A pragmática da comunicação, inspirada pelo desenvolvimento da cibernética e da teoria sistémica, insere-se num movimento que durante a década de 50 do séc. XX fez emergir nos Estados Unidos da América um novo paradigma de comunicação interpessoal.
Um grupo de autores americanos partilha então uma mesma visão de comunicação interpessoal que pode ser designada por ―modelo orquestral da comunicação‖, por oposição a um modelo linear herdeiro do modelo inicialmente proposto por Shannon e Weaver, e mais concretamente em oposição à sua aplicação nas ciências sociais e humanas (o que remete, ao fim e ao cabo, para pressupostos filosóficos clássicos sobre a natureza do homem e da comunicação). No fundo, os investigadores da época reivindicam um modelo próprio para o estudo da comunicação na área das ciências humanas.
Esse primeiro modelo, fundado sobre a imagem do telégrafo, pode ser designado por ―modelo telegráfico da comunicação‖. Neste, a comunicação é entendida como um processo linear à semelhança do funcionamento do telégrafo, em que um emissor envia uma mensagem a um receptor, que depois por sua vez se torna emissor enviando uma mensagem ao primeiro emissor agora receptor, etc. Em última instância ―nesta tradição, a comunicação entre dois indivíduos é portanto um acto verbal, consciente e voluntário‖ (Winkin, 1981, p. 22).
Pelo contrário, a propósito do modelo de comunicação que pode ser compreendido através da metáfora da orquestra, a comunicação é concebida como um processo permanente de múltiplos canais no qual o actor social participa pelos seus gestos, o seu olhar, o seu silêncio, e mesmo a sua ausência (Benoit et al., 1988; Winkin, 1981), pois ―na sua qualidade de membro de uma certa cultura, ele faz parte da comunicação, como o músico faz parte da orquestra" (Winkin, 1981, pp. 8).
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O Colégio Invisível
O grupo de investigadores e estudiosos que se constituiu e se desenvolveu à volta deste modelo de compreensão da comunicação interpessoal é designado comummente de Colégio Invisível (Benoit et al., 1988; Winkin, 1981). Por Colégio Invisível podemos entender um conjunto de relações, pessoais e científicas, entre diferentes investigadores entre os quais se destacam Gregory Bateson, Ray Birdwhistell, Edward Hall, Erving Goffman, Don Jackson e Albert Scheflen, que empreenderam uma verdadeira obra de ruptura e inovação.
Na obra ―La nouvelle communication‖, Yves Winkin (1981) retrata e expõe com muita clareza a constituição e a importância desta rede, fazendo uma leitura e exposição personalizada.
Como refere Winkin (1981), podem não ser imediatas as possíveis ligações entre estes diferentes investigadores, mas se atendermos mais de perto às suas biografias ―vemos aparecer uma rede de trajectórias cruzadas, de universidades e de centros de pesquisa comuns e finalmente uma muito grande interpenetração conceptual e metodológica‖ (p. 20). Esta encruzilhada de trajectórias tem como principais pontos de referência as cidades de Palo Alto e Filadélfia.
Entre os diferentes membros desse colégio predominavam basicamente duas formações científicas, a antropologia e a psiquiatria, que vão ser determinantes quer no tipo e área das investigações conduzidas, quer nos aspectos que serão realçados nos estudos e quer ainda nas principais áreas de aplicação dos diferentes estudos.
De certo modo podemos dizer que esse Colégio Invisível constituía no fundo uma realidade virtual pois existia e permanecia pela força e convergência das ideias, trabalhos e interesses e não enquanto realidade institucional.
Será ainda importante salientar que esta tentativa em repensar e formular uma outra visão da comunicação implicou não somente outros princípios teóricos, mas acarretou também princípios epistemológicos. Não foi apenas uma outra teoria sobre a comunicação, mas uma outra maneira de pensar a comunicação. Assim, os princípios e conceitos da cibernética e da teoria geral dos sistemas foram amplamente utilizados pelos membros deste colégio (se não tanto o vocabulário, pelo menos os seus princípios epistemológicos).
Para estes diferentes investigadores, a comunicação só faz sentido enquanto ―processo social permanente integrando múltiplos modos de comportamento: a palavra, o gesto, o olhar, a mímica, o espaço inter-individual, etc.‖ (Winkin, 1981, p. 24). Mas, como realça Winkin , qualquer que seja o modo de comunicação que sustenta ou veicula a mensagem, a sua significação só toma forma ―no contexto do conjunto dos modos de comunicação, ele próprio relacionado com o contexto da interacção‖ (p. 24).
Em suma, os diferentes membros desse colégio são basicamente consensuais em relação à importância a atribuir ao contexto e à existência de códigos ou de conjuntos de regras de comportamento: a comunicação implicaria uma selecção e organização de comportamentos apropriados e significativos adentro dum determinado contexto. Daí que Winkin (1981) possa afirmar que ―para os membros do Colégio invisível, a pesquisa sobre a comunicação entre os
homens só começa a partir do momento em que é posta a questão: de entre os milhares de comportamentos corporalmente possíveis, quais são aqueles retidos pela cultura para constituir conjuntos significativos?‖ (pp. 22-23).
