• No results found

2. Historisk utvikling av ulikhet

6.3 Valg av tidsperiode

Iniciado o período de ênfase à música do século XX, seguido da fase de encomenda de obras e, por fim, a política de valorização da música brasileira e latino-americana, inúmeras obras de referência do repertório contemporâneo passaram a ser divulgadas no Festival. O público tomou contato com a música de compositores de diferentes estéticas e nacionalidades – dos nacionalistas e neoclássicos a dodecafonistas e vanguardistas – Villa-Lobos, Lorenzo Fernandez, Camargo Guarnieri, Osvaldo Lacerda, Cláudio Santoro, Guerra-Peixe, Gilberto Mendes, Lindemberge Cardoso, Rufo Herrera, Mario Davidovsky, Carlos Guastavino, Graciela Paraskevaidis, Ravel, Debussy, Jolivet, Martinu, Caplet, Ibert, Louvier, Prokofieff, Stravinsky, Bártok, Hindemith, Berio, Schoenberg, Ligetti e outros.

Apesar de o foco da área de Música ser a valorização e divulgação da música erudita contemporânea, para o que foram contratados professores e compositores, foi noticiada a apresentação de uma peça inédita do compositor mineiro Joaquim Emerico Lobo de Mesquita no Festival de Inverno. “Descoberta recentemente em velhos arquivos mineiros pelo musicólogo alemão Francisco Curt Lange”, a obra foi guardada no Museu da Música pelo Arcebispo de Mariana.91

O concerto foi realizado em Ouro Preto, na Igreja de São Francisco de Assis, sob a regência do maestro Sérgio Magnani, atendendo a sugestão dos participantes do I Encontro Nacional de Artes – ENA que, “[...] agradecidos com a acolhida que lhes dispensou Dom Oscar de Oliveira – Arcebispo de Mariana - resolveram que essa seria a melhor maneira de homenageá-lo”. Foi apresentado o Pater, Ave, Gloria (1783), para duplo quarteto vocal e cordas, além de outras obras do referido compositor: Ave Regina Coelorum, para voz e cordas, Diffusa esta gratia (1783), para vozes e cordas e Astirerunt Reges (antífona), para solistas, coro e orquestra.

A exceção aberta pelo XI Festival de Ouro Preto para a 1ª audição da obra de Lobo de Mesquita representava o reconhecimento de seu valor histórico-cultural pelas comunidades artística, religiosa e científica brasileiras.

92

91 Diário Popular, São Paulo, 19 de junho de 1976.

92 Num gesto de cordialidade, Dom Oscar de Oliveira recebeu vários musicólogos no Museu da Arquidiocese de

41

A realização do I Encontro Nacional de Artes – ENA foi considerada pelo coordenador-geral do Festival de Inverno, prof. José Eduardo da Fonseca, a principal atração e marco comemorativo dos 10 anos do Festival, tendo como objetivo transformar Belo Horizonte, durante três dias, num centro cultural do País.93 Fez parte da programação do evento, conferências e debates sobre música, literatura brasileira, museu, teatro e artes plásticas. Além da conferência do maestro Sérgio Magnani sobre a Pesquisa Etno- musicológica, do debate sobre Reciprocidade de Influência das Músicas Popular e Erudita, que reuniu o maestro Júlio Medaglia, o compositor Aylton Escobar, José Coelho e Dulce Martins Lamas, houve discussões acerca dos currículos das escolas de música, da profissionalização do músico e do mercado de trabalho. Na plenária geral, tratou-se do tema

Festival de Inverno – Balanço e Perspectivas, para que a Universidade colha sugestões que indiquem novos caminhos à promoção.94

Ainda sobre o 1º ENA, destacamos a matéria realizada pelo Estado de São Paulo –

Artistas lamentam a ausência do público – baseada num documento redigido pelos artistas plásticos constatando que “[...] a grande maioria da população brasileira encontra-se marginalizada do processo cultural do País”, e outros relatórios produzidos pelos diferentes grupos que analisaram o momento atual da arte brasileira. O ponto comum foi a afirmação acerca das dificuldades enfrentadas para o exercício e o desenvolvimento da Arte: “[...] o alarme generalizado que sentem músicos, professores, estudantes e estudiosos pelo futuro da vida musical brasileira – elemento essencial da nossa cultura – ameaçada a curto, médio e a longo prazo por distorções e deficiências” em relação ao ensino oferecido aos profissionais e à formação de público.

