2.3 Utfordringer i en multinasjonal og prosjektbasert organisasjon
3.1.3 Hensikt med studien
Os termos História Científica, História Metódica, História Tradicional, História Historicizante ou Historicismo, História Rankeana, História Positivista, etc. foram atribuídos pelo movimento dos Annales para classificar os paradigmas historiográficos que, até o início do século XX, predominavam na universidade (nas atividades de investigação e de ensino). Dentre essas expressões, o emprego de “História Positivista”, para Chartier (1978, p.516), teve maior aceitabilidade e, com o tempo, passou a ter um sentido negativo por se referir ao “modo que não convém para fazer história.” Conforme argumentou, em muitos casos, essa situação levou à depreciação e ao não reconhecimento de Auguste Comte, o filósofo criador do Positivismo.
Embora as denominações sobreditas sejam muitas vezes tratadas como sinônimo, Reis (2004, p.13) dissertou que a História Científica foi um movimento historiográfico do século XIX que abrigava três projetos distintos, respectivamente atribuídos aos teóricos Ranke, Dilthey e Marx.38 Tais projetos, embora diferentes, tinham pontos em comum que convergiam num modo específico de se fazer História daquele século, notadamente expresso na “[...]
37 Na sociologia comteana um aspecto fundamental é a distinção entre os conceitos de estática e de dinâmica
sociais. Segundo Giannotti (1983, p.xiii), a “[...] primeira estudaria as condições constantes da sociedade; a segunda investigaria as leis de seu progressivo desenvolvimento. A idéia fundamental da estática é a ordem; a da dinâmica, o progresso. Para Comte, a dinâmica social subordina-se à estática, pois o progresso provém da ordem e aperfeiçoa os elementos permanentes de qualquer sociedade: religião, família, propriedade, linguagem, acordo entre poder espiritual e temporal, etc.”
38 É interessante observar que Reis (2004) utilizou as expressões História Científica e Historicismo para abordar,
de uma maneira ampla, o movimento historiográfico que se caracterizou no século XIX e que nós também poderíamos chamar de história tradicional. Já as expressões História Metódica, “História Positivista” (nota-se, entre aspas) e História Rankeana foram associadas a uma abordagem característica atribuída ao historiador Leopold von Ranke. Cabe ressaltar que a expressão Historicismo também foi associada aos historiadores “hermenêuticos” W. Dilthey e R. Aron.
recusa explícita da Filosofia da História, [na] tentativa de dar um estatuto científico à História, [no] esforço de objetividade e [na] valorização do evento [...].” Conforme ressaltou Reis, as posições desses três teóricos podem ser consideradas “[...] historicistas no sentido amplo do termo, isto é, que recusam o absoluto da razão intemporal e a submetem às condições históricas objetivas.”39
Um dos desdobramentos da História Científica foi a criação da denominada “História Positivista”40 ou Metódica, que teve como um de seus maiores precursores o historiador alemão Leopold von Ranke.41 A “História Positivista” de Ranke tinha como princípio escrever a história “como realmente aconteceu”, ou seja, tinha o papel de “[...] dar a todas as épocas, a todos os indivíduos o que lhes é devido, e há de vê-los em seus próprios termos.” Nesse sentido, Ranke demonstrou um “apelo à objetividade” propondo uma relação distanciada entre o estudioso e seu objeto de estudo.42 (GAY, 1990, p.70).
A perspectiva rankeana de História objetivava demonstrar o compromisso com a ciência histórica retratando a ascensão das grandes potências e evidenciando as grandes personalidades históricas (políticas, religiosas, etc.) e os grandes acontecimentos (eventos históricos datados).43 Segundo a apreensão rankeana, a “[...] história se faz presente para o
39 Segundo Reis (2004, p.10), a História Científica foi aquela que pretendeu ser “objetiva”, isto é, que buscou
“[...] formular enunciados adequados ao seu objeto e que sejam válidos para todo tempo e lugar, como ela estimava que faziam as ciências naturais.”
40 Continuaremos usando esse termo entre aspas e a justificativa de sua relativização será conceitualmente
desenvolvida ainda neste capítulo.
