Ao adotar a metodologia qualitativa como forma de estudo do fenómeno do
cyberbullying, foi selecionada a entrevista como técnica de recolha da informação. A entrevista é uma conversa com objetivos estabelecidos e precisos, entre pelo menos dois atores que estabelecem uma interação e uma relação de influência recíproca (Albarello
et al., 1997). A entrevista carateriza-se por um contacto direto entre o investigador e os interlocutores, orientado para a recolha da informação em primeira mão. Face aos propósitos desta investigação – as representações sociais dos estudantes da Universidade do Minho sobre o fenómeno do cyberbullying – considerou-se pertinente o seu aprofundamento através da técnica da entrevista. Nesta perspetiva intensiva, trata- se sobretudo de conhecer detalhadamente as perceções dos sujeitos entrevistados face à complexa problemática do cyberbullying, onde se privilegia uma relação verbal entre o investigador e as pessoas entrevistadas. Esta técnica adquire aqui todo o seu sentido, na medida em que se trata de detetar nos discursos, não apenas opiniões, mas também traços atitudinais, ou mesmo de personalidade, que os seus detentores não estão necessariamente conscientes (ibid., p. 91).
5.4.1. A Entrevista
Na presente investigação, recorreu-se à entrevista presencial, estabelecendo-se uma relação direta (frente a frente) com os entrevistados. Relativamente ao seu grau de estruturação, desenvolveu-se uma entrevista semiestruturada, no sentido em que não era inteiramente aberta, nem encaminhada por um grande número de perguntas precisas. Através da entrevista semiestruturada verifica-se uma série de perguntas-guias relativamente abertas, a propósito das quais se esperam receber informações relevantes por parte dos participantes (Quivy, 2008, p. 192). Neste sentido, a aplicação da técnica da entrevista aos estudantes da Universidade do Minho – na sua condição de informadores privilegiados deste estudo – exigiu a formulação prévia de um guião flexível e semiestruturado, com questões incidindo claramente sobre o fenómeno do
cyberbullying (Anexo I). O guião de entrevista foi previamente elaborado com base na literatura sobre o cyberbullying (Bauman, 2009; Belsey, 2005; Limber, Kowalski & Agatston, 2009; Hinduja & Patchin, 2009; Matos et al., 2011; McQuade, Colt & Meyer, 2009; Rogers, 2010; Slonje & Smith, 2008; Pinheiro, 2009, 2016; Montalvão, 2015; Ventura, 2011) e mantendo a estreita articulação com os objetivos propostos para esta investigação, de forma a evitar a dispersão do discurso. Em todo o caso, a ideia central
foi a de incentivar e conduzir o entrevistado a falar livremente e abertamente sobre a temática, de forma espontânea, esforçando-se apenas o investigador por manter o ato de comunicação ao nível dos objetivos centrais, sempre que o entrevistado se afastasse deles ou, se não chegasse por si próprio à informação que se pretendia ver abordada.
Para dar resposta às formas de narração do entrevistado, o guião foi estruturado em três partes principais, desenvolvendo-se depois perguntas «lembrete» que seriam introduzidas se o participante as não explorasse nas suas respostas. Assim, a primeira parte dizia respeito à utilização das novas tecnologias, concretamente à Internet. Considerou-se elementar saber junto dos estudantes o lugar que esta ferramenta ocupa nas suas vidas, até porque é sobretudo através deste meio que o cyberbullying mais se manifesta. Pretendeu-se ainda determinar se os participantes possuíam noção dos riscos, perigos e dos efeitos adversos do uso desta rede. A segunda parte da entrevista versava a temática do bullying, nomeadamente, em explorar se os estudantes tinham conhecimento ou se revelavam alguma proximidade face a este tipo de comportamentos. Um dos motivos para a sua inclusão prendeu-se precisamente pelo facto do bullying e do cyberbullying serem dois fenómenos interrelacionados. Por fim, a terceira e derradeira parte consistiu em explorar plenamente o fenómeno do cyberbullying junto dos estudantes. Para este efeito procurou-se averiguar particularmente: o nível de conhecimento do problema; a identificação de casos; os meios e as formas da sua prática; a caraterização dos seus intervenientes; os motivos e as consequências destes comportamentos; a experiência pessoal dos participantes com o problema; a perceção da existência de casos de vitimação através das redes; e ainda, meios e formas de prevenção e de intervenção em casos desta natureza.
O guião de entrevista foi especialmente orientado para o fenómeno do
cyberbullying e para os aspetos que se relacionam com os intervenientes destas práticas. Contudo, teve-se em consideração que os entrevistados, podendo não ter uma experiência direta com esta problemática, podiam manifestar algum tipo de conhecimento sobre a mesma. Nos casos em que os sujeitos não se relacionavam diretamente com o fenómeno em estudo, optou-se por averiguar aspetos como a caraterização dos intervenientes no cyberbullying, os motivos e as consequências percebidas para estes comportamentos, bem como, a sua opinião sobre formas de prevenção e intervenção nestes casos. Para não perturbar a lógica da «troca de impressões» o guião incluiu ainda no final, uma parte mais fechada e objetiva destinada
à caraterização sociodemográfica do entrevistado, contendo alguns dados enriquecedores para a pesquisa.
No momento das entrevistas e no papel de entrevistador foi seguida a linha de pensamento dos interlocutores, ao mesmo tempo que se uniram esforços para zelar pela pertinência das afirmações relativas aos objetivos da pesquisa, pela instauração de um ambiente de confiança e pelo controlo do impacto das condições sociais da interação sobre a entrevista (Guerra, 2006, p. 95). As entrevistas realizaram-se no mês de maio de 2017, durante o período letivo. Num primeiro momento, abordou-se pessoalmente cada um dos potenciais participantes, procedendo-se à explicitação dos objetivos da investigação e do procedimento de recolha de dados, informando os critérios da aplicação da entrevista (presencial). Nesta abordagem foi solicitada a sua participação voluntária e o consentimento para proceder às entrevistas, gravação áudio das mesmas, bem como para o uso da informação recolhida nesta investigação, sob o garante do anonimato e confidencialidade dos dados, mediante o uso de um código. No final, era agendado o momento da entrevista para a recolha dos dados. No início de cada sessão, era relembrado aos participantes que o teor das conversas não seria divulgado fora do contexto estritamente académico e que a sua participação era voluntária, podendo os mesmos desistir do estudo em qualquer momento. As entrevistas foram gravadas com aparelho de áudio e cada sessão individual durou cerca de quarenta minutos. As mesmas decorreram em ambiente calmo e descontraído, permitindo preservar a identidade do entrevistado e a privacidade da informação recolhida.