Para muitos, o verdadeiro fundador da sociologia da arte (e da literatura) foi Hippolyte Taine, que além de ter dado continuidade ao projecto de Madame de Staël, tentou aplicar à literatura a sociologia de Auguste Comte, ou seja, procurou submeter a arte aos mesmos métodos de investigação utilizados nas ciências da natureza.96 Em
95 Como vimos antes com Stäel, esta ideia da literatura enquanto manifestação do «espírito nacional» era
moeda corrente no romantismo, visível em autores, entre muitos outros, como De Bonald, Adam Müller, os irmãos Schlegel, e em Inglaterra William Hazlitt.
96 Outros autores, nesta linha positivista: Charles Sainte-Beuve, que considerava a «realidade vital»
(temperamental, biográfica, ideológica e social) de um escritor como o ponto de partida para explicar a sua obra; Ferdinand Brunetière, que esboçou uma teoria determinista, segundo ele baseada na história natural de Darwin e de Haeckel96, onde atribui às condições sociais, juntamente com as geográficas e
Filosofia da Arte, Taine considera que a obra de arte, seja de que artista for, não está isolada, inscreve-se em três níveis: na obra total de um autor, na «família de artistas» de que o autor faz parte e no mundo que rodeia tal família. Em termos genéricos, Taine inscreve as obras artísticas e todas as manifestações humanas como efeito do «estado de espírito» dominante em cada época histórica. A obra é determinada pelo estado geral do espírito e dos costumes «circundantes», aquilo que Taine denomina por «temperatura moral»97. Afirma o autor:
podemos concluir confiantemente que, se quisermos compreender o gosto e o talento do artista, as razões que o levaram a escolher um certo género de pintura ou de drama, a preferir determinado tipo e determinado colorido, a representar determinados sentimentos, é no estado geral dos costumes e do espírito público que devemos ir procurá-las. Podemos, por conseguinte, estabelecer como regra que, para se compreender uma obra de Arte, um artista, um grupo de artistas, é necessário considerar-se rigorosamente o estado geral do espírito e dos costumes do tempo a que pertenceram. Nele se encontra a explicação última; nele reside a causa primitiva que determina tudo o mais. Verdade, esta, que a experiência confirma; efectivamente, se se percorrerem as principais épocas da história da Arte, vê-se que as Artes aparecem e, depois, desaparecem ao mesmo tempo que certos estados de espírito e certos costumes a que estão ligadas. — Por exemplo, a tragédia grega, a de Esquilo, de Sófocles e de Eurípides, surge no momento da vitória dos gregos sobre os persas, na época heróica das pequenas Cidades republicanas, no momento do enorme esforço com que conquistam a sua independência e estabelecem o seu ascendente no universo civilizado; e vemo-la desaparecer, com esta independência e esta energia, quando a perversão dos caracteres e a conquista macedónica entregam a Grécia aos estrangeiros. […] Semelhantemente, enfim, a tragédia francesa aparece no momento em que a monarquia normal e nobre estabelece, no reinado de Luís XIV, o império das boas maneiras, a vida da corte, a representação magnífica, a elegante domesticidade aristocrática, e desaparece no momento em que a sociedade nobiliária e os costumes de antecâmara são abolidos pela Revolução.98
Em A Pintura do Renascimento em Itália (1865), Taine retomou de Staël os elementos que determinam a produção artística de uma sociedade no seu conjunto e a emergência da «grande arte» e da «grande literatura»: a) a «raça», entendida no sentido de «nação», que seria a influência mais profunda e mais importante; b) o «momento»; c) o «meio». O fenómeno literário derivaria da interacção destes três factores, que produziria uma estrutura mental ora prática ora especulativa, que por sua vez levaria ao
históricas, um papel na evolução dos géneros literários; Emile Hennequin, que propôs uma crítica científica, segundo a qual a obra literária deveria ser estudada tendo em conta as dimensões estética, psicológica e sociológica. No entanto, quase todos esses autores limitaram-se a analisar os conteúdos e temas dos livros, bem como a biografia e as influências dos escritores, ficando a complexidade do social reduzida à ideia (vaga) do «contexto».
