6 Discussion
6.3 Validity
Não tenho problemas com a falta de conexão Estou acostumado a perder a conexão por alguns dias
Não consigo de jeito nenhum ficar sem internet, pois estou sempre conectado Fico irritado, porém vou fazer outras coisas
sobre as mulheres com relação a assumirem mais responsabilidades, pois, além de terem que arcar com os afazeres domésticos, também teriam que ajudar economicamente seus maridos.
Por um outro ângulo, observamos que a cultura high-tech rechaça os dualismos das tradições ocidentais, como “eu/outro, mente/corpo, cultura/natureza, macho/fêmea, civilizado/primitivo, realidade/aparência, todo/parte [...]” (HARAWAY, 2009, p. 91). Bauman (2001, p. 8), em Modernidade líquida, nos esclarece sobre a fluidez do líquido, ele se move e vai de um lado ao outro a todo momento, ele se transforma no espaço: “[...] os fluidos não se atêm muito a qualquer forma e estão constantemente prontos (e propensos) a mudá-la; assim, para eles, o que conta é o tempo, mais do que o espaço que lhes toca ocupar; espaço que, afinal, preenche apenas ‘por um momento’”. A sociedade se sacia com algo que é instantâneo, portanto, o que é bom para mim hoje, amanhã, talvez, não tenha utilidade. Hoje, vivemos a cultura da efemeridade, do passageiro. Com um piscar de olhos o que era útil se torna obsoleto. Isso se deve à infinidade de coisas que nos são ofertadas constantemente. Logo, entendemos que esse ser dual não existe mais, pois as identidades também são líquidas. Para o teórico,
as identidades parecem fixas e sólidas apenas quando vistas de relance, de fora. A eventual solidez que podem ter quando contempladas de dentro da própria experiência biográfica parece frágil, vulnerável e constantemente dilacerada por forças que expõem sua fluidez e por contracorrentes que ameaçam fazê-la em pedaços e desmanchar qualquer forma que possa ter adquirido (BAUMAN, 2001, p. 98).
Com o consumismo exacerbado em nossa sociedade, as pessoas assumem um sentimento de liberdade e encaram a possibilidade de escolher como vão ser. Sendo assim, se transformam cotidianamente, afastando a possibilidade dos contrastes e de um eu único e verdadeiro – que alguns vão argumentar que nunca existiu, sendo apenas uma ilusão da modernidade (SILVA, 2009; HARAWAY, 2009).
[...] é a capacidade de “ir às compras” no supermercado das identidades, o grau de liberdade genuína ou supostamente genuína de selecionar a própria identidade e de mantê-la enquanto desejado, que se torna o verdadeiro caminho para a realização das fantasias de identidade. Com essa capacidade, somos livres para fazer e desfazer identidades à vontade (BAUMAN, 2001, p. 98).
Então, entendemos que não há separação entre homem e máquina, e, muito menos, distinção entre corpo e máquina, em conformidade com as práticas de codificação. A medida
em que vamos realizando nossas práticas cotidianas, vamos também nos subjetivando e descobrindo-nos cada vez mais híbridos. De acordo com Haraway (2009, p. 96), “nossos corpos são nossos eus; os corpos são mapas de poder e identidade”. A máquina não está em status de dominação, bem como o homem também não está, nós somos apenas responsáveis por elas, além de sermos essa fronteira e também dirigentes delas.
Mediante essas discussões, parece-nos que o sentido da palavra “eu” tornou-se conflitante. Para alguns estudiosos filosóficos, o sujeito seria aquele “sujeito universal, estável, unificado, totalizado, individualizado, interiorizado” (ROSE, 2001, p. 139). Já para outros, baseados na Psicanálise, esse tipo de sujeito seria irreal, uma vez que nunca foi possível considerar o ser humano em circunstâncias coerentes e unificadas. Para outros, a inexistência do sujeito seria verdadeira, pois
surgiu apenas recentemente, em uma zona limitada de tempo-espaço, tendo sido, agora, varrido pela mudança cultural. No lugar do eu, proliferam novas imagens de subjetividade: como socialmente construída; como dialógica; como inscrita na superfície do corpo; como espacializada, descentrada, múltipla, nômade; como o resultado de práticas episódicas de autoexposição, em locais e épocas particulares (ROSE, 2001, p. 139).
Apesar de alguns teóricos da Sociologia considerarem a imagem humana como passado, os indivíduos ainda são controlados e governados, conectando-se às particularidades do “eu”. A questão da identidade também se engendra às práticas realizadas pelos seres, como política, trabalho, família etc. Dessa forma, são persuadidos a construírem uma subjetividade individual na qual ativem suas vontades e seus desejos de realizações que permitam alcançar uma identidade verdadeira, aderindo-a ao seu cotidiano.
