7. Kapittel. Historiebruken i debatten
7.2. Debatten om rase
A última instância da estrutura das pulsões, ao longo da história, é representada pelo interesse econômico, mas mesmo ela e exatamente ela tem, como se sabe, suas formas históricas variáveis, suas modificações no modo de produção e de troca. Sim, inclusive o próprio si-mesmo dos homens que quer se conservar, que se reproduz mediante o consumo de alimentos, que é produzido pelo respectivo modelo econômico e pela respectiva relação com a natureza, é o ente historicamente mais variável.
Ernst Bloch, O Princípio Esperança (2005, p. 71-2)
Nem mesmo a fome, que é uma categoria relativamente estável no mundo, é permanentemente imune às mutações da história, na visão de Ernst Bloch. A história a tudo abarca, por ser construção do homem, a ela não escapando sequer a pulsão da autopreservação, tida como a ―pulsão básica mais confiável‖ (BLOCH, 2005, p. 68). É importante assinalar que Bloch não se refere às pulsões (Trieb) no sentido clínico, nem biológico, mas no campo das relações sociais.
A exemplo de Freud, ele considera as pulsões no limiar do psíquico e do somático, mas diferente de Freud, entende que as pulsões se misturam com os instintos e a vontade humana de controlá-los. Transmitem a impressão de terem ―vida própria, dominam o corpo‖ e, por vezes, aparentemente, ―transformando o ser humano em sua presa‖ (BLOCH, 2005, p. 52). Nada, porém, garante que as pulsões são portadoras de si mesmo, além do corpo que procura se manter vivo e do ―eu‖, o qual torna o homem mais sensìvel às suas carências do que qualquer outro animal.
Por isso, existem várias molas propulsoras, dependendo do caso, e não uma única, que movimenta tudo. Só existe continuamente o corpo que quer se manter e por isso come, bebe, ama, domina. É somente ele que age nas pulsões por mais diversificadas que elas sejam, mesmo as que foram transformadas pelo eu que surgiu e por suas relações (BLOCH, 2005, p. 53). Esse aspecto sugere a pergunta: poderia o homem ter o controle de si mesmo? Poderia ele apreender o momento presente e superar a experiência do instante vivido, sempre que este
fosse apenas a fugacidade incógnita do momento? Poderia ele distanciar-se do presente e só tentar apreendê-lo quanto este se transformasse em passado? A alternativa proposta por Bloch é que o homem se projete para o futuro e que controle a insatisfação, o impulso animal, e que procure diferenciar o que faz apenas por impulso do que faz com um objetivo delineado. Cita como exemplo de possibilidade, Ulisses de Homero que ao voltar para Ítaca estava tão determinado a agir para livrar sua casa de indesejáveis pretendentes, que deu um ―salto para dentro do ainda-não-consciente‖, ―salto que não tem volta‖ (BLOCH, 2005, p. 299). E matou brutalmente os nobres que tinham acampado em sua casa e dilapidavam seus bens.
Foi um salto regressivo, uma volta ao passado. Todavia, como metáfora, poderia ter escolhido outro caminho. Isto porque a obscuridade não remonta à origem do homem, mas ao ser imediato. Desse modo, para Bloch (2005, p. 303) cada instante vivido, seria ―se tivesse olhos, testemunha do início do mundo, que nele ocorre constantemente: cada instante, como não manifestado, situa-se no ponto zero do inìcio do mundo‖. A criação do devir é constante. O novo é sempre possível. O presente-futuro pode libertar-se do agora-não e transformá-lo na vontade não repetitiva voltada para o presente. Epistemologicamente, segundo Bloch, a pulsão torna-se perceptível quando o homem constata que não tem domínio de si porque as ―pulsões‖ estão ―soterradas nas profundezas do seu ―eu‖ e precisam deixar a sua ―indiferença‖ para atingirem a superfìcie (PASTOR, 1986, p. 388).
