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6. Diskusjon

6.2 Prinsipper for å redusere risiko

6.2.1 Start med behov

Chegamos, por fim, às discussões quanto aos principais aspectos dos textos de Kasper Hauser, última criação da “feliz esquizofrenia” tucholskyana,31 lançado ao

30 “Wer viel von dieser Welt gesehn hat / der lächelt, legt die Hände auf den Bauch und schweigt”. 31 No texto “Wir alle fünf” (Nós cinco), publicado em 1922 no Die Weltbühne, Kurt Tucholsky explica a formação dos diferentes heterônimos, os quais têm origem no mesmo criador e compartilham dos mesmos sentimentos: “Nós cinco nos originamos todos de um mesmo pai, e nossa essência familiar também é fiel na nossa escrita. Nós somos unidos no amor e no ódio – nós marchamos separados, mas batemos todos no

estranho mundo novo do imediato pós-guerra como poeta e, posteriormente, como autor de textos em prosa cujo conteúdo é elaborado com observações sutis e profundas. Apesar de sua inicial veia poética, diferencia-se de Tiger quanto à maneira de apresentar os fatos: enquanto Tiger também dedica-se a poemas românticos e chansons, Hauser dedica-se à poesia irônica e agressiva. Portanto, a forma por que Hauser observa e critica os acontecimentos pode ser comparada antes à utilizada por Panter, e a de Tiger à de Wrobel.

Entretanto, antes de tecermos considerações sobre a escrita de Hauser, apresentamos uma pequena síntese da figura histórica denominada Kaspar Hauser. Esta nos remete ao século XIX, nas proximidades de Regensburg, região sul da Alemanha. Nessa região, aproximadamente em 1813, um homem que nunca havia tido contato com outras pessoas devido a sua reclusão em uma prisão isolada é encontrado abandonado no meio de uma praça. Com o domínio de apenas algumas palavras, Kasper Hauser não compreende inicialmente os fatos ao seu redor e torna-se vítima de curiosidade dos habitantes do lugarejo e da especulação científica. Com o passar dos anos, Kasper Hauser aprende a se comunicar e, conseqüentemente, a questionar desde simples fatos até dogmas religiosos. Sua forma diferente de compreensão e reflexão começa a alterar a ordem da pequena cidade, e sua eliminação torna-se questão de tempo: Kasper Hauser é misteriosamente assassinado. Tucholsky, claramente, mostra conhecer a intrigante figura histórica ao nomear seu heterônimo, cujas reflexões sobre os fatos são elaboradas de forma simples, mas questionam, ao mesmo tempo, valores estabelecidos.

Dentre a ampla gama de textos em prosa de Hauser, destaca-se a série de textos cujo protagonista é o Sr. Wendriner, uma caricatura do burguês sem opinião formada e que se encontra freqüentemente em situações cotidianas permeadas por acontecimentos políticos. É nesses textos que observamos o cuidadoso trabalho lingüístico com o qual Hauser procura retratar com humor esse cotidiano que compreende as mais simples e, ao mesmo tempo, as mais complicadas tarefas. Nos textos sobre o Sr. Wendriner, publicados e veiculados no Die Weltbühne de 1922 a 1930, há a abordagem de temas políticos, sociais e econômicos, expostos ao leitor através de uma linguagem que

mesmo alvo” (TUCHOLSKY 1993b: 267). Podemos encontrar essa mesma linha de raciocínio sobre a coerência ideológica entre todos no texto “Start” (Partida), texto assinado por Tucholsky e veiculado em 1927 no Die Weltbühne. Neste texto, lê-se que “esses heterônimos emergiram da escuridão, imaginados por brincadeira, inventados por brincadeira [...]. Os heterônimos são como pequenos homens; é perigoso inventar nomes, fazer-se passar por outras pessoas e vestir nomes – um nome vive. E o que começou como brincadeira acabou com feliz esquizofrenia” (TUCHOLSKY 1993c: 434). Notamos a constante afirmação das reflexões criadas pelos cinco heterônimos do grupo.

representa a fala cotidiana, muitas vezes por meio de um diálogo entre Wendriner e amigos e/ou entre sua família. Dentre essa série de textos, o primeiro deles, intitulado “Herr Wendriner telefoniert” (O Sr. Wendriner telefona), de 1922, assinala a origem do personagem burguês e sua visão das situações ao seu redor.

