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5 UV measurements

5.1 UV measurements in 2020

A reflexão marxista em torno da literatura marcou duradouramente este ramo da sociologia, embora durante algum tempo não tenha suscitado investigações relevantes em termos empíricos ou operatórios. Na sua origem, a abordagem marxista não pode ser dissociada, porém, do debate iniciado no século XIX em torno da função do escritor na sociedade. Um debate que opôs, de um lado, os defensores da arte pela arte, do outro, os partidários da função social da arte. Os primeiros inscreviam-se na linhagem do romantismo alemão de Wackenroder ou de Tieck, e manifestavam um interesse exclusivo pela perfeição e beleza estilísticas, independentemente das aspirações ou exigências da sociedade. Ao artista, portanto, não deviam ser adscritas quaisquer responsabilidades sociais, algo que Flaubert já manifestara na sua correspondência. Todavia, o verdadeiro autor do manifesto da independência artística foi Théophile Gautier, que no prólogo de 1834 ao seu romance Mademoiselle de Maupin defendia claramente a arte pela arte e rejeitava todo o tipo de influência social da arte.

100 Idem.

101 Gustave Lanson, «L‘Histoire littéraire et la sociologie», Revue de métaphysique et de moral, XII,

1904, pp. 621-642, incluído em Essais de méthode…, pp. 61-80 (excertos entre aspas das páginas 69-70).

102 Idem, p. 68.

103 Lanson, Essais de méthode…, p. 43. 104 Idem, pp. 73-79.

Já a tendência que advogava a função social da arte levava a marca, naturalmente, da influência das ideias socialistas e, em particular, da crítica russa de autores como Písarev e Vissarion Bielinski. Este último introduziu na literatura uma preocupação política. O escritor pode até ser responsável pelo estilo da sua escrita, mas o conteúdo é algo que está para além dele, pois é necessariamente moldado pela posição sócio-histórica da nação a que pertence. Logo, a obra literária manifesta a realidade social do seu momento. A partir dos textos literários, Bielinski analisou os problemas sociais que a Rússia enfrentava e propugnou o realismo artístico, onde incitava à expressão clara do propósito social dos escritores.105 Tratava-se, portanto, de uma concepção utilitária da literatura e de uma rejeição explícita da arte pela arte e da autonomia da estética, que seria desenvolvida posteriormente por outros autores pertencentes a esta crítica social russa, como Písarev e Dobrolyubov. O primeiro, partindo da análise de Crime e Castigo e de Guerra e Paz, tentou encontrar homologias entre as realidades aí descritas e a situação social da Rússia contemporânea de Dostoievsky e Tolstoy. A literatura, segundo Písarev, deveria contribuir para a mudança social e estar atenta aos interesses da classe trabalhadora; a arte, não a «arte pura», que rejeitava liminarmente, tinha um importante papel cultural e educativo.106 O segundo elaborou uma teoria de «tipos sociais» a partir da obra de Gogol, onde defendeu que é possível detectar a visão do mundo de um autor a partir do significado social das personagens dos seus livros, inclusivamente à margem ou mesmo contra as intenções conscientes dos autores enquanto os inventavam.

Para a estruturação do pensamento marxista aplicado à literatura refiram-se também os nomes de Franz Mehring, que advogou a necessidade de levar a arte à classe trabalhadora e defendeu igualmente que a arte pela arte esconde uma intenção reaccionária dirigida contra os poetas progressistas, e de Proudhon, para quem a arte devia contribuir para que a sociedade banisse a exploração social. Este último definia a arte como «uma representação idealista da natureza e de nós próprios em função do aperfeiçoamento físico e moral da nossa espécie», considerando que o artista «está

105 Renée Wellek, Historia de la crítica moderna (1750-1950), Vol. III, Los Años de Transición, Madrid,

Gredos, 1972, p. 353.

