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Este trabalho é resultado da investigação efetuada em cinco reportagens (perfis) impressas e veiculadas no jornal O Estado do Maranhão, que colocam a mulher como personagem central ou ainda que discutem, de alguma forma, sua presença na cultura e na sociedade.

Nossa intenção, ao desenvolver esta pesquisa, foi analisar como se constitui discursivamente a identidade social da mulher ludovicense que compõe os perfis jornalísticos, as relações de poder presentes nessa prática e as implicações sociais da mesma. O corpus da pesquisa consiste em cinco perfis, sendo que destes foram selecionados vinte e seis excertos para análise, por considerarmos os mais significativos para o nosso estudo. Ao longo de nossas análises, constatamos que as reportagens midiáticas analisadas são constituídas por uma pluralidade de discursos que se intercruzam na produção de sentidos e, portanto, das imagens de gênero aí movimentadas e (re)produzidas. Em algumas reportagens o discurso jornalístico figura na produção de sentidos que contribuem para a reprodução de estruturas sociais hegemônicas e reforçam as divisões culturalmente estabelecidas entre o feminino e o masculino.

Nesse sentido, o recorte (10) da Seção 5.4.3 do capítulo 5.4, que faz parte do perfil de Marilea Campos, traz em sua formulação marcas da condição da mulher ditadas pelo modelo patriarcal de família, no qual a identidade materna é grande representação feminina, apesar de significativas transformações nas relações sociais familiares. Houve mudanças, mas essas mudanças não foram suficientes para apagar esses sentidos cristalizados; afinal ainda hoje, a mulher é a principal responsável pelos deveres da casa e pelo cuidado com os filhos, por exemplo.

Observamos, ainda, que nas reportagens analisadas se produz um efeito de denúncia. Há asserções que produzem esse efeito, uma vez que apontam para a falta de igualdade de direitos e deveres entre homens e mulheres. Essa falta significa nos textos dos perfis jornalísticos e direciona os sentidos para a necessidade de as mulheres se mobilizarem e permanecerem na luta pela igualdade, já que “conquistas” importantes foram alcançadas.

Nessa perspectiva, o excerto (11) que também faz parte do perfil de Marilea Campos dos Santos Costa se configura como uma denúncia de que apesar da mulher hoje ocupar cargos antes exclusivamente masculinos, ela é “obrigada” a acumular tarefas e a se dividir entre o mundo do trabalho e o da família. Concluímos, então, que os textos trabalhados denunciam a discriminação à mulher, convocando-a a lutar por melhores condições de vida e de trabalho e pela igualdade de direitos e deveres entre os sexos, é como transparece, por exemplo, no enunciado (12), que também é parte do perfil de Marilea Campos.

Os excertos acima citados demonstram que as mulheres têm que lutar e, muitas vezes, enfrentam sacrifícios para conquistar ou estabelecer espaços não só no mercado de trabalho, mas também na sociedade, os quais já deveriam ser direitos naturais. Entretanto, a questão da emancipação da mulher aparece em todos os perfis, configura-se, certamente, o tema mais recorrente. Assim, a idéia da mulher emancipada fornece o elemento central da construção da “nova mulher”.

Essa “nova mulher” apresentada nos perfis desloca a mulher de papéis a serem desempenhados e a coloca no ideário liberal de realização pessoal e sucesso profissional. Desse modo, os discursos mantiveram a postura das mulheres como grandes profissionais pelo destaque que elas têm na sociedade. Não há nos perfis jornalísticos a inserção da mulher cotidiana: as mulheres convidadas pelo jornal para aparecerem na sessão são mulheres que marcaram, de forma socialmente privilegiada, sua presença.

Nesse caso, nossas análises servem para reforçar a idéia defendida por Van Dijk (2008) de que pelo uso seletivo de fontes de informações, rotinas jornalísticas consagradas e seleção de assuntos para histórias, a mídia jornalística decide quais atores serão representados na arena pública, o que será dito a respeito deles e, em especial, como será dito. Portanto, se a um tempo a mulher é trazida para um espaço midiático profissional, ao mesmo tempo, o discurso se mantém hegemônico, haja vista não haver ligação entre os papéis tradicionalmente estabelecidos para a mulher, ficando muitas vezes como uma tarefa excêntrica, o que podemos notar no exemplo (11), anteriormente citado. Aqui, o gosto pelas tarefas domésticas é representado

pela entrevistada como se fosse uma função muito diferente das culturalmente impostas às mulheres.

Essas reportagens começam a dar visibilidade social à mulher bem- sucedida profissionalmente e as apresentam como mulheres fortes e vencedoras. Nesse caso, o termo “vencedora” remete a uma pluralidade de sentido: “vencer na vida”, “vencer as barreiras sociais”, “vencer os machismos”. Isto se dá porque “vencer rememora sentidos de disputa em que um se sobrepõe ao outro” (AUGUSTINI; SILVA, 2007, P. 18)Esses perfis sustentam o imaginário social e, sobretudo, o imaginário feminino de que é possível “vencer”, isto é, chegar a ocupar um cargo considerado masculino e ser bem- sucedida, o que opera como reforço à perseverança da mulher na luta pela igualdade entre os sexos.