Esse texto de Hauser refere-se a um importante fato ocorrido em 1922: o assassinato do ministro Walther Rathenau, no mesmo ano, mencionado por Wendriner em uma conversa com a telefonista. Porém a conversa é intercalada por momentos de reflexão em voz alta, nos quais Wendriner não se conforma com o bloqueio momentâneo de seu telefonema devido à paralisação da empresa telefônica em função da morte de Rathenau. Todas as pausas entre um provável atendimento da telefonista e o desejo de transferência de Wendriner para um departamento estadual são preenchidas por essas reflexões, o que permite a Hauser criticar o acontecimento com maior rigor do que se o fizesse com sua própria identidade, como faz Wrobel em seus textos políticos.

Dessa forma, o telefonema de Wendriner é uma abordagem reflexiva e escrita numa linguagem cotidiana, humorística e, principalmente, irônica, característica presente também quando Hauser aborda o anti-semitismo, crescente na república, e o caos social dos anos iniciais e finais da década de 1920, referente, em grande escala, à esfera econômica.

No texto intitulado “Herr Wendriner steht unter der Diktatur” (O Sr. Wendriner sob a ditadura), escrito no turbulento ano de 1930, data a partir da qual as eleições marcam uma nova configuração política com o fortalecimento do partido nazista, a linguagem busca igualmente refletir as variações que ocorrem na língua falada (como a supressão da terminação verbal, constante em alemão) sem, entretanto, abandonar o caráter literário devido ao uso do humor. O diálogo de Wendriner com outras pessoas é permeado por repreensões ao filho, as quais se tornam um símbolo da repreensão maior, possível de ser aribuída, nesse texto, às tropas militares do partido nazista, fortalecidas durante o período das eleições. Através do uso de personagens fictícias, Hauser tem maior liberdade para criticar, já o mundo “inventado” em que vive Wendriner não pode ser censurado, mesmo que a crítica às manifestações do partido nazista ganhe vida nas atitudes cômicas de Wendriner.

Em seus textos sobre o Sr. Wendriner, Hauser capta instantes de diálogos como se recortasse momentos da vivência cotidiana de um cidadão comum, como se flashes fotográficos retirassem pensamentos e momentos de reflexões sobre a situação social. Dentro desse prisma de recortes, a linguagem também flui de uma instância para outra,

segue os trejeitos de um narrador cuja temática pode se alterar com a simples referência implícita a personagens de uma cena. O leitor de tudo sabe a partir da perspectiva e das várias histórias contadas por Wendriner dentro de uma só. Estas histórias mantêm diálogos que chegam a tocar a realidade do leitor devido ao ritmo alternado da prosa que imita a velocidade de uma conversa.

Após as reflexões panorâmicas sobre textos essenciais numa leitura que vise à compreensão básica dos heterônimos (visto que Tucholsky escreveu aproximadamente 2500 textos), podemos observar que Kurt Tucholsky, assim como o contemporâneo em terras lusitanas Fernando Pessoa, cria personalidades distintas para cada um de seus heterônimos. Isso se dá, inicialmente, devido à função de jornalista – anterior à primeira guerra, mas ampliada na década de 1920 – e, posteriormente, às diferentes possibilidades de veiculação crítica – não excluindo ambas em seu conjunto, o que resulta numa “feliz esquizofrenia”, como referimos anteriormente. Vemos, por essa perspectiva, a amplitude de escritas alcançadas pelo autor nos diversos jornais em que escreveu – no Die Weltbühne, no suplemento satírico “Ulk”, no Berliner Tageblatt e em outros periódicos e, principalmente, a amplitude de seu alcance literário e social, fato que propicia ao escritor repercussões positivas e negativas no período, o que culmina com a queima de seus livros e a imediata perda da cidadania alemã, ocorrida após a ascensão do governo nazista ao poder em 1933.