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Os homens, assim como o mundo, carregam dentro de si a quantidade suficiente de futuro bom; nenhum plano é propriamente bom se não contiver essa fé basilar.

Ernst Bloch, O Princípio Esperança (2005, p. 433)

Se os homens são iguais perante a natureza, por que não o seriam perante os homens? O problema da natureza merece protagonismo especial na obra de Bloch. Em Droit Naturel et Dignité Humanine (Narurrecht und menschliche Würde), as reminicencias mitológicasda comuna primitiva , sem Estado, sem guerras, onde imperavam as normas não escritas, estão no direito natural de epicuriano e dos estoicos – que destacavam a dignidade da eudemonia – e chegam a Roma com a tese embalada nas ideia, herdadas do estoicismo, de generosidade, igualdade e aliança fraternal de classes (BLOCH, 2002, p. 22-31). Em O Princípio Esperança, simboliza a incompletude da ―casa humana‖, onde a parte concluìdaombreia com a parte inconclusa, mas com flagrante disposição do homem de dominar a natureza. Homem e natureza se misturam em meio a um mesmo desafio de navegar nos rios do futuro e situar, no caso do homem, a vontade de mudar no lugar do simples desejo ou da imobilidade.

Se de um lado Bloch descreve o homem como um ser sozinho, mas próximo de si mesmo ou que, dialeticamente, assume sua alienação e pode ver através dela, de outro lado, a natureza aparece como o sìmbolo do sentido ―natural‖ do bem supremo na vida humana. Bloch fundamenta-se em observações de Pitágoras, Platão, Galileu, Paracelso, Jakob Böheme, Leibniz, Kant, Schelling e Marx ou ainda em Vasari, Cézanne e Picasso. Mas não se afasta dessa necessidade humana de ser igual aos outros homens, mesmo que disso não tenha consciência. E de viver integrado à natureza, o que nos dias atuais se denominaria de

ecosocialismo, a integrar socialismo e ecologia contra o caráter destrutivo (e niilista) do capitalismo.

E em O Princípio Esperança, Bloch (2006b, p. 433) procura uma análise ampla: ―A natureza fala a nós figuradamente nas suas belas formas e o dom da interpretação de sua escrita cifrada nos foi concedido no senso moral‖. E, depois, cita Galileu:

O verdadeiro livro da filosofia é o livro da natureza, que está sempre aberto diante dos nossos olhos. Ele, no entanto, está escrito com letras diferentes daquelas do alfabeto; as letras são triângulos, quadrados, círculos, esferas, cones, pirâmides e outras figuras geométricas (BLOCH, 2006b, p. 434). Esses pensamentos têm suas raízes em Pitágoras e Platão, com suas investigações em torno de uma escrita da natureza composta de números, mas foi quem Paracelso estudou sobretudo sob a perspectiva da natureza do ser humano, ainda segundo Bloch.

Paracelso diz no livro Paramirum: ―O que na Terra é ferro, no ser humano é a bìlis, no céu é Marte‖: essa correspondência astrológica proporcionou, neste caso, a coesão aos arquetípicos-coisas, de cima para baixo, de baixo para cima, perpassando o cosmos, ou melhor, proveu o fundamento para a sua analogia supostamente objetal. Entretanto, da mesma forma, cada ―natureza‖ mantém a sua autonomia, a da sua assinatura, que para Paracelso designava o aspecto morfológico ora do gênero, ora do ―caráter‖ individual. Jakob Böhme, seu discípulo em muitos aspectos, escreve no livro De

signatura rérum o seguinte sobre esse caráter bem delineado: E não há coisa nenhuma na natureza das que foram criadas, que não revele também exteriormente a sua forma interior. É assim que reconhecemos, na força e na conformação deste mundo, como a essência se revela na parição de uma metáfora, de modo que vemos tal coisa nas estrelas e nos elementos, tanto em criaturas como em árvores e ervas (BLOCH, 2006b, p. 434-5).