No homem, simultaneamente, as pulsões originadas pela história são geradoras de novas pulsões, como aquela do tédio, que atinge normalmente os ―ricos e supernutridos‖; a pulsão de aquisição, que ―alcançou amplitude totalmente desconhecida em épocas pré- capitalistas‖; e obsessões abstratas tipicamente capitalistas como os recordes, o tecnicismo, a velocidade, o lucro máximo, o instinto fascista e imperialista para a morte, a religiosidade, o pendor para a construção da felicidade, o instinto sentimental da época de Werther, pelo culto à aparência em lugar do ser efetivo e a sedução pela orgia (BLOCH, 2005, p. 53).101
101 No fim da Idade Média, as festas promovidas pela classe dominante eram ―a grande máscara‖, a flagrante aparência. Na Alemanha, as festas organizadas pelo déspota Karl Eugen von Württemberg, que fazia ―ouro do suor dos seus súditos‖, prolongavam-se por 15 dias sem interrupção e se revelavam mais feéricas que as festas de Versalhes. Pelo prazer da ostentação, pela magia onírica dos cenários, a imitar cenas míticas, como a felicidade das ilhas dos feacos narrada por Homero, e pela aliança entre o arquiteto e o maître de plaisir (mestre do prazer), projetava a varinha mágica das ilusões por todo o universo da nobreza europeia. Por todo o renascimento sobrepunha fantasias de orgias à razão (BLOCH, 2006a, p. 255-7).
O ser humano consciente é o animal mais difícil de saciar: é ele o animal que, para satisfação dos seus desejos, não vai direto ao ponto. Se lhe falta o necessário à vida, ele sente essa carência como nenhum outro ser: visões da fome emergem. Se ele tem o necessário, com o desfrute, emergem novos apetites, que molestam de outra maneira e não menos do que antes o fazia a pura carência. Os ricos supernutridos (porém não só eles), eventualmente, dá singular comichão do não-sei-bem-o-quê. Sobretudo o luxo (que aparentemente preenche tudo) é um impulsionador insaciável (BLOCH, 2005, p. 53).
Para Bloch, essas características, mais fortes ou mais fracas a depender das épocas, às vezes simultaneamente fortes, ora simultaneamente fracas, significam que as pulsões, ao contrário do que pensou Freud, podem ser tornadas conscientes como se fosse uma Vorstellung, termo consagrado pela filosofia alemã, significando aquilo que está presente no espírito ou é representação em oposição ao afeto (Affekt).
Igualmente, na sociedade de classes, as pulsões não se desenvolvem homogeneamente no homem e não encontram, no diagnóstico de Bloch (2005), seu cerne no impulso sexual e no conflito com as tensões do ego, no seu impulso de negar e censurar pulsões. Objetivamente, na concepção dos impulsos, ele se ocupa de três autores Freud, Alfred Adler e Jung.
Na sua perspectiva, a concepção freudiana é adaptativa e o burguês vive não em conflito apenas com o seu ego, mas com o choque da realidade imposta pelo mundo da mercadoria e sua ideologia. A libido seria o ―reino inconsciente da pulsão‖ que arrebata o corpo com poderes ―desconhecidos e incontroláveis‖, mas Bloch o critica por considerar que ―camuflar a sexualidade‖ envolve ―espessa trama de discrição, hipocrisia e mentira‖ (BLOCH, 2005, p. 57). Não nega que a libido esteja envolvida por uma ―censura moralizante‖, deseja trazer o problema para o âmbito da dialética da história e da sociedade burguesa. Não concebe o homem como cativo dos seus desejos e da sublimação dos seus instintos sexuais.
Na discussão sobre Freud, conjuga duas dimensões da psicanálise que considera equivocadas: o caráter regressivo, que interditaria o ainda-não-consciente de se tornar consciente e o conceito da libido como causa primeira das pulsões, com pontos de contato com a filosofia de Schopenhauer que considerava os órgãos sexuais como ―pontos focais da vontade‖ (BLOCH, 2005, p. 61-2). Criava-se o que Bloch define como ―superestrutura de pulsões‖, desconstruìda, em grande parte, pela psicanálise e a sua proposta de reduzir o ―mofo hipócrita e também neurotizante‖ da vida burguesa, mas a ―claridade do dia‖ se dá para dentro
de uma ―libido privada‖ e do ―mal estar‖, distante do fim do mal estar da sociedade (BLOCH, 2005, p. 57).
Na procura das causas primeiras das pulsões, quem exprimiria com acerto a negação da libido como mola propulsada, segundo Bloch, seria um ex-discípulo de Freud, Alfred Adler, que julgava ser ―vontade de potência‖ a pulsão fundamental do homem. Seu objetivo, antes de tudo, estava em: ―dominar e derrotar‖, ―confirmar-se individualmente como vencedor‖ (BLOCH, 2005, p. 60).