95

Retomando as primeiras audições realizadas em 1977, fazemos um recorte para ressaltar a presença de dois conceituados intérpretes que desenvolveram grande atividade artística no Festival de Inverno – Odette Ernest Dias e Amílcar Rodriguez Inda – marcando a estreia de importantes obras contemporâneas, especialmente brasileiras e latino-americanas, além de incitarem os compositores à composição pelas suas qualidades artísticas. Odette homenagem ao Arcebispo, oferecendo-lhe a 1ª audição mundial da música de Lobo de Mesquita. Cartas do prof. José Eduardo da Fonseca, coordenador geral do Festival, e do Arcebispo de Mariana, Dom Oscar de Oliveira, divulgadas no Boletim do Festival em 22 de julho de 1976. As obras foram conservadas pelo Arcebispo de Mariana, recolhidas por Conceição Rezende e reestruturadas pelo maestro Sérgio Magnani. Informações retiradas do Boletim do X Festival de Inverno, 22 de junho de 1976.

93 O Estado de Minas, 6 de julho de 1976. 94 Ibid.

95 O Estado de São Paulo, 8 de julho de1976. Essas questões, que são relativas à área de educação artística e,

mais especificamente, à educação musical no Brasil, serão discutidas durante os Encontros de Compositores Latino-americanos de BH.

42

lecionou flauta transversal e participou intensamente como intérprete em vários Festivais de Inverno de Ouro Preto e Diamantina e outros eventos promovidos pela FEA, nas décadas seguintes. “Em 2005, Odette [completou] 55 anos de profissão, com uma carreira integralmente dedicada à música. Foi premiada diversas vezes no Brasil e na França e é considerada a madrinha de praticamente todos os grandes flautistas brasileiros”.96

Recordando os primeiros contatos com Eduardo Bértola, Odette comenta que o compositor gostava de escrever música eletroacústica, mas dedicou-lhe uma obra acústica –

Traslationes (1976)

97

Odette fala do seu interesse pela música latino-americana:

, após ouvir sua obra Trópicos, executada por Odette, Walter Alves de Souza e Joaquin Orellana, em 1ª audição, em 1975, no IX Festival. O compositor estudou o instrumento e sabia tirar os efeitos e as sonoridades que desejava, salienta Odette. A intérprete admira alguns traços composicionais de Bértola, como a economia de recursos e a clareza de intenções musicais. Bértola escreveu também Anjos Xipófagos (1976) para duas flautas (segundo Odette, deve ser executada por dois rapazes ou duas moças, criando uma fusão total) e La vision de los vencidos, para quatro flautas (dedicada a Graciela Paraskevaídes e Coriún Aharonián).

La vision de los vencidos tratava dessa questão da ligação com a música pré- colombiana, da idéia da música da América Latina com a música do índio. (...) Desde a contemporaneidade vem se falando das raízes da música latino- americana. Eu faço parte de uma sociedade americanista na França e recebo boletins com publicações fantásticas, são pesquisas antropológicas. O que eu vejo nessa questão da latino-americanidade é o olhar sobre a identidade, as raízes, as características da música latina, indígena, pré-colombiana. A obra do Bértola me proporcionou uma visão dos vencidos, uma atitude histórica e cultural completamente diferente. Ele estudou na Europa, mas é uma outra visão. Isso é muito importante.98

Outro compositor que Odette recorda com carinho é Lindembergue Cardoso, que compôs a obra Seis Aspectos de Ouro Preto para seus alunos durante o X Festival. Odette expressou sua preocupação ao compositor sobre a falta de material para trabalhar com uma

96 No IV Encontro de Compositores e Intérpretes, Odette executou as seguintes obras: Divertimento para

quinteto de vientos de Garrido-Locca, Zig-zag de Eduardo Cáceres, Quinteto para sopros nº 5 de Estércio Márquez Cunha e Alguém move o ar na quietude da noite de Edson Ortolan (para quinteto de sopros); Pájaro negro de Agustín Fernandez, Querrequerres de Adina Izarra, Cabral 04 Melos de Sérgio Canedo, Ricanstruction de William Ortiz e Cronos X de Roberto Victorio (para flauta e outros instrumentos). Retirado do programa.

97 Odette comenta que tentou gravar esta obra no seu último CD, patrocinado pelo MEC, mas como não

receberam a autorização da mãe do compositor tiveram que retirá-la (a mãe de Bértola afirma ter enviado o documento, porém, este nunca chegou).

98 Entrevista com Odette Ernest Dias, Rio de Janeiro, 28 de abril de 2007. Odette Ernest Dias se aposentou pela

UnB, em 1995, mora atualmente no Rio de Janeiro e leciona no Conservatório Brasileiro de Música como professora contratada.