97 Hippolyte Taine, Filosofía del arte, Valência, Sempere (2 volumes), 1865, p. 46, 50. Há um capítulo
desta obra, pelo menos, que está traduzida em português: H. Taine, Da natureza e produção da obra de
arte, Lisboa, Editorial Inquérito, 1940 (originalmente uma conferência proferida na Escola das Belas Artes de Paris).
desenvolvimento das «ideias essenciais» características de certos séculos e épocas, as quais assumem expressão na grande arte e na grande literatura. Assim, as obras literárias, em particular o romance (género dominante da sociedade industrial), fornecem dados que através das leis científicas podem ser sintetizados em padrões.
Ao procurar causas simples e relações deterministas entre elementos do meio e literatura, Taine caiu numa retórica vazia. Mais a mais tendo em conta que o clima e a geografia são quase determinantes na sua explicação (não há uma reflexão sobre a liberdade individual, a capacidade humana de transcender essas condições). Só quando se refere às audiências literárias é que Taine contribuiu mais seriamente para uma sociologia da literatura, na óptica da recepção, em particular ao defender que a literatura tende a adaptar-se ao gosto daqueles que a apreciam e que por ela pagam. Referia, para o exemplificar, os casos de Tennyson e Alfred de Musset. O primeiro escrevia para um círculo familiar de classe alta, que incluía homens de negócios e elementos da aristocracia rural, o segundo para intelectuais e boémios, duas audiências bem distintas que supostamente condicionaram a forma e o conteúdo das suas obras. Em termos globais, porém, Taine desenvolveu uma teoria mas não a dotou de um método que permitisse a sua aplicação de forma sistemática. Depois, problema comum aos autores incluídos nesta pré-sociologia da literatura, a relação literatura/sociedade é concebida em termos causais: «a sociedade é a causa, a obra o efeito».
Um autor que em França desenvolveu, embora com as variantes, algumas destas ideias de Taine foi Gustave Lanson, que concebeu uma «sociologia literária» que visava analisar as relações entre as influências sociais dos autores, as expectativas dos leitores e as obras. Para Lanson, um texto era o produto do cruzamento de dois factores: o génio do seu autor e as forças sociais colectivas. A abordagem literária, ao centrar-se na individualidade (mais precisamente: les originalités individuelles), no particular e no concreto, estudava o primeiro factor. A sociologia, ao dizer respeito ao grupo, aos factos gerais, às correntes de ideias, etc., ocupar-se-ia do segundo. O problema era que as análises literárias tinham dificuldade em admitir que mesmo o mais original dos escritores é composto em três quartos «de ce qui n’est pas lui».99 Portanto, a verdadeira
99 Gustave Lanson, «La méthode de l‘histoire littéraire», Revue du Mois, 10 de Outubro de 1910, pp. 385-
413, incluído em Essais de méthode, de critique et d’histoire littéraire, edição de Henri Peyre, Paris
grandeza de um escritor não radica tanto na individualidade que o isola como naquelas dimensões que o convertem em representativo de um grupo ou de uma época.100
O método preconizado por Lanson substitui, assim, os estudos assentes na ideia de indivíduo pela análise das relações do indivíduo com «diversos grupos e seres colectivos», observando a sua participação «em estados colectivos de consciência, de gosto, costumes».101 Sendo o escritor um produto social e a sua obra uma expressão da sociedade – «o fenómeno literário é, por essência, um facto social»102 –, Lanson
defendia que não era possível fazer uma história da literatura que não incluísse a perspectiva sociológica, a qual deveria distinguir o individual do colectivo, o original do tradicional, agrupar as obras e os autores por géneros, escolas e movimentos, determinar a relação desses grupos com a vida intelectual, moral e social do país, assim como com o desenvolvimento da literatura e da civilização europeias, etc.,103 tendo como objectivo final a formulação de leis gerais.104