A prova de necessidades da espetacularização para o ganho de visibilidade são, por exemplo, os dois deputados mais votados de toda a história política deste país, até o momento, o já falecido Enéas Carneiro e Tiririca. Essas duas figuras pitorescas são protagonistas de uns dos momentos mais “divertidos”, comentados e frívolos, que em nada acrescentava à política séria, que os horários eleitorais já viram. Um, ficou marcado por sua alta taxa de elocução e por seu já eternizado slogan pronunciado aos berros na televisão: “Meu nome é Enéas”, e que era fortalecido pelo seu aspecto
caricato. O outro se consagrou zombando da própria política e pondo à prova sua capacidade de exercer um cargo eletivo, expresso no slogan: “Vote Tiririca: pior do que tá, não fica” na velha mídia. Francisco Everardo, escondido atrás de seu
personagem, o palhaço Tiririca, foi o verdadeiro campeão de votos na proporcional das eleições 2010. Tudo não passou da espetacularização da política, neste caso, pode ser acrescentada a ridicularização da política, como forma de obtenção de votos. Nesses exemplos, lamentavelmente, vê-se uma verdadeira “despolitização” da campanha eleitoral, fruto da despolitização cultural em que vivemos.
Enganam-se aqueles que acreditam que o sucesso da campanha desses exemplos citados foi coisa do acaso. As estratégias mercadológicas de Tiririca começaram a serem definidas em maio de 2010, com a realização de um grande briefing, com um questionário com mais de quatro páginas para melhor conhecer o candidato e então posicioná-lo. A partir então, relatórios passaram a ser feitos diariamente: entrevistas e treinamentos com cabos eleitorais, gravação de programas para o horário eleitoral, confecção de fantasias do personagem para a equipe de campanha política, montagem de comitês e envelopamentos de carros e ônibus - tudo para garantir o espetáculo.
Desde o início, a campanha de Tiririca teve um tom de deboche, - o que fez cair na graça do povo – e, desde então, as visitas em seu site de campanha e perfis nas redes sociais digitais cresceram, gerando até interesses em eleitores de outros estados, que buscavam materiais de sua campanha, com isso a visibilidade de sua candidatura crescia a cada dia. Tiririca começou, também, a entrar na mídia digital por meio das redes sociais. O trabalho do marketing político digital para uma alta visibilidade aliado maciçamente à velha mídia foi de fundamental importância para o sucesso atingido, com a ajuda da despolitização da esfera civil, Tiririca fez de sua campanha e de sua candidatura um verdadeiro sucesso espetacular para seus eleitores.
A força da comunicação é incontestável, seja ela exercida pela imprensa ou até mesmo pelo próprio político nas redes sociais, através de sua assessoria. Trata-se de um desenvolvimento novo, intenso e generalizado, abrangente e predominante nas mídias digital e convencional no âmbito político. A comunicação interfere até nas relações dos partidos políticos, sindicatos, movimentos sociais e correntes de opinião pública. Aqui entendemos que a portentosa evolução tecnológica dos meios de comunicação e sua corrente de penetração na sociedade alteraram notoriamente a arena política mundial, criando um novo cenário. Ianni (2000, p.144-145) o chama de “[...] o novo, imenso, complexo e difícil palco da política [...]”, onde:
“[...] as instituições „clássicas‟ da política estão sendo desafiadas a remodelar-se, ou a ser substituídas, como anacronismos, já que outras e novas instituições e técnicas de política estão sendo criadas, praticadas e teorizadas” (IANNI, 2000, p.144-145).
As instituições “clássicas” da política serão tratadas como sendo a própria figura do político, sendo que os mesmos terão que remodelar sua maneira de se comunicar ou poderão perder as próximas eleições. Será preciso entreter, publicizar, espetacularizar e consumir o político na política para ganhar a atenção e aprovação desse produto na sociedade.
