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2.3 Utfordringer i en multinasjonal og prosjektbasert organisasjon

3.2.2 Andre datakilder

Iniciamos o presente item dando destaque às contribuições de Burke (1997, p.17-18), que fez um resgate dos principais críticos do “antigo regime” historiográfico no intuito de apreender o contexto anterior em que os jovens Febvre e Bloch propuseram o movimento dos Annales. Nessa análise, o autor observou que a narrativa da história tradicional com o enfoque nos acontecimentos políticos e militares vigorou desde a Antigüidade (Heródoto e Tucídides) até o século XIX (Leopold von Ranke e seus seguidores), em seus diversos gêneros (crônica monástica, memória política, tratados de antiquários, etc.), e que essa perspectiva fora contestada pela primeira vez somente durante o Iluminismo (século XVIII).

Conforme descreve o historiador, a crítica à narrativa tradicional ocorreu, inicialmente, em países como Escócia, França, Itália, Alemanha, etc., com a proposição de uma espécie de “História da sociedade”. Dentre as principais obras se destacou o livro do filósofo francês Voltaire, Essai sur les moeurs, que tratou de temas como as leis, o comércio e os “costumes”.

Ainda no século XIX, encontraram-se vozes discordantes, as quais concebiam a História de uma maneira mais ampla, diferenciando-se dos seguidores de Ranke, especialmente Michelet, que apreendia a história a partir da perspectiva das classes subalternas; e Burckhardt, que entendia que a história era regida por três forças: o Estado, a Religião e a Cultura. Ambos dedicaram parte de seus estudos à História do Renascimento. Destacaram-se também Fustel de Coulanges, o qual se dedicou à História da religião, da família e da moralidade; e Karl Marx, cuja visão de História se fundamentava nas mudanças ocorridas devido às contradições inerentes nas estruturas socioeconômicas burguesas. No entanto, foram os historiadores econômicos que se destacaram como os maiores opositores à História política, dentre os quais se sobressaíram o alemão Gustav Schmoller, os ingleses William Cunnigham e J. E. Thorold Roger e os franceses Henri Hauser, Henri Sée e Paul Mantoux. (BURKE, 1997, p.19).

Ademais, Burke (1997, p.19-20) mostrou que os fundadores da Sociologia expressavam pontos de vista semelhantes relativamente à critica ao enfoque da História política. Conforme observado no item 1.1, Auguste Comte defendia o que denominou de “uma história sem nomes” (COMTE, 1864, lição 52); indo igualmente nessa direção, Herbert

Spencer queixava-se de que as “[...] biografias dos monarcas (e nossas crianças aprendem pouco mais do que isso) pouco esclarecem a respeito da ciência da sociedade” (SPENCER, 1861, p.26); já Durkheim não se interessava pelos acontecimentos particulares, pois eram apreendidos como “manifestações superficiais” as quais representavam uma história aparente que, para ele, não se aproximava da realidade de uma determinada nação. (DURKHEIM, 1896).

A partir de 1900, as críticas à História política se tornaram agudas. Tal fato pode ser verificado nas críticas do alemão Karl Lamprecht, que defendia a História cultural e econômica (denominada por ele como a História do povo) e do historiador estadunidense Frederick Jackson Turner, estudioso das questões sobre o significado da fronteira na história estadunidense. De forma mais enfática, o historiador James Harvey Robinson defendeu a criação de uma “nova História”, que qualitativamente se diferenciaria por considerar um leque amplo de fontes documentais, dentre as quais se podiam incluir “[...] qualquer traço ou vestígio das coisas que o homem fez ou pensou, desde o seu surgimento sobre a Terra.” Nesse sentido, Robinson acrescentou ainda, com relação ao método, que a “nova História” valer-se- ia “[...] de todas as descobertas sobre a humanidade, que estão sendo feitas por antropólogos, economistas, psicólogos e sociólogos.” (apud BURKE, 1997, p.20).

Paralelamente, na França, essas questões ganharam ainda mais força. Houve uma série de estudos que passaram por uma espécie de transição, como é o caso, por exemplo, da mistura de entusiasmo e crítica, por parte do fundador da Revue Historique, Gabriel Modod, à História Científica alemã; e o estudo da história da França editado por Ernest Lavisse, o qual incluía uma parte substancial dedicada às artes e, particularmente, às políticas das artes. Desse modo, segundo Burke (1997, p.21), “[...] é inexato pensar que os historiadores profissionais desse período estivessem exclusivamente envolvidos com a narrativa dos acontecimentos políticos.”