43

turma numerosa de alunos. Este lhe respondeu: “vou fazer uma peça para dez flautas, multiplicável”. E, ali mesmo, na mesa do café da manhã, Lindembergue esboçou as primeiras ideias musicais. O compositor explicou aos alunos a sua escrita musical e os recursos que utilizou para criar novas sonoridades. Aquela experiência foi inédita para os jovens que não tinham quase contato com a música contemporânea e a 1ª audição foi realizada em 1976, no Teatro de Ouro Preto, por um grupo de quase 30 flautistas.99 Dedicada à flautista e “[...] à intrépida e maravilhosa amiga, diretora musical do Festival, Berenice Menegale, [a obra] é hoje tocada no ‘Brasil, Europa e Bahia, e até nos USA’”.100

Odette vê na linguagem de Lindembergue uma forma de representação pictórica, o que mostra a relação do compositor com a pintura. Por entender que a música é um código musical, é possível compreender as intenções do compositor e interpretar uma obra por meio do seu aspecto visual. “Mesmo para quem não lê música, não há mistério algum”, argumenta Odette.

101

Em 1978, Lindembergue escreveu Outros aspectos de Ouro Preto, novamente para Odette e seus alunos, que estreou no XII Festival. Em 1981, o XIV Festival de Inverno fora realizado em Diamantina e o compositor dedicou à flautista e ao clarinetista Paulo Pedro Linhares, mestre da Banda do Batalhão da Polícia Militar, a obra Cinco por dois, em que os músicos tocam cinco instrumentos: flauta, flautim, flauta em sol; sax e clarineta. Quanto à personalidade do músico militar, ressalta: pessoa séria, culta, boêmia, que tocava clarineta muito bem e logo se integrou ao grupo de professores. Naquele ano, o clarinetista coordenou um projeto reunindo orquestras e bandas da região.102

Sobre o importante trabalho que a amiga musicista vem realizando, Berenice Menegale fala: “[Odette] tem ensinado muita gente a tocar flauta, porém, mais que isso, tem transmitido esse prazer único que a música proporciona”. Em suas andanças durante os Festivais de Inverno de Diamantina, “Odette descobre tesouros musicais nos arquivos da cidade. Através da adesão dos músicos amadores locais – que ela contagia e conquista para o prazer de cantar e tocar juntos – faz reviver esses sons do século XIX e início do século XX entre os muitos sons de Diamantina”.

103

99 Entrevista com Odette Ernest Dias, Rio de Janeiro, 28 de abril de 2007.

100 Encarte do CD de Odette Ernest Dias – selo Rádio MEC. A obra Seis aspectos de Ouro Preto foi gravada nos

Estados Unidos, com a participação de Wendy Rolfe, e consta neste CD. Segundo Odette, a obra foi apresentada em 2002, no IV Encontro de Compositores in memorian a Lindembergue Cardoso que faleceu em 1989.

101 Entrevista com Odette Ernest Dias, Rio de Janeiro, 28 de abril de 2007.

102 Os músicos executaram ainda a Sonatina de Jolivet, uma obra dificílima que o clarinetista tocou

admiravelmente bem. Entrevista com Odette Ernest Dias, Rio de Janeiro, 28 de abril de 2007.

44

Do repertório para flauta solo, Odette executou as seguintes obras no Festival:

Improvisos para flauta só de Maurice Ohana, Mei de Kazuo Fukushima, Flautatualf de Jorge Antunes (obra cênica, cuja estreia nacional foi feita por Odette em Brasília), Variações para

flauta sobre um tema de G. Duffay de Ernst Widmer (dedicada à intérprete), Só para flauta de Guilherme Bauer (em estreia estadual).

Ao lado do violonista uruguaio Amílcar Rodriguez Inda e de outros colegas, Odette realizou em 1ª audição mundial o Trio de Ariel Martinez e Postales de Gerardo Guevara e, em provável estreia nacional, o Divert-intento de Orellana e Seis Piezas para flauta e guitarra de Juan José Iturriberry. Com Edelton Gloeden, fez Desafio para flauta e violão de Sérgio Vasconcellos Corrêa e Tresis para violão e flauta de Leonardo Balada. Junto a outros colegas (Jacobs, Braunwieser, Pagnot, Berenice, Walter, Biriotti), apresentou trios de diversos autores – Roussel, Jean-Michel Damase, Darius Milhaud, Szervánsky – e participou de importantes estreias com grupos de câmara.

