3 Theoretical background
3.2 BEV policies
Como mencionado anteriormente, os museus instituem ações de pesquisa, preservação e comunicação por meio de uma cadeia operatória denominada processo museológico. A musealização é a base operacional sob a qual se arquiteta o movimento de contínua valorização do objeto no cenário museal, tal como as ações de comunicação nos museus. No
que tange o Memorial da Resistência, a musealização incide sobre a memória concretizada pelo testemunho. Uma memória que é reunida, preservada e pesquisada com o objetivo de ampliar o conhecimento sobre os mecanismos de repressão e resistência inerente a um passado de opressão estatal. Memória esta materializada por processos de coleta e preservação, feitos para garantir sua perenidade, como um armazenamento que permite movimentos de representação.
Por sua vez, no âmbito do Memorial da Resistência, o processo de musealização é feito pelo Programa Coleta Regular de Testemunho, linha programática que coleta e registra testemunhos de ex-presos políticos, de familiares de mortos e desaparecidos, assim como de indivíduos que trabalharam ou frequentaram o antigo Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo. Processados individual e coletivamente, os testemunhos dão base para a ampliação do conhecimento sobre o DEOPS/SP e a resistência política, ou sobre temas específicos, tais como o papel de instituições, grupos de resistência, movimentos estudantis, ações de anistia entre outros.
Os testemunhos individuais são coletados em estúdio de filmagem, registro fotográfico e inventário de objetos e documentos dos entrevistados. Uma catalogação completa, capaz de garantir um conjunto de elementos aptos à contextualização do passado de embate político, repressão e resistência, travado durante a ditadura civil-militar, tal como na subsequente transição democrática. Consequentemente, as entrevistas individuais partem das atuações singulares sobre um passado comum. Já as coletas coletivas são gravadas com a participação do público e especialistas sobre os temas elencados. Por sua vez, tais entrevistas buscam por uma construção participativa do conhecimento, possibilitando, simultaneamente, a projeção do Memorial da Resistência como local de reflexão e debate.
O programa conta com três diferentes profissionais, sendo apenas um pesquisador exclusivo, além da assessoria de Maurice Politi. Em linhas gerais, os procedimentos metodológicos contemplam a pesquisa prévia sobre o entrevistado, caderno de campo, fichas técnicas, roteiros e pautas, planilhas de informação e controle, transcrições, criação de biografias, resumos das entrevistas, organização de dados, organização de arquivo físico e digital e backups do material com cópia para o entrevistado. Por conseguinte, em 2016, o programa ganhou um local próprio no primeiro andar da Estação Pinacoteca, especialmente adaptado para as suas gravações. Anteriormente, as entrevistas eram realizadas no auditório, no quinto andar do edifício.
Iniciado em 2008, o programa Coleta Regular de Testemunho catalogou, até 2016, cerca de 127 entrevistas34, que passaram a fornecer subsídios para os diferentes dispositivos interacionais do museu. Inserindo os atores sociais do passado no Memorial, as primeiras atividades de pesquisa foram produzidas para formulação da exposição de longa duração. Para tal, o programa teve início com entrevistas de oito ex-presos políticos, sendo três coletivas e uma individual. Inaugurado no momento de gestação do Memorial, o programa passou por hiatos devido à falta de recurso financeiro e pessoal, o qual foi retomado apenas no quarto trimestre de 2012. Desde então, ele vem aprimorando seu processo de pesquisa ao ampliar seu potencial teórico-metodológico e, consequentemente, sua aplicabilidade no circuito interacional.
Seja por meio do meio comunicacional ímpar dos museus – as exposições – ou a partir das outras linhas programáticas – ação educativa e ação cultural –, o programa tem gerado uma base de dados para processos de produção, difusão e distribuição de materiais com vistas à democratização do conhecimento e à promoção de reflexões temáticas sobre a memória dos períodos ditatoriais e democráticos. Nesse sentido, o conteúdo coletado é disponibilizado para pesquisadores ou para o público em geral, por meio de diversas plataformas. Por sua vez, tanto os testemunhos coletados quanto o acervo arrolado são usados para o desenvolvimento da terceira ação de pesquisa aqui elencado, isto é, o Centro de Referência (BRUNO, 2010).
Consequentemente, os testemunhos tornam-se base para a renovação das exposições de longa e curta duração, além dos recursos educativos, materiais audiovisuais ou, até mesmo, como elementos para o desenvolvimento de novas pesquisas. As informações obtidas são usadas para compreender a lógica de atuação do DEOPS/SP, preenchendo, ao mesmo tempo, as lacunas deixadas pelos documentos oficias. O resultado deste processo de musealização está por todo o Memorial, seja nas exposições, na catalogação dos lugares de memória, no material pedagógico disponibilizado pelo museu ou no banco de dados no site institucional. Nesse viés, o projeto atua em consonância com os outros cinco programas de ação Memorial, respectivamente os Lugares da Memória, Exposições, Ação Educativa e Ação Cultural, enriquecendo o potencial comunicacional da instituição.
Por fim, cabe destacar que, em 2014, o Programa Coleta Regular de Testemunho ganhou um banco de dados online, junto ao site do Memorial da Resistência, no qual é possível consultar o acervo produzido pela instituição. Baseado no trabalho de sistematização das informações, o banco de dados possibilita o acesso remoto ao conteúdo produzido pelo
museu, contribuindo para a fruição do acervo audiovisual do programa ao ampliar o potencial de pesquisa do público. Além das informações básicas sobre as entrevistas, tais como resumo e ficha técnica, é possível acessar pequenos trechos das entrevistas35 e as informações correlatas ao Programa Lugares da Memória. Simultaneamente, o conteúdo produzido para o site também é divulgado via redes sociais, nas quais são feitas publicações dos vídeos.
Figura 9 - Banco de dados do Programa Coleta Regular de Testemunhos e o guia de busca.
Figura 10 - Banco de dados do Programa Coleta Regular de Testemunhos e a ficha do ex-preso político Alípio Freire.