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V ALIDITET OG RELIABILITET

In document Forbrukervaner ved skokjøp (sider 26-32)

Com base em nosso referencial teórico, verificamos que o discurso tem um poder construtivo tríplice: cria ou reconstitui conhecimentos e crenças; estabelece relações sociais e produz ou reproduz identidades, o que confere a análise crítica um caráter interpretativo, explanatório e emancipatório. O que faremos a seguir, portanto, é uma reflexão a partir dos textos analisados sobre a maneira como esses textos operam nas práticas sociais, já que toda

pesquisa social crítica deve ser reflexiva também a respeito de sua própria prática.

Existem marcas identitárias construídas nos perfis jornalísticos que reafirmam as diferenças entre homens e mulheres diante da multiplicidade de papéis sociais experimentados por cada um, apesar desses textos terem os mesmos objetivos de comunicação (apresentar a vida particular do (a) entrevistado (a); mostrar o que faz e como faz). Observamos que a dicotomia público/privado, subjacente a várias segregações socioculturais, como a divisão social do espaço e do trabalho (BOURDIEU, 2007; PERROT, 2007) e questionada por feministas e historiadoras durante décadas, constitui uma recorrência nos perfis analisados.

Retornamos aos autores que embasaram nossa discussão teórica constantemente, em busca de respaldo para as dicotomias, como forma de justificar que as diferenças ainda persistem na forma de oposições binárias. Com base no arcabouço teórico da ADC proposto por Chouliaraki & Fairclough (1999); Fairclough (2001 e 2003a), observamos que a mídia não só incorpora elementos da realidade, mas também resignifica essa mesma realidade, podendo ou não reforçá-la. Logo, a notícia não é um fenômeno natural, mas é socialmente determinada (SGARBIERI, 2003), visto que é produzida por pessoas que fazem parte de uma rede de relações sociais, revelando não só as próprias ideologias, mas também as do grupo social a que pertencem.

O discurso é constituído pelo contexto social, assim como através do discurso se constitui esse mesmo contexto. Desse modo, entendemos os significados como construções sociais e, portanto, passíveis de mudança. As diferentes posições de sujeito ocupadas por homens e mulheres nos textos contribuem para reforçar as diferenças socialmente construídas ao longo da história, isto é, para legitimar que os lugares ocupados por homens e mulheres são distintos entre si. Enquanto depreendemos de algumas vozes nos textos que o lugar da mulher é no lar, cuidando da família e que o lugar do homem é no seu ambiente do trabalho buscando reconhecimento social, outras vozes afirmam que a luta das mulheres deve ser contínua e incessante, embora elas já tenham conquistado novos espaços sociais. Mas que conquistas foram concretizadas de fato, se o campo representacional das práticas discursivas midiáticas restringe a atuação das mulheres, punindo-as?

Apesar de todos os discursos em prol da igualdade e as conquistas femininas em termo de educação, participação no mercado de trabalho e direitos civis, a dominação masculina permanece, o que segundo Bourdieu, deve-se ao fato de a própria mudança da condição feminina permanecer ligada à tradicional oposição masculino/feminino. Dessa forma, embora os tempos atuais caracterizem-se pela fragmentação e multiplicidade de identidades, as quais se traduzem nas diversas formas de ser homem e ser mulher na sociedade, a produção jornalística ainda recai em modelos cristalizados que reproduzem as desigualdades.

Por um lado, esses textos são moldados e determinados por estruturas sociais, dialogam com outros textos e rememoram sentidos já circulantes na sociedade. Por outro, à medida que reproduzem e legitimam tais sentidos, reificando padrões de comportamento e dicotomias, os discursos agem sobre os sujeitos, sobre o mundo e a sociedade. Com efeito, pelas experiências distintas que cada indivíduo acumula é impossível buscar a identificação imediata e total e todo (a) leitor (a) com o texto em uma única construção. Daí, a mulher mãe abnegada que se preocupa somente com os cuidados da família e do lar não é uma realidade para muitas mulheres, assim como a mulher bem-sucedida profissionalmente não corresponde à verdade de tantas outras. Cabe aqui questionarmos o fato de serem trazidas à tona representações sociais de gênero, constitutivas das configurações identitárias, ainda fundadas no discurso patriarcalista.

Definindo a prática jornalística como meio criativo de comunicação, entendemos que ela possui, em seu cerne, o potencial de inovação, basta romper com as obviedades, o que, no caso da comunicação noticiosa com enfoque na pessoa, pode ser bem mais eficaz - ao dar visibilidade às conquistas femininas - que insistir na reprodução dos papéis sociais atribuídos a ambos os gêneros ao longo da história. Observamos, porém, na análise do discurso dos perfis jornalísticos, uma luta interdiscursiva em que coexistem e se opõem, principalmente, dois discursos: o tradicional de submissão e fragilização da mulher e um novo discurso de emancipação feminina. Da mesma forma, coexistem uma identidade de gênero tradicional que, de certa forma, supervaloriza o homem, e uma que, timidamente, procura se contrapor ao discurso dominante característico da organização patriarcal.

A solução, talvez seja a conscientização de que os sujeitos agem socialmente e, portanto, têm responsabilidade sobre sua ação. Uma representação discursiva veiculada em jornal de circulação estadual não é apenas uma representação, ela tem um lugar no universo da produção de sentidos. Por isso, deve ser planejada e produzida responsavelmente evitando a reprodução e manutenção das desigualdades.

Nesse sentido, a responsabilidade das mídias reside na seleção dos acontecimentos, na identificação das fontes, bem como na prática da citação. Assim, as mesmas deveriam questionar-se sobre a maneira pela qual todo discurso relatado impõe certa interpretação, entendendo que não podem pretender à transparência, visto que o acontecimento é o resultado de uma construção, ou como postula Charaudeau (2006,p.99) “ o acontecimento nasce, vive e morre numa dialética permanente da ordem e da desordem, dialética que pode estar na natureza, mas cuja percepção e significância dependem de um sujeito que interpreta o mundo”.

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