Por outro lado, no mesmo período, o historiador François Simiand (1903) fez uma crítica mais incisiva ao atacar o que chamou de “os ídolos da tribo dos historiadores”, dividindo-os em três ídolos que deveriam ser derrubados, a saber: o “ídolo político”, o “ídolo individual” e o “ídolo cronológico”. (BURKE, 1997, p.21). Tal crítica (direcionada principalmente a Charles Seignobos, discípulo do rankeano Lavisse) fora importante para o desencadeamento do movimento dos Annales, pois seus principais idealizadores, Lucien Febvre e Marc Bloch, passariam a buscar, dentre outras coisas, a defesa interdisciplinar no que concerne à pesquisa em História.

Pretendemos, neste momento, destacar o trabalho dos idealizadores (e dos seguidores) do movimento que revolucionou a historiografia do século XX e que fora denominado, por muitos teóricos, de “Escola dos Annales”. De modo específico, objetivamos expor os traços distintivos das três gerações do movimento dos Annales para, a partir disso, compor a crítica desse movimento à “História Positivista”. A mudança historiográfica proposta por esse movimento é pertinente para o nosso estudo, pelo motivo de que poderemos apreender de que maneira se deu a ampliação conceitual de documento no universo da cultura material.

O movimento dos Annales ficou conhecido pela forte influência de seus idealizadores, Lucien Febvre e Marc Bloch65 (primeira geração), no cenário historiográfico mundial, sendo eficientemente difundido por seus seguidores, particularmente, Fernand Braudel (segunda geração), Georges Duby, Jacques Le Goff, Emmanuel Le Roy Ladurie, entre outros (terceira geração).

As três gerações dos Annales tiveram como eixo duas posições fundamentais e permanentes: “[...] a adoção do ponto de vista das ciências sociais e a prática da interdisciplinariedade”, embora tivessem enfoques diferentes. Os fundadores desse movimento desenvolveram suas teorias enfocando a “compreensão”, na História-problema e na História global; a segunda geração se dedicou às regularidades, às séries, às técnicas, à quantificação e à abordagem estrutural; já a terceira fase referiu-se a modelos, a invariantes conceptuais e a interpretações. (REIS, 2004, p.97).

Dessa forma, esse movimento surgiu guiado por idéias-diretrizes, tais como a substituição da tradicional narrativa de acontecimentos por uma História-problema; o enfoque da história de todas as atividades humanas e não apenas História política (ou seja, de uma História total ou estrutural); e a colaboração com outras disciplinas em uma proposta interdisciplinar com a Geografia, a Sociologia, a Psicologia, a Economia, a Lingüística, a Antropologia Social, etc.66 Segundo pontuou Reis (2004, p.77-78):

65 Os fundadores do movimento, Febvre e Bloch, em seus respectivos estudos medievais, compartilharam da

perspectiva metodológica do estudo da História-problema (dentro de uma concepção interdisciplinar). Porém, eles se diferenciavam em relação ao enfoque de estudo. Febvre se interessou mais pela Geografia (valorizando a introdução geográfica, ou seja, o perfil dos contornos da região estudada) e ainda defendia a idéia de que não era o ambiente físico que determinava a opção coletiva, mas a maneira de viver e o comportamento humano. Já Bloch apresentava um interesse maior pela Sociologia (embora não desprezasse a Geografia). Esse autor questionou a noção de região, pois, para ele, o enfoque deveria centrar-se no problema a ser estudado. (BURKE, 1997, p.25-27).

66 Optamos por, primeiramente, apresentar o movimento dos Annales em suas três gerações de modo a trazer um

balanço geral dos seus principais teóricos e as suas respectivas contribuições a partir de suas obras mais importantes. Essa apresentação do movimento será introdutória para desenvolvermos posteriormente a crítica dos Annales à “História Positivista”. Foi a partir deste questionamento que Bloch e Febvre delinearam as idéias iniciais que foram diretrizes do movimento, a saber: a crítica ao enfoque dos acontecimentos políticos; a

O programa proposto pelos fundadores consistia fundamentalmente no seguinte: a interdisciplinaridade, a mudança dos objetos da pesquisa, que passavam a ser as estruturas econômicas, sociais e mentais; a mudança na estrutura da explicação-compreensão em história, a mudança no conceito de fonte histórica e, sobretudo, embasando todas as propostas anteriores, a mudança do conceito de tempo histórico, que agora consiste, fundamentalmente, na superação estrutural do evento.