Essa espetacularização nos é revelada em seus mais diversos modelos. Em período de campanha, por exemplo, os programas eleitorais mais parecem programas de entretenimento do que propriamente eleitoral, onde se expõem ideias e projetos para uma eventual vitória nas urnas. Já no período pós-campanha, quando eleitos, os políticos se mostram ou se posicionam na mídia como verdadeiros astros a vender suas ideias. Isso leva à inferência de que a política atual é vítima do modelo criado pelos meios de comunicação: ou a pessoa se expõe ou ela se torna esquecida.
Talvez a sociedade ainda seja muito receptiva a esses tipos de candidaturas em decorrência da forte influência exercida pela comunicação de massa - e agora, mais do que nunca, o meio digital - ao longo da formação do raciocínio crítico e ideológico das sociedades modernas, chamada de “Indústria Cultural”, por Theodor W. Adorno e Max Horkheimer. Para esses pensadores, essa influência é tão grande, que acabou por engessar o exercício da razão, deixando a sociedade “irracional apesar de toda racionalização” (ADORNO; HORKHEIMER: 1985), ou seja, ela está engessada e passiva aos modelos ofertados pela indústria cultural, na qual tudo é entretenimento e espetacularização, pois a indústria cultural traduz “rigorosamente o mundo da percepção quotidiana” e isto “tornou-se norma da produção”. Esta retratação pôde ser vista na forma em que foi apresentada a candidatura exemplificada de Tiririca; com um diferencial caricato simplesmente, ecoando o que muitos já diziam: “pior que tá, não
fica”. Pode-se dizer que a vitória de sua candidatura foi ajudada como postulado
macroambiental (forças macroambientais detectadas e supridas), muito em função da instabilidade política aliada à descrença de quem governa aliado ao espetáculo em si.
Os candidatos a cargos políticos, com a utilização da indústria cultural, fazem de suas campanhas verdadeiros shows aos olhos da sociedade, sendo eles os próprios protagonistas desses espetáculos, convalidando aquilo que Guy Debord escreveu: “o espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediada por imagens” (DEBORD, 2006, p. 14), sendo assim, a imagem intermedeia os laços sociais e, como consequência, vê-se o próprio espetáculo em si. No caso de campanhas eleitorais, o uso da imagem é fundamental para a vitória, tanto da sua figura,
“O Palhaço Tiririca”, como mercadoria exposta, quanto da utilização da imagem em movimento, possível através do rádio, televisão, Internet e redes sociais, o que se torna material fértil e indispensável para a espetacularização do momento atual. O espetáculo cria uma nova realidade, um novo mundo, neste caso, o mundo da diversão, do deboche e da despolitização da política, porque praticamente ninguém mais acredita na seriedade dela, pois, afinal, a sociedade é suscetível ao espetáculo.
O futuro da comunicação, como já está ocorrendo em países pioneiros no campo das mídias on-line, como, por exemplo, Estados Unidos da América e Reino Unido, estão cada vez mais nas mãos dos provedores de dados.
A sagração do modelo informacional de civilização contemporânea deve-se, em parte, à emergência da sociedade de imagem aliada ao advento dos meios de comunicação eletrônicos, que, a partir do início do século passado, acelerou-se intensamente e a partir das duas últimas décadas desse mesmo século até nossos dias, concomitante à alforria incondicional das leis de mercado, que vêm se estamentar pelo processo totalizante do chamado neoliberalismo. Tais fatos contribuem para o terceiro milênio, o prolongamento da constituição da sociedade capitalista de consumo. Como afirma Ignacio Ramonet:
“[...] nas democracias atuais, mais e mais os cidadãos se sentem engolidos, lambuzados por uma espécie de doutrina viscosa que envolve e embala toda rebeldia, anulando-a, desorganizando-a. Essa doutrina é constituída de um pensamento único, autorizado e controlado por uma invisível e onipresente política de opinião” (RAMONET, 1995, p. 06).
Partindo das mesmas ideias, o pensador Lasch afirma:
“A produção de mercadorias e o consumismo alteram as percepções não apenas do eu como do mundo exterior ao eu; criam um mundo de espelhos, de imagens insubstanciais, de ilusões cada vez mais indistinguíveis da realidade” (LASCH, 1986, p.22).
