4. Metode
4.4 Validitet og reliabilitet
Para uma compreensão satisfatória da obra de Tucholsky em sua amplitude, a leitura de textos literários de Peter Panter, escritos com algo semelhante à “pena da galhofa”, torna-se tarefa ironicamente importante e reflexiva. Seus textos voltam-se, em grande parte, para a observação humorística de acontecimentos sociais e de aspectos da vida cotidiana em Berlim, como se observa, por exemplo, no conto “Der Mann mit den Spritzen” (O homem com as seringas), publicado em 1919 no jornal Berliner Tageblatt, no conto de fadas satírico intitulado “Die verzauberte Prinzessin” (A princesa enfeitiçada), publicado na obra Träumereien an preußischen Kaminen (Divagações à beira das chaminés prussianas, de 1920) ou no texto “Biographie für viele” (Biografia para muita gente), escrito em 1920 no Berliner Tageblatt.
Panter é o heterônimo que mais se destaca na elaboração de textos literários em prosa e também nos textos de crítica literária. Nos textos de crítica literária de Panter, prevalecem as discussões baseadas nos elementos estéticos das obras, enquanto que, nos textos de Wrobel, predomina o caráter ideológico da linguagem literária e sua função crítico-social. No que concerne à literatura, analisamos brevemente seu texto “O homem com as seringas” com o objetivo de evidenciar a elaboração do texto satírico.
Podemos analisar este texto neste viés tanto pelo seu conteúdo de ataque – nesse caso, à população de Berlim – quanto pela presença da indireta – a realização das exigências do autor em um ambiente distante da realidade e caracterizado por invenções fantásticas. Em um texto literário, a forma indireta é proporcionada por meio de recursos estilísticos que buscam a construção de um outro universo, no qual ocorre a transformação das personagens, alvo de críticas – ataques – em seres distantes da “verdadeira” realidade.
Através de diferentes elementos estéticos torna-se possível a criação de heterônimos. Em sua tese de doutorado sobre a poesia satírica de Olavo Bilac, Álvaro Santos Simões Jr. (2001) argumenta que o heterônimo identifica a autoria da escrita literária, e não a oculta. A asserção também é válida para os heterônimos utilizados por Tucholsky: Peter Panter elabora muitos textos literários a partir de elementos cômicos que buscam a ridicularização e posterior ataque crítico – muitas vezes o alvo do próprio rebaixamento é o próprio Panter, como ocorre neste texto de 1919. Uma vez que há a quebra de padrões éticos de si mesmo, não há nada mais que o personagem possa, em nome de uma norma, respeitar.
Em “O homem com as injeções”, a figura do personagem Panter diante das revelações de seu amigo, o professor Klosinski, é caracterizada como interesseira, curiosa e mesquinha. Ao chegar à casa do professor, cientista com características behavioristas, Panter conhece sua nova invenção, a qual corrobora a construção de um mundo fantástico: a invenção do professor Klosinski consiste em uma injeção com a qual quase todos os objetivos são alcançados. Entretanto, ela não deve ser digna de confiança, e funciona apenas como forma de criar um mundo maravilhoso no qual a vítima da injeção, tornada agora ébria, encontra a realização de seus desejos e vontades, mesmo que estas sejam as mais ocultas.
Panter desenvolve um nível de realidade (o mundo proporcionado pelo efeito das injeções) suficiente para que o fantástico – e, neste caso, ideal – seja palco da realização satírica. Em vários momentos do conto, Panter expõe a mediocridade do povo europeu e a crença em sua cultura, única e a mais respeitável em comparação com outras, como a chinesa. Ao continuar o percurso que conduz Panter às câmaras onde os vários tipos de seringas são produzidos e testados em diferentes “vítimas” – dentre elas Panter –, o professor revela-lhe que os vários tipos existentes de seringas – seringas com conteúdos musicais, líricos e, principalmente, políticos – constituem um ambiente real, representado pela cidade de Berlim. É na capital alemã que se encontra a melhor
clientela para as criações do professor, pois são seus habitantes os que mais precisam da invenção, criada para economizar tempo em viagens e alcançar metas sem esforço. Musicais e discussões acerca do cenário político caracterizado por quatro anos de guerra, dentre outros fatores, constituem o ambiente contemporâneo. O ataque dirige-se à população da capital e à ineficácia no campo político de suas discussões, marcadas por repressões estatais – um fato concreto explorado por Panter em seu texto como principal razão para o uso das injeções.
