CRÍTICA (1) ARTES PLÁSTICAS
Masp frustra público com sala inadequada para obra central67
FABIO CYPRIANO DE SÃO PAULO
"Deuses e Madonas - A Arte do Sagrado", em cartaz no Museu de Arte de São Paulo (Masp), segue a linha das últimas exposições do acervo da instituição em torno de temas bastante gerais, como o romantismo ou retratos, ambas também em exibição.
Essa sequência instituída por Teixeira Coelho abandona a tradicional mostra cronológica do acervo por questões mais livres, como já vem sendo feito em instituições como a Tate, em Londres, e o Pompidou, em Paris (3).
Na exposição "Deuses e Madonas", a temática gira em torno do sagrado, tendo, desta vez, uma obra central que se desdobra num trabalho contemporâneo (4).
Trata-se de "O Julgamento de Paris" (1710-1720), do italiano Michele Rocca (1666- 1752), que ganha uma leitura do videoartista Eder Santos (5).
O resultado é um tanto frustrante, pois o trabalho, numa sala sem condições necessárias, como escurecimento total e projetores sem grande força, faz o trabalho do videoartista, tentativa de tornar a obra de Rocca tridimensional, ficar muito aquém de outras experiências com tecnologia (6).
No entanto, ao insistir em organizar as pequenas mostras temáticas com suas paredes tradicionais, a curadoria continua privando o público do museu em vivenciar a disposição concebida para o espaço por Lina Bo Bardi (1914-1992), com as obras todas apenas suspensas nos cavaletes de vidro.
Já nessa disposição, aliás, encontrava-se a ideia de que a arte não precisa ser exibida com fronteiras, estando toda disposta numa só sala agigantada. Enquanto a curadoria do Masp não retomar essa montagem vai continuar em dívida com a arquiteta do museu e com quem nunca viu sua montagem original.
QUANDO de ter. a dom., das 11h às 18h; qui., das 11h às 20h; até 16/1/ 2011 ONDE Masp (av. Paulista, 1.578, tel. 3251-5644)
QUANTO R$ 15
CLASSIFICAÇÃO não informada AVALIAÇÃO (2) regular
Em mais uma crítica, devidamente identificada no chapéu (1) e pela nota avaliativa (2), publicada em 2 de dezembro de 2010 a propósito da mostra instalada no MASP, Fábio Cypriano se detém no evento em si. O texto, como os anteriores, não oferece dificuldade interpretativa para leitores leigos. O vocabulário é acessível, os períodos são bem construídos. Já no segundo parágrafo o crítico insere a exposição do MASP na tendência internacional verificada em instituições congêneres do exterior. Procura, com uma única frase, explicar o conceito da exposição (4). A esta, acrescenta outra frase (5) na qual destaca a obra principal. Isso é tudo – tudo que, do ponto de vista do crítico, o leitor precisa saber sobre as obras em exposição.
67 CYPRIANO, Fábio. Masp frustra público com sala inadequada para obra central. Folha de S. Paulo.
76 Não há indicações sobre as obras expostas – exceto a menção à obra principal. Se a arte é um modo de ver, como afirma a professora e crítica de arte Maria José JUSTINO68 (In: GONÇALVES e FABRIS, 2005:16), o que, afinal, o crítico viu na exposição?
É compreensível que, por tratar-se de obras consagradas, pertencentes ao acervo do museu – portanto, aprovadas no crivo de qualidade artística que pauta a incorporação de obras pelo MASP –, o crítico se absteve de esquadrinhar as obras buscando a validade das mesmas. Contudo, por que preferiu problematizar a mostra e a infraestrutura disponível, ao invés do objeto da mostra – as obras de arte? Optasse pelo segundo caminho, certamente teria prestado um relevante serviço ao público leitor e potencialmente visitante da exposição: um olhar peculiar sobre as obras, ou pelo menos sobre algumas obras. Como lembra JUSTINO (In: GONÇALVES e FABRIS, 2005:31 e 32)
A Estética, a História da Arte e a Crítica continuam refletindo e interpretando as obras, tanto com relação à técnica, à comparação com outras obras, às condições da obra, quanto com relação à cultura, condições de seu tempo, autoria, relação com a política e o seu sentido social.
(...)
O crítico ainda exerce papel de educador e informante, e ainda é uma espécie de bússola. Reclama-se ao crítico as qualidades de sempre: confiar em sua sensibilidade e trabalhar com conceitos, a mediação entre a objetividade e a paixão, ter em mente que não existe uma leitura absoluta da arte, reconhecendo que as linguagens da arte correspondem às culturas de onde emergem, e que as grandes obras contêm zonas de indeterminações (nem por isso autorizando o crítico a erigir fantasias ou improvisos). A crítica de arte precisa de rigor e flexibilidade. [Destaque acrescentado]
Entretanto, a exemplo das críticas anteriores em que o autor se manifesta preferencialmente sobre o trabalho curatorial, ao invés de se concentrar nas obras, no texto em análise ele foca nas condições de exibição das obras (6). É o caso de se perguntar: O que é mais importante: a pintura de Michele Rocca ou a leitura feita pelo videoartista Eder Santos? À leitura particular não se pode dar importância superior que à obra, que permite múltiplas leituras – o que não exclui a necessidade de que o ambiente ofereça as condições exigidas pela obra.
O que o leitor perde com a postura evasiva do crítico diante de obras consagradas? John DEWEY69 (2010:59) é enfático:
... a própria perfeição de alguns desses produtos [artísticos], o prestígio que eles possuem, por uma longa história de admiração inquestionável, cria convenções que
68 JUSTINO, Maria José. Criticar é... entrar na crise. IN: GONÇALVES, Lisbeth Rebollo; FABRIS,
Annateresa. Os lugares da crítica de arte. São Paulo, ABCA e Imprensa Oficial do Estado, 2005.
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atrapalham as novas visões. Quando um produto artístico atinge o status de clássico, de algum modo, ele se isola das condições humanas em que foi criado e das consequências humanas que gera na experiência real de vida.
Quando os objetos artísticos são separados das condições de origem e funcionamento na experiência, constrói-se em torno deles um muro que quase opacifica sua significação geral, com a qual lida a teoria estética.
(...) Assim, impõe-se uma tarefa primordial a quem toma a iniciativa de escrever sobre a filosofia das belas-artes. Essa tarefa é restabelecer a continuidade entre, de um lado, as formas refinadas e intensificadas de experiência, que são as obras de arte e, de outro, os eventos, atos e sofrimentos do cotidiano universalmente reconhecidos como constitutivos da experiência. [Destaque acrescentado]
Pergunta-se: em que sentido a crítica de Fábio Cypriano contribui para “restabelecer as formas refinadas e intensificadas de experiência”, próprias das obras de arte, e os “eventos, atos e sofrimentos do cotidiano universalmente reconhecidos como constitutivos da experiência”?, conforme proposto por DEWEY? Em outras palavras, que contribuição a crítica de Cypriano oferece para a contextualização da obra de Michele Rocca (e das demais participantes da exposição) e da inserção das mesmas no cotidiano dos leitores-potenciais visitantes da exposição, para que estes tenham interesse em visitar a mostra? Nenhuma contribuição. Nada.