De acordo com Bucaille & Pesez (1989, p.17), esse movimento foi fundado a partir da constatação de que “[...] os fatos econômicos e técnicos, os sistemas de produção, de distribuição e de consumo e, de modo geral, toda a vida rural, são praticamente ignorados.” Os autores desse movimento deram a palavra aos denominados “mudos da história”.

Em nossa investigação, o estudo de Burke (1997) foi relevante na medida em que objetivou descrever, analisar e avaliar a obra dos Annales partindo da problemática de que esta não poderia ser entendida como uma “escola” teórica, e sim como um movimento, cuja diversidade de opiniões e de enfoques (individuais e de grupos) marcou o seu desenvolvimento teórico de caráter multidisciplinar que buscou harmonizar uma organização cronológica a uma temática.67 Em sua análise, o autor dividiu o movimento em três fases:

9 1920-1945 − período em que o movimento se caracterizou por ser pequeno, radical e subversivo, conduzindo um embate intenso contra a “História Positivista” ou tradicional (com ênfase na política e nos eventos);

9 Pós Segunda Guerra − momento em que os rebeldes se apoderaram do establishment histórico, aproximando-se de uma “escola”, quando se criaram conceitos diferentes (estrutura e conjuntura) e novos métodos (“história serial” das mudanças de longa duração);

consideração das estruturas e da História total; e a abordagem interdisciplinar. Seguindo essa ordem, abordaremos, ainda neste item, a crítica dos Annales à “História Positivista”, momento esse em que analisaremos a igual importância do movimento para a ampliação do conceito de documento histórico na medida em que os historiadores, orientados por essa perspectiva, passaram a considerar em seus estudos o universo da cultura

material.

67 Para Burke (1997, p.12), a escola é freqüentemente “[...] vista como um grupo monolítico, com uma prática

histórica uniforme, quantitativa no que concerne ao método, determinista em suas concepções, hostil ou, pelo menos, indiferente à política e aos eventos. Esse estereótipo dos Annales ignora tanto as divergências individuais entre seus membros quanto seu desenvolvimento no tempo. Talvez seja preferível falar num movimento dos

9 Após 1968 − esta fase do movimento fora marcada pela fragmentação. Ocorreu, neste período, a transição da História socioeconômica para História sociocultural (observando- se no cerne do movimento um relativo retorno à História política e à narrativa).

Um fator relevante para a criação dos Annales foi o encontro dos fundadores em Estrasburgo (França), onde Bloch e Febvre puderam compactuar opiniões e projetos.68 O êxito teórico de tal encontro iniciou-se com a criação, em 15 de janeiro de 1929, do Annales d´histoire économique et sociale, periódico esse que nomeou posteriormente o movimento que ficou conhecido simplesmente como Annales.

Essa publicação fora planejada, desde o início, para transcender uma revista de História, pois pretendia liderar intelectualmente os campos da História social e econômica, sendo um porta-voz da necessidade de uma abordagem interdisciplinar da História, idéia essa expressa no editorial de seu primeiro número. Deixando explícita a necessidade da existência de um maior intercâmbio intelectual, o conselho editorial da revista era composto por historiadores, antigos e modernos, um geógrafo (Albert Demangeon), um sociólogo (Maurice Halbwachs), um economista (Charles Rist) e um cientista político (André Siegried). (BURKE, 1997, p.33).

Embora nos primeiros números tivessem predominado artigos de História econômica, a partir de 1930, os editores passaram a realçar a preocupação de esclarecer questões relativas a obscuridades no terreno da História social e, também, relacionadas aos problemas de método no campo das ciências sociais.

Durante seus estudos, Bloch contribuiu com o campo da História social por meio de uma relação interdisciplinar com as ciências sociais e com a Psicologia. O autor pesquisou as técnicas empregadas no trabalho rural, delimitando como parâmetros o recurso da longa duração e o da comparação (entre diferentes realidades relativas ao mesmo objeto). O resgate

