2 Ozone measurements and trends 1979-00
2.2 Trends for Oslo 1979-2020
«Talvez a forma mais elementar de analisar as relações entre sociologia e literatura consista em procurar como esta última é utilizada pelos sociólogos para exemplificar a sua própria teoria», disse em tempos o sociólogo espanhol González García.46 Ora, na história da sociologia encontramos alguns autores que efectivamente se inspiraram nas obras literárias (também a literatura adoptou, como moeda corrente, alguns termos sociológicos, por exemplo: alienação, anomia, subcultura, contracultura, urbanização, grupo de referência, socialização, mobilidade social, carisma, etc.). Os nomes mais conhecidos são os de Max Weber, que colheu o conceito de «afinidades electivas»47 de uma obra de Goethe com esse mesmo título, e de Durkheim, que foi buscar aos heróis do Romantismo, nomeadamente às obras de Goethe, Lamartine ou Chateaubriand,48 exemplos para alguns tipos de suicídio Mas talvez tenha sido Norbert Elias o autor que mais recorreu à literatura para ilustrar a sua teoria sociológica, havendo até quem considere que «toda a obra de Elias está construída sobre referências da literatura, especialmente francesa e alemã».49 González García refere, entre outros, o conto de Edgar Allan Poe, «A Descent into the Maelström», como elemento central na
45 Pascale Casanova, La República mundial…
46 José M. González García, «Norbert Elias: Literatura y Sociologia en el Proceso de la Civilizacion»,
REIS: Revista Española de Investigaciones Sociológicas, nº 65, Janeiro-Março de 1994, p. 59.
47 A expressão serve para designar os laços entre a posição material de um grupo social e as suas filiações
religiosas ou ideológicas. Sobre esta adopção, por parte da sociologia, de conceitos literários, veja-se Priscilla P. Clark, «The Comparative Method: Sociology and the Study of Literature», in Yearbook of
Comparative and General Literature, nº 23, Indiana, Indiana University Press/Bloomington, 1974.
48 W. Lepenies, Between Literature and Science: The Rise of Sociology, Cambridge, Cambridge
University Press, 1988 (ed. original de 1985).
concepção de um dos artigos de Elias incluído em Envolvimento e Distanciamento;50 e num artigo de 1939, «A sociedade dos indivíduos» (mais tarde título de livro com uma recompilação de artigos), Elias recorreu a Goethe e Rilke para expor o seu ponto de vista;51 finalmente, a secção V da primeira parte do capítulo I do Processo
Civilizacional intitulado «Exemplos literários das relações entre a intelectualidade alemã de classe média e os cortesãos», onde converteu explicitamente a literatura num instrumento para exemplificar a sua teoria sociológica e, em particular, a sua análise da génese social dos conceitos de «civilização» e «cultura». De forma genérica, Elias procurou, sempre que possível, «fazer falar sociologicamente» os textos literários, tentou em diversas ocasiões explicar as relações sociais a partir da análise de obras literárias.52
Ainda assim, Lewis Coser era da opinião de que os sociólogos raramente utilizam as obras literárias nas suas investigações.53 O que não faz muito sentido, na sua opinião, porque o pensamento dos escritores (em particular de ficção) e das suas personagens nos informam sobre maneiras de viver e de pensar numa época, nos fornecem uma grande variedade de informações e de reflexões sobre a vida do ser humano em sociedade, tão ou mais ricas que aquelas produzidas pelos «informadores» a partir dos quais muita da pesquisa sociológica se faz. O facto de esses conhecimentos terem sido obtidos por métodos intuitivos não obsta a que possam ser úteis na sistematização teórica. Não obstante, a história tanto da sociologia como da literatura tem-se caracterizado, em termos genéricos e até há relativamente pouco tempo, por uma indiferença ou até mesmo alguma hostilidade recíprocas. Mesmo quando a literatura aparece nas obras de ciências sociais serve essencialmente um propósito decorativo, como nas epígrafes ou em citações avulsas no miolo dos textos.
Na opinião de Lewis Coser, isso acontece porque os sociólogos estão excessivamente absorvidos na missão de garantir a sua integridade científica, quando a sociologia se deveria manter fiel à sua linhagem humanista e preocupar-se, acima de tudo, em contribuir para a auto-interpretação do ser humano; assim, todas as fontes que possam ajudar ao conhecimento sobre o ser humano devem ser ponderadas. Se
50 Norbert Elias, Envolvimento e Distanciamento: Estudos sobre sociologia do conhecimento, Lisboa,
Publicações Dom Quixote, 1997.
