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5 Funn og analyse

6.4 Utfordringer knyttet til den horisontale samordningen

À luz da necessidade de contextualizar a CI para pensarmos a dimensão conceitual de documento no seu quadro teórico, buscaremos, no presente capítulo, sintetizar abordagens que ainda hoje estão em voga no seu campo disciplinar. Tais “concepções de ciência” trabalham, especificamente, para a produção de metadiscursos explicativos e objetivam, por conseguinte, justificar a existência e a pertinência social da CI. Para melhor compreender tal dinâmica, identificou-se a existência de duas abordagens teóricas: a) prático-disciplinar, que associa a criação da CI a práticas e a associações profissionais, a teorias, etc.; e b) epistemológica, que compara as práticas, as teorias, os conceitos, etc. a uma, necessária, base filosófica. Explicaremos e exemplificaremos as especificidades de tais abordagens mais adiante.

Seguindo a ordem acima proposta, daremos o nosso primeiro passo trazendo as interpretações históricas que se inserem no universo interpretativo prático-disciplinar. Argumentaremos que as hipóteses formuladas sob esse prisma de análise, quando pensadas isoladamente, não contemplam a amplitude da criação de uma disciplina numa perspectiva epistemológica. Entendemos que a simples apreensão e aceitação de que a CI nasceu, exclusivamente, de atividades profissionais, induz ao obliteramento da complexidade histórica (interesses políticos, ideológicos, econômicos, etc.) e filosófica que antecedeu e perpassou a sua criação disciplinar.

Ao iniciar um retrospecto, torna-se relevante rememorar a mudança dos diferentes suportes informacionais (das tábuas de argila até os suportes digitais atuais) que a secular instituição biblioteca presenciou. Nesse contexto, o formato livro (em suporte papel) foi o que mais se destacou e se consolidou na instituição biblioteca, principalmente depois da difusão da imprensa de Johannes Gutenberg, no século XV. O aperfeiçoamento dos tipos móveis de Gutenberg possibilitou um incalculável avanço nas formas de produção e reprodução de documentos e, conseqüentemente, de conhecimentos.

Dessa forma, foi a partir da Idade Moderna que a biblioteca passou a se firmar como instituição autônoma, mais especificamente, no momento em que os trabalhadores da biblioteca, ou “bibliotecários”, deixaram de atuar na reprodução de documentos

(características dos monges copistas na Idade Média), pois tal atividade passou a ser desempenhada por oficinas especializadas.

Isso explica, de certa forma, os motivos pelos quais a Biblioteconomia, desde a sua criação, foi apreendida como a primeira área de aplicação e estudo preocupada com a “[...] preservação das unidades do conhecimento registrado”, tendo a sua atividade pautada pela disseminação de equipamentos físicos, mediante laços produtivos e formais, “[...] mas não estabelecidos com base na informação e no seu contexto de produção e uso.” (ORTEGA, 2004).

Com o distanciamento gradativo do processo de produção e de reprodução de documentos, a Biblioteconomia passou a se restringir a uma concepção “clássica” de biblioteca (calcada pela sua forte função “educativa”, de caráter universalizante). Em particular, no momento de criação das “[...] primeiras bibliotecas públicas tomou corpo o ideal de serviço para a comunidade e se passou a considerar que a educação era um meio eficaz de aperfeiçoamento individual.” (SHERA, 1980, p.93).

Essa concepção “iluminista” de biblioteca pública, pressupondo que o conhecimento deveria ser de acesso irrestrito aos indivíduos, passou a ser problematizada quando o conhecimento científico (especializado) estava em pleno desenvolvimento e expansão, particularmente, em meados do século XIX.

Argumentava-se, nesse período, que a biblioteca “universalista” havia deixado de acompanhar os avanços técnico-científicos que se refletiram na produção de um maior número de documentos de diferentes tipos que, por sua vez, precisariam ser tratados, organizados e recuperados. Respondendo a essa necessidade, surgiu uma nova concepção da instituição, principalmente quando as bibliotecas deixaram de ser um mero lugar para o estoque de livros e passaram a priorizar o conteúdo documental e o seu respectivo acesso. (FAYET-SCRIBE, 2001, p.14),

A especialização nos serviços de informação decorreu dessas novas demandas sociais e os seus primórdios podem ser observados com a criação dos instrumentos de classificação bibliográfica que visavam a uma maior delimitação temática no processo de organização e recuperação da informação. Destaca-se a publicação, nos Estados Unidos (EUA), da primeira edição da Classificação Decimal de Melvil Dewey (CDD), em 1876, que ajudou a promover a institucionalização do serviço de informação especializado e contribuiu para o desenvolvimento da denominada Biblioteconomia Moderna (ou especializada).