As assinaturas reveladoras do interior e do exterior do homem, como acontece na natureza, é o que Bloch procura ao voltar-se para Paracelso e o legado pitagórico. De sorte a estabelecer correspondência na morfologia da natureza com a necessidade do bem comum, o chão primeiro do homem, de ―sua essência, de longinquidades profundas‖ (BLOCH, 2006b, p. 439). Os argumentos são utilizados para assinalar um acontecimento histórico carregado de futuro bom: embora jamais tenha alcançado a igualdade real entre os homens, o direito natural clássico, na sua integração com as utopias, cumpriu parte do seu papel transformador. No longo curso da história, iluminou a queda do despotismo dos príncipes, do despotismo patriarcal e do despotismo esclarecido.

Juntou-se a isso a defesa de um mundo sem corrupção em que a democracia significaria a dignidade humana. Aquilo que havia de racional no conceito irradiou-se nas

forças políticas da Revolução Francesa, imbricou-se com os bens materiais e foi absorvido pelo Estado burguês como proteção da propriedade. Mas causou impactos em meio ao trabalhador e sua organização e se tornou parcial, porque não avançou do direito individual para o universal. Misturou-se com o direito à propriedade privada dos meios de produção, com o direito à livre concorrência, aos monopólios, porém não tomou partido dos humilhados e se tornou a matriz do direito da sociedade burguesa. Essa foi a sua limitação, como de resto da própria Revolução Francesa.

Ao tratar dessas realizações incompletas, Bloch argumenta que, na sociedade socialista, o direito positivo irá desaparecer, por força da abolição da sociedade de classes. Seria um pensamento utópico concreto. A beleza humana deixaria a caverna dos artifícios para se apresentar ao sol da existência. No ambiente de dignidade, a boa alimentação, a moradia e a educação fariam parte de uma ―infância despreocupada‖ (BLOCH, 2006a, p. 17).

Da Revolução Francesa, o direito natural herdou aquilo que Bloch define como ―museu dos postulados jurìdicos‖ (BLOCH, 2002, p. 223). Limitou-se, na sua versão clássica, ao direito positivo. A fórmula consagrada na consigna jacobina de Liberdade, Igualdade, Fraternidade tornou-se abstrata. Reduziu-se a um direito intangível da vida humana, individual.

Marx (1982) condenou essa limitação e reivindicava da Escola Histórica do Direito81 tributária do direito alemão medieval da servidão e do Estado, não um relativismo, mas um direito efetivo, comum a todos os homens, com o Estado cedendo lugar à ―comunidade de interesses‖ (MARX, 1982, p. 1661).82 Nesse particular, distinguia o direito natural do ancien

régime, do direito natural de Kant, que era a autêntica contribuição da filosofia alemã à Revolução Francesa, produzida pelo sentimento de ―uma dignidade nova‖ (BLOCH, 2002, p. 225). Mas essa não chegou a existir.

O elemento decisivo para o futuro – a mudança de valores pela práxis – não foi alcançado. Vejamos um exemplo ilustrativo, citado por Bloch (2006a, p. 106-16), Fichte, no

81 Surgida no início do século XIX, na Alemanha, sob a influência do romantismo que influencia a preponderância da razão história sobre a razão abstrata, a Escola Histórica do Direito foi precursora do positivismo normativista. Nas palavras de Ureña Pastor, simbolizou a renúncia da burguesia, a ―todo intento de construção jurídica nacional, o que trouxe consigo a acomodação ao que estava dado e inconcluso‖ (PASTOR, 1986, p. 360).