41 O historiador Leopold von Ranke nasceu em 1795, na cidade da Turíngia, Alemanha, e era de família
protestante. Mesmo tendo familiares ligados ao sacerdócio, Ranke optou pela ciência. Doutorou-se na Universidade de Leipzig adotando as idéias políticas de Tucídides, em uma abordagem da filologia clássica. Todavia, essa sua tese não tivera a importância e o reconhecimento que os seus posteriores estudos em História. Seu primeiro livro sobre os povos românicos e germânicos (entre 1494 e 1514) fora publicado em 1824. O reconhecimento dessa obra lhe garantiu o emprego de professor na Universidade de Berlim. Ranke foi o fundador da “história científica”, porém foi interpretado erroneamente por ser entendido simplesmente como: aquele que inovou a História, possibilitando o desenvolvimento da história da metafísica e da teologia; o criador do método que seria o único meio de se conseguir a sistematização de fatos cientificamente em categorias ordenadas; o teórico-obstáculo para o desenvolvimento do realismo com a sua teologia; e um historiador idealista adepto à apologia do poder. Apesar desses equívocos por parte dos críticos desse importante historiador, Gay (1990, p.65) defendeu a tese de que o estilo de Ranke revela um autor que “[...] poderia ter sido cientista, dramaturgo e teólogo a uma só vez, sem assim arruinar a coerência de sua obra.”
42 Os métodos e as práticas historiográficas de Ranke estavam diretamente voltados para a ciência, em que
podemos observar “[...] a sistematização da pesquisa, a ausência da primeira pessoa na exposição, a busca incessante da objetividade, a sujeição dos resultados a um exame crítico público. Os dois aforismos mais conhecidos de Ranke, muito citados e bastante incompreendidos, são em essência apelos ao método científico.” (GAY, 1990, p.70).
43De acordo com Reis (2004, p.16-17), a significação dos eventos “[...] aparece parcialmente nesse mundo dos
sentidos, daí a necessidade do rigor na análise das fontes. O historiador deve se concentrar nos eventos, expressões dessas individualidades apreendidas através das fontes. [...] A função do historiador seria a de
historiador quando ele a estuda; no entanto, não é o passado feito presente, mas o passado enquanto passado que constitui seu interesse próprio.” (GAY, 1990, p.85).
Ao constatar o problema de que a História estava sendo reescrita demasiadamente, Ranke propôs a pesquisa de fontes documentais primárias, ou seja, dos documentos de arquivo, para tentar reduzir o número de revisões. Ranke criticou os historiadores que se baseavam em fontes secundárias para a escrita da História referenciada em outras histórias. O historiador buscou sustentar o argumento de que por meio destas fontes seria impossível atingir metodologicamente a objetividade esperada.
É interessante notar que com Ranke o arquivo passou a ser o lugar “por excelência do historiador”. A sua curiosidade pelas fontes de arquivos fez com que se tornasse um freqüentador assíduo dessas instituições que o agradavam por proporcionar o acesso a documentos que, na maior parte das vezes, nunca tinham sido consultados.44
A oficialidade “isenta” do documento de arquivo lhe garantiu status e lugar privilegiado para a escrita da História, ampliando significativamente as possibilidades interpretativas desse campo de investigação. Com efeito, podemos dizer que Ranke ajudou a elevar a História à categoria de ciência, dando ao historiador acesso a uma “nova morada”, a universidade.45 Segundo Gay (1990, p.74), esse historiador “[...] aplicava, de maneira
recuperar os eventos, suas interconexões e suas tendências através da documentação e fazer-lhes a narrativa. Essas tendências, esse trabalho da História, podiam ser vistos no Estado e em suas atividades - a História se limitaria a documentos escritos e oficiais de eventos políticos.”
44 De acordo com Gay (1990, p.72), o uso que Ranke fez de tais documentos “[...] constituía mais do que a
explosão de um material histórico inédito: consistia na aplicação de um método histórico inédito [...] [Com o aumento de seus contatos e prestígio, ele teve acesso] a arquivos até então fechados. [...] [Nesses arquivos, Ranke vertia sua] atenção, seu prazer, seu orgulho em ser o primeiro a ver o que, por tão longo tempo, ficara oculto ou esquecido.”
45 Relativamente aos espaços de atuação dos historiadores no decorrer dos tempos, Gay (1990, p.27) nos explica
que ao “[...] longo de muitos séculos, os historiadores moraram em diversas casas, tomando seus discursos e convicções de empréstimo a seus hospedeiros: o teatro na Grécia, os tribunais em Roma, o mosteiro na Idade Média, o salão no Iluminismo. Os historiadores antigos, medievais e do início da época moderna ofereciam suas obras como peças de retórica; deviam atender exigências morais e empregar recursos literários estabelecidos. A tradição da eloqüência, consolidada e distorcida no início do período moderno pelas reminiscências da oratória antiga, permeou os escritos históricos até o século XVI e quiçá o século XVII, quando a esta tradição retórica antiga os historiadores adicionaram a eloqüência do púlpito. A dependência dos historiadores philosophes em relação à sociedade culta, no século XVIII, constituiu em verdade um enorme passo rumo à independência: a História tornou-se um gênero literário respeitável entre outros gêneros literários de respeito. Então, no século XIX, os historiadores se mudaram para a casa própria, a universidade − não, acrescentaria eu, sem algumas perdas. Mas, sejam quais forem as perdas, a autonomia moderna do historiador ampliou marcadamente o leque de suas opções estilísticas.”