106 R. Dixon (ed.), D. Pisarev. Selected Philosophical, Social and Political Essays, Moscovo, Foreign

chamado a concorrer para a criação do mundo social, continuação do mundo material».107

Para o marxismo, em geral, a análise da literatura seria sobretudo uma arma para lutar contra a ideologia burguesa, o que deixava a objectividade científica dependente de valores definidos a priori. Nos textos de Marx e de Engels, as referências à arte e à literatura raramente passavam de juízos pessoais e dispersos. Só em 1933, graças a Mikhaíl Lifshits, que pela primeira vez reuniu e publicou esses fragmentos, é que foi possível avaliar o pensamento de Marx e de Engels sobre o fenómeno artístico. Em A

Ideologia Alemã, Marx apresenta os fundamentos metodológicos da teoria da verdade objectiva da arte, quer dizer, da concepção da arte enquanto forma particular do reflexo da realidade objectiva. Esta ideia, como vimos antes, é um dos eixos centrais da tradição marxista, a responsável, precisamente, pela designação «teoria do reflexo». No entanto, esta «teoria do reflexo» não aponta, no marxismo, para uma reprodução directa do mundo em que o escritor vivia ou vive. O reflexo não é nem mecânico nem linear. É antes o resultado de um trabalho de elaboração ideológica e, por isso, produto de uma distorção da realidade. Ora, a burguesia, que defende a total independência da cultura e da arte relativamente às configurações sociais, delas oferecendo uma perspectiva a- histórica, despolitizada e não socializada, não gosta de promover os estudos científicos aplicados à literatura. Na opinião de Albert Memmi, que considerava o marxismo como «o esforço mais penetrante para tratar sociologicamente o facto literário», este último era

para uma sociedade um modo de ela tomar consciência de si própria. Esta verificação, esta tomada de consciência, é, a maior parte das vezes, desestruturante, isto é, literalmente ameaçadora da ordem e do equilíbrio duma dada sociedade [...] esta interdição da Sociedade em permitir que se esclareça o facto literário, no receio de se ver a si própria desnudada, vem curiosamente ao encontro de uma verdadeira repulsa

dos próprios escritores em se verem integrados sociologicamente.108

Ainda segundo Memmi, a literatura beneficiaria com essa situação, já que a sociedade lhe confere, em troca, uma espécie de respeito apenas concedido à religião, ou seja,

107 Proudhon, Du principe de l'art et de son sa destination sociale, citado em M. C. Beardsley e J.

Hospers, Estética. Historia y fundamentos, Madrid, Cátreda, 1976, p. 43.

108 Albert Memmi, «Problemas da Sociologia da Literatura», em George Gurvitch (dir.), Tratado de

beneficia de um certo mistério, como é visível em conceitos como «génio» (algo da ordem do inexplicável), «inspiração» ou «mistério da criação».109

Na crítica marxista, portanto, um texto nunca será um simples espelho da realidade, nem tão-pouco uma transposição mimética ou fotográfica, como defendiam muitos escritores realistas. A arte e a literatura, concebidas por Marx como produções ideológicas, estão assentes em práticas intelectuais inscritas no jogo das contradições sociais, são produto da luta de classes. Assim, aquilo que a literatura «reflecte» é a luta de classes ou a tentativa das classes dominantes (entre eles os escritores) de imporem a sua visão do mundo. Deste modo, a ideia de «reflexo» ou de «espelho» na teoria marxista deve ser vista como uma metáfora e como uma perspectiva crítica para pensar a relação entre literatura e sociedade.

Esta ideia não passa, em si mesma, de uma versão da tese marxista mais genérica segundo a qual a criação cultural e artística está na dependência directa da estrutura social e económica. Daí que a arte, e a literatura em particular, poderão reflectir, ao menos em teoria, as realidades económicas e os conflitos que estão na sua base. Como defendeu o crítico marxista russo Georgy Plekhanov: «A mentalidade social de uma época é condicionada pelas relações sociais dessa época. Isto em parte alguma é tão evidente como na história da arte e da literatura.»110 Ora, a superestrutura ideológica, estando dependente das realidades materiais ou económicas, reflecte, de uma maneira ou de outra, tais relações sociais. Nas palavras do crítico marxista Terry Eagleton,

as obras literárias não são fruto de uma inspiração misteriosa nem são explicáveis simplesmente em função da psicologia dos seus autores. São formas de percepção, maneiras determinadas de ver o mundo e, como tal, estão relacionadas com a forma dominante de ver o mundo que é a «mentalidade social» ou ideologia de uma época. Essa ideologia é, por sua vez, produto das relações sociais concretas que os homens estabelecem entre si num tempo e lugar determinados; é o modo como essas relações de classe são sentidas, legitimadas e perpetuadas. Além disso, os homens não são livres de escolher as suas relações sociais; são constrangidos a elas pela necessidade material – pela natureza e estádio de desenvolvimento do seu modo de produção económica.111