Somando-se a isso, as iniciativas de padronização da catalogação bibliográfica foram igualmente muito importantes. Desde os primeiros intentos de padronização, destacamos as

iniciativas de Charles Ami Cutter, com a publicação, em 1876, nos EUA, das Regras de um Catálogo Dicionário; não deixando de mencionar a publicação, em 1899, na Alemanha, do instrumento catalográfico das Instruções Prussianas; e, em 1901, a criação, pela Biblioteca do Congresso dos EUA, de um sistema de distribuição de fichas catalográficas impressas e padronizadas. (ORTEGA, 2004).

Com a crescente complexidade institucional da Biblioteconomia nos EUA no período da Segunda Guerra, outros profissionais (de distintas áreas) passaram a atuar, em particular, na Biblioteconomia Especializada (articulada pela Special Libraries Association). Essa especialização marcou uma cisão entre os profissionais especializados e os bibliotecários que trabalhavam sob uma perspectiva biblioteconômica nos moldes “clássicos”.

Assim, os interesses expressos por associações profissionais geraram divergências entre os denominados librarian − bibliotecários tradicionais, dentre os quais se destacaram personalidades da área como Dewey, Ranganathan e Bliss − e aqueles que, aos poucos, representavam uma outra categoria profissional por trabalharem nas Special Libraries (bibliotecas especializadas), ou seja, os information scientists (cientistas da informação ou bibliotecários especializados). (SHERA, 1980, p.94; MEYRIAT, 1993, p.194).

Destarte, como observamos no caso específico dos EUA, a literatura acadêmica em informação constantemente revisita os acontecimentos ocorridos na França entre o final do século XIX e início do XX. Por intermédio de tal referencial, podemos observar que, nesse país, ocorreu similarmente uma indisposição entre os bibliotecários tradicionais − que mantinham acervos organizados por generalidades temáticas, com função patrimonialista, educativa e universalista179 − e os documentalistas, que tinham como enfoque o tratamento para a disponibilização da documentação especializada e científica e que eram advindos de uma tradição do movimento bibliográfico (WOLEDGE, 1983). Tais documentalistas provinham das mais diversas profissões e campos do saber e trabalhavam nos centros de documentação, sendo os protagonistas de uma relativa tensão entre Biblioteconomia e Documentação. (MEYRIAT, 1993, p.195).

O contexto profissional acima descrito pode ser considerado o “pano de fundo” que acompanhou o processo de busca por legitimação teórica das duas disciplinas que, até hoje, reivindicam constituírem a “gênese” da CI: a Biblioteconomia e a Documentação. Desse modo, as preocupações teórico-disciplinares estão presentes na diversidade de opiniões de pesquisadores da CI que se detiveram e reconheceram a importância do Traité de Otlet, o qual

seria a base para uma orientação teórica européia da CI, em particular, em uma vertente francofônica; e do ensaio do cientista estadunidense Vannevar Bush intitulado As we may think, que definiria o marco teórico inicial da vertente anglofônica da CI.

Ademais, vale destacar que não existe consenso entre os teóricos que defendem uma demarcação teórico-disciplinar em ambas as correntes. Por exemplo, autores como Wersig (1993) e Rayward (1991; 1994; 1995) argumentam que a CI se originou com a perspectiva européia; já para Saracevic (1992; 1996) e Capurro (2003) esta disciplina se alinha mais à corrente estadunidense. Todavia, na opinião de López Yepes (1995) e Rodríguez Bravo (2002), ambas as abordagens se complementam.

Como vimos no capítulo anterior, a perspectiva européia da Documentação nasceu, em grande medida, sob a influência das idéias positivistas de Auguste Comte (DAY, 1997; RAYWARD, 1991, 1994; SANDER, 2002) influenciadas também pelo objetivismo lingüístico, iniciado pelos enciclopedistas do século XVIII. (DUCHEYNE, 2005). Tal orientação foi decisiva para a criação da obra de Otlet que expressou, em uma abordagem ampla e com grande preocupação formal, a sua inquietude frente aos problemas informacionais de sua época. Dessa forma, o Traité tornou-se, a partir de então, uma importante referência para pensarmos as questões informacionais hodiernas. Por exemplo, Rayward (1994; 1995) desenvolveu a sua argumentação a partir da interpretação da obra otletiana no sentido de contextualizá-la e trazê-la para a atualidade, demonstrando a sua contribuição para o desenvolvimento do hiperlink, das bases de dados, da Internet, etc. Para o referido autor, a Documentação foi a “raiz disciplinar” da CI. Sob esse prisma, credita-se ao Traité a posição de “pedra angular” que deu início à Documentação, como uma “ciência da informação”.

