (Minuchin & Fishman, 1981, p. 13).

A diferenciação entre estes diferentes subsistemas, quer a nível do interior do próprio sistema quer em relação ao meio em que se insere, é feita através das regras ou normas que definem quem participa num determinado subsistema e o modo como o faz, tal como já foi anteriormente referido (Minuchin, 1982).

De acordo com Fontaine (1989), apesar de a família ser habitualmente definida enquanto um sistema aberto, ela é na realidade relativamente aberta e fechada, e é na ultrapassagem destas condições antitéticas quanto aos limites, abertura e fecho, que se situa a saúde das famílias. A este propósito citamos Relvas (1995b): “o equilíbrio abertura/fecho do sistema ao longo do tempo, é visto como possibilidade dinâmica potenciadora da 'saúde mental' da família” (p. 32).

O construcionismo social ajuda-nos a compreender o funcionamento saudável das famílias ao considerar que as famílias saudáveis possuem sistemas de crenças suficientemente flexíveis para promover a sua adaptação às mudanças que se impõem quer ao longo do vital quer no contexto social envolvente (Carr, 2006).

Ainda segundo Fontaine (1985, 1989) poder-se-á fazer a análise desta questão situando a família em relação aos dois eixos ou dimensões já citados, o eixo sincrónico (do espaço e da organização familiar) e o eixo diacrónico (do tempo e evolução da família), que permitem compreender a especificidade e unicidade de cada família (figura 4). O equilíbrio abertura/fecho no eixo sincrónico permitirá a diferenciação e coordenação intra e inter-sistémica; por outro lado, esse mesmo equilíbrio no eixo diacrónico definirá a capacidade de adaptabilidade e de evolução do sistema (Fontaine, 1989; Relvas, 1995b).

A estabilidade do sistema familiar é conseguida através de uma sucessão contínua de flutuações, sendo a estabilidade e a mudança duas vertentes do mesmo processo.

A este propósito, a Escola de Palo Alto distingue dois tipos de mudança, que designa por mudança 1 e mudança 2: “uma acontece no interior de um dado sistema, sistema que permanece sem alteração, a outra modifica o próprio sistema” (Watzlawick et al., 1975, p. 28). Neste último caso, dar-se-ia uma transformação da organização do sistema (a mudança seria fundamentalmente qualitativa) que conduziria ao surgimento de uma nova estrutura, em que assumem um papel predominante factores como a imprevisibilidade, o acaso e a irreversibilidade, dado que a nova estrutura emergente não é predeterminada.

Seguindo esta ordem de ideias, surge a noção de crise que pode ser definida como “a situação de uma pessoa ou de um sistema vivo quando uma mudança se torna inevitável” (Ausloos, 2007, p. 4), ou ainda como “um fenómeno transitivo complexo pelo qual um sistema humano pode passar de um estado estável a outro” (Caillé, 1991, p. 109).

Pode-se estabelecer aqui um paralelismo entre o conceito de crise e o de flutuação, tal como é proposto por Prigogine (citado por Ausloos, 1983), que significa “uma posição de instabilidade a partir da qual um novo estado pode ser atingido a partir de uma perturbação

infinitesimal” (p. 210). O sistema atingirá então um ponto de bifurcação, a partir do qual o sistema poderá evoluir numa de muitas direcções. Daí a noção de crise ser considerada como uma ocasião de evolução e de desenvolvimento ou um risco de disfuncionamento (Minuchin, 1982; Minuchin & Fishman, 1981).

Figura 4: Saúde e patologia na família (adaptação de Fontaine, 1989)

VIDA eixo sincrónico: espaço eixo diacrónico: tempo

manutenção-mudança diferenciação-coordenação em geral um pouco mais complexo ABERTURA FECHO OOO FAMÍLIAS em geral

tarefa articulação indivíduo-sociedade continuidade-renovação do género humano conceitos INDIVi DUAÇÃO SOCIA LIZAÇÃO isola- mento fusão MANU TENÇÃO ser o próprio MUDAN ÇA estar com estabi-lidade flexibi-

lidade rígido z caos FAMÍLIAS na nossa cultura

estrutura dinâmica a curto prazo

oscilações e maior ou menor adaptação a médio prazo a longo prazo estádios de desenvolvimento da família + incidentes (mudanças 2) continuidade e mudança transgeracional FAMÍLIA

concreta estrutura dinâmica concreta história concreta M P F 2 F 1

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Um sistema familiar nunca está organizado ou desorganizado, nunca está estruturado ou desestruturado, nunca é funcional ou disfuncional, nunca está equilibrado ou desequilibrado, mas sim em organização, em estruturação, em funcionamento, em equilibração, evoluindo no tempo. (Ausloos, 1983, 2007).