3 Theoretical background
3.1 Technological transitions
Os museus desempenham um relevante papel nas sociedades por conta de sua função primordial – a preservação. Essa atividade está relacionada ao ato de seleção, salvaguarda e manutenção de indicadores culturais que devem ser partilhados no presente, constituindo, também, um legado para o futuro. É a partir da preservação que os museus estabelecem a cadeia operatória sobre a qual se articulam ações de pesquisa e comunicação. A preservação é a base na qual se arquiteta o processo museológico, instituindo procedimentos metodológicos
voltados para a construção de sentidos sobre a relação profunda do homem com a realidade. Dessa forma, a preservação mostra-se fundamental para o estabelecimento da cadeia operatória do museu, sendo a base pela qual se arquiteta as práticas comunicacionais das instituições museológicas.
Ao compor o eixo de trabalho dos museus, o processo museológico é, por sua vez, o movimento resultante da musealização – processo central de preservação e pesquisa dos museus. Para Waldisa Rússio Guarniere (1984), a musealização é a forma de preservação de testemunhos materiais em um cenário institucionalizado. Para Marília Xavier Cury (2005a), a musealização é entendida como uma ação consciente de preservação, sob a qual se institui práticas de aquisição, conservação, pesquisa, documentação e comunicação. Já o professor Ulpiano Bezerra de Meneses entende tal conceito como o processo de transformação do objeto em documento, permitindo que este revele “referências a outros espaços, tempos e significados” (MENESES, 1992, p. 111). Seja como for, todas essas concepções marcam a musealização como um processo capaz de inferir novas perspectivas e olhares aos indicadores salvaguardados.
Instituída como um contínuo movimento de ininterrupta valorização dos objetos dentro do cenário museal (CURY, 2005b), a musealização pressupõe a retirada de um objeto de seu contexto de uso, transformando-o em um suporte de informação representativo ao entendimento da relação do homem com a realidade. É um sistema de preservação que tem como base o processamento informacional, em meio aos procedimentos técnicos e científicos do processo museológico, sob o qual os objetos são relacionados a outras referências, propiciando diferentes possibilidades de representação sobre a realidade. Um jogo polissêmico capaz de criar sentidos a partir de um conjunto interpretações, as quais perpassam não só por opções metodológicas, mas, também, por discussões ideológicas. Em suma, é a ressignificação da materialidade dentro de contexto apto à criação de mecanismos de interlocução do homem com o mundo ao seu redor. Segundo Guarnieri:
É através da musealização de objetos, cenários e paisagens, que constituam sinais, imagens e símbolos, que o Museu permite ao Homem a leitura do mundo. A grande tarefa do museu contemporâneo é, pois, a de permitir essa clara leitura de modo a aguçar e possibilitar a emergência (onde ela não existir) de uma consciência crítica de tal sorte que a informação passada pelo museu facilite a ação transformadora do mundo. [...] a informação pressupõe conhecimento (emoção/razão), registro (sensação/imagem/ideia) e memória (sistematização de ideias e de imagens e de estabelecimento de ligações). É a partir dessa memória musealizada e recuperada que se encontra o registro e, daí, o conhecimento suscetível de informar a ação. [...] E a relação com o seu meio, seja em termos de mera apreensão da realidade, seja de ação sobre essa mesma realidade, implica realização humana em termos de consciência, de consciência crítica e histórica, de consciência possível (GUARNIERI, 1990, p.8)
Os museus são entidades produtoras de sentidos, as quais evidenciam concepções de mundo por meio de leituras específicas sobre a realidade, como lugares de representação do conhecimento, que produzem condições de significação a partir do grau de representatividade de um indicador sociocultural. O museu permite que a materialidade seja transformada em documento, fazendo com que esta ganhe uma dimensão simbólica, diferente de seu valor inicial, inserindo-a em um todo significante, com uma função ilustrativa, específica e concreta (ROQUE, 1990). Isto é, a musealização é o processo pelo qual os museus ampliam suas possibilidades comunicacionais, construindo abordagens semióticas, que envolvem movimentos de significação relacionados a um comum partilhado.