As sucessivas correntes literárias que se vão afirmando reflectirão as mudanças estruturais da sociedade, elas próprias vinculadas à perspectiva histórica marxista. Para Engels, a arte do Renascimento representa

109 Albert Memmi, «Problemas da Sociologia da Literatura», em George Gurvitch (dir.), Tratado de

Sociologia, Porto, Iniciativas Editoriais, 1968, vol. II, p. 420 (edição original de 1958)Ibidem.

110 Citado em Terry Eagleton, Marxismo e Crítica Literária, Porto, Afrontamento, 1976, p. 18. 111 Idem, p. 18.

a maior agitação progressista da humanidade. Os homens que fundaram a dominação moderna da burguesia foram tudo menos prisioneiros da estreiteza burguesa [...]. É que os heróis desse tempo não eram ainda escravos da divisão do trabalho; e tantas vezes sentimos nos seus sucessores que limites ela impõe, que estreiteza ela gera. Mas o que sobretudo os distingue é que, quase sem excepção, mergulharam plenamente no movimento do seu tempo, na luta prática; eles tomam partido, entram no combate, ora pela palavra e pela escrita, ora pela espada, muitas vezes das duas maneiras. Daí esta plenitude e esta força de carácter que fazem deles homens completos. Os sábios de gabinete constituem excepção: ou pessoas de segunda e terceira ordem, ou filisteus prudentes que não querem expôr-se ao perigo.112

Já o romantismo espelhava a emancipação da burguesia e o fim da dominação aristocrática. Com essa nova classe, a organização da sociedade passa a estar assente no princípio da divisão do trabalho (que se expandiu com o desenvolvimento do comércio e da indústria), a qual teve como efeito remover certos indivíduos e grupos da esfera de produção material para a produção mental. Como resultado dos processos de alfabetização e do consequente surgimento de um mercado alargado de consumidores (neste caso leitores), a literatura industrializou-se e tornou-se um comércio especializado como outro qualquer. A literatura transpôs as barreiras e os limites de um público aristocrático, começou a ser produzida e distribuída em massa e aproximou-se do público burguês (quem maioritariamente comprava livros e jornais). A literatura, neste sentido, reflectia essas modificações sociais.

Em Marx e em Engels, a literatura é tratada no interior desse vasto contexto histórico e metodológico e em íntima relação com a actividade política. Sendo a literatura uma forma de consciência e nela produzindo efeitos, a crítica de ambos visava a perversão burguesa da consciência de classe dos trabalhadores, ou seja, o emburguesamento da consciência dos operários. Daí a importância das orientações correctas em matéria de literatura e de teoria literária. No drama, por exemplo, Marx e Engels esperavam a descrição vigorosa e realista da luta de classes, exactamente como aconteceram, ou seja, a descrição concreta dos conflitos objectivos reais que essas lutas escondem. Para Marx, a importância do livro de Goethe, Gotz von Berlichingen, reside no facto de a personagem principal – Gotz – representar uma época em vias de desaparecimento e de o tema aí em questão retratar um conflito típico da história mundial: a «oposição histórica entre os cavaleiros e o imperador e os princípes», que encontra nesse livro a expressão adequada.113