A crítica de Bloch (2005) se desenvolve em ondas. Adler não explica a fonte originária do seu pensamento. Não vincula as neuroses às causas econômicas, como também não o fazem Freud e Jung. E a vontade de vida, expressa por meio do poder, se configuraria mais uma compensação pela falta de tempo para exercitar a sexualidade do que por qualquer outra razão. Assim, o desejo individual de potência perde sentido, se torna próximo da linhagem capitalista, e foi relegado a uma repetição da libido sexual freudiana.
Jung, a quem Bloch define como ―fascista psicanalìtico‖, é criticado com absoluta veemência por querer reduzir a libido e seus conteúdos inconscientes a um fenômeno pré- histórico (BLOCH, 2005, p. 59). Considera Jung fascista pela sua relação com o que conceitua como ―libido pânica‖, o ódio à inteligência dos nazistas (―o único meio para compensar os danos da sociedade atual‖, como Jung teria dito segundo Bloch), pelo culto aos mortos que obstrui o futuro e pelo empenho de Jung de ―confinar‖ inconsciente nas pulsões mais primitivas do homem, conexão arcaica que empurra a libido para o ―ventre da natureza‖ (BLOCH, 2005, p. 65-7).
―Mistérios atávicos‖ que são refutados pelo platônico Plotino, citado na argumentação de Bloch, uma única frase: ―a alma do mundo é a energia do intelecto‖; e que Descartes, nas Meditações (2004), também lembradas por Bloch, definiu como o ato de pensar que consiste em ―toda a natureza do espìrito (BLOCH, 2005, p. 67-74). Em suma, é o pensamento que impulsiona o homem para a frente e alcança as ―áreas mais extensas da privação negada, ou seja, da esperança (BLOCH, 2005, p. 79). Por essa percepção o homem irá determinar o seu modo de agir, de transformar o real e, possivelmente, trocar os sonhos escapistas, noturnos ou diurnos, pelos sonhos acordados de mudança.
Se Freud entende a libido como fruto das repressões desde a infância, Jung vai procurar as razões nos desejos contidos ao longo de toda a história. O inconsciente, em Freud, é individual, fruto das repressões aos indivíduos, em Jung é coletivo. Na ironia de Bloch (2005, p. 65-6), Jung trocou a claridade pela obscuridade: nunca se livrou do ―diletantismo romântico não estruturado‖ dos seus anos de formação, tratou os arquétipos de forma
regressiva e vinculou o homem moderno com ―Gaia ou Cibele‖,102 com aquela ―entidade
arcaica‖ que está na origem, em igual medida, no mito reacionário das raças e no imaginário das ―pulsões do animal humano primitivo‖. Arquétipo fantasioso, continua Bloch (2005), povoado de figuras míticas – fogo, serpentes, mãe-terra e velho sábio, sem nenhuma menção ao empreendimento capitalista ou à consciência das suas ―vìtimas atordoadas durante seu tempo livre‖.
Jung retomou o conceito de uma ―memória da matéria orgânica como um todo e dos vestìgios dessa memória‖, que permaneceriam vivas na libido, anulando qualquer possibilidade do inconsciente se tornar consciente (BLOCH, 2005, p. 63). Seria um arcaísmo contrário a Freud, que voltava aos elementos tribais do inconsciente para curar seus pacientes. Jung, no conceito de Freud, era ―completamente genérico, primitivo e coletivo‖ e tornava o inconsciente desejando regredir aos ―500 mil anos‖, o que tornava qualquer mudança impraticável. Um segundo momento da crítica a Jung é o conceito de inconsciente coletivo, o qual Bloch considera ―mais impregnado da loucura da bruxaria do que da razão pura‖ (BLOCH, 2005, p. 64).
Entre outras coisas, o que resulta é que o inconsciente é tomado do corpo. A libido é até totalmente expulsa para as trevas, para o inconsciente como alvo. Em Freud, o doente era lembrado do inconsciente apenas para que se libertasse dele. Em C. G. Jung, no entanto, ele é lembrado do inconsciente para que mergulhe completamente nele, mais precisamente em camadas cada vez mais remotas do passado. A libido torna-se arcaica, sangue e solo, homem de Neandertal e período terciário se lançam ao mesmo tempo, ao seu encontro (BLOCH, 2005, p. 64).