82 Na sua crítica à Escola Histórica do Direito, Marx argumenta que nada na natureza autoriza o homem a explorar outros homens e que a propriedade privada dá base à servidão (MARX, 1982, p. 225-9). Em A

Sagrada Família, considera os direitos inerentes aos homens e o Estado, portanto, não pode ser confundido com a humanidade, como não se pode confundir emancipação política com emancipação humana. O homem é essencial e base de todas as atividades e condições humanas, não permitindo a confusão de meios humanos com meios políticos para a sua emancipação (MARX, 1982, p. 519-28).

escrito O Estado Comercial Fechado (Das Geschlossene Handelstaat), elaborou uma utopia social confinada num estado fechado, de felicidade socialista, em que o direito natural se resume no lema ―viver e deixar viver‖. Não individualista, o Estado não defendia a propriedade privada e, para ter o domínio da terra, o camponês precisa cultivá-la. O homem poderia dispor do seu corpo, da propriedade, desde que a torne produtiva, e da liberdade, sendo esta limitada pelos próprios indivíduos. A terra tem que ser concedida pelo Estado, e o direito à produção regeria as relações entre os homens.

Era como se fosse um retorno às antigas guildas, uma utopia anticapitalista regressiva, o que não se encontrava totalmente ausente na nostalgia do medievo de Saint-Simon (BLOCH, 2006a, p. 106). Pensamento equivocado, segundo Bloch (2006a), não deixou de ter seu lado positivo pelo sentimento humanista. E por ―desmascarar‖ a ―harmonia de interesses‖ da oferta e da procura, pressuposta por Adam Smith na livre concorrência – em lugar da ―livre luta de interesses" –, além do fato de Fichte, em sua utopia, pregar a extinção do exército, da nobreza feudal e a organização dos trabalhadores.

Fichte reduzia drasticamente os lucros do comércio e, em seu socialismo de Estado, considerava o ―Estado absoluto‖, incentivava a ―arte da razão‖ e a ―harmonia de indivìduos educados, moralmente emancipados como reino das belas almas‖ e do socialismo num único país, a saber a Alemanha (BLOCH, 2006b, p. 109). Sonhava em criar uma ―comunidade de eruditos‖ cooperativas de produção de trabalhadores, lastreando a transição futura para o socialismo.

Diferentemente da utopia de Fichte, os valores da burguesia continuam a se impor e, entre outras razões, existiu o fato da juventude continuar sendo educada nos moldes da Escola Histórica do Direito, que ensinava a aceitação da realidade tal como ela é considerando-a como a fonte do exercício da razão. Não se alcançou a liberdade, pretendida por Lenin, de que a cozinheira fosse capaz de ―Governar o Estado‖ (BLOCH, 2006a, p. 109). Fichte carecia de premissas políticas para tal, mas não a consideraria impossível: concebia a gestão do Estado como decorrente de um plano racional.

É entre esses dois polos – a aceitação da realidade como ela é e o engajamento na transformação da realidade – que o pensamento de Bloch se instaura como força de expressão. Exprimir não significa apenas constatar, compreender, mas anunciar ativamente a consciência da dicotomia da necessidade de liberdade e transformação ou da ordem e da resignação. O que Bloch desejava exprimir era: o socialismo não pode se resumir à nação germânica. Afinal, a utopia concreta acredita ou não acredita no progresso humano? A base da esperança de Fichte poderia ser o homem alemão, que ele acreditava conter o ―gérmen‖ do

aperfeiçoamento humano, mas a utopia de Bloch era universal: entre o individuo e a humanidade, ficava com a humanidade (BLOCH, 2006a, p. 109).

Bloch (2006b) debruça-se também sobre utopias de futuro pós-marxista como News from Nowhere (2002) de William Morris.83 O autor repudiava o capital, por considerá-lo imoral e sem estética humana, como era contra toda forma de mecanização da existência. Considerava o capitalismo ―feio‖, ―destrutivo‖, ―não natural‖ e defendia um ―socialismo artesão, um socialismo de produção caseira‖, partindo da percepção de que as fábricas eram ―a totalidade da peste da Idade Moderna‖ e teriam que ser afastadas (BLOCH, 2006b, p. 168- 9).