112 F. Engels, Dialectique de la nature, Paris, Éditions sociales, 1968, pp. 30-31.

113 George Lukács, Marx e Engels como historiadores da literatura, Porto, Nova Crítica, Abril de 1979,

Por outro lado, os juízos de Marx e de Engels sobre literatura são quase que na totalidade determinados pela sua solidariedade com a indignação revolucionária dos trabalhadores. Regra geral, uma obra que descreva em termos negativos o operário é avaliada como própria da pequena burguesia e como um reflexo dos seus preconceitos (em A Sagrada Família, Marx criticou Eugène Sue por difamar o proletariado, por apresentá-lo como um «pauvre honteux»). Ao invés, o mérito de uma obra literária passa pela capacidade de decifrar a estrutura da sociedade burguesa e pelo reconhecimento do papel revolucionário do proletariado. Em qualquer obra que discutia, Engels procurava primeiro saber se o seu conteúdo e a sua forma estariam aptos a servir a causa da democracia. No livro A situação da classe trabalhadora em Inglaterra, Engels elogiava Carlyle por fazer uma crítica severa e pertinente contra a sociedade capitalista. Mas era atacado porque parte dessa crítica se referia à perda de religião e ao vazio a que ela conduzia na sociedade burguesa, bem como porque Carlyle reprovava o ódio dos operários às classes superiores.114 Em contrapartida, sobre Balzac, diz Engels:

Considero um dos maiores triunfos do realismo e uma das mais notáveis qualidades do velho Balzac que ele tenha sido dessa maneira forçado a agir contra as suas próprias simpatias de classe e preconceitos políticos, que tenha reconhecido a inelutabilidade do declínio dos seus aristocratas bem-amados e os tenha descrito como homens que não são dignos de melhor sorte, e que tenha descoberto os verdadeiros homens do futuro [...].115

Karl Marx não tinha uma visão definitiva ou acabada sobre a relação entre arte e sociedade. Embora, no geral, a ideia predominante seja a de que a estrutura económica da sociedade condiciona as visões do mundo e os sistemas de pensamento que ela produz sobre si própria, Marx oscilou entre esse dogmatismo económico e a autonomia artística. Se em A Ideologia Alemã a relação entre literatura e estrutura económica da sociedade surge simplesmente em termos de uma estrita causalidade económica (a arte não possui qualquer autonomia), no «Prefácio» de 1857à Contribuição para a Crítica

da Economia Política, publicado postumamente, Marx equacionou a aparente contradição entre a cultura material largamente atrasada da Grécia antiga e a sua arte, segundo ele, avançadíssima. Parecia assim existir uma relação desigual entre o desenvolvimento da produção material e o da produção artística:

Sabe-se que certos períodos de grande desenvolvimento da arte não estão directamente relacionados com a evolução geral da sociedade, nem com a base material ou com a estrutura da

114 Citado em idem, p. 96.

sua organização. Vejam-se os Gregos quando comparados com as nações modernas ou até mesmo com Shakespeare.116

Ao aperceber-se da relação desigual entre o desenvolvimento da produção material e da produção artística, que aponta para a relativa autonomia da segunda em relação ao nível económico, Marx punha em causa o mecanicismo materialista: a verdadeira fonte da arte grega residiria, tudo indica, no seu sistema de mitos e, desse modo, o que a explica é não a infra-estrutura económica mas sim a super-estrutura religiosa. Mas o grande espanto de Marx era que uma obra artística sobrevivesse para além dos seus próprios condicionamentos históricos:

A dificuldade não consiste em compreender que a arte grega e a epopeia estejam ligadas a certas formas do desenvolvimento social. A dificuldade consiste em compreender que possam ainda proporcionar-nos gozos artísticos e sejam consideradas em certos aspectos como uma norma e um modelo inacessível.117

Este fascínio de Marx pela arte grega estaria provavelmente ligado à sua formação classicista e aos modelos educativos vigentes na Europa a partir do Renascimento.118 Engels foi um pouco mais longe do que Marx, tendo desenvolvido uma teoria da literatura mais sistemática, se bem que também ele tenha vacilado entre o dogmatismo económico e a autonomia artística. As inter-relações entre as ideias e a base material em que elas foram produzidas tornam-se cada vez mais complexas devido a uma série de ligações intermédias.119 Seja como for, a perspectiva dominante em Engels, como em Marx e nos marxistas em geral, era esta: a literatura é essencialmente um reflexo dos processos sociais, ou seja, da luta de classes.