O pensamento blochiano remete-se para a impossibilidade de o homem histórico voltar aos tempos primitivos, como entende nos conceitos de Jung que, como ele lembra, fundados no romantismo nunca renunciou à ―baboseira mágica (comandada pelo capital monopolista)‖ que obstruiria o futuro, ―mistificado por uma medicina moral‖ (BLOCH, 2005, p. 66). Na perspectiva blochiana, o homem pode tornar-se um bárbaro decadente, um neurótico pulsional, como foram Nero, Calígula e Hitler, mas jamais voltará a ser um homem de Neandertal. Como não há volta nas utopias passadas, não há volta na história do homem. Há repetições não dialéticas, mas as pulsões mudam até pelo instinto de preservação. Pois, para que a pulsão exista, é preciso de um corpo, instinto e paixões cambiantes.
102 Na mitologia grega, Gaia é a mãe Terra; Cibele, a mãe dos deuses, a deusa dos mortos, a grande mãe primordial.
Também muitos dos chamados primitivos de hoje, como se sabe, de forma alguma, são a criatura humana mais antiga. Representam, antes, os produtos da decadência das grandes culturas. Não são a velha physis, mas há muito já se tornaram a nova physis em virtude de terem herdado qualidades historicamente construìdas. O ―pagão‖, batizado pelo missionário; o ―velho Adão‖, despido pelo cristão, são novamente eles mesmos, os ―Cristãos‖ de uma tradição e uma religião anterior, isto é, de uma anterior reviravolta da criatura. Desse modo, o chamado homem movido pela pulsão original, situado abaixo do homem histórico e do homem moderno, não pode ser encontrado e nem existe cientificamente. O que assim se chama é (em Freud) o homem burguês, movido por pulsões, desfigurado e sepultado sob a linguagem dissimulada da era vitoriana, ou mesmo (em Jung) uma fantasmagoria extraída dos ―frascos mitológicos‖ (BLOCH, 2005, p. 71).
As pulsões sempre se manifestam, mas não podem ser absolutizadas, como teria feito Freud, e menos ainda excluídas da classe social a que o homem pertence. Vê-las como constantes ao homem, independente de classes, e dissociadas do egoísmo capitalista, do desenrolar da história e das possibilidades do vir-a-ser mediante o trabalho e a solidariedade, é desfavorável ao acordar humano para o ainda-não-consciente.
O pensamento blochiano é marcado pela procura do sentimento real do homem e seus desdobramentos no terreno das emoções ou afetos que podem vir do coração ou dos interesses, ter suas raízes nas vivências ou no idealismo, mas não deixam de ser reflexo do ser no seu tempo. Seu propósito é separar – ou superar – os sentimentos voltados para o futuro, como a esperança, antídoto contra o medo e a angústia, a mais humana das emoções, dos sentimentos temporais, superficiais ou inautênticos, tais como a ganância e a cobiça.
Bloch quer alcançar o que significativamente ainda não se encontrou, para ele, no estudo das pulsões, aquilo que sobrepujaria o consciente presente e envolve os sonhos diurnos, mesmo os mais simples, para a frente. Refere-se às pulsões que ativam a consciência, que ultrapassam ―imaginariamente aquilo que está ao alcance da mão‖, o agir das pulsões criativas da vida melhor, as quais se encontram à meia luz (BLOCH, 2005, p. 78-9). Trata-se de uma discussão filosófica, não de uma discussão médica. Assim, o problema não é questionar a pulsão de natureza biológica, mas aquelas que têm a marca da história impressa na sua existência e expansão.
Mas o cerne da crítica blochiana é contra a rememoração. A discussão procura mostrar o inconsciente na psicanálise como elemento de regressão, ―nunca é um ainda-consciente, um elemento de progressão‖ (BLOCH, 2005, p. 59). Ao criticar a rememoração e a ausência do novo, Bloch almeja voltar à questão inicial: o que move o corpo e as pulsões? Logo depois de
criticar Freud, Adler e Jung, o primeiro com certa reverência, Bloch passa a expor a sua própria percepção quanto às pulsões: a autopreservação, por exemplo, pouco discutida por Freud, Jung e Adler, seria capaz de colocar em movimento as outras pulsões. Mas a pulsão das pulsões, para Bloch, é a fome, esta foi ―cuspida da psicanálise da mesma maneira que o linguajar dissimulado dos salões cospe a libido‖ (BLOCH, 2005, p. 63). Se há fome, não há futuro possível.