Os dados recolhidos através das entrevistas, foram analisados e tratados tendo por base os pressupostos da metodologia qualitativa (Bardin, 2011; Guerra, 2006). A organização e sistematização do material recolhido foi fundamental, tendo-se iniciado pela transcrição “ipsis verbis” dos discursos dos participantes, eliminando todos os dados de identificação para salvaguardar o anonimato e confidencialidade dos dados, seguindo-se a delimitação do corpus de análise e leitura sincrética. Procedeu-se assim, à análise de conteúdo.
5.5.1. Análise de conteúdo
Nos paradigmas da análise compreensiva há lugar para uma grande capacidade de interpretação por parte de quem investiga. A análise de conteúdo tem uma dimensão
descritiva que visa dar conta do que foi narrado e ainda, uma dimensão interpretativa que decorre das interrogações do analista, com recurso a um sistema de conceitos teórico-analíticos, cuja articulação permite formular as regras de inferência (Guerra, 2006, p. 62). A análise de conteúdo é uma técnica que utiliza o procedimento normal da investigação, isto é, o confronto entre um quadro de referência e o material empírico recolhido. De acordo com Bardin (2011), existem vários tipos de análise de conteúdo que pretendem descrever as situações, mas também interpretar o sentido daquilo que foi dito. Assim, o investigador procura o sentido social que está subjacente à descrição dos fenómenos. No conjunto das técnicas da análise de conteúdo, o recurso à análise por categorias é uma das mais utilizadas e funciona por operações de desmembramento do texto em unidades, segundo reagrupamentos analógicos. Entre as diferentes possibilidades de categorização, a investigação dos temas ou análise temática é rápida e eficaz, na condição de se aplicar a discursos diretos (significações manifestas) e simples (ibid., p. 201).
A análise temática é um método de descrição, análise e identificação de padrões (ou temas), que se processa através do desenvolvimento de um sistema de codificação dos dados, que procura encontrar temas centrais, relacionando-os e hierarquizando-os desde um nível mais descritivo, até um nível mais interpretativo. Fazer uma análise temática consiste em descobrir os “núcleos de sentido” que compõem a comunicação e, cuja presença ou frequência com que são manifestos, pode ser significante para o objetivo analítico (ibid., p. 135). A análise temática consiste, pois, na identificação dos temas, na construção de uma grelha de análise que decompõe ao máximo a informação que foi recolhida. Nestes casos, o tema é geralmente utilizado como uma unidade de registo para estudar as motivações, opiniões, atitudes, valores, crenças e tendências (ibid), o que demonstra estar em sintonia com o que é pretendido para esta investigação. Desta forma, para o tratamento dos dados, a escolha recaiu sobre o método da análise temática. A construção da matriz para a análise de conteúdo das entrevistas foi predeterminada tendo por base a revisão da literatura sobre o fenómeno do
cyberbullying (Bauman, 2009; Belsey, 2005; Limber, Kowalski & Agatston, 2009; Hinduja & Patchin, 2009; Matos et al., 2011; McQuade, Colt & Meyer, 2009; Rogers, 2010; Slonje & Smith, 2008; Pinheiro, 2009, 2016; Montalvão, 2015; Ventura, 2011) e mantendo a articulação com a problemática e os objetivos em estudo (Anexo II).
Em síntese, reconhecemos que o conhecimento produzido depende grandemente das metodologias, técnicas e da fundamentação teórica inerente. Considerou-se que a metodologia qualitativa seria a mais indicada para a execução deste estudo, face aos objetivos que são propostos, por permitir obter uma compreensão aprofundada, detalhada e alargada das perceções e dos significados (Bardin, 2011; Guerra, 2006) que os estudantes da Universidade do Minho atribuem ao fenómeno do cyberbullying, o que dificilmente seria alcançado através de outros métodos de investigação. A entrevista semiestruturada, pela sua versatilidade e facilidade de adaptação às caraterísticas dos participantes e das circunstâncias do contexto, emergiu como o instrumento de eleição para a recolha aprofundada de informação. Porém, na análise das entrevistas devemos ter presentes alguns aspetos condicionantes. Em primeiro lugar, a entrevista é sempre uma situação artificial. Apesar da sua utilidade e atendendo à sensibilidade do tema do
cyberbullying (assim como em fenómenos similares), a adoção desta técnica condiciona de certo modo a facilidade de diálogo e a comunicação deste tipo de atos, uma vez que a sociedade tem tendência a encarar tais comportamentos como reprováveis. Esta condicionante, encerrando fatores de desejabilidade social, constitui uma das principais limitações à obtenção de resultados “reais”. Por outro lado, as respostas dos participantes podem ser precondicionadas, porque os entrevistados sabiam de antemão qual a temática que seria alvo de estudo, facto que poderia implicar uma simples pesquisa sobre o fenómeno. Por último, o reduzido tamanho da amostra configura-se também numa das suas limitações, apesar da saturação dos dados. Embora não se pretenda aqui a representatividade em termos estatísticos, a inclusão de mais participantes poderia permitir explorar outros pontos subjacentes à problemática do
cyberbullying (por exemplo: o efeito do nível de literacia, da área de ensino, do percurso educativo e desenvolvimental). Do ponto de vista operacional, com a realização das dez entrevistas alcançou-se a saturação porque os dados que estavam a ser recolhidos, já não traziam mais informações novas ou diferentes que justificassem o aumento da recolha do material empírico. Assim, a partir do momento em que as entrevistas não proporcionaram informação nova, assumiu-se que se chegou ao ponto de saturação dos dados, sendo que a probabilidade de se obter informação nova relevante seria reduzida. Neste sentido, a saturação empírica é definida como um fenómeno pelo qual, depois de um certo número de entrevistas, o investigador têm a noção de nada recolher de novo relativamente ao objeto da sua pesquisa (Guerra, 2006, p. 42).