Desse modo, os museus são espaços comunicacionais os quais permitem a inteligibilidade da experiência social ao agenciar fatos museais em um movimento ativo de representação. De acordo com Marilia Xavier Cury (2005a), um fato museal é, em essência, um fato comunicativo, já que parte do entendimento da comunicação como interação, ou seja, como um processo no qual sujeitos se encontram, dialogam e negociam. É fundamentalmente dialógico, pois seu significado está na sociedade, não só na produção, mas, essencialmente, nas trocas simbólicas. Nesse sentido, a autora assume que a comunicação nos museus está relacionada à interação e à construção de sentidos por sujeitos imersos em um universo de ressignificações.
Tal como outros elementos do tecido midiático, os museus constroem sentidos, operando um conjunto de referências compartilhadas que se encontram presentes no universo cultural da sociedade. Enquanto instituições de pesquisa do patrimônio cultural preservado, os museus partem do conhecimento existente sobre seu acervo para formular modelos de representação os quais possibilitem uma interpretação com base na coerência associativa entre informação e memória. Compondo textos, os museus estabelecem uma direção significante, dentro de uma experiência museal, produzindo a recuperação de fragmentos da memória ao articular componentes diversos em seu processo de significação. São instituições narrativas produtoras de significados por meio de “elementos específicos cuja inserção na economia textual deve-se, porém, ao diálogo com outros textos, à situação de comunicação e ao conjunto das relações histórico-sociais que a localizam num contexto” (LEAL, 2006, p.22).
Nesse viés, os museus são instituições midiáticas que estabelecem práticas ordenadoras de sentido, elaboradas discursivamente em contextos específicos os quais relacionam sujeitos em comunicação, constituindo “um lugar de experiências – vividas, narradas, interpretadas e reconfiguradas” (ALZAMORA; SALGADO, 2015, p. 183). Ao
possibilitar circuitos interpretativos para o seu público, os museus comunicam por meio de uma teia de relações, que coloca “sujeitos em experiência, afetando e sendo afetados tanto pela co-presença como pela mediação simbólica que os institui em polos de uma interação” (FRANÇA, 2006, p. 16). São nos museus que se experimentam, aprofundam e exprimem as relações entre o indivíduo e a realidade, sendo um meio pelo qual as evidências materiais e imateriais, abertas às diversas interpretações, se juntam às referências simbólicas como uma forma de construir significados sobre o mundo ao redor.
Construindo modelos dialógicos de comunicação, os museus produzem significância por meio de uma experiência iterativa, com base na interação entre os contextos físico, sociocultural e pessoal do visitante (FALK; DIERKING, 1992). Como um lugar de produção de sentido, no qual há processos de representação e interpretação, os museus constituem experiências por meio de suas práticas comunicacionais, transformando-se “em difusores de narrativas das coisas do homem e do mundo, propiciando a significação/ressignificação consigo, com o outro e com a realidade que o cerca” (FARIA, 2010, p. 345). Isto é, a comunicação nos museus é construída na interação do indivíduo com o museu, em meio a uma perspectiva que produz significações e dá sentido ao mundo, produzindo narrativas que organizam a experiência vivida dentro da experiência museal.
Por sua vez, é necessário ressaltar que a comunicação nos museus é fruto do processo museológico e, por tal motivo, encontra-se centrada em uma rede multifacetada de mediação, na qual se constroem sentidos e formas de atravessamento da experiência ao possibilitar ao público a ampliação de conexões com o mundo ao redor. Provocando novas experiências, sejam elas emotivas, cognitivas, sociais e educacionais (BOTALLO, 1995), os museus articulam objetos, acontecimentos, qualidades, relatos e histórias em diferentes estratégias de produção de sentido, como em exposições, programas educativos, ações culturais, entre outros. Sendo o meio particular de comunicação dos museus, as exposições criam narrativas sensoriais por intermédio de construções mise-en-scène, correlacionando signos e símbolos dentro de uma mensagem possuidora de sentido e coerência. É por meio das exposições que ideias presentes no discurso institucional são representadas, sendo, assim, o principal (mas não único) meio comunicacional dos museus.