É importante sublinhar que o Traité destaca o labor da Documentação (que trabalha com a especificidade do conteúdo documental) como algo necessário para lidar com o problema da grande quantidade de documentos acumulados desordenadamente, para os quais a Biblioteconomia “clássica” não trazia respostas satisfatórias com os seus métodos e técnicas tradicionais. Segundo afirmou Otlet (1934, p.6), a “documentação organizada” tem como princípio oferecer a ordem de conhecimentos documentados. Como descreve Rayward (1994, p.237-238, tradução livre):

O Traité é talvez a primeira sistemática moderna da discussão dos problemas gerais de organização da informação. O termo “documentação” é um neologismo inventado por Otlet para designar o que hoje nós tendemos a chamar de “Armazenamento e Recuperação da Informação” (Information

Por outro lado, a acepção anglofônica de CI estaria, sobretudo, relacionada às atividades profissionais em documentação − principalmente no setor privado nos EUA, iniciadas anteriormente à Segunda Guerra − e à eficiência organizativa de associações profissionais e de pesquisa, como o American Documentation Institute, fundado em 1937 (atualmente, The American Society for Information Science and Technology – ASIST), que representavam, em grande medida, o interesse dos EUA em se projetar como país investidor e produtor de ciência e tecnologia.

Essas associações elegeram e disseminaram o termo Information Science (Ciência da Informação) como o “porta-voz” de uma promissora “ciência” que precisou de um processo de “disciplinarização” eficientemente arquitetado em um curto espaço de tempo. Por exemplo, o artigo de Borko (1968), embasado nas idéias de Taylor, expressa esse intento de justificar e de delimitar essa nova disciplina, trazendo sucintamente as preocupações teóricas deliberadas nas conferências do Georgia Institute of Technology (realizadas nos EUA, 1961/1962),180 que seriam orientadoras para as pesquisas e práticas profissionais em informação na relativa separação e interdependência entre a dimensão teórica e a aplicada. Somando-se a isso, Freitas (2003) e Oliveira (2005) nos mostram que a UNESCO, durante as décadas de 1960 e de 1970, teve um importante papel de divulgação de tais idéias com o intuito de formar um Sistema Mundial de Informação Científica para “cooperação voluntária internacional” (UNISIST).181

Em síntese, os primórdios do enfoque prático-disciplinar podem ser observados na literatura acadêmica da CI, da qual podemos ressaltar, por exemplo, a apreensão de Borko (1968), que destacou a vocação dessa disciplina para enfoques teóricos e aplicados;182 e a

180 É interessante observar que a “[...] adoção do termo Ciência da Informação no idioma inglês pode ser

verificada já em 1958, com a criação, em Londres, do Institute of Information Scientists, e dez anos depois, com a mudança de denominação do American Documentation Institute para American Society for Information Science and Technology, o mesmo ocorrendo com as escolas de Biblioteconomia e com as publicações [periódicas].” (ORTEGA, 2004).

181 Para uma síntese acerca da importância e da influência da criação de instituições/associações profissionais e

de periódicos de divulgação científica para processo de criação e disciplinarização da CI, ver: FERNÁNDEZ MOLINA, J. C. De la Documentación a la Information Science: antecedentes, nacimiento y consolidación de la “Ciencia de la Información” en el mundo anglosajón. Boletín de la Asociación Andaluza de Bibliotecarios, v.9, n.33, p.41-61, 1993.

182 Em sua clássica citação, Borko (1968, p.3) afirmou que a CI surgiu como um campo autônomo no início de

1960 como uma: “[...] disciplina que investiga as propriedades e o comportamento da informação, as forças que governam seu fluxo, e os meios de processá-la para otimizar sua acessibilidade e uso. A CI está ligada ao corpo de conhecimentos relativos à origem, coleta, organização, armazenagem, recuperação, interpretação, transmissão, transformação e uso de informação... Ela tem tanto um componente de ciência pura, através de

abordagem de Shera (1980), que a direcionou como uma “profissão” cujo fim seria subsidiar teoricamente a prática biblioteconômica.183

Nesses termos, poderíamos dizer que a CI primeiramente foi pensada como disciplina e, posteriormente, seus pesquisadores se preocuparam com as questões de ordem histórica e epistemológica no sentido de oferecer-lhe maior alicerce teórico e metodológico. Em outras palavras, durante muito tempo seus estudiosos se detiveram mais nas questões de ordem prático-disciplinar do que naquelas de ordem científica, ou seja, da “ciência em movimento”. Essa ênfase inicial no aspecto disciplinar da CI sem o prévio embasamento científico explica a premência atual de estudos de natureza epistemológica. Cabe destacar que o fortalecimento de suas bases teóricas e metodológicas para sua justificação como ciência social é relevante para que a CI possa conquistar um maior reconhecimento perante a sociedade. Isso poderia levar à superação da embaraçosa situação de a CI ser equiparada a outras disciplinas, como a Ciência da Computação e o Jornalismo, por exemplo.