Percebemos a existência da situação satírica, a qual consiste na concordância entre autor e público em relação à norma defendida (FANTINATI 1994: 205-10). O narrador Panter, típico berlinense e dotado de um humor terrivelmente sutil (sutilmente terrível?), descreve o cidadão daquela cidade com bastante sarcasmo; apesar de citar a capital, todo o ambiente em que são reveladas as funções de cada seringa é fictício, o que transfere seus habitantes para essa outra realidade e torna possível a aceitação das seringas por parte dos moradores da região, ainda que longe de Berlim. Isso proporciona maior liberdade para defender posturas ou ideais, visto que a sátira se caracteriza “por ser uma maneira peculiar de contemplar o mundo e seus problemas com uma mescla de riso e indignação, manifestando predileção por determinados temas como, por exemplo, a hipocrisia, o egoísmo, a desonestidade”, além de ter a função estética de produzir prazer no espectador através de recursos estilísticos (SIMÕES JR. 2001: 29-30).
O elemento estético exerce grande importância em textos satíricos, como já assinalado. No texto de Wrobel, ocorre distanciamento através da construção do discurso de um “defunto-autor”; esse distanciamento chega ao extremo com seu suposto afastamento da realidade ao narrar em terceira pessoa seu próprio sepultamento. Assim, vê-se livre do “mundo real” para poder atacar e defender seus ideais. O mesmo distanciamento ocorre na de construção no conto de Panter, visto que a invenção de seringas com soluções para diversos problemas e com diversões acontece em um mundo imaginário – o contato com o real é feito através da referência à cidade de Berlim. Uma asserção apresentada por Wrobel em seu texto de crítica literária “Politische Satire” (A sátira política) também é válida neste ponto: “A piada política é uma entidade que não respeita nada” – apenas seus ideais, ou suas normas.
Como discutimos a estrutura do texto satírico, constante na obra de Tucholsky e seus heterônimos, através de exemplos de Wrobel e Panter, não comentamos o conto “A princesa enfeitiçada”, visto que isso acarretaria repetição de alguns pressupostos teóricos. Finalizamos, assim, o panorama sobre Panter com seu texto “Biographie für
viele” traduzido como “Biografia para muita gente” por José Manuel Mota na obra
Tucholsky entre hoje e amanhã (1978). Utilizamos esta versão lusitana como referência
e, no desenvolvimento desta dissertação, outros textos traduzidos presentes na obra também são fontes de referência e consulta.
As reflexões desenvolvidas ao longo dessas memórias se tornam, aos poucos, “impessoais”, pois contêm um crescendo de pessimismo e se iniciam com frustrações diante de vários fatos que modelam um comportamento espacial e cronologicamente demarcado. Neste texto, Panter não lança mão da ironia, como no exemplo anterior; o autor aborda o desenvolvimento da personagem em termos marcados tanto por frustrações quanto pela ineficácia ao impor seus desejos a determinada realidade social, que se pode tornar a realidade comum de todos os seres vivos.
A linha divisória entre o antes e o depois do conhecimento do “mundo real” por parte do personagem torna-se também temporal e socialmente base para outras questões e respostas que caracterizam o personagem psicologicamente desmotivado, como se fosse um novo homem diante de uma realidade desconhecida (em 1920, ainda se discute fortemente em vários círculos intelectuais a realidade pós-guerra, origem dos traumas do século XX), e bem-sucedido na área social. O texto de Panter, que finaliza a situação vivida pelo personagem de identidade incógnita, é elaborado na forma de um monólogo interior, fluxo de consciência que necessita ser exposto como forma de alerta social: ao se afirmar que o personagem não é um tipo qualquer, mas sim o representante de toda uma sociedade, conclui-se a observação da vida de todos os cidadãos e o possível fracasso na realização pessoal e social. Assim, Panter, autor irônico, satírico e humorístico por excelência, também dedica sua escrita à observação de aspectos da vida humana, narrados com linguagem empenhada “em decompor todas as impressões ilusionárias sobre o indivíduo humano” (BOESCH 1967: 440).
Visto que pretendemos introduzir apenas algumas características dos textos literários e políticos dos heterônimos de Kurt Tucholsky, citamos exemplos textuais que revelam as facetas lingüísticas dos referidos personagens até o momento (Wrobel e Panter). Uma leitura mais detalhada dos textos de Panter durante toda a República de Weimar seria uma tarefa bastante satisfatória, visto revelar a configuração analítica de Panter em relação aos caminhos percorridos pelo discurso literário e aproximar a atualidade e historicidade de suas análises sociais também como forma de reflexão de vários problemas sociais. Voltaremos a tratar de Peter Panter com maiores detalhes ao analisar seus textos de crítica literária no primeiro capítulo.