68 O encontro de Bloch e Febvre em Estrasburgo durou treze anos (1920-1933) e foi fundamental para a criação e

desenvolvimento do movimento dos Annales. Tal fato ocorreu em um ambiente favorável à interdisciplinaridade, agregando disciplinas como a História das mentalidades, Sociologia, Psicologia, Antropologia, etc. Na obra de Bloch Les Rois Thaumaturges, de 1924, ao escolher a Idade Média como período de estudo, observou-se a necessidade de escrever a “História de longa duração”. Nesse livro, o autor contribuiu para a História política e para a “Psicologia religiosa”, sendo de igual importância para a História das mentalidades. Ademais, nessa obra, Bloch empregou conceitos próximos aos de Durkheim como “representações coletivas” e “fatos sociais”. Um outro aspecto importante foi o desenvolvimento da “História comparativa”, que propôs comparar um mesmo problema/temática histórica em países diferentes. Febvre, após terminar o seu projeto de geografia histórica, passou a estudar “psicologia histórica” enfocando o período do Renascimento e da Reforma. Isso se deu no intuito de ligar religião e História social, quando o historiador buscou considerar os aspectos sociais relacionados à ascensão da burguesia e a sua necessidade de ter uma religião com os atributos do protestantismo (racional, transparente, etc.). (BURKE, 1997, p.27-31).

do método regressivo para os seus estudos foi igualmente importante para suas investigações.69

Segundo explicou Burke (1997, p.35), Marc Bloch reconhecia a insuficiência informativa das fontes históricas tradicionais como solução dos problemas que emergiam com o objeto de estudo. Instigado a ampliar os horizontes investigativos, esse autor buscou recursos em fontes não-literais, como, por exemplo, os “mapas cartográficos das propriedades”.

Além dessas investigações, Bloch estudou temas sob um enfoque estrutural buscando relacionar a totalidade aos fenômenos perceptíveis na própria conformação e organização social, em que se destacam as instituições e a hierarquia social.70

A distinção entre aqueles teóricos que estavam afinados e que captaram o “espírito dos Annales” e aqueles não alinhados, que tinham como parâmetro a “História Positivista”, aos poucos foi se evidenciando. Dentre os teóricos alinhados aos Annales, destacaram-se Fernand Braudel, Pierre Goubert, Maurice Agulhon e Georges Duby.

A crítica aos historiadores empiristas e a defesa por uma “nova História” interdisciplinar voltada aos problemas ganharam força quando o movimento dos Annales passou a ser reconhecido como um novo modelo de História. Nas palavras de Burke (1997, p.38):

Pouco a pouco os Annales converteram-se no centro de uma escola histórica. Foi entre 1930 e 1940 que Febvre escreveu a maioria de seus ataques aos especialistas canhestros e empiristas, além de seus manifestos e programas em defesa de “um novo tipo de História” associada aos Annales − postulando por pesquisa interdisciplinar, por uma História voltada para problemas, por uma História da sensibilidade, etc.

Durante esse período de institucionalização e de reconhecimento da “escola” enquanto “porta-voz” de uma nova proposta historiográfica, o movimento sofreu uma terrível perda.

69 O primeiro de seus livros, Les caracteres originaux de l´historie rurale française, publicado em 1931, abordou

a questão da história rural francesa na Idade Média e foi um desdobramento do seu estudo de doutorado bem como a retomada de questões presentes no Les Rois Thaumaturges. O estudo foi desenvolvido usando o recurso metodológico da longa duração (o recorte temporal delimitado pelo autor abrangeu do século XIII ao século XVII) e utilizando comparações e contrastes entre França e Inglaterra, inovando, sobretudo, na sua concepção de “História agrária”, que tinha como foco o “estudo associado a técnicas e estudos rurais”, que não era um enfoque comumente estudado na época; e, também, por aplicar o “método regressivo” (de Maitland) que ia do conhecido (maior proximidade temporal) em direção ao desconhecido (tempo remoto). (BURKE, 1997, p.34-35).

70 O segundo livro, La societé féudale, abrangeu quatro séculos (de 900 a 1300) e abordou temas como servidão

e liberdade, monarquia sagrada, importância do dinheiro, etc. Esse constituiu o livro de maior influência durkheiminiana, por ressaltar conceitos como consciência coletiva, memória, representações coletivas e, em particular, o conceito de coesão social. (BURKE, 1997, p.36-37).

Após a ida de Bloch à Segunda Guerra, ele só conseguiu escrever dois livros antes de ser capturado e morto pelas tropas alemãs. Um dos livros, L´Étrange défaite, trazia o ponto de vista de uma testemunha ocular acerca do colapso francês de 1939. Nessa obra, Bloch, mesmo em situação adversa (diante dos horrores da guerra), desenvolveu importantes reflexões sobre o objetivo e o método da história num ensaio sobre o “trabalho do historiador”, no qual defendeu que este deveria observar os fenômenos históricos considerando as limitações de seu tempo e não em função de tempos anteriores. Esse ensaio permaneceu inacabado em decorrência de sua morte e, conforme descreveu Burke (1997, p. 39), essa foi uma “[...] introdução lúcida, moderada e judiciosa sobre o tema – ainda um dos melhores que se possui; melhor do que o manifesto sobre a nova história que Febvre certamente escreveria em seu lugar.”