Amílcar Rodriguez Inda foi um divulgador da obra para violão solo de compositores latino-americanos no Festival. Interpretou Apunte 2 (1ª audição mundial) e Apunte 1 de Rivero, El Surtidor de Koch, Bagatelas de Iturriberry e El paseo del caballo e Suíte alumna de Mito Talvis, e foi dedicatário de León Biriotti na obra Memória de la vilhuela de Indo

Ignez, escrita pelo seu conterrâneo durante o XII Festival de Inverno, em 1978.

Mencionado anteriormente, Biriotti é reconhecido pelo seu talento como oboísta e teve intensa atividade como compositor e intérprete no Festival de Inverno, divulgando a música contemporânea (incluindo sua obra), com várias primeiras audições, inclusive compondo durante o Festival. Ao lado de Amílcar, Biritotti realizou a 1ª audição mundial de obras de diversos compositores uruguaios – Leraclimaon de Héctor Tosár, Glosas de energúmenos

para director y laúd de Carlos Pelegrino, Auletas y citaritas de Juan José Iturribery e Estoy a

dos de Renée Pietrafesa. Com Fernando Lopes, executou Impulsioni (1975) de Istvan Lang, para oboé e piano; com Berenice Menegale apresentou Construction Set (1973) de Jere Hutcheson, além de outras obras para oboé e fita magnética – Stela Vindemiatrix de Sergio Cervetti, Aulos de Antonio Mastrogiovanni (compositores uruguaios) e Zusamenngefuegtes de Wilfried Jenksch (oboé e charleston), estas últimas de 1975, e Metamorfose segundo Kafka, de sua autoria, em 1975.104

104 As fitas foram gravadas no Pequeno Estúdio de Montevidéu.

Registramos também sua participação em improvisações coletivas: Improvisação para oboé, tiorba e piano, com Amílcar e Berenice, e Epifanias (proposta de Willy Corrêa de Oliveira), com Odette, Amílcar e Willy ao piano.

45

Além da obra dedicada a Amílcar, Biriotti escreveu, durante o XII Festival, duas obras a partir de algumas provocações – Crônica de Ouro Preto e Geminis:

Me lembro que havia um piano que estava com problemas e produzia sons “estranhos” e, visitando diferentes lojas de pedras de Ouro Preto, encontrei um livro de poemas escrito por um poeta que vivia lá e compus uma obra para ser cantada-recitada por um barítono, para esse piano e oboé, que foi apresentada por Eladio, Berenice e eu. Nessa oportunidade, havia sido convidado um violonista uruguaio chamado Amílcar Rodriguez Inda e ele havia levado dois violões, um alaúde e uma tiorba (...). Caminhando pelas ruas, eu e Eladio cruzamos com o Amílcar que estava desesperado, pois na noite seguinte teria que fazer um pequeno concerto e sua unha havia quebrado. Eu lhe pedi emprestado um de seus violões, fui até o hotel e compus uma obra para ser tocada principalmente pela mão esquerda (...). Estavam participando também Lola Benda e sua filha. Ariana Pfister, ambas excelentes violinistas. De modo que compus uma obra para dois violinos (...). Por essa razão o nome da obra Geminis: dois irmãos gêmeos são muito parecidos, mas nunca totalmente iguais.105

Um outro compositor latino-americano que teve grande participação no Festival de Inverno foi Dante Grela e, como seus colegas, recebeu várias motivações para compor durante o evento.

(...) Eu me lembro que escrevi uma peça para o Biriotti durante o Festival –

Imagenes - para oboé e piano com dois executantes. E uma coisa importante que me chamou a atenção é que havia muitas motivações criativas. No meu caso, houve vários Festivais em que eu compus música durante os Festivais enquanto dava aulas. E penso que com outros compositores também se dava o mesmo, como aconteceu com Biriotti, pois havia toda essa efervescência que estimulava o trabalho criativo. E se executava também.106

Ao ser convidado para o XI Festival de Inverno (1977), Grela teve seu primeiro contato com BH e com a FEA. No ano seguinte, o Festival foi realizado em Ouro Preto e o contato de Grela com a cidade, com outros compositores e intérpretes, com o Teatro Municipal, representou novos estímulos para ele compor.

Em 1978, voltei para o Festival em Ouro Preto (...). A cidade tem toda uma carga muito particular da época da escravidão e a gente sentia isso de alguma maneira (...). E me impactou muito a característica do Teatro de Ouro Preto, todo de madeira, muito ligado ao barroco mineiro. E como sou um compositor que tenho interesse e trabalho muito com timbres e espaço, me

105 Entrevista com León Biriotti em Montevidéu, 6 de maio de 2006. As obras Voyage autour de mon nombril e

Spleen, de sua autoria, foram executadas por ele em provável estreia nacional. Segundo Biriotti, a família Benda é uma família de músicos desde a época do barroco e, naquela época, vivia em São Paulo.