Morris prega nada mais que a radical mudança de valores, mas Bloch (2006a) o interpreta, como um utopista ―voltado para trás‖, que visava ao progresso por meio do retorno ao campo, sem ―intenção polìtica revolucionária‖ (BLOCH, 2006a, p. 169). Era um romântico, mas regressivo. Como John Ruskin, seu amigo e referência, não era reacionário, segundo Bloch (2006b, p. 169), mas visava ―o progresso a partir de um posto abandonado: a reação agrária e artesã em prol de um recomeço revolucionário‖.

Bloch (2006a) cita, também, o americano Edward Bellamy.84 Em Looking Backward: 2000-1887 (traduzido como Daqui a Cem Anos: revendo o futuro), narra a história de um rico homem de Boston que é soterrado, mergulha em sonho magnético e, ao despertar, no ano 2000, encontra uma América igualitária, sem favelas, bancos, bolsas de valores, tribunais e sem a circulação de dinheiro. Bloch considera Morris parte da intelectualidade ―ingênua e sentimental, de cunho neogótico e revolucionário a um cìrculo restrito‖, que deseja um ―capitalismo retificado‖ em lugar de superá-lo; com Bellamy, quase a mesma acidez: não há intenção reacionária no romancista, mas a utopia é a versão do socialismo centralista limitado aos ―desejos tìpicos do pequeno burguês bitolado‖ (BLOCH, 2006a, p. 167-9).

83 William Morris (1834-1896), escritor de muitas habilidades, nascido na Inglaterra, era arquiteto, desenhista e artesão inovador. Ativista político, estava interessado em saber como a sociedade iria mudar, título do capítulo XVII de News from Nowhere (Notícias de lugar nenhum), seguindo as indagações formuladas por Thomas More e William Blake. Como seu mestre, John Ruskin, estava comprometido a criticar o mundo à sua volta. Ao contrário de Ruskin, procurava criticar o socialismo no interior do socialismo. Foi um revolucionário político, um dos socialistas mais conhecidos da Inglaterra. Rejeitava a guerra e a violência. Era cético quanto aos modelos de progresso gradual. Seus personagens eram inocentes, mas ambivalentes quanto aos visitantes. Talvez, por não esquecerem as lições da história (MORRIS, 2002, p. 11-49).

84 Edward Bellamy (1850-1898) foi educado nos Estados Unidos e na Alemanha. Estudou direito, economia e foi jornalista. Começou a publicar ficção em 1879 e foi inspirador de um movimento socialista que prometia justiça econômica, inovação tecnológica, trabalho universal e igualdade social. Considerava a tecnologia o antídoto contra o darwinismo capitalista (BELLAMY, 1996, p. V-VI). Procurou comparar o século XIX ao século XXI, abrindo-se ao novo: a Idade do Ouro estava no futuro, não no passado.

Enquanto criticava Morris e Bellamy, Bloch também não podia deixar de reconhecer o inconformismo que os diferenciava daquilo que na Alemanha foi denominado do ―romantismo resignado‖ ou ―Kathedersozialismus” (―socialismo de cátedra‖). Löwy (2015) o identifica na virada do século XIX para o século XX nos cìrculos do ―mandarinato universitário‖, caracterìsticos de uma época em que as relações industriais apareciam como irreversíveis, sem possiblidade de retorno à época pré-capitalista. A partir e então o embate romântico se daria entre cultura e civilização (Kultur e Zivilisation). A ideia de Gemeinschaft como organismo vivo e preponderante tinha se volatilizado. Bloch percebeu a mudança dos tempos. Como percebeu a emergência do romantismo liberal (reformista) e do romantismo conservador (que ambicionava a imobilidade do mundo).

Bloch (2006a) não se deixa iludir pelas palavras, nem pelos sonhos. As duas utopias românticas – Morris e Bellamy – diferem, é verdade, das utopias conservadoras de Carlyle,85

partidário do neofeudalismo individualista que, apesar da ―rejeição ao mundo industrial‖, apelava à filantropia dos exploradores, comuns a todos os planos pré-marxistas de melhoria do mundo (BLOCH, 2006a, p. 170-1). Carlyle, para Bloch, sofria com a expansão das fábricas, mas como Saint-Simon considerava o operariado frágil na sua organização, embora vivesse em outra época, justamente quando o operariado despertava e entrava em choque com a burguesia.

