Pesquisadora que recebeu o reconhecimento internacional lamenta que as autoridades não dêem a devida atenção à riqueza da flora medicinal brasileira Inara Rodrigues
Da Editoria de Cidade
A professora e farmacêutica Terezinha de Jesus Almeida Silva Rêgo tem dedicado toda a sua vida ao estudo das plantas medicinais, que garante ser a sua maior paixão. Suas pesquisas já lhe renderam reconhecimento nacional e internacional, e hoje ela é uma das grandes referências no ramo da fitoterapia mundial.
Filha do comerciante Joaquim Pedro da Silva e da professora normalista Francisca da Conceição Almeida Silva, ambos falecidos, Terezinha Rêgo, 70 anos, nasceu em pleno Carnaval, no dia 5 de fevereiro de 1933, em São Luís. Aos oito anos de idade já demonstrava grande interesse pelas pesquisas com plantas. Sua primeira experiência aconteceu no porão do casarão onde nasceu, na rua da Paz, 151. Sua mãe cultivava dálias coloridas e a pequena Terezinha resolveu plantar amendoins. “O amendoim me chamou atenção porque quando eu espetava um alfinete nele, percebia que saía um óleo amarelo, que logo depois eu descobri que era o óleo essencial da semente do amendoim. Aquilo me fascinou e decidi plantá-lo em volta do canteiro de dálias, mas atraiu ratos, que acabaram com os amendoins e com as dálias e minha mãe, muito chateada, resolveu cimentar tudo”, lembra.
Apesar da experiência fracassada, Terezinha não desistiu. Misturava suas brincadeiras de infância com seus sete irmãos e suas idas ao sítio de uma tia a suas experiências com plantas e suas aulas no já extinto colégio Rosa Castro, onde cursou o primário e o ginásio, hoje ensino fundamental. Como sempre foi uma aluna muito aplicada, a leitura se tornou um de seus principais passatempos. O principal estímulo para seus estudos vinha de sua família, principalmente da sua mãe, que considera uma heroína.
Assim como a infância, sua adolescência foi bastante tranqüila. Gostava de ir a festas, realizar um dos seus maiores prazeres: dançar. “Gosto muito de dançar e até hoje freqüento serestas e outras festas com o meu marido. Todas as sextas-feiras vamos ao baile do Clube Jaguarema. Também gosto muito de Carnaval”, confessa. Assim que terminou o 2º grau no colégio Liceu Maranhense, Terezinha Rêgo prestou vestibular na Universidade Federal do Maranhão e ingressou no curso de Farmácia. Nessa época, conheceu seu marido, o então estudante de Odontologia Arthur Nunes do Rêgo, que hoje é cirurgião-dentista aposentado. Após sete anos de namoro, casou-se com ele e a união completará 40 anos no próximo dia 25. “Digo sempre que o meu marido foi a sorte grande da minha vida”, afirma.
Os frutos do casamento com Arthur são suas duas filhas. A mais nova, Tânia, 36 anos, é formada em Educação Física pela UFMA e em Música pela Universidade de Brasília e atualmente é professora do Departamento de Artes da UFMA. A mais velha, Telma, 37 anos, é formada em Filosofia pela Ufma e atualmente mora no Rio de Janeiro, onde leciona em uma universidade. Tem um filho de um ano, Vicente, e é casada com o artista plástico Marçal Athaíde, de quem a professora tem grande admiração.
Terezinha e seu marido ainda possuem um filho de criação, Fábio, 28 anos, que trabalha junto com ela no herbário da UFMA e lhes deu dois netos: Vinícius, 3 anos, e Gabriel, 2 anos.
Carreira – Terezinha Rêgo teve a sua primeira experiência como docente ainda na universidade, como assistente voluntária da professora Antônia Arruda Soares. Assim que se formou, em 1957, começou a lecionar na disciplina de Botânica, no curso de Farmácia da UFMA, como professora substituta. Três anos depois, foi para São Paulo fazer o curso de livre-docência e quando retornou assumiu a disciplina de Botânica Aplicada à Farmácia, já como professora titular. Fez especialização em Fitoterapia na cidade de Havana, em Cuba, e possui doutorado em Botânica Geral.
Em 1961, começou a desenvolver um programa de fitoterapia voltado para a periferia de São Luís. O objetivo era proporcionar melhoria de vida das comunidades mais carentes. “Essas pessoas vêm do interior e não encontram uma estrutura adequada de vida aqui. Como são acostumados à medicina popular, nossa proposta foi dar a eles referências de onde encontrar e como utilizar as plantas medicinais, desde o cultivo”, ressalta.
A primeira horta medicinal do projeto foi implantada em uma invasão chamada Padre Xavier, oportunidade em que a farmacêutica lançou o seu primeiro livro, intitulado “50 Chás Medicinais da Flora do Maranhão”, que já se encontra com sua 4ª edição esgotada.
A partir daí, Terezinha começou a sua luta em fazer um levantamento da flora medicinal do Maranhão. Isso só foi possível porque foi indicada pelo Conselho Nacional de Pesquisa (CNPQ) como coordenadora do programa Flora do Norte/Nordeste. Logo em seguida, foi indicada como representante da Sociedade de Botânica do Brasil no Maranhão, cargo que mantém até hoje. “Tudo isso facilitou
muito para que eu conseguisse os recursos para fazer o levantamento da flora maranhense. Catalogamos 16.800 espécies de plantas, sendo que 400 delas são medicinais”, revela.
Em janeiro de 1984, foi criado o Herbário Ático Seabra, que recebeu esse nome em homenagem ao primeiro professor da disciplina de Botânica Aplicada à Farmácia da UFMA. O herbário é registrado internacionalmente e hoje possui 59 produtos fitoterápicos registrados, todos desenvolvidos pela professora.
Reconhecimento - Toda a dedicação de Terezinha Rêgo à fitoterapia lhe rendeu várias glórias e homenagens. Em 1992, o seu trabalho foi incluído na Agenda 21 da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Eco – 92. Em 1997, teve seu nome incluído no livro norte-americano Who‟s Who in the World (“Quem é quem no mundo”), que divulga os grandes nomes da área da ciência e tecnologia mundial. Também é membro da Academia Nacional de Farmácia e no ano passado foi homenageada pelo Conselho Nacional de Farmácia como farmacêutica emérita. Recebeu o título de comendadora da Associação Comercial do Maranhão e após o lançamento do seu segundo livro, “Fitogeografia das Plantas Medicinais do Maranhão”, tornou-se membro do Instituto Histórico e Geográfico.
De todas essas homenagens, a que mais a emocionou foi a recebida pela escola de samba maranhense Favela do Samba, no Carnaval de 2000. “Fico muito feliz em receber essas homenagens em vida, por isso fui para a avenida e sei que não fiz feio”, lembra.
O trabalho desenvolvido pela farmacêutica é tão relevante para a sociedade que na semana passada a Câmara de Comércio e Indústria Brasil-China no Maranhão enviou três dos seus medicamentos para a China, com a esperança de uma possível cura para a pneumonia asiática.
Entre as várias viagens que já fez divulgando a fitoterapia maranhense, destaca-se a ida à Córdoba, na Espanha, em 1993, onde recebeu um prêmio por um trabalho desenvolvido com os índios Canela de Barra do Corda-MA; e a visita ao maior jardim do mundo, o Botanic Garden, nos Estados Unidos. Terezinha também já ministrou cursos e proferiu palestras por todo o Brasil e já divulgou seu trabalho por toda a Europa e na Argentina.
perfil 11/05/2003