Deleuze e Guatari (1966) pensam na subjetividade de modo não tradicional, tratando-a como algo individualizado e durável. Eles querem dizer que, ao longo do tempo, os humanos são múltiplos, efêmeros e mais afastados das subjetividades do que acreditamos. Isso porque consideram as formas não-subjetivas ou “hecceidades” não pertencentes a uma pessoa ou a um sujeito, mas sim a pequenos fatos cotidianos, de um determinado tempo e de algo vivido. De acordo com Rose (2001, p. 142), em contraposição ao “‘plano de consistência’ – que não deve ser pensado como uma estrutura oculta, mas como um plano ‘imanente’, formado apenas da distribuição e da relação entre seus efeitos – está um outro plano de organização, estratificação, territorialização”. Os seres humanos estão em movimento o tempo todo e precisam se desterritorializar para se construírem, reconstruírem e se organizarem de modo a
produzirem efeitos nos sujeitos. Então, a subjetivação seria entendida a partir de um arranjo ou agenciamento que produz efeitos sobre os sujeitos, levando-os a se tornarem seres de suas próprias ações.
Seguindo a linha de pensamento deleuziana com relação à subjetivação, a prática humana estaria em jogo e não o que ele é. Por isso, as dualidades, como homem-máquina, mente-corpo, são dispensáveis. Logo, “investigar” os sujeitos e seus eus é se conectar a pensamentos relacionados às “práticas de subjetivação”. Essas práticas se dariam pela associação do ser consigo mesmo, mediante algumas capacidades, como “compreender a si mesmos; falar a si mesmos; colocar a si mesmos em ação; julgar a si mesmos” (ROSE, 2001, p. 145). Essas capacidades seriam resultado de forças e energias construídas e desconstruídas nas práticas cotidianas por meio dos agenciamentos. Assim, a subjetivação não deve ser entendida como uma capacidade específica de certa criatura, bem como não deveria ser compreendida pela junção de sentimentos e ações internas com o ambiente externo, no qual a cultura exerce efeitos sobre a natureza. A subjetivação seria constituída, então, pela ligação entre o homem e suas relações com os diversos objetos e as diversas práticas. Dessa forma, os efeitos produzidos por essas ligações levariam o sujeito a ser produto de um agenciamento ou combinação.
Nosso corpo é produto de uma história, de uma cultura, de um tempo. E as ações praticadas por meio de nosso corpo são naturais, porém não deixam de ser uma aquisição técnica, como andar, dançar, correr etc. Quando Freire (2011) fala sobre a corporeificação da palavra, entendemos que a palavra tem que ser exemplificada, praticada para fazer sentido na vida dos outros. De nada vale pronunciar algo aos meus alunos, se não coloco em prática, meu ensinamento seria falho. Da mesma forma, pensamos com relação aos corpos, que praticam e vivenciam uma cultura, uma história, a partir do exemplo da corporeificação da palavra. Nesse sentido, o corpo é apenas um corpo com predisposição para ser afetado de formas singulares. Assim, as capacidades de um corpo são múltiplas, sendo impossível saber todas as potencialidades de um “corpo-máquina-pensamento”. Já que somos resultado de uma cultura, de práticas que foram nos constituindo com o passar do tempo por meio das subjetivações, não poderíamos deixar de dialogar com os estudos de Hall (1997) e de Canclini (1997) sobre a cultura.
Stuart Hall (1997) discute a centralidade da cultura e tudo o que se relaciona direta ou indiretamente a ela, a partir da segunda metade do século XX. Além disso, também discute a conexão da cultura com as particularidades da vida em sociedade. O conceito de cultura
também é explorado pelo autor. Ademais, ele analisa um ponto que chama de regulação, que seriam as transformações culturais e suas vertentes bifurcadas com relação às modificações sociais até o novo milênio.
Em meio às suas reflexões, pergunta o motivo de a cultura ser o centro de questionamentos e debates em vários ambientes e contextos. Para responder, diz que a cultura sempre teve significado importante e que as Ciências Humanas já identificavam isso. As Ciências Humanas estão envoltas em um arsenal significativo, como o estudo da arte, da linguagem, da literatura etc. Por outro lado, nas Ciências Sociais, “o que se considera diferenciador da ação social como um comportamento que é distinto daquele que é parte da programação genética, biológica ou instintiva é que ela requer e é relevante para o significado” (HALL, 1997, p. 1). Então, entendemos que os seres humanos carregam uma grande carga de significados a serem explorados. E todas essas significações dão sentidos às nossas práticas cotidianas, tal como nos ajudam a interpretar as diversas subjetivações dos outros sujeitos. Esse conjunto de práticas realizadas, observadas e sentidas constitui a cultura, pois significa algo para nós.
O significado da palavra cultura se expandiu no sentido “empírico, substantivo ou material da palavra” (HALL, 1997, p. 2). Isso parece demonstrar que as práticas realizadas pela sociedade se irradiaram para além do conhecido. Simultaneamente, a cultura tem sido essencial para a organização e a estruturação da sociedade como um todo. Tanto que a evolução tecnológica e a aceleração da informação têm auxiliado na veiculação cultural, da mesma maneira que tem ocorrido com os meios de produção. Sendo assim, podemos dizer que a larga produção de bens variados proporcionou a elaboração de um mercado global de ações, visto que a geografia já não seria um problema devido ao auxílio da tecnologia.