51 Norbert Elias, A Sociedade dos Indivíduos, Lisboa, Dom Quixote, 1993.
52 Norbert Elias, O Processo Civilizacional, Lisboa, Dom Quixote, 1989, pp. 75-81.
53 Lewis A. Coser (ed.), Sociology Through Literature: An Introductory Reader, Englewood Cliffs, N. J.,
considerarmos um romance, uma peça de teatro ou um poema como impressões directas e pessoais sobre a vida social, o sociólogo, segundo Coser, deve ter em relação a elas a mesma abertura e a mesma boa vontade que demonstra quando entrevista alguém, observa uma comunidade ou classifica e analisa dados recolhidos, por exemplo, através de questionários. O sociólogo pode encarar perfeitamente as obras dos escritores como o discurso de um inquirido, vendo-se a si próprio como uma espécie de etnólogo decifrando uma narrativa que contém representações sociais e descrições de acções e interacções. Note-se bem: não as representações, as acções e as interacções reais, mas sim as representações, as acções e as interacções seleccionadas, encenadas e elas próprias representadas pelo escritor (como as das entrevistas o são pelo entrevistado).
Nenhum sociólogo pensará, com certeza, que a análise de Balzac sobre o impacto do dinheiro nas relações interpessoais dispensa a leitura de Marx sobre o fetichismo das mercadorias ou de Simmel sobre o dinheiro. Da mesma forma, um estudante que tenha lido as descrições da vida urbana em Londres feitas por Dickens e da anatomia dos estilos de vida parisiense feita por Balzac mais facilmente entenderá as análises de Simmel e de Park sobre a civilização urbana moderna. Devemos ler Karl Marx e Honoré de Balzac, Max Weber e Marcel Proust. Porque a compreensão de uns sairá enriquecida pela compreensão de outros.54
Nas últimas décadas, pode afirmar-se que a teoria sociológica perdeu parte desse pudor. Estamos a pensar nos trabalhos de Erving Goffman, em particular La Mise en
scène de la vie quotidienne, que se apoia em numerosos textos de ficção; de Bernard Lahire, que considerando que a escrita literária, em particular dos romances, não é desprovida de interesse para a sociologia, decidiu estudar, entre outras, a obra de Simenon, de Luigi Pirandello e de Kafka, já que ao colocarem «em cena esta ou aquela parte do mundo social, narrando e descrevendo relações e interacções entre personagens, intrigas, monólogos interiores, comportamentos, destinos individuais e talvez colectivos (profissionais, familiares, amistosos, sentimentais, etc.), os romancistas são sempre guiados por esquemas de interpretação do mundo social, por conhecimentos mais ou menos implícitos do social onde é impossível determinar o grau potencial de ―rentabilidade‖ científica, mas que não são, por isso, menos interessantes (não raro podem mesmo ser apaixonantes) de examinar. As visões do mundo social dos romancistas revelam-se tanto nos comentários (talvez teóricos) que poderão produzir sobre a literatura ou nos seus momentos literários mais didácticos (o autor empresta ao herói-narrador ou a esta ou àquela personagem reflexões sociologicamente muito
pertinentes), como, de maneira mais discreta, nas narrações e nos encadeamentos de acções, de acontecimentos, de objectivos, ou ainda nas descrições de lugares, de objectos ou de personagens (dos seus gestos, da sua hexis corporal, das suas maneiras de falar, de pensar e de se comportar)»;55 ou ainda de Anne Barrère e Danilo Martuccelli, que em Le Roman comme laboratoire partem do princípio que os romances podem alimentar e estimular a imaginação sociológica. Para fundamentar a esta tese, os dois autores estudaram um corpus de 200 romances escritos por vinte romancistas franceses contemporâneos e analisaram-nos, não como reflectindo a realidade social ou as biografias dos seus autores, nem como exemplificações de teorias sociológicas preexistentes, mas como um reservatório de novas categorias de análise que podem enriquecer a nossa apreensão do real.56 Ou ainda F. Champy, que partindo de algumas obras sobre Em Busca do Tempo Perdido, pergunta se é possível, ou sequer se faz sentido, identificar teorias sociológicas como subjacentes às obras literárias. Segundo a sua análise, tais interpretações encontraram num mesmo texto o embrião do interaccionismo simbólico e das teorias de Bourdieu e de Elias, além de fazerem dele um discípulo de Gabriel Tarde e de Durkheim, entre outros. Ora, como é possível, questiona-se Champy, que uma obra literária formule e defenda, simultaneamente, princípios sociológicos muito dificilmente conciliáveis, assentes em concepções contraditórias do indivíduo? Para Lahire, essa multiplicidade de interpretações não constitui qualquer problema, já que estamos a trabalhar sobre material empírico literário. Além disso, partindo do princípio que Proust, na sua análise da vida em sociedade, foi pondo em acção, ao longo da vida, chaves interpretativas diferentes e contraditórias, isso pode querer dizer que o autor de Em Busca do Tempo Perdido incorporara, no seu processo de socialização e na sua experiência do mundo social, diferentes e contraditórias disposições.57
Os textos literários não são (nem pretendem ser, na maioria dos casos) análises empiricamente fundadas ou historicamente contextualizadas, assentes num modelo
55 Sobre a análise da obra de Simenon e de Pirandello, veja-se Bernard Lahire, L’Esprit sociologique,
Paris, La Découvert, 2007, pp. 173-174 (1ª ed. de 2005). Mais recentemente, Lahire publicou uma extensa biografia sociológica sobre o autor checo: Franz Kafka: éléments pour une théorie de la creation
littéraire, Paris, Éditions La Découverte, 2010.
