3. Kapittel. Teoretisk referanseramme
3.3. Etnosentrisme og kognitiv bias
É fácil desejar transportar-se para longe de um lugar ruim. Mas a trilha para sair dele é menos óbvia, ainda precisa ser descoberta.
Ernst Bloch, O Princípio Esperança (2006b, p. 299)
A Utopia de More coincide com a descoberta do Novo Mundo. Com as descobertas geográficas, abria-se um novo ciclo de esperança. Se o descobridor personificou a avidez por lucro, a ambição de ir sempre mais longe e a transposição de uma antiga cultura para novas terras, de fantástica dimensão, foi igualmente o arauto das possibilidades de concretização da utopia edênica, do renascimento do sonho com o velo de ouro e do paraìso terrestre. ―Quando Colombo zarpou para as Índias, tinha em mente até um éden real. Não causa surpresa, a partir dessa perspectiva, que descobertas trouxessem consigo tanto sonhos quanto transformações‖ (BLOCH, 2006a, p. 302).
As terras que viria a descobrir, apareciam como lugares que escondiam por trás das florestas ―algo incógnito‖, o Eldorado procurado no passado por Jasão, repleto de tesouros, serpentes, dragões, fadas e frutos mágicos (BLOCH, 2006a, p. 304-5). Colombo conhecia as fantasias em torno do Éden-Eldorado, entre elas, a lenda da fonte de juventude, mas por elas se deixava embalar pelos exageros do novo céu e da nova Terra, como se deixava embalar pelo sonho com os reinos mágicos que, à época, estariam nas Índias como em qualquer parte da Ásia, da África e da costa do Atlântico. E os geógrafos ajudavam movendo a localização do Éden de um lugar para outro, fazendo do paraíso na terra a essência dos relatos utópicos e a própria confirmação do Éden bíblico.
Colombo sonhava com as concepções correntes desde a Idade Média de que o Éden existia e se encontrava em algum lugar da terra. Em carta aos reis da Espanha, escrita no Haiti, em outubro de 1498, chegou a admitir encontrar-se no lugar onde se situava o paraíso terrestre e que ―estaria muito próximo do céu‖ (BLOCH, 2006a, p. 326-7). Alimentando ―ideias mágicas‖ comuns à literatura filosófico-teológica, pelo menos até Campanella, ele se inseriu na linha da descoberta do ―Paraìso Terreal‖, o Éden, na definição de Sérgio Buarque de Holanda em Visão do Paraíso (2010). As possibilidades das novas rotas marítimas, a realização efetiva da utopia das descobertas, são representadas pelo Novo Mundo que se estendeu da América espanhola ao Brasil português. Atingiu-se, graças aos sonhos dos
descobridores, os confins do interior do rio São Francisco e da Amazônia, do Peru, do Haiti e das Américas.
Os sonhos eram guiados pelas luzes das utopias do Éden e as utopias geográficas descritas por Bloch (2006a, p. 304-5) no livro II de O Princípio Esperança, e que deram suas contribuições para as utopias sociais, embora o paraíso procurado desde Alexandre, na Antiguidade, jamais tivesse sido encontrado. É nesse ponto que se concentra a tensão dialética entre o real e a fantasia.
Contava-se que mares de lama e trevas inundavam o Atlântico, como na Antiguidade as lendas gregas cercavam os lugares de ―lendária despreocupação‖ com monstros e águas perigosas em torno da ilha dos Feacos e dos Bem-aventurados, e o mar coagulado que cercaria as colunas de Hércules (BLOCH, 2006a, p. 308). No Atlântico, proliferariam os mares fétidos, de recifes invisíveis e ilhas demoníacas, armadilhas da geografia do inferno. O Éden estaria atrás de um ―cinturão de terror‖ (BLOCH, 2006a, p. 311).
Às lendas sinistras, Bloch contrapõe, com fulgor paradisíaco, o sonho tangível da terra prometida. Contrapõe o paraíso do Antigo Testamento e a fragrância do jardim encantado do Éden que ultrapassa suas fronteiras e dissipa as brumas da ilusão por inexistirem monstros na espreita em ―aromáticos bosques‖ ou ―águas perigosas‖ cercando o paraìso, mas o que existia era o trabalho dos homens, erguendo Canaã como ponto de atração (BLOCH, 2006a, p. 309- 12).