Importa ainda referir, na teoria do reflexo, a ideia de «tipo», um conceito, também ele, muito em voga no século XIX (se bem que na literatura clássica também esteja presente, nomeadamente na tentativa de descrição de tipos gerais de personalidade, como o misantropo, o avaro ou o hipocrondríaco na obra de Molière, ou os Caractères de La Bruyère; o que muda, de uma época para outra, é a intenção: no século XIX procura-se pôr em cena a realidade tal como ela era, ao mesmo tempo que a singularidade desses mesmos tipo relativamente a outros). Hippolyte Taine defendeu-o (os heróis de ficção manifestam melhor que outros os traços importantes, as forças

116 Marx e Engels, On Literature and Art, Nova Iorque, International Publishers, 1947, p. 18.

117 K. Marx, Introducción general a la Crítica de la Economía Política, Córdoba (Argentina), Cuadernos

de Pasado y Presente, 1969 (ed. original de 1857), p. 64.

118 Antonio Sánchez Trigueros (dir.), Sociología de la literatura, Madrid, Editorial Síntesis, 1996, p. 42. 119 Ideia defendida em F. Engels, Ludwig Feuerbach and the End of Classical German Philosophy,

elementares, as camadas mais profundas da natureza humana), os realistas franceses aplicaram-no (nos romances de Balzac a ideia de «tipo»120 é um das características dominantes e terá sido mesmo com ele que o conceito adquiriu a sua plenitude, de tal forma que a crítica passou a discutir a verosimilhança daquilo que os autores davam a ler como típico), os marxistas utilizaram-no como instrumento de análise das obras literárias.

Como antes foi referido, trata-se de uma ideia que remonta à Antiguidade, em particular ao pensamento de Platão, que n‘A República definiu o conceito de «imitação» como um modelo que reúne os traços essenciais de uma coisa ou de um ser. Esse princípio foi transposto para o domínio literário servindo para designar «personagens ou figuras representativas»121 que actuariam como uma espécie de símbolos e, claro, como um espelho do social. Esses diferentes tipos humanos realizavam-se nos seus traços físicos mas igualmente nos seus comportamentos e na sua condição social. No século XVIII, Molière explorou tipos de personagens nas suas peças, normalmente indivíduos afectados por uma mania ou por uma obsessão, como o avaro ou o doente imaginário. No século XIX, Flaubert, tanto em Salammbô como em Madame Bovary, procurou criar tipos: o permanente, o que não morre, o que existe de eternamente humano no indivíduo, era isso que Flaubert se esforçava por traduzir nas suas obras.122 Também os romances de Balzac, como atrás referimos, pretendiam representar o mundo social, em particular acentuando os traços característicos das personagens e das situações.

Grande parte da criação literária foi, durante muito tempo, animada por este espírito «tipológico». Dois dos exemplos mais óbvios talvez sejam D. Juan e D. Quixote. Sobre este último, nada mais ilustrativo do que a interpretação que o Romantismo fez desta personagem de Cervantes. Pode mesmo dizer-se que a recepção do Quixote pelo romantismo europeu do século XIX foi decisiva para a própria

120 Por exemplo, os funcionários públicos, uma tipologia que Balzac apresenta em Les employés, Paris,

Éditions Littéraires et Artistiques, 1901 (secção de Scènes de la vie pariense); ou ainda da imprensa parisiense, onde Balzac apresenta diferentes géneros de indivíduos ligados a esse sector de actividade. O 1º género, o «Le Publiciste» (dividido em oito subgéneros: «le journaliste»; «l'homme d'État»; «le pamphlétaire»; «le rienologue»; «le publiciste à portefeuille»; «l'écrivain monobile»; «le traducteur»; «l'auteur à convictions»). O 2º género, o «Le Critique» (também ele dividido, mas agora em cinco sub- géneros: «le critique de la vieille roche»; «le jeune critique blond»; «le grand critique»; «le feuilletoniste»; «les petits journalistes»). Honoré de Balzac, Monographie de la Press parisienne, Paris, Mille et une nuits, Outubro de 2003 (publicado originalmente numa recolha intitulada La Grande Ville,

nouveau tableau du Paris comique, critique et philosophique, Paris, Bureau central des publications

nouvelles, 1842). Os próprios títulos de Balzac, como já vimos antes, apontam para essa pretensão de estudar a sociedade de forma «científica», por exemplo, A Fisiologia do Casamento.

121 Alguns termos próximos seriam: protótipo, arquétipo ou estereótipo. 122 Bertrand, Gustave Flaubert….

afirmação do movimento romântico. De tal forma que alguns autores defendem mesmo

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