"Desde cedo, a área da saúde esteve ligada a mim”
A enfermeira Rita Ivana Barbosa Gomes viu na formação e no aperfeiçoamento dos profissionais de saúde a chance de atingir sua realização profissional
ROBERTA GOMES Da Equipe de O Estado
Dona de uma carreira de sucesso, cujos objetivos foram alcançados com muita determinação, a enfermeira Rita Ivana Barbosa Gomes se tornou referência na sua área, principalmente no âmbito acadêmico. Atualmente, 13 anos depois da graduação pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA), além de seguir com a carreira acadêmica na mesma instituição, ela é proprietária do Instituto Florence, criado há sete anos para oferecer cursos técnicos e superiores na área de saúde e, recentemente, Pedagogia. Filha do casal Antonio Ives Oliveira Gomes, já falecido, e de Teresinha de Jesus Barbosa Gomes, sócia da filha no Instituto Florence, Rita Ivana nasceu em Mirador, município do interior do Maranhão. Apesar de ter passado apenas os três primeiros anos de sua vida nesse município, tem algumas fortes recordações da época, fato que surpreende até a sua mãe. “Recordo-me bastante de algumas cenas do interior, como o rio, a praça em que minha mãe me levava para passear, entre outras coisas. Mamãe mesma às vezes me diz que não sabe como eu posso me lembrar disso, já que eu era tão pequena”, comenta sorrindo. Talvez, segundo ela, tenha sido em Mirador mesmo que o seu destino profissional tenha dado os primeiros sinais. “Nasci na casa dos meus pais, que era em frente ao primeiro hospital da cidade, que estava começando a ser construído no dia em que eu nasci. De repente, já era um sinal de que eu estaria ligada diretamente à área da saúde”, diz.
A caçula de seis filhos – Antônio José, Maria Teresa, Maria do Socorro, Pedro Ives e Filomena Regina –, Rita Ivana Gomes nasceu cinco anos depois da quinta filha e se tornou o xodó do pai. “Eu era muito ligada com meu pai e sou bastante parecida com ele, também. Minha mãe é aquela mulher lutadora, mais rígida e que queria resultados. Meu pai, ao contrário, era mais sentimentalista, sonhador e muito ligado às questões culturais. Muito católico também. Era ele que, em casa, puxava a reza do terço. Lembro-me que eu adorava sentar no colo dele na Igreja dos Remédios. Emociono-me bastante quando vou lá”, afirma ela, que desde muito cedo teve que freqüentar periodicamente hospitais por causa de uma doença neurológica que afetou o pai muito cedo.
Rita Ivana conta que foi por isso que vieram para São Luís, no início da década de 70. “Meu pai vivia em tratamento e se internava pelo menos duas ou três vezes por ano, principalmente na Santa Casa. Como muitas vezes mamãe não tinha com quem nos deixar, eu e meus irmãos ficávamos lá no hospital, zanzando e observando tudo. Posso dizer que conheço cada canto da Santa Casa. E mais uma vez vejo o quanto desde cedo a área da saúde esteve ligada a mim”, pontua. Seu pai era funcionário dos Correios, mas se aposentou cedo por causa da doença, e sua mãe, com quase 40 anos, passou no concurso para o Instituto Nacional de Assistência Médica e Previdência Social (Inamps). “Acabou que tivemos dentro de casa os papéis trocados. Meu pai cuidava dos filhos, dos estudos e minha mãe cobrava quando chegava em casa”, conta Rita Ivana, sorrindo.