sistemática e em larga escala, aquilo que os estudiosos anteriores haviam restringido a objetos especializados, empregando para finalidades estritamente definidas.”46
Gay (1990) salientou ainda que nessa perspectiva historiográfica fundada por Ranke os princípios essenciais para a pesquisa histórica “[...] consistiam no estatuto único e privilegiado do documento de época; [pois acreditava-se que] apenas ele detinha a chave da verdade histórica.” (p.75). Além disso, atribuiu-se ao documento de arquivo, a partir de então, o estatuto de autenticidade e de fidedignidade, pois as pesquisas em História passaram a se basear “[...] inteiramente nos relatos de testemunhas oculares e nas fontes mais autênticas e mais imediatas” (p.75), ou seja, a contribuição de Ranke à ciência histórica “[...] residia em sua visão enaltecedora dos documentos.” (p.74).
Esse paradigma de História teve o seu manual (métodos), a sua grande obra (teoria) e uma síntese (balanço geral)47 fundamentados pelo método histórico baseado na chamada crítica textual.48 A criação da “História Positivista” foi uma resposta ao então modelo de história vigente (elaborada por retóricos, por moralistas e pelos historiógrafos oficiais), assumindo, assim, a tradição da crítica histórica.
Ranke considerava que o historiador, para atingir a “objetividade epistemológica” e a “verdade histórica”, deveria apenas descrever o passado de forma pretensamente neutra e imparcial, ou seja, sem se deixar influenciar pelo contexto sócio-político-cultural no qual se inseria. Ao historiador, portanto, não cabia o papel de julgar, não havendo nenhuma interdependência entre historiador, sujeito do conhecimento e seu objeto.
A História existiria em si, mediante as informações que os documentos oferecessem, os quais deveriam ser reunidos buscando um número significativo de fatos “purificados” nos documentos primários e autênticos e em seus elementos internos e externos. Dessa maneira, os fatos seriam organizados em seqüência cronológica de modo a possibilitar o desencadeamento da narrativa a qual deveria estar livre das teorias especulativas (formulação de hipóteses e problematizações), no sentido de distanciar-se da Filosofia.
46 Conforme argumentou Gay (1990, p.74), Ranke “[...] reconhecia que a História era uma disciplina em
progresso. Afinal, declarava que sua obra era superior à de seus predecessores.”
47 O manual da História tradicional ou “positivista” foi escrito por Langlois e Seignobos na obra Introduction aux études historiques, 1898; a grande obra foi L´Histoire de France, escrita por Lavisse entre 1903 e 1910; e o
seu balanço foi escrito por Halphen com a obra L´Histoire en France, em 1914. (CHARTIER, 1978, p.516).
48 A crítica textual teve seus primórdios no século XV no humanismo italiano, com Laurent Valla, em uma
atitude que postulava “[...] regras de leitura garantindo a autenticidade do documento e a veracidade do fato, transmitiu-se através de paragens sucessivas [...]” (CHARTIER, 1978, p.516). Sobre os desdobramentos da crítica textual como base para a Diplomática enquanto uma disciplina auxiliar da História, ver capítulo 2.
Por isso, esse método, baseado na crítica textual, influenciou (durante todo o século XIX) a tentativa de aproximação entre a História e as ciências da observação direta, ou ciência da natureza, pois se acreditava que os procedimentos metódicos seriam suficientes para a garantia de uma objetividade científica.49 Mas os historiadores da época não perceberam o quanto seria complexa uma relação científica entre modelos de ciência tão particulares. Entretanto, ao comentar sobre a abordagem “positivista” da crítica textual para a apreensão do conhecimento histórico, Chartier (1978, p.517) ponderou que
[...] a diferença que separa [a História] das ciências “diretas” não é de estatuto ou de natureza, quanto muito de método. Todo o trabalho da operação crítica consiste, com efeito, em fazer passar do vestígio do fato ao fato em si, portanto em recriar as condições de uma relação direta entre o observador e o objeto observado. É em função [dessa orientação que os historiadores “positivistas”] imaginam ser a relação científica no seio das ciências da observação [...]50
Com o “rigor” que se acreditava dispor com a sistematização de métodos de análise, a “História Positivista” reivindicava produzir um conhecimento dotado de uma “objetividade absoluta”. Acreditava-se que o historiador erudito deveria possuir as virtudes intelectuais e morais que o distanciassem de qualquer envolvimento com o seu objeto de estudo (fato ou acontecimento), não existindo, portanto, qualquer ordem de envolvimento emocional ou intelectual. Nessa relação, a objetividade pressupunha que o objeto histórico estivesse dado antecipadamente, cabendo ao historiador somente decifrar e descrever, com todo rigor, em um processo de abstração do fato por meio do seu conhecimento. Seria como se o fato estivesse explícito no documento escrito e este, conseqüentemente, refletisse o real. O conhecimento histórico não seria re-construído, e sim, “encontrado”.