O utópico social não ficava, assim, à margem desse fluxo incessante de fantasias. Revelou-se dialético pela grandeza das expedições e pelas utopias políticas que se sucederam aos descobrimentos. Revelou-se concreto pelas paisagens arquitetônicas, a ocupação dos espaços do continente americano, a pintura, a música, a literatura. No século XVI, o arquiteto foi considerado ―rival de deus‖ e o poeta definido não como o narrador de algo aparentemente inexistente como faz o pintor, mas como alguém que ―cria e funda como um outro deus‖ (BLOCH, 2006a, p. 364).
As novas terras faziam sonhar com uma paisagem terrena do futuro. Encontravam no espírito criador a infinitude humana. Colombo demonstrou que o paraíso não estava restrito a montanhas inacessíveis, como imaginava Dante, nem se encontrava cercado de mares de algas, nas Índias. Não era feito de ilhas santas, como se imaginava na Antiguidade, nem ficava para além das colunas de Hércules, também como pregavam as lendas da Antiguidade. Eram paraísos terrenos que todos podiam alcançar.
As descobertas absorviam múltiplas utopias: das utopias médicas às utopias técnicas, arquitetônicas e sociais. O horizonte da terra foi ―imensuravelmente ampliado‖ e com ele
prolongou-se a linha da ―Terra humanizável‖ (BLOCH, 2006a, p. 325). Mas o mundo permaneceu dividido em classes e a ideia de um novo céu e uma nova Terra foi adiada, aguardando o pleno futuro. ―A intenção do paraìso terrestre, portanto, dirigiu-se a um espaço áureo ainda a ser aguardado no mundo que desemboca no delta do mundo‖ (BLOCH, 2006a, p. 345).
Quanto mais distante do irrealismo da ilusão, do sedativo da inércia, do mero prazer da contemplação, quanto mais distante do terror infundido pelos mitos, mais o homem se aproxima da plenitude do real (BLOCH, 2006a, p. 363-4). Embora a geografia dos descobrimentos não tenha resultado no paraíso da Terra humanizada, no Novo Mundo, revelou-se ―o livro da Natureza‖, que teria sido ―escrito por Deus‖. Inclusive os mais realistas, no entendimento de Buarque de Holanda, consideram que as descobertas trazem no seu bojo ―um sentimento vivo de simpatia cósmica‖ (HOLANDA, 2010, p. 118).
O eco desse pensamento converteu terras antes incógnitas em ―visão premonitória e futurista‖ que ganharam fundamento na geografia ―fantástica‖ do Brasil e das Américas (HOLANDA, 2010, p. 118-9). A utopia do ―Paraìso Terreal‖ estava transformando o mundo e o mundo se transformando com a utopia do ―Paraìso Terreal‖. Nos séculos seguintes, os ideais limítrofes do sonho do paraíso terrestre de Colombo com a sua negação pela realidade se transformaram em janelas abertas para o futuro, principalmente no embate pela valorização do ser humano.
O niilismo da burguesia em declínio, ao desvalorizar o homem, deixa a vida sem alternativas, mas ao contrário, a utopia, mantém o lastro da possibilidade objetiva como prolongamento das terras a desbravar. Essas terras se materializavam no trabalho e o seu Éden estaria na conquista de uma sociedade em que as ilusões se dissipassem e a superestrutura e a infraestrutura social fossem uma coisa só.
Já em The Spirit of Utopia (Geist der Utopie), Bloch mencionava o socialismo como indissociável desse grande plano civilizatório. A sua unidade mais significativa como utopia social da iluminação estava na ―antecipação‖, seja em ―conformidade com as forças de produção, seja primordialmente também como consideração das radical-totais séries de propósitos humanos e de sua posição em relação a um universo mediado‖ (BLOCH, 2006b, p. 476). Mas uma antecipação no âmbito do possível novum, concernente ao espaço dialeticamente aberto: a práxis.
2.5 TRABALHO E ROMANTISMO: PRESSUPOSTOS PARA CONHECIMENTO E