Historial e autores pioneiros
Dada a importância do trabalho deste conjunto de investigadores para o desenvolvimento das teorias sobre comunicação humana, optou-se por uma breve referência a cada um dos autores mais significativos, seguindo de perto a obra já referenciada de Winkin.
Não obstante a multiplicidade de investigadores que podem ser referenciados ou conectados a esta rede, Gregory Bateson pode ser visto como o principal mentor e um dos maiores impulsionadores desta nova linha de estudo sobre a comunicação a par com Ray Birdwhistell (Benoit et al., 1988; Winkin, 1981).
A importância da obra e percurso de Bateson poderá ser sucintamente sintetizada com as seguintes palavras de Robert Rieber (1990): ―durante grande parte da sua vida, Gregory Bateson procurou desenvolver uma epistemologia universal que pudesse, num quadro de referência essencialmente sistémico, dar uma visão integrada das capacidades de todas as coisas vivas em integrar informação, organizá-la e reorganizá-la, e comunicá-la para fora de si própria‖ (p.1). Uma das características da epistemologia batesoniana é a integração de conceitos oriundos de diferentes áreas e de diferentes investigações e estudos.
Embora com um percurso diversificado, Bateson encontra-se ligado à Escola de Palo Alto, ou melhor dizendo, o trabalho desta Escola tem sempre como grande referência a pessoa, as ideias e o trabalho de Gregory Bateson.
Bateson, biólogo de formação, que trabalhava na área da antropologia, chega nos anos 50 a Palo Alto com o objectivo de formular uma teoria geral da comunicação, juntamente com uma equipa constituída inicialmente por John Weakland, Jay Haley e William Fry, e em 1952 recebe uma bolsa para estudar "os paradoxos da abstracção na comunicação".
Para Bateson, este estudo sobre a comunicação tinha como grandes bases os conceitos da cibernética e da teoria dos tipos lógicos. De acordo com esta última, existe uma diferença de nível lógico ou de abstracção entre uma classe e os objectos que dela fazem parte, o que transposto para comunicação implica que as mensagens trocadas numa sequência comunicacional possam ser analisadas a níveis lógicos diferentes (Bateson, 1987; Benoit et al., 1988).
A esta equipa junta-se em 1954 o psiquiatra Don Jackson, que depois com Paul Watzlawick virão a ser conhecidos como os principais representantes de uma segunda geração do grupo de Palo Alto (Winkin (1981).
Em 1956 é publicada o artigo ―Towards a Theory of Schizophrenia‖ onde são apresentadas as principais conclusões dos estudos do grupo e a hipótese do double bind, que se prende com a existência de contradição entre os diferentes níveis de uma mensagem. Esta hipótese foi amplamente trabalhada e desenvolvida posteriormente, conforme podemos atestar
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pela abundante bibliografia existente sobre o tema, nomeadamente na publicação periódica ―Family Process‖.
O double bind, começou por ser estudado em relação ao comportamento esquizofrénico no contexto de uma comunicação familiar patológica (Nichols & Schwartz, 2006), mas progressivamente tornou-se para Bateson um princípio abstracto que se aplicava tanto à arte como ao humor, ao sonho e à esquizofrenia (Winkin, 1981).
Em 1959 Don Jackson funda o Mental Research Institute (M.R.I.) que visa a aplicação das ideias do grupo liderado por Bateson à psicoterapia, e de que fazem parte inicialmente Jules Riskin e Virginia Satir. Posteriormente junta-se-lhes Paul Watzlawick e também John Weakland e Jay Haley.
Paul Watzlawick acaba por se tornar um dos representantes mais conhecidos na Europa do M.R.I. e do Grupo de Palo Alto, nomeadamente através das suas obras. Entre as obras destaca- se a, já referida anteriormente, ―Pragmatics of Human Communication. A Study of Interactional Patterns, Pathologies, and Paradoxes‖, em que são sistematizados, sob a forma de axiomas, as principais ideias batesonianas sobre comunicação.
Enquanto elemento da primeira geração do Colégio Invisível, é imperioso focar Ray Birdwhistell, cujo trabalho foi muito importante para a compreensão do fenómeno da comunicação a nível das ciências humanas.
As suas ideias sobre a comunicação são semelhantes às de Bateson e às desenvolvidas pelo grupo de Palo Alto, mas forjou, contudo, uma posição teórica muito própria que resultou duma combinação das premissas batesonianas da comunicação com a antropologia e a linguística descritiva dos anos 50. Houve um intercâmbio de ideias entre Ray Birdwhistell e Gregory Bateson, e se é sabido que Birdwhistell aprendeu muito com Bateson o contrário também se verificou, embora não seja um facto muito conhecido como o realça Albert Scheflen (citado por Winkin, 1981).