Educação
De acordo com ela, todos sempre tiveram comportamento e desempenho exemplar na escola. Muitas vezes, conta Rita Ivana, quando os professores falavam de algo na sala de aula pela primeira vez, ela já sabia porque o pai já havia ensinado. “Nossas brincadeiras em casa eram sempre envolvendo educação. Quando, por exemplo, pedia para papai um „copão‟ com água, ele sempre me corrigia: „Ritinha, não é „copão‟ é copázio! ‟. E assim nós íamos aprendendo tudo”, revela ela, que estudou até a 4ª série do Ensino Fundamental no Sesi, da 5ª à 8ª no Colégio Dom Bosco e o Ensino Médio na Escola Técnica. “Fui a única a estudar em colégio particular porque minha irmã pagava. Depois mamãe viu que estava ficando pesado para ela e fui para a Escola Técnica, onde me formei em Química. Logo depois passei para Economia e Enfermagem”, conta. Já nessa época da escola, Rita Ivana passou a demonstrar sua inclinação para lidar com o público e a lutar por seus direitos. No Dom Bosco fez parte do grupo de teatro, encenando várias peças. Mas foi na Escola Técnica que começou a se envolver com o Movimento Estudantil. Foi integrante do grêmio, primeiro passo para, na UFMA, fazer parte Diretório Acadêmico de Enfermagem, do Diretório Central dos Estudantes (DCE), e de outras entidades estudantis. “O movimento estudantil foi essencial na minha formação. Hoje digo para os meus alunos que se interessem, que não pensem duas vezes em se envolver no movimento. É uma experiência fantástica!”, frisa Rita Ivana Gomes. Opção pela área educacional
Apesar de ter ingressado primeiramente no curso de Economia, no qual chegou a cursar quatro períodos, foi no de Enfermagem que ela se encontrou verdadeiramente. “No começo, tentei conciliar os dois cursos. Depois tranquei Enfermagem para fazer
Economia, e Economia para fazer Enfermagem. Fiquei com a área da saúde mesmo. Mas fazer o curso na área das Ciências Sociais foi muito interessante também”, afirma a enfermeira.
No início dos estudos de Enfermagem, escolha que foi apoiada pela família, Rita Ivana já tinha um foco bem definido: queria investir na formação dos profissionais, com o claro objetivo de contribuir para uma maior humanização da profissão, dos atendimentos. “Desde cedo, a área educacional também esteve presente na minha vida. Lá em casa, como cada um dos meus irmãos era muito bom em alguma disciplina, muita gente que vinha do interior minha mãe acolhia lá em casa. Era todo mundo estudando para o vestibular. Uma época, montamos um cursinho para dar aulas. Foi muito interessante”, revela ela, que desde os primeiros períodos já tinha escolhido que seguiria a carreira acadêmica.
Logo que se graduou, em 1995, Rita Ivana foi aprovada no concurso público do Hospital Universitário Presidente Dutra, onde trabalhou na clínica cirúrgica. Eu tinha que atuar no hospital e ter experiência profissional. Mas o que sempre quis mesmo foi dar aulas. Na mesma época, passei no concurso para professor efetivo no Departamento de Enfermagem”, destaca a docente, que teve que entrar com uma liminar porque não tinha os três anos de experiência. “No começo sofri um pouco com as críticas porque sempre fui do movimento estudantil, lutando pelos direitos dos alunos e agora eu estava do outro lado da história. Mas em pouco tempo essa resistência foi acabando”, conta. Sempre achando que a formação do profissional de Enfermagem poderia ser melhor, mais humana e a profissão mais valorizada, Rita Ivana mostrou seu lado também empreendedora e partiu para instalar uma instituição de formação particular. “Profissionais da saúde bem qualificados, enfermeiros competentes sempre estão sendo procurados. A valorização desses profissionais é importantíssima, porque são eles que cuidam diretamente dos pacientes e precisam estar bastante preparados para um bom atendimento”, declara Rita, que criou, em parceria com a mãe, o Instituto Florence, há sete anos oferecendo cursos técnicos e há um ano e meio com os cursos superiores e pós-graduação.
“Eu sou muito feliz em ter chegado aos meus objetivos. Momentos difíceis ocorreram, mas eu nunca pensei em desistir. Hoje é muito gratificante ver meus alunos satisfeitos e empolgados com o que lhes oferecemos. Engraçado é que me envolvo com eles e muitos egressos vêm a minha procura pedir opinião sobre o que podem fazer para o futuro”, comemora.
