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A sociologia da literatura, naturalmente, tem uma história, com os seus precursores, os seus antepassados e os seus investigadores, que ora dão continuidade a esse conhecimento adquirido, ora o assumem como ponto de partida para renovar e fazer avançar a disciplina. Mas como não se trata de uma disciplina homogénea, e porque os resultados a que chegou têm sido desiguais (embora em quantidade considerável), torna-se necessário reconstituir, na medida do possível, a sua história e as suas principais problemáticas. Qualquer teoria da sociedade (e da literatura) tem uma linhagem que continua a exercer uma influência nas obras actuais.

A «teoria do reflexo», por exemplo, tem assumido diversas versões e mostra-nos como algumas das grandes questões levantadas no passado não andam assim tão longe das preocupações caracterizaram a evolução da disciplina nas últimas décadas. Na verdade, a questão das relações entre literatura e realidade social remonta a um período muito anterior ao século XIX. Louis Edouard Duranty, na revista que criou e publicou nos anos de 1856 e 1857, justamente com o título Réalisme (na sequência do impacto do manifesto realista de Gustave Courbet), afirmava que o realismo sempre existira e que a novidade estava no próprio termo, inventado, segundo ele, no seu século. Émile Zola, por exemplo, num ensaio intitulado Le Naturalisme au théâtre, dizia ter apenas «inventado e lançado uma palavra nova, para designar uma escola literária tão velha como o mundo».92 Bastaria referir o conceito de mimesis, ou «imitação», desenvolvido por Aristóteles e Platão, que esteve na base de todas as visões posteriores sobre a literatura como um reflexo da sociedade. No entanto, foi o século XIX que verdadeiramente a impôs, em particular através das correntes literárias do realismo e, como veremos mais adiante, por intermédio das interpretações marxistas aplicadas à literatura, fazendo com que a metáfora do espelho tenha sobrevivido durante o século XX.

Poder-se-á dizer que a ingenuidade e a especulação ideológica anteriores foram depois substituídas pela subtileza analítica, já que conceitos como «adequação» (Mikhail Bakhtin), «totalidade» (Georg Lukács), «homologia» e «visão do mundo» (Lucien Goldmann), «prismas» (Alain Viala) e, em certo sentido, a própria ideia de

92 Émile Zola, «El naturalismo en el teatro», em El naturalismo. Ensayos, manifiestos y artículos

polémicos sobre la estética naturalista, Barcelona, Ediciones Peninsula, 2002, p. 144. Escola essa que

conheceu vários prolongamentos ao longo do século XX, com os neo-realismos europeus, o nouveau

«campo literário» (Pierre Bourdieu) deram origem a análises que procuraram tornar mais complexa e menos directa essa relação entre literatura e sociedade. No entanto, poder-se-á argumentar igualmente que elas acabam por sempre desembocar, em última análise, na ideia do reflexo. Prova da longevidade desta teoria foi a defesa explícita que Wendy Griswold fez da sua pertinência heurística.93 Segundo Griswold, porém, o conceito de literatura como reflexo deve ser alargado de modo a incluir uma análise das circunstâncias de produção das obras, das características socioeconómicas dos escritores, bem como dos problemas formais ou de estilo. Com essa informação reunida torna-se mais fácil perceber de que forma as preocupações de uma sociedade estão projectados nas obras literárias.

Como em todas as áreas do conhecimento, existem teorias diversas, que se opõem, que são divergentes ou até mesmo conflituais. A primeira tentativa clara94 de fazer uma história social da literatura, ou melhor, de combinar num estudo sistemático as noções de literatura e de sociedade é identificada habitualmente com a obra de Germaine de Staël, De la littérature considerée dans ses rapports avec les institutions

sociales (1800), onde considera que a literatura não pode ser estudada sem que se estabeleça uma ligação com o estado social e moral do povo que a ajudou a nascer. Sendo que a literatura, para Mme de Staël, é ao mesmo tempo um meio de conhecimento e um instrumento destinado a fazer evoluir as mentalidades, a sua utilidade reside no facto de tornar «o passado presente», ou seja, ajudar a suprir, através da imaginação, a impossibilidade de conhecer o passado pela observação directa.

De uma forma geral, Mme de Staël procurou estabelecer uma hierarquia dos elementos que determinam as obras literárias, que na sua opinião eram, sobretudo, três. Em primeiro lugar, a «raça», definida como «as disposições inatas e herdadas» do ser humano, variáveis consoante os povos. Em segundo lugar, o «meio» (entendido não apenas em sentido geográfico) inclui também as «condições sociais» tendo em conta as suas variações históricas. Finalmente, em terceiro lugar, o «momento», que permite

93 Wendy Griswold, «American Character and the American Novel: An Expansion of Reflection Theory

in the Sociology of Literature», American Journal of Sociology, vol. 86, nº 4, 1981, pp. 740-765.

