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5. Funn

5.7 Risiko og usikkerhet

Theobald Tiger é o poeta dentre os cinco heterônimos de Kurt Tucholsky. Embora, inicialmente, Kasper Hauser também se dedique à poesia, não se pode dizer de outra forma: Tiger elabora sempre poemas – românticos, irônicos, dedicatórias e também chansons – e nunca se arrisca no campo da prosa. No poema “Ein Deutschland” (Uma Alemanha), escrito em 1919 e veiculado no suplemento satírico “Ulk”, do periódico Berliner Tageblatt, Tiger presencia o início dos acordos para a concretização do Tratado de Versalhes, com suas cláusulas negativas como a perda de territórios e o pagamento pelos danos da guerra aos países vencedores. O poema reflete a atitude crítica e pessimista diante das bases políticas da nova república e constitui um exemplo da representação do momento nos versos do poeta e revela sua forma de pensamento.

Publicado no suplemento satírico “Ulk”, o poema retrata o novo ano sob um olhar irônico do poeta para a nova república, fundada com reminiscências do período imperial (em sua estrutura partidária, órgãos militares e conservadores colocam-se contra o sistema). Após um curto intervalo de sua fundação (novembro do ano anterior), Tiger critica camadas sociais que, em sua opinião, deturpam os valores: os burgueses e sua busca pelo poder que lhes foi negado durante o império do Kaiser Wilhelm II, fato que se torna mais claro em virtude do apelo ao passado glorioso do país. Nos versos de Tiger, explana-se a situação na qual várias camadas sociais – sejam elas os trabalhadores, os espartaquistas, partido de oposição apoiados por Karl Liebknecht, os militares ou os burgueses – estariam todas reunidas num só momento.

Tiger escreve um poema que beira o cômico através de um discurso irônico. Assim, o poeta utiliza a literatura eximiamente para denunciar o ambiente caótico de Berlim, microcosmo da situação alemã que, de acordo com as palavras de Tucholsky, “parecia uma sala de espera de quarta classe, repleta de infortúnios” (apud FRIEDERICH 1997: 46). À negação a sua sociedade, Tiger acrescenta a necessidade da união com base num objetivo comum: a exigência, em conformidade com os ideais

28 Referência à chanson “Augen in der Großstadt” (Olhos na metrópole), de Tiger, escrita em 1930. Neste poema, Tiger aborda as várias alterações pelas quais passa Berlim no final da década de 1920.

pregados por Liebknecht, de direitos iguais e o fim da exploração por camadas privilegiadas e incônscias da situação de desconforto da população.

Essa postura crítica é veiculada igualmente por outros poemas de Theobald Tiger. Nesses poemas Tiger enfoca a posição social dos militares ou os efeitos da guerra no momento, como atesta o poema de 1919 intitulado “Krieg dem Kriege” (Guerra à guerra), veiculado igualmente no “Ulk”. Enquanto encontramos em “Uma Alemanha” críticas à sociedade explorada pelas camadas superiores, neste outro poema observamos a presença de uma voz que declara guerra à essência própria da guerra por meio de versos cuja leitura pode possivilitar, como afirma Panter numa crítica a propósito de A

colônia penal, de Franz Kafka, “gosto deterioridado de sangue descer pela minha

garganta” (TUCHOLSKY 1993a: 345).

Vejamos alguns versos de “Guerra à guerra”.

Eles ficaram quatro anos na trincheira. Que grande época!

(...)

Eles viam os camaradas morrer em combate. Isto era o destino de quase todos:

Feridas de guerra, sofrimento bestial e morte. (TUCHOLSKY 1993a: 112-13).29

No que se refere à importância literária e ao sentido social do poema, podemos encontrar as conseqüências daqueles anos iniciais do combate já narrados também por Wrobel e seu apelo para uma reflexão sobre o passado como forma de compreender melhor o presente e, dessa forma, alterá-lo e evitar uma nova “grande época”. Devido ao trabalho tanto no aspecto estilístico quanto no temático, podemos afirmar que “Guerra à guerra” é um dos poemas mais importantes de Theobald Tiger na fase inicial da República de Weimar, visto que o poeta busca despertar um olhar crítico para o passado e analisar o verdadeiro sentido dos quatro anos de guerra, sem precedentes na recente história. Em uma procura constante por momentos de paz num amplo contexto social, encontramos o poeta descrevendo-os num ambiente pessoal no poema “Parc Monceau” (Parque Monceau), de 1924, em Paris, ou em “Das Lächeln der Mona Lisa” (O sorriso da Mona Lisa) de 1928, ambos publicados no Die Weltbühne. A diferença da postura crítica defendida pelo poeta nos poemas de 1919 e o de 1928, grosso modo, consiste no pessimismo que caracteriza os anos de 1927 a 1932. Enquanto defende uma

29 “Sie lagen vier Jahre im Schützengraben / Zeit, große Zeit! (...) Sie sahen die Kameraden fallen / Das war das Schicksal bei fast allen:/ Verwundung, Qual wie ein Tier, und Tod”.

nova pátria em 1919, Tiger passa a não ter mais esperanças de realização daqueles ideais propostos em “Guerra à guerra”, e simplesmente afirma, no cenário de crescente censura e do fortalecimento da direita nacional-socialista em 1928, que “Quem já viu muito nesse mundo / ri, põe a mão sobre a barriga e cala-se” (TUCHOLKSY 1993e: 321).30

Como se vivesse em constante tensão devido à procura pela afirmação de um presente desejado e a negação de um passado vivido, os versos de Tiger convergem, em 1932, para o poema “Heute zwischen gestern und morgen” (Hoje entre ontem e amanhã), cujos versos, segundo as palavras de Irmgard Ackermann, expressam “a consciência de viver numa época de transição, entre o ‘já não’ do passado e o ‘ainda não’ do futuro” (TUCHOLSKY 1978: 23).

Neste poema, as repetidas negações à existência de uma humanidade em processo de libertação e sua vivência numa época de transição – início da década de 1930 – mostram um pessimismo quanto à nova década. Inexistem as condições de vida defendidas pelo poeta durante os anos anteriores – melhores qualidades de trabalho ao proletariado e respostas às várias perguntas existentes – e a transição para uma nova etapa – a saber, iniciada em 1933 com o governo de Hitler – conclui seu percurso. Durante a década de 1920, os textos de Tucholsky e heterônimos discutem as características de um governo totalitário, como o texto político de Wrobel “Was wäre, wenn...?” (O que seria, se...?), e apontam para uma espécie de profecia dos acontecimentos históricos ao descrever o aviso diante das mortes políticas e do golpe de Estado comandado por Hitler em 1923. Observamos, em 1933, a ascensão do partido nazista ao poder e as bastante conhecidas conseqüências do ator: o pessimismo desse poema de maio de 1932, dessa forma, está em consonância com seu momento ao assinalar definitivamente a “mudança” dos tempos.