Admiração pela mãe e „corujice‟ com os filhos
Mesmo muito objetiva na sua vida profissional, deixando às vezes de lado outras questões, Rita Ivana Barbosa Gomes conseguiu construir uma família e amizades, que, segundo ela, são a sua grande alegria. “Minha mãe é uma mulher lutadora, que, até hoje, com mais de 70 anos, está aqui comigo trabalhando. Sou a sua segunda geração e acho que tenho a mesma garra que ela para dar conta de tudo”, comenta ela, que casou pela primeira vez aos 20 anos, no início dos estudos acadêmicos, com o advogado Pedro Duailibe, pai dos seus dois filhos e, hoje, um grande amigo. “Foi um amor do movimento estudantil. Ele fazia Farmácia e depois fez Direito. Namoramos um ano e casamos. Foi um choque para a família, mas uma felicidade ao mesmo tempo”, diz a
mãe „coruja‟ – como ela mesma se define – de Mariana e Pedro, 16 e 13 anos respectivamente.
E um dos momentos mais difíceis da vida de Rita Ivana Gomes foi a gravidez do filho Pedro. “Quando fiquei grávida do Pedrinho, descobri que pouco tempo antes eu havia tido rubéola. Foi um susto porque minhas taxas estavam todas alteradas e o médico disse que eu teria que me preparar para ter um filho com deficiências físicas ou mentais. Foi difícil, mas resolvemos seguir em frente, tanto que freqüentei a Apae (Associação dos Pais e Amigos dos Excepcionais) e vi tantas mães dedicadas e lutando por seus filhos. Vi que eu podia sim ter forças e receber meu filho de qualquer maneira, com a deficiência que ele tivesse”, conta ela, ressaltando a fé que lhe ajudou a passar por esse momento e dizendo que o filho acabou nascendo perfeito, sem seqüela nenhuma. Com seis anos de união, o casamento se desfez. “Soubemos avaliar e ver que não dava mais certo. Acredito que as pessoas podem parar e refazer suas vidas. Graças a Deus, Pedro é um pai maravilhoso e, apesar do casamento não ter dado certo, somos amigos”, diz Rita Ivana, que há três anos se uniu a Renan Morais, veterinário, que ela e os filhos dizem ser a peça que faltava e se encaixou perfeitamente. “Ele é fantástico. Somos amigos, companheiros, parceiros. E ele com meus filhos também é maravilhoso”. É com Renan que Rita Ivana gosta de curtir o tempo livre, normalmente em casa, ou saindo para almoçar em bons restaurantes. “Adoramos receber nossos amigos em casa, seja em almoço, jantar ou apenas um café. Não sou muito de sair, mas, se eu pudesse, fazia da minha casa uma festa o tempo todo”, revela a enfermeira aos risos. Segundo ela, o café é o seu forte, sendo reconhecido pelo cheiro por toda a vizinhança do condomínio em que vive, no bairro Olho d‟Água. Além do café, Rita é fã de chocolate – um dos seus filmes favoritos é A Fantástica Fábrica de Chocolate. “Não tem jeito, eu assisto milhares de vezes e não me canso. Mas gosto da primeira versão. Adoro ver aquele exemplo daquele menino humilde e tão puro”, frisa Rita Ivana, que tem facilidade para perdoar as pessoas e uma fé em Deus muito forte. Assim como ela, seus dois filhos também são bastante intuitivos e percebem rapidamente quando a mãe está triste ou chateada com alguma coisa. “Eles são naturalmente assim. E quando percebem algo errado, ou eles mesmos estão com problemas, não pensam duas vezes em sentar e conversar. „Vamos mãe, vamos discutir nossos problemas‟. São lindos!”, afirma.
AUTO-RETRATO
Nome: Rita Ivana Barbosa Gomes Naturalidade: Mirador (MA) Nascimento: 7 de agosto de 1968
Filiação: Antônio Ives Oliveira Gomes (falecido) e Teresinha de Jesus Barbosa Gomes Estado Civil: Casada com Renan Morais
Filhos: Mariana (16) e Pedro (13) Religião: Católica
Profissão:Enfermeira, mestre em Saúde e Meio Ambiente, docente da UFMA e proprietária do Instituto Florence
Qualidade: Solidariedade Defeito: Teimosia
Alegria: Família
Tristeza:Crianças doentes Saudade: Do pai