O efeito espetacular faz do sujeito um objeto; ao mesmo tempo, transforma o mundo dos objetos numa extensão ou projeção do “eu”. É enganoso caracterizar a cultura do consumo como uma cultura dominada por coisas. O eleitor-consumidor vive rodeado não apenas por coisas, mas também por fantasias. Vive num mundo que não dispões de existência objetiva ou independente e que parece existir somente para gratificar ou contrariar seus desejos.
Os estudos comparativos na Área de Comunicação Política ganham importância na medida em que ocorrem transformações nas democracias representativas ocidentais, principalmente ao se considerar a centralidade dos meios de comunicação que afetam o sentido desse processo. Nessa situação, os especialistas em marketing político pesquisam estratégias de comunicação, tornando-se imprescindíveis em qualquer campanha política. Como relata Swanson:
“La necesidad de utilizar los medios de comunicación para mantener el apoyo de los electores se convierte en una prioridad diaria e implacable del gobierno, y los estrategas y expertos que pueden proporcionar asesoramiento referido a los medios pueden hacerse cada vez más poderosos”12 (SWANSON:
1995, p. 16).
Assim, é possível afirmar que há um campo de possibilidades aberto à não resistência feita por segmentos das camadas menos privilegiadas da população que protestam (e tentam até censurar) contra essa forte e crescente presença da “desordem política”, haja vista as campanhas de políticos que têm sido feitas para ganhar essa enorme fatia de consumidores descontentes utilizando-se da mídia contra os produtos e programas de forte apelo midiático que afirmam uma estética elitista.
12 A necessidade de utilizar os meios de comunicação para manter o apoio dos eleitores converte-se em
uma prioridade diária e implacável do governo; os estrategistas e especialistas proporcionam a assessoria necessária a esses meios tornando-os cada vez mais poderosos.
Considerado o período eleitoral do ano de 2012, a pesquisa que propomos reflete a mudança das estratégias das campanhas políticas, pois, além de reconhecer a importância da introdução de novas tecnologias no processo político, também são utilizadas novas maneiras de conquistar o eleitorado. Certas estratégias e inovações “manejadas” nesse período eleitoral devem ser incorporadas pelos executivos de
marketing político, devido ao potencial das novas tecnologias, configurando-se como mais uma arma de persuasão com entretenimento.
Ficam nossos questionamentos:
Se, por um lado, com grande frequência o popular e o periférico sempre foram estigmatizados, por outro lado, as próprias minorias, ao veicularem sua produção na mídia (na nova era 3.0 digital), vêm conseguindo se constituir em agentes ativos do processo de construção de cidadania, ou mais uma vez estamos manipulados com novas estratégias para obtenção da continuidade do pensamento elitista por um slogan chamado nova cidadania?
Essa situação é bastante diversa da que ocorria em momentos remotos, na qual se atuava dentro de uma postura que paternalizava esses grupos sociais. Agora imersos na cultura digital, nós somos efetivamente sujeitos do discurso e de luta?
No próximo capítulo traremos aspectos do desenvolvimento das novas tecnologias da informação na sociedade na Web 3.0 e apresentaremos um histórico sobre o Twitter um panorama da campanha política às eleições municipais na Cidade de São Paulo na comunicação por imagens.
Capítulo III
A Comunicação Política nas Redes Sociais: um estudo
das Imagens do Twitter nas Campanhas Eleitorais da
Capítulo III
A Comunicação Política nas Redes Sociais: um estudo das Imagens do
Twitter nas Campanhas Eleitorais da Cidade de São Paulo
Neste capítulo, abordaremos uma pesquisa sobre a comunicação política nas redes sociais virtuais. Serão analisadas as relações entre essas redes e a sociedade contemporânea, para alguns nomeada como sendo a sociedade da informação. O capítulo também traz aspectos relativos ao desenvolvimento das novas tecnologias da informação na sociedade na Web 3.0, o campo das mídias, e, assim, o surgimento do
Twitter. Prevê-se apresentar um panorama da caminhada política nas eleições municipais na cidade de São Paulo - 2012 em termos de imagem no Twitter inserida nas novas linguagens decorrentes desses novos aparatos tecnológicos.