Morris e Bellamy ainda se diferenciavam de utopias futuristas como aquela de H. G. Wells, no século XX, com a idealização de uma Arcádia em que socialistas burgueses, democráticos, assumiam o poder e, seguindo a escola liberal-burguesa, faziam os homens viverem como deuses (BLOCH, 2006a, p. 171-2). É um idílio futurista, Man like Gods, mas como as utopias burguesas terminam em ―disparates‖, resume-se a um capìtulo ―exótico‖ na história das utopias sem o germinar da utopia social. Teoricamente, segue a utopia de Proudhon e o socialismo se limita aos meios de pagamento, já que o capital é abolido e não produz mais-valia ou juros.

Há outras utopias reformistas, como o livro Progress and Poverty de Henry George que pregava o confisco da terra sem prejudicar os ganhos do capital industrial e comercial. Bloch (2006a) não os considera alquimistas do novum. Não via neles o esplendor da terra dos

85 Thomas Carlyle (1795-1881), tradutor de Wilhelm Meister de Goethe, escreveu a História da Revolução

Francesa, que marca o inìcio da sua trajetória como escritor. Bloch o considera ―muito moral‖, no princìpio, ―patriarcalista‖, mais tarde, tendo influenciado com seu pensamento o ―culto ao Führer‖, sendo o primeiro a estabelecer a relação líder-seguidor na sua utopia reacionária e tardia do neofeudalismo industrial (BLOCH, 2006a, p. 170). Concebia o liberalismo como a ―raiz de todo o mal‖, imaginando ―aguçada‖ consciência de classe do proletariado.

fracos, de Canãa ou do jardim do éden, mas um graal rodeado por antigos tabus. Paliativos ―ridicularizados‖, como aconteceu com o ―socialismo do coração‖ de Bellamy, nada mais do que a indisposição para admitir as ―contradições‖ entre capital e trabalho a que se referiu Marx (BLOCH, 2006a, p. 173).

Na reverberação das utopias, Bloch (2006a) condena os que se ―esquivam‖ de localizar o duelo entre o capital e o trabalho, entre a era do ―pequeno cidadão‖ e dos ―grandes lucros‖, entre a ―superprodução‖ e o ―emprego garantido‖ e a ―utopia social sem brincadeira e descaminho‖, que seria a utopia concreta da revolução resultado das utopias antes e depois de Marx (BLOCH, 2006a, p. 163-4). Distingue a voz da dialética materialista no mundo em ebulição e em movimento antecipatório, visível ou não. Ouvi-las, visualizá-las, torná-las realidade exige o abraçar do espírito do novum e das luzes no que se refere ao valor humano.

O esclarecimento que falta nessas vozes é ―a rejeição do homem à tutela que ele próprio se impõe‖ (BLOCH, 2002, p. 9). Desdobra-se no despertar da percepção do homem para a realidade de que o capitalismo é restrito, há muito exaurido, sem vínculos com o conceito filosófico da antecipação e da realidade, mas é dessa não antecipação que a sociedade burguesa se nutre.

A filosofia marxista é a do futuro, portanto também a do futuro no passado. Ela, assim, nessa consciência de linhas de frente unidas, teoria-práxis viva tendência compreendida, teoria-práxis afeita ao evento, conjurada com o

novum. E permanece sendo decisivo o seguinte: a luz em cujo brilho o todo como processo inconcluso e retratado e promovido chama-se docta spes, esperança compreendida em termos dialético-materialistas. O tema fundamental da filosofia, de uma filosofia que permanece e é enquanto vem a ser, é a pátria que ainda não veio a ser, ainda não alcançada, assim como ela está se formando, construindo-se na luta dialético-materialista do novo com o velho (BLOCH, 2005, p. 19-20).