Defendemos nossa posição de que esse estudo serve para ilustrar alguma das positividades da Linguística Sistêmico- Funcional em união com a ADC, como um arcabouço teórico a ser utilizado para compreender como as identidades são representadas e como os sentidos são construídos em um gênero. Contribui, ainda, para mostrar que o objetivo do discurso dos perfis vai além da apresentação da vida particular do(a) entrevistado(a). Ele pode operar desafiando, contestando a ordem estabelecida ou reproduzindo-a. Assim, por um lado, esse discurso poderá produzir mudança social e, por outro lado reforçar um discurso discriminatório, contribuindo para construção de identidades “marginais”. Porém, acreditamos que não é suficiente ao analista de discurso crítico investigar como tudo isso se dá nos diferentes gêneros textuais, pois as atitudes veiculadas, os posicionamentos e as identidades representadas precisam também ser questionados.

Os textos analisados deixam transparecer aspectos sociais relativos às identidades sociais atribuídas à mulher. Os discursos antagônicos resultam, possivelmente, das crenças e visões de mundo filtradas pelas identidades sociais assumidas pelas entrevistadas/autoras e pelas enunciadoras/repórteres. E o reflexo de tais posicionamentos ficou evidenciado na linguagem, através das escolhas lexicogramaticais que constituem cada texto. O jornalismo, como prática discursiva tem poder constitutivo, portanto, atua não só no incentivo ao consumo, como também na constituição de identidades, especialmente, das feminilidades. Nessa perspectiva, os perfis

jornalísticos analisados representam um gênero textual que pode ser estudado em relação a ideologias vigentes.

A linguagem usada pelas entrevistadas é representativa de um contexto para atrair e envolver as leitoras, para sensibilizá-las a serem consumidoras do jornal e das idéias nele contidas. Mas, ao mesmo tempo em que o jornal tenta mostrar e criar uma mulher moderna, consciente e dona de si, há um reforço de valores tradicionais. Portanto, quando uma entrevistada do perfil expressa seu ponto de vista, ela, de certa forma, poderá influenciar os(as) leitores(as) a refletirem sobre suas palavras e “essa reflexão pode ser o princípio da rede „intangível‟ que causa as „visíveis‟ repetições e/ou mudanças ideológicas e conseqüentes práticas sociais” (FONTANINI, 2002, p.237).

Considerando que os textos têm efeitos causais e sociais, podem provocar mudanças mais imediatas em nosso conhecimento, crenças, atitudes e valores; e, a longo prazo, podem contribuir para moldar as identidades das pessoas (FAIRCLOUGH, 2003), defender um trabalho de leitura critica dos gêneros que circulam na sociedade torna-se fundamental. É necessário que se leiam os diferentes gêneros, não só os perfis, de modo crítico, questionando as representações identitárias neles presentes, para que os leitores (as) possam se reposicionar, transformando suas identidades e, dessa forma, possam agir sobre a sua realidade social, assumindo posições de resistência ao poder, de liberação e de emancipação.

Enfim, da mesma forma que uma experiência prolongada com propaganda e outros textos comerciais podem contribuir para moldar a identidade das pessoas como „consumidores (as)‟, ou suas identidades de gênero, conforme postula Fairclough, consideramos que uma experiência prolongada com gêneros jornalísticos (perfis), sem um olhar crítico, pode contribuir para reforçar sentidos discriminatórios e preconceituosos sobre homens, mulheres e homossexuais, por exemplo, “pois os efeitos sociais dos textos dependem dos processos de construção de sentidos” (idem, ibidem, p.21/5).

As amostras analisadas neste trabalho nos conduziram a essas constatações que confirmam nossas hipóteses de que as formas de representação do feminino nos perfis jornalísticos sinalizam para uma redefinição dos papéis sociais da mulher e, simultaneamente, revelam certa

resistência em apresentar ao público alvo essa mudança. Ressaltamos ao longo deste trabalho que é nesse paradoxo entre prender-se aos valores já instaurados socialmente e dimensionar a identidade profissional cuja imagem de heroína a ser valorizada é a mulher independente economicamente, que se constrói o discurso dos perfis jornalísticos sobre a figura feminina. Assim como são historicamente constituídas, legitimadas e reproduzidas, as identidades de gênero podem também ser transformadas e essa transformação se dá a partir da percepção das disparidades.

Acreditamos que o objetivo maior desta dissertação foi atingido e, sob uma perspectiva crítica, a prática discursiva dos perfis jornalísticos foi analisada, porém reconhecemos que muitas lacunas ainda precisam ser preenchidas com investigações que ampliem, por exemplo, o estudo das representações/identidades femininas, considerando outros gêneros textuais de outros domínios diferentes do jornalismo.

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