Após a morte de Bloch, Febvre continuou suas investigações de modo a fortalecer as idéias semeadas por ele e por seu amigo. O historiador se dedicou ao estudo da Renascença e da Reforma, tendo como fio condutor a metodologia guiada por problemas.71

Atividades extra-acadêmicas (como o ingresso de Febvre na UNESCO) dificultaram e chegaram a impossibilitar a continuidade de sua obra; entretanto, esta foi desenvolvida por seus discípulos, tais como Henri-Jean Martin (sobre a história do livro impresso na Renascença e na Reforma) e Robert Mandrou (em um ensaio sobre a psicologia histórica na Introduction à la France Moderne).

Conforme ressaltou Burke (1997, p.43), depois de criar o ambiente propício para as idéias dos Annales e para que se desenvolvesse a VI Seção da École Pratique des Hautes Études em 1947,

Os Annales começaram como uma revista de seita herética [sendo incitados nesses termos pelo próprio Febvre]. Depois da guerra, contudo, a revista transformou-se no órgão oficial de uma igreja ortodoxa. Sob a liderança de

71 Com relação à obra sobre Rabelais, Febvre refutou a hipótese de existência de ateísmo no século XVI através

da demonstração de incongruências de ordem filológica e, também, de um vasto estudo do período sobre a crença de Deus mesmo quando a cura por intermédio do rei falhava. Tal análise contou, também, com uma análise lingüística importante para constatar a ausência de termos-chaves (como abstrato e concreto; absoluto e relativo, etc.). Indo além da lingüística, ele buscou fazer uma análise de psicologia histórica que permitiu constatar a não ênfase no controle do tempo no seiscentismo (valendo-se do tempo presenciado, com referência aos fenômenos naturais) e, também, a distinta concepção do belo associado à natureza; portanto, naquela época o instrumental intelectual era “primitivo” comparado a algumas concepções que somente vieram à tona na modernidade. Passados mais de cinqüenta anos, essas constatações de Febvre foram, em parte, questionadas. No entanto, segundo pontua Burke (1997, p.42), o livro de Febvre permanece “[...] exemplar pelas questões postas e pelos métodos empregados, mais do que pelas respostas oferecidas. É um exemplo notável da história como problema.”

Febvre, os revolucionários intelectuais souberam conquistar o establishment histórico francês. O herdeiro desse poder seria Fernand Braudel.

O expoente da segunda geração dos Annales foi Braudel, teórico que passou a ser reconhecido ao abordar o tema da presença dos espanhóis na África no século XVI, em um artigo escrito em 1928 e que fora intitulado “Les espagnoles et l´Afrique du Nord”. Nesse artigo, Braudel criticou os historiadores precedentes que abordaram tal assunto justificando que estes destacavam apenas os “grandes feitos” das “grandes personalidades”. Diante disso, Braudel analisou a vida cotidiana das guarnições espanholas e a relação entre a história africana e a européia. Para tanto, o referido historiador pesquisou em arquivos de diversas cidades cristãs do Mediterrâneo, tais como Gênova, Palermo, Veneza, Marselha, etc., filmando os documentos, sempre que possível, com uma câmera cinematográfica.

Após sua passagem pelo Brasil, Braudel conheceu Febvre; este o auxiliou (em situações adversas durante a Segunda Guerra) e, sobretudo, no desenvolvimento de sua tese “Felipe II e o Mediterrâneo”, defendida em 1947 e publicada em livro em 1949.72

Embora seu texto constituísse uma narrativa de eventos, essa obra de Braudel se distanciou do paradigma de uma “História Positivista” vista a partir da apreensão das “grandes personalidades” e dos “grandes feitos”, perspectiva esta concebida pelo autor como a antiga história dos “tambores e das trombetas”.

Na primeira parte do estudo, Braudel abordou detalhada e descritivamente uma espécie de “geografia histórica”, ou “geo-história”, explicitamente fruto da influência dos Annales. Já na segunda parte, o autor argumentou que os eventos são superficiais e podem ser