Birdwhistell começou por se debruçar sobre a relação do corpo e da gestualidade com a sociedade e a cultura, destacando a importância do corpo e do gesto. Em 1956 integra uma equipa no Center for Advanced Study in the Behavioral Sciences em Palo Alto. Dos estudos sobre a interacção, que resulta na obra ―The Natural History of an Interview‖, Birdwhistell (citado por Winkin, 1981) conclui fundamentalmente que quer a linguagem quer a gestualidade fazem parte de um sistema interaccional mais vasto, constituído por múltiplos modos de comunicação em que se integram o tacto, o olfacto, o espaço e o tempo, não sendo possível a hierarquização dos diferentes modos de comunicação de acordo com a sua importância no processo interaccional. Outra conclusão é que ―um indivíduo não comunica, ele toma parte numa comunicação ou torna- se um dos seus elementos /…/ Noutros termos, ele não é o autor da comunicação, participa nela‖ (Birdwhistell, citado por Winkin, 1981, p. 75). Deste modo passa-se da noção de ―comunicação com‖ para o entendimento de ―participação na comunicação‖.
A comunicação é, pois, encarada por Birdwhistell como um processo permanente tão vasto como a cultura: "a cultura e a comunicação são termos que representam dois pontos de vista ou dois métodos de representação da inter-relação humana, estruturada e regular. Na 'cultura', o acento é posto sobre a estrutura, na 'comunicação', sobre o processo" (Birdwhistell, citado por Winkin, 1981, p. 76).
Não obstante a importância da sua obra, foi sempre um grande desconhecido quer na Europa quer mesmo nos Estados Unidos. Um dos motivos parece ter sido o facto de não se ter dedicado à escrita do seu trabalho, sendo a sua obra fundamentalmente uma obra oral.
O trabalho deste investigador teve um grande impacto em Albert Scheflen e Erving Goffman, e depois em Stuart Sigman, que Winkin (1981) considera os principais representantes respectivamente da segunda e da terceira geração do Grupo de Filadélfia.
Albert Scheflen, psicanalista que envereda pela terapia familiar, produz uma obra complementar à de Birdwhistell, onde enquadra o seu trabalho no quadro da teoria geral dos sistemas e, mais ainda, na epistemologia batesoniana. Dedicou-se à análise do contexto através do ―método da história natural‖, ou seja uma observação sistemática de dados recolhidos em meio natural (Winkin, 1981).
Embora menos conhecido, e com uma obra relativamente recente, Stuart Sigman pode ser apontado como representante de uma terceira geração do Colégio Invisível, mais concretamente da linha ou linhas de investigação conduzidas pelos investigadores reportados ao Grupo de Filadélfia. As suas pesquisas incidem sobre a ―etnografia da comunicação‖ e a análise de organizações complexas (Winkin, 1981).
Outros dois investigadores apontados ainda por Winkin (1981) como membros fundadores do Colégio Invisível são Erving Goffman e Edward T. Hall, cuja obra não é, contudo, especificamente relacionada com o Grupo de Filadélfia devido ao percurso e posição sui generis que ocuparam no panorama universitário americano.
Edward T. Hall, antropólogo, entre outros assuntos, dedicou-se especificamente, ao estudo da organização social do espaço entre os indivíduos, área de estudo que designou por proxémica. Estudou os códigos da comunicação intercultural e, em particular, os que dizem respeito à utilização do espaço interpessoal. Sendo que cada cultura organiza o espaço de maneira diferente, este investigador elaborou uma escala de distâncias interpessoais.
Erving Goffman, sociólogo e um dos representantes da corrente de sociologia americana designada por Escola de Chicago, estuda em particular as normas sociais que regem a vida quotidiana, dando um relevo especial às interacções quotidianas. Segundo Goffman (citado por Winkin, 1981), ―toda a gama de relações que se jogam entre duas pessoas, momentâneas ou permanentes, conscientes ou inconscientes, efémeras ou gravemente consequentes, (…) liga sem cessar os homens entre si‖ (p. 94).
Todos estes estudos e trabalhos sobre a comunicação em geral e sobre diversas formas de interacção em particular, tendo em conta as contribuições da cibernética e da teoria geral dos
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sistemas, vão concorrer para a definição de uma perspectiva ecossistémica da comunicação ou da teoria ecossistémica da comunicação.
A teoria ecossistémica da comunicação é definida por Relvas (1999) como uma ―conceptualização organizadora e integrativa das noções desenvolvidas por G. Bateson nos domínios da biologia, antropologia, sociologia, etologia, cibernética e psiquiatria e 'da epistemologia que decorre da teoria dos sistemas e da ecologia‖ (p. 162).
Muito embora a perspectiva ecossistémica da comunicação deva o essencial das suas noções de base à obra de Gregory Bateson (Benoit et al., 1988; Relvas, 2000), percebe-se que para o desenvolvimento desta perspectiva tenha sido essencial o trabalho de diferentes investigadores que, pelos seus interesses e percursos, permitiram a definição e desenvolvimento de um ―modelo orquestral da comunicação‖.