A idéia de se considerar somente o método da crítica textual de documentos de arquivo levaria a algumas limitações conceituais de documento histórico, no sentido de que a fonte histórica seria o texto, ou documento escrito, para a geração de um outro texto. Nessa perspectiva, o historiador, através do seu referencial discursivo, construiria e desenvolveria sua narrativa. Conforme realçou Chartier (1978, p.517), para a “História Positivista” o
49 Podemos constatar que a objetividade científica era uma pretensão não apenas de Ranke e de seus seguidores,
pois ela era, igualmente, a maior preocupação de Comte (como vimos no item 1.1); o que demonstra indícios de convergências pontuais entre os preceitos da História rankeana e o entendimento de ciência reivindicado no universo da Filosofia da História de Comte.
50 Ressaltaremos outros elementos relativos à crítica do paradigma da História tradicional no item 1.3, onde
documento escrito seria o seu “início-fim”, na medida em que os historiadores dessa corrente acreditavam que para
[...] além dos textos, não existe absolutamente história pensável. O método que permite ir do vestígio dos fatos aos próprios fatos é a crítica histórica. É ela que distingue os historiadores “críticos” ou “científicos” dos seus antecessores, historiadores “filósofos” como Guizot ou Thiers, historiadores “pitorescos” como Augustin Thierry ou historiadores de facção como Michelet, Taine ou Renan. Primeiramente externa para restituir o texto à sua forma original e esclarecer a data, a origem e o autor, a crítica deve ser, seguidamente, interna numa dupla tentativa: crítica de interpretação para conhecer o pensamento do autor, crítica de exatidão para medir o afastamento entre aquilo que ele diz e aquilo que já sabemos do fato descrito e assim descobrir a falsidade ou o erro. No fim da ascese crítica está a recompensa: atingir numa imagem a mais próxima possível daquela que teria dado a observação direta do fato passado. (CHARTIER, 1978, p.517).
De toda maneira, é importante salientar que, concomitantemente ao período em que vigorou a “História Positivista”, os objetos de estudo históricos ampliaram-se de forma variada, à proporção que os historiadores passaram a considerar as estruturas (por exemplo, o sistema feudal ou a constituição britânica), os comportamentos e os valores do passado, a história da arte, da literatura e da música; enfim, produziu-se um conjunto de obras importantes em um novo tipo de História sociocultural. Por outro lado,
[...] uma das conseqüências da chamada “Revolução Copernicana” na história ligada ao nome de Leopold von Ranke, foi marginalizar, ou re- marginalizar, a história sociocultural. Os interesses pessoais de Ranke não se limitavam à história política. Escreveu sobre a Reforma e a Contra-Reforma e não rejeitou a história da sociedade, da arte, da literatura ou da ciência.51 Apesar disso, o movimento por ele liderado e o novo paradigma histórico elaborado arruinaram a “nova história” do século XVIII. Sua ênfase nas fontes dos arquivos fez com que os historiadores que trabalhavam a história sociocultural parecessem meros dilettantis. (BURKE, 1997, p.18).
Cabe ressaltar, ainda, que os discípulos de Ranke foram mais intolerantes à História sociocultural que o seu próprio mestre. Em busca da profissionalização, o paradigma rankeano pareceu mais científico, pois as documentações oficiais contidas nos arquivos eram apreendidas como portadoras de objetividade uma vez que refletiam os atos gerados em repartições públicas e em entidades oficiais. Nesse sentido, a História não-política foi “[...]
51 Conforme explicou Gay (1990, p.91), por vezes “[...] recaiu sobre Ranke a acusação de ignorar a dimensão
social da história, os fatos tecnológicos e econômicos, da política de massa e das comunicações de massa, que estavam transformando o mundo nos anos de vida de Ranke, e que retrospectivamente