56 Anne Barrère e Danilo Martuccelli, Le Roman comme laboratoire. De la connaissance littéraire à
l’imagination sociologique, Presses universitaires du Septentrion, 2009.
57 Florent Champy, «Littérature, sociologie et sociologie de la littérature. À propôs de lectures
sociologiques de À la recherche du temps perdu», Revue française de sociologie, vol. 41, nº 2, 2000, pp. 345-364.
teórico pensado e seleccionado para esse efeito. Não correspondem à realidade no sentido sociológico do termo, não estão sujeitas a nenhum critério de veracidade científica nem foram submetidas à exigência da prova empírica. Assim, o sociólogo que pretende examinar as obras literárias deve atribuir-lhes o estatuto de «esquemas de interpretação do social, colocados em cena pelos romancistas através da sua escrita literária», procurando apreender nelas o sentido do social ou o conhecimento do social a que os autores recorrem para escrever aquilo que escreveram.58
Na verdade, o que se procura é aferir a capacidade (e simultaneamente a grandeza) de cada obra para exprimir, por exemplo, a sensibilidade de uma época: o romance X, incluído na designação de «literatura light», ao descrever, entre outras coisas, a obsessão dos protagonistas pelas marcas de roupa, de carros, de perfumes, etc., pode ser visto como um sintoma da sociedade de consumo. O grande risco, neste caso, é o de o sociólogo ratificar os juízos indígenas, adoptando as suas categorizações (os «escritores light» como um grupo efectivo e real, e não como um grupo construído pela crítica), e repisar o trabalho classificatório e avaliativo dos críticos. De facto, um dos problemas que se colocam a uma «sociologia das obras», já o dissemos antes, é o de o investigador adoptar, inconscientemente, o ponto de vista dos próprios actores que fazem parte do objecto de estudo.59
Na realidade, um dos vários problemas que se colocam a esse tipo de análises é a ausência de um método de descrição sociológica das obras literárias. Se os escritores, as instituições e as representações literárias, por exemplo, são passíveis de ser analisados através da estatística, da entrevista ou da observação, a verdade é que esses instrumentos raramente podem ser utilizados para estudar as obras, o que faz com que a abordagem sociológica corra o risco de se deixar cair no método descritivo (que inclui a interpretação e a avaliação), já sobejamente utilizado pela crítica literária e pela história da literatura. Como afirmou Nathalie Heinich, «para quem considera, como nós consideramos aqui, que uma disciplina se define antes de mais pela especificidade dos seus métodos, esta questão é decisiva em termos da possibilidade de fazer uma ―sociologia das obras‖».60 Até hoje, o contributo da sociologia para o estudo das obras,
em termos metodológicos, reduz-se praticamente ao estudo das estratificações e das estruturas sociais (como nas obras de Lucien Goldmann e de Pierre Bourdieu) e à
58 Bernard Lahire, L’Esprit…
59 Nathalie Heinich, La sociologie de l’art, Paris, La Découverte, 2004. 60 Idem, p. 88.
construção de um corpus de temas presentes num determinado conjunto de obras literárias (como defende, em parte, Lewis Coser). Esse corpus de temas permite analisar colectivamente as obras – em particular através do método comparativo – e, a partir daí, definir algumas características comuns a uma multiplicidade de livros de ficção61, mais do que interpretar individualmente cada um deles.