Complementando a abordagem prático-disciplinar de CI a partir da Biblioteconomia moderna (anglofônica) e da Documentação (francofônica), o autor espanhol López Yepes (1995) apresentou as perspectivas da Ciência da Informação e Documentação (informations- und dokumentationswissenschaft) alemã e da Informática (Informatika) russa.

Ao apresentar a corrente originada na Alemanha, López Yepes (1995, p.197-214) demonstrou que a vertente européia de CI não se limitou à corrente francofônica. O referido autor espanhol se embasou em autores como Shober (1968), Pietsch (1968), Koblitz (1968, 1969, 1970, 1975) e Wersig (1975), entre outros, para demonstrar que a perspectiva alemã da Ciência da Informação e Documentação diferiria da concepção estadunidense e seria mais ampla que a mesma.

Essa disciplina alemã se singularizou quando passou a somar a responsabilidade social ao ponto de vista crítico direcionado às tecnologias de informação, tomando como prioridade a informação social organizada como enfoque e objeto de estudo. A Documentação seria pesquisa dos fundamentos, sem atentar para sua aplicação, quanto um componente de ciência aplicada, ao desenvolver produtos e serviços.”

183 Conforme argumenta Shera (1980, p.99), a CI seria uma profissão, embora não prestasse serviços

propriamente práticos. “É possível que a Ciência da Informação não tenha, todavia, uma base teórica, porém procura encontrá-la nas disciplinas em que se apóia e é, por sua vez, a base teórica da prática Biblioteconômica”. Assim, a Biblioteconomia seria a atividade profissional que lida com o conjunto de “[...] organismos, operações técnicas e princípios que dão aos documentos gráficos o máximo de utilidade humanamente possível, ou seja, a utilidade social máxima em benefício da humanidade.” Nesse sentido, enquanto a Biblioteconomia foi apreendida como uma profissão de “serviço” que pode ter um caráter abrangente e especializado; a CI, por outro lado, seria uma “profissão teórico-especializada” que subsidiaria a prática biblioteconômica.

determinante para a disciplina, pois representaria o processo de produção documental, ou seja, o processamento analítico-sintético da documentação que levaria a sua função informativa no processo de armazenamento, recuperação e transmissão da informação. Conforme postularam Wersig & Neveling (1975), cujo texto foi recentemente estudado por Freire (2003), a disciplina alemã se constituiu priorizando dois enfoques: enquanto a Ciência da Informação se preocuparia com a informação em um contexto social amplo, a Documentação se encarregaria da informação especializada.

Portanto, a complementaridade desses dois enfoques marcou a criação da Ciência da Informação e Documentação alemã, que, na condição de ciência social, fora criada para ocupar-se das questões sócioinformacionais de maneira ampla. Porém, a condição instrumental das teorias para o delineamento do seu caráter disciplinar, com enfoque nas questões de ordem eminentemente prática, evidencia que essa disciplina não se diferenciou substancialmente da proposta estadunidense de CI.

Compreendemos que o ensaio de Bush (1945), na perspectiva estadunidense, trouxe implicitamente os primórdios da “vocação” que a CI tomou como conduta balizadora, ou seja, incitou a ênfase nos recortes teóricos de outras disciplinas para tentar suprir demandas específicas e aplicadas de informação (especializadas, portanto) em um enfoque marcadamente funcional e instrumental. Em outros termos, esse artigo foi tomado simbolicamente como marco por muitos pesquisadores, por representar o momento do pós- guerra em que se abriu um campo de investigação aos cientistas, frente à questão da informação voltada para a identificação e para a solução de problemas informacionais por meio de aparatos tecnológicos, em particular, relacionados à Recuperação da Informação (RI).

Assim, muitos chegaram a afirmar, tal como fez Saracevic (1996, p.43), que Bush antecipou o “[...] nascimento da CI e, até mesmo, [da chamada] inteligência artificial” ao propor, mediante as tecnologias de informação, a associação de idéias para duplicar processos mentais artificialmente, visando a suprir a necessidade de se recuperar o conhecimento registrado perdido no nebuloso acúmulo de documentos resultante da “explosão da informação” do período pós-guerra. Os teóricos que convergem em tais premissas postulam que o texto de Bush evidenciou a necessidade de se produzir uma “memória auxiliar sobressalente” que ajudaria o pesquisador a produzir novos conhecimentos. A tecnologia atuaria como uma extensão da memória do cientista, ou seja, como uma espécie de extensão do seu corpo.