46

ocorreu de criar uma obra para aquele Festival que se chamou Espacio-

tiempo. Eu mesmo escrevi o texto e fiz para uma série de conjuntos instrumentais distribuídos em todo o teatro. Conheci também a Odette Ernest Dias e a Beatriz Balzi. Deixei o piano no palco, o violoncelo ficava na parte de cima e, atrás, havia dois grupos vocais em diferentes locais, e grupos de percussão, de modo que o público estava rodeado de fonte sonora, sendo que a gente não a via. E eu regia a obra no palco de frente para o público; a cortina estava quase toda fechada para que a Beatriz pudesse me ver.107

Por meio dos depoimentos de Dante Grela, León Biriotti e Odette Ernest Dias, podemos ter uma visão das inúmeras motivações que os levavam a compor, entre elas o alto nível técnico e musical dos professores-intérpretes comprometidos com a música contemporânea. Estes, por sua vez, se sentiam honrados com a oportunidade de realizarem a 1ª audição das obras dos colegas, sendo dedicatários de muitas delas. Para a coordenadora, este era um ponto importante: era preciso que os professores-intérpretes convidados comungassem da proposta do Festival. “Não poderíamos mais contar com um professor, excelente executante, mas sem disposição para estudar e apresentar ao público coisas novas”, ponderava Berenice.108

Em 1978, um fato político marcou a 1ª audição da obra Cantata dos Mortos de Ricardo Tacuchian, baseada no texto de Vinícius de Moraes – a Balada dos Mortos dos

Campos de Concentração.109 Escrita em 1965, para barítono, declamador, coro e pequeno conjunto, a obra estava programada para estrear na Sala Cecília Meireles no Rio de Janeiro no mesmo ano. Porém, em função da ditadura militar, o compositor fora aconselhado pelo então diretor, Ayres de Andrade, a suspender a sua apresentação frente à inevitável alusão à tortura e ao regime. Ao desistir da apresentação, o compositor sofreu o que chamou de “a forma mais grave de censura: a auto-censura”, e a alternativa foi botar a obra na gaveta. Entretanto, a Cantata foi descoberta por Eladio num banco de partituras da Ordem dos Músicos, que propôs a sua realização no XII Festival de Inverno de Ouro Preto.110

Mesmo estando o Brasil ainda sob a ditadura militar, já começava a haver aquela doutrina do perdão, da anistia, mas de qualquer maneira a apresentação de uma obra desta exigia uma certa coragem e o Eladio teve esse mérito. Foi por iniciativa dele que essa obra foi apresentada no Festival de Ouro Preto.111

107 Entrevista com Dante Grela, Rosário (Argentina), 3 de maio de 2006. 108 O Estado de Minas, 15 de maio de 1980.

109 No mesmo ano, houve a estreia mundial do Ciclo Lorca de Ricardo Tacuchian, realizada por Eladio, Berenice

e Walter Alves de Souza durante o Festival.

110 LOVAGLIO, Vânia. Eladio Pérez-González: um militante da música contemporânea brasileira. 129f. 2002.

Dissertação (Mestrado em História) – Instituto de História, Universidade Federal de Uberlândia, 2002. p.65.

47

Alguns fatos coincidentes chamaram a atenção do compositor na sua estreia:

Sendo uma obra basicamente coral, ela foi estreada numa cidade que tinha grande tradição coral do século XVIII. Um outro aspecto é que Ouro Preto tem uma tradição libertária de vários movimentos, inclusive a Inconfidência, e a minha obra era uma obra de caráter libertário, até certo ponto. Esses dois fatores deram a essa estréia uma emoção muito grande! Considerando que se tratava de um Festival de Inverno, basicamente de jovens, eles fizeram a obra com muita emoção, porque era o que eles sentiam. O teatro estava lotado, não tinha mais lugar, os jovens sentavam no corredor e começaram a subir no palco, as pessoas em pé na porta (...). Quando acabou, foi uma verdadeira explosão de emoção, de aplausos, de gritos. Foi uma das maiores emoções que eu tive na minha vida. Essa obra hoje não faria o mesmo sucesso, não apenas pelo fator musical, mas pela circunstância histórica e foi um grito que estava preso na garganta de todo mundo. O público exigiu que a obra fosse repetida na noite seguinte e assim foi feito.112

Devemos ressaltar um aspecto relevante na sua 1ª audição: a coragem do intérprete de propor a apresentação de uma obra de cunho político, o que contou naturalmente com a