A filosofia do vir a ser não se encontra vigorosamente em curso, porém existe para aqueles que têm o novum diante de si. Essa tendência é identificável facilmente em Bloch (2006a) quando encontra na filosofia da Antiguidade, da Idade Média e do Renascimento elementos da mediação utópica. No Renascimento,86 o trabalho perdeu o caráter degradante

86 Pelas páginas escritas por Bloch (1974) sobre a filosofia renascentista, circulam Marsilio Ficino, autor das primeiras traduções de Platão e Plotino diretamente do grego, antes feitas a partir do árabe, imprimindo vitalidade e beleza aos conceitos; Tommaso Campanella, autor de A Cidade do Sol em cuja filosofia une os conceitos de poder, sabedoria e amor, além da doutrina do Estado baseado na ordem que influenciou o centralismo político espanhol; Paracelso, nascido Theophrastus Bombastus Paracelsus von Hohenjeiom e Jakob Böheme: um médico e filósofo itinerante, o outro sapateiro culto, ambos dedicados a estudar o homem e suas relações com a natureza, ambos confiantes do que o homem conduzirá o mundo à sua essência autêntica; o filósofo Francis Bacon, autor de Nova Atlântica e Novum Organum, que Bloch definiria como o renascentista dos novos tempos; e, ainda, Giambattista Vico, mesmo não pertencendo

que ostentava nas sociedades escravistas da Grécia e da Roma Antiga, o que ele não nega, deve-se à burguesia e ao capitalismo. Dos avanços, os mais expressivos seriam as mudanças das bases do comércio e a ascensão da indústria e, como consequência, o amadurecimento do valor do indivíduo.

O fenômeno renovador acontece no teatro, na pintura, na música, nas descobertas de Cristóvão Colombo e Fernando de Magalhães, nos avanços da ciência e na vitória do postulado heliocentrista. Ao descobrir as novas dimensões do homem e valorizá-las, o Renascimento desafia os céus a trazer o paraíso para a terra, na forma da revolução camponesa liderada na Alemanha por Münzer e nas viagens de circunavegação à procura do antigo Éden.

A ponta de lança do princípio da esperança em Bloch (2006b) é a crença de que a utopia vive no mundo: ―À distância, as coisas já acontecidas tornam-se menores, as esperadas tornam-se maiores. Elas se alimentam da necessidade que se tem delas e crescem pelo fato de encontrarem um ponto final‖ (BLOCH, 2006b, p. 367). Isto, filosoficamente, corresponderia à proximidade da utopia, só que sem o ponto final dada à infinitude dos sonhos humanos.

A palavra utopia expandiu-se e foi banalizada no curso do tempo, tendendo a perder o sentido e ser relegada a um plano inferior pela tecnologia e pela vigorosa ofensiva conservadora e niilista. No passado, quando Bloch (2005) cunhou a expressão ―utopia concreta‖, significava o nascimento de um mundo novo. Ao contrário da distinção entre socialismo utópico e socialismo cientifico, na clássica definição de Friedrich Engels, procurava unir as duas vertentes. A procura convicta de desenvolvê-la em The Spirit of Utopia (Geist der Utopie), Thomas Münzer, Teólogo da Revolução e em O Princípio Esperança, motivou Bloch a beber das teorias revolucionárias de Gustav Landauer (La Révolution) e das experiências de Thomaz Münzer, da cultura romântica alemã e de certas tradições culturais judaicas, como o profetismo e o messianismo (LÖWY, 2007, p. 165-7).

Com a dissolução da URSS, tornou-se sinônimo da impossibilidade, do irrealizável, de algo sem base na realidade. Tornou-se, fonte da corrente filosófica da distopia, um mundo estagnado pelas pesadas cortinas do autoritarismo, do totalitarismo, da ausência de liberdade, do poder elitizado e da violência banalizada. Mas essas são situações provisórias, não definitivas, decorrentes dos impasses do socialismo. Talvez, não uma secularização, nem um