A saber, é por meio das revoluções culturais com a contribuição da evolução tecnológica que os modos de vida foram transformados e é por isso que o sujeito é instigado a constituir e reconstituir suas subjetivações a todo tempo. Essas mudanças culturais globais causam também deslocamentos culturais. Isso porque as mídias permitem que pessoas de diferentes lugares vejam a mesma coisa e reflitam sobre essa mesma coisa. Porém, isso não significa que a cultura local seja deixada de lado, uma vez que cada local tem uma marca, uma característica sua. Entendemos que não há como pensar em uma cultura homogênea, pois a cultura global precisa reconhecer a diferença de cada local para se desenvolver e se recriar para o mercado mundial.
A expressão centralidade da cultura indica a forma como a cultura se perpetua no cotidiano das pessoas. A cultura está presente em todas as ações do dia a dia que praticamos, como os afazeres domésticos, no que consumimos e em tudo o que se torna tendência no mundo. Sendo assim, não seria possível um sujeito entender sua história sem analisar a cultura que herdou. Nesse caso, identificamos que a cultura é algo que vai se constituindo em nós e, à medida que vai se formando, gera outras subjetividades (HALL, 1997).
No final do século XX, a identificação da cultura não era vista com precedentes. Porém, os rebuliços que ela causou no interior do sujeito o fez analisar a centralidade da cultura na constituição da subjetividade, de sua identidade e de sua vida em sociedade. A separação entre as disciplinas Sociologia e Psicologia era convencional, “embora se tivesse sempre admitido que todo modelo sociológico carregava dentro de si certas pressuposições psicológicas acerca da natureza do sujeito individual e da própria formação do eu e vice-versa” (HALL, 1997, p. 6). Contudo, essa divisão vem se enfraquecendo nas discussões sobre cultura. É preciso reconhecer que as subjetividades estão presentes no mundo contemporâneo, exalando significados de nossas ações, ou seja, de nossas práticas cotidianas. Portanto, para entender um pouco mais sobre as misturas de práticas culturais e da proliferação de novas subjetivações, trazemos Canclini (1997) para refletir sobre a hibridização cultural.
O autor trata da hibridização cultural que se intensifica por meio da expansão urbana. Isso explica o cruzamento de ideias e hábitos da vida urbana com a vida rural. Essa conexão se dá por meio de relações comerciais ou até mesmo pela chegada da tecnologia em áreas rurais. Nessa perspectiva, a “cultura urbana” tem como papel principal as tecnologias e não o espaço público, pois tudo que ocorre na cidade é o que a mídia pronuncia e do modo como quer pronunciar. Sendo assim, entendemos que não há um território fixo para a cultura, permitindo sua mistura a desterritorialização, uma vez que os produtos que eram feitos e vendidos no meio rural, hoje também circulam o mercado urbano.
Para finalizar essa parte das subjetividades e práticas culturais, trazemos Green e Bigum (1995). Com base nesses autores, nos perguntamos: como uma geração de professores formada por outras práticas culturais consegue lidar com as novas práticas culturais? Os autores argumentam que os professores veem os alunos como alienígenas e os alunos também os veem assim. Ao longo do texto, é perceptível que eles indicam os adultos como alienígenas, uma vez que os jovens vivem novas subjetividades, bem como novas práticas. Seria necessário, então, que os adultos se ressignificassem para entenderem o mundo dos jovens e estabelecer contato direto com eles.
Na entrevista netnográfica que realizei, questionei os alunos se eles, alguma vez, tiveram atividades que envolvessem a tecnologia digital, não só o uso do computador, do datashow, mas alguma atividade diferenciada que poderiam me descrever. Eles disseram, como consta no print de uma das conversas, que as atividades não estavam necessariamente envolvidas em um projeto, que acontecem algumas vezes e, quando ocorrem, estão relacionadas a pesquisa na internet para se informar sobre algum assunto.
Figura 17: Exemplo de postagem retirado do grupo do WhatsApp do “Terceirão” (11)
Fonte: Print do grupo
Ainda não é comum o uso da tecnologia em sala de aula. Mas, apesar disso, os professores que responderam o questionário disseram que as informações encontradas na internet contribuem plenamente na elaboração de atividades para o enriquecimento de suas aulas presenciais. Além disso, utilizam cotidianamente a internet para criarem suas aulas, como vemos nos gráficos abaixo.
Gráfico 18: As informações encontradas na internet contribuem na elaboração de atividades para o enriquecimento de suas aulas presenciais
Fonte: Elaborado pela autora
Gráfico 19: Você utiliza a internet para formular/criar suas aulas?
Fonte: Elaborado pela autora
Além disso, 66,7% dos professores disseram usar o Laboratório de Informática da escola e confirmam o que a aluna disse sobre a questão das atividades realizadas na internet. Isso porque 50% dos professores responderam que a atividade que mais fazem com os alunos no laboratório é pesquisa na internet. Vamos conferir os gráficos abaixo:
78% 22%