94 Poderíamos referir também Montesquieu, que no seu Discours préliminaire de L’Esprit des lois (1748)

considera a literatura um instrumento útil para descrever a natureza social do ser humano, o que o leva a procurar compreender a «influência» recíproca entre, por um lado, a literatura e, por outro, a religião, os costumes e as «leis» (as formas jurídicas e políticas), chegando mesmo a considerar a literatura como um agente de transformação das sociedades. No entanto, como acontecia nessa época, Montesquieu tinha uma concepção lata de «literatura», ou seja, «os escritos filosóficos e as obras de imaginação, tudo aquilo que se refere ao exercício do pensamento através da escrita, exceptuando as ciências físicas».

apreender os factos na sua cronologia. Staël pretendia assim analisar a influência recíproca entre factores sociais e históricos (em particular a religião, os costumes e as leis) e a constituição das literaturas nacionais,

Apesar do seu carácter pré-científico, a obra de Staël aventa algumas explicações com uma natureza mais sociológica, estribadas em correlações menos simplistas, que até podem ser úteis, actualmente, como pontos de partida teóricos: em primeiro lugar, a ponderação do papel da mulher na criação do romance como género literário, ou seja, segundo ela o romance ter-se-á desenvolvido em sociedades em que o estatuto da mulher era mais elevado e a vida privada era mais valorizada; em segundo lugar, a importância de uma classe média forte no desenvolvimento da literatura, já que essa classe seria aquela que mais favorece a liberdade e a virtude, dois pré-requisitos importantes da arte em geral. A obra desta autora veio consagrar uma tendência que se vinha afirmando na Europa desde o Renascimento: encarar a literatura em termos das suas relações objectivas e causais com a sociedade. As instituições humanas e a sua evolução passavam a ser explicadas pelo meio envolvente, que englobava um complexo de certos factores físicos, especialmente o clima e a geografia, mais as noções ambíguas, acima referidas, de «espírito nacional» e «espírito do tempo».

Muitas dessas análises consistiam em correlações simplistas e ingénuas entre textos literários e história social ou relevavam de um materialismo mecânico, assente em relações unidireccionais entre cultura e base material da sociedade. Pretendia-se saber, por exemplo, por que é que certas literaturas se desenvolviam em determinadas áreas e porque é que, noutras regiões, pelo contrário, estagnavam ou inclusivamente declinavam. Porém, como saber em que critérios assentar a ideia de uma literatura desenvolvida ou estagnada? A explicação, para alguns autores, como Mme. de Staël ou Hippolyte Taine, residia no clima, importante agente causal das diferentes literaturas, já que levava ao desenvolvimento de um «temperamento nacional» que, por sua vez, produziria instituições sociais e políticas que poderiam favorecer ou prejudicar o progresso da literatura. A literatura, à imagem de uma planta, desenvolvia-se por si só em certos climas, ao passo que noutros precisava de ser «cultivada». E noutros ainda nem sequer florescia, apesar de todos os esforços nesse sentido.

Esta forma de olhar para a literatura correspondia, no fundo, a um tipo de pensamento característico da época que o «romantismo» de Herder havia inaugurado no final do século XVIII. De facto, Herder defendera que cada obra literária era uma

expressão da sociedade, ou seja, estava enraizada num meio social e geográfico onde desempenhava funções específicas. Além disso, tendo em conta que cada época possui a sua «atitude mental preponderante» ou a sua «visão específica do mundo», a grande literatura era aquela que, recorrendo às formas artísticas mais adequadas, concentrava em si a alma distinta de cada povo, o «espírito nacional»95 ou o «espírito do tempo» (no que seria seguido por Taine e, depois, por Hegel), em suma, era a que conservava a alma e os valores da nação. Eram esses, na verdade, os agentes externos que determinavam o fenómeno literário.

Foi este ponto de vista que motivou as recolhas de literatura popular e de todo o tipo de obras que captassem o âmago de cada nação. Nesse sentido, é legítimo considerar que o romantismo, tal como mais tarde o realismo e o naturalismo, considerava a literatura como um reflexo da sociedade no seu todo, incluindo nesse «espírito do tempo» as necessidades humanas e os valores essenciais a cada cultura, como por exemplo, segundo os românticos, a autenticidade e a vida em comunidade. Através das obras literárias poder-se-ia captar o sentido do mundo, um mundo que estava a ser esvaziado dos seus valores genuínos devido à divisão do trabalho e à mentalidade comercial que campeavam nessa época. Daí que o romantismo tenha celebrado o escritor como uma espécie de «herói do espírito», porque ele, em particular, tinha a capacidade de viver os acontecimentos e de lhes apreender a alma, por isso estava em comunhão com o «povo». Nesta visão, os valores tornavam-se o aspecto mais importante do estudo da literatura e a sociologia da literatura passava a ser o estudo dos valores por que se deve reger o indivíduo e as bases em que deve assentar a sociedade.

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