Sob tal pensamento, Bush idealizou e propôs uma “máquina” denominada Memex que consistia em um dispositivo que iria potencializar o pensamento criativo e a memória do

pesquisador (de forma personalizada e individualizada) por ter a pretensão de executar o “pensamento repetitivo” e que, conseqüentemente, também proporcionaria ao cientista maior tempo livre para a sua produção intelectual, para a criação de novas tecnologias, trazendo, como resultado, maiores recompensas econômicas.

Dessa forma, esse ensaio marcou os primórdios de uma orientação teórica da CI calcada na solução de problemas por meio da tecnologia. O documento, na lógica do Memex, seria uma “unidade de memória” que poderia ser acionada de acordo com a necessidade do pesquisador no desenvolvimento de sua “pesquisa aplicada” para a produção do conhecimento tecnológico ou técnico-científico. Portanto, poderíamos dizer que a importância de Vannevar Bush para a CI se situa em sua “antevisão” da pertinência instrumental da tecnologia para a resolução de problemas informacionais, particularmente em RI.

De forma associativa, muitos creditam à “máquina” imaginada por Bush a posição de precursora dos computadores modernos e ainda postulam que ela apresentou as bases para a criação do hiperlink quando apontou para a associação de documentos com códigos comuns de forma automática.184 Segundo explicou Bush (1945),

Um MEMEX é um dispositivo que permitirá a uma pessoa armazenar todos os seus livros, arquivos e comunicações, e poderá ser consultado com grande velocidade. Na verdade, seria um suplemento ampliado e íntimo de sua memória. O MEMEX consiste em um escritório, que se bem operado a distância, constituirá primeiramente o local de trabalho do utilizador.

Entretanto, para Buckland (1997a, p.3), o projeto não concluído de Bush (o Memex) apontava para uma alternativa superficial e ineficaz, pois esse dispositivo tinha um arbitrário mecanismo de associação e, se fosse concretizado, não alcançaria o objetivo de ser personalizado ao “conhecimento” do pesquisador. Como salienta o autor, a idéia do Memex era inconsistente porque não foram considerados os conteúdos dos documentos como elementos-chave para garantir uma transmissão otimizada e qualitativa, mas priorizou-se somente as relações do meio de transmissão, ou seja, a forma (tecnológica) do processo. Os atalhos de transmissão, do modo como foram apresentados, tendiam a se tornar obsoletos, pois, com a mudança do conhecimento do usuário/operador, o sistema não previa uma atualização de tais meios.

184 Rayward nos mostra que Otlet observou, antes de Vannevar Bush, a necessidade de solucionar o problema na

organização e na recuperação do montante de informação que estava sendo produzido e estocado desordenadamente. Contudo, na época, o teórico belga não dispunha de tecnologias mais eficientes, já que estas só foram desenvolvidas décadas após sua morte (como, por exemplo, o computador). (RAYWARD, 1994, p.238).

O lado positivo da perspectiva de Bush foi a abertura de caminhos para outros estudos em RI, já que foram despendidos grandes investimentos para tentar controlar a grande quantidade de informações especializadas produzidas. Desse modo, o conhecimento científico gerado por intermédio do aperfeiçoamento da racionalidade técnica e do aprimoramento dos meios de produção era considerado um investimento em potencial. Destarte, a RI foi, segundo apontou Saracevic (1996), o principal fator para o desenvolvimento da CI como disciplina científica. Nesses termos, a RI influenciou a “[...] emergência, a forma e a evolução da indústria da informação.”

Contudo, apesar da importância desse enfoque para a criação disciplinar da CI − que, posteriormente, não se limitou apenas à recuperação, ampliando o seu campo de ação instrumental −, historicamente a vertente estadunidense carregou uma tendência até hoje perceptível à escassez (ou de lacunas) de fundamentação e preocupação epistemológica, ou seja, a enfatizar mais a tecnologia e os recortes teórico-disciplinares sob o ponto de vista prático em detrimento da contextualização do pensamento produzido na CI de tradição científica e filosófica. Essa situação remete, em certa medida, a uma inconsistência teórica e à premência de estudos epistemológicos, sobretudo, para pensarmos a CI no âmbito das ciências humanas.

Como vimos, uma das maiores contribuições observadas com esse enfoque utilitário da RI para a proposição da CI foram os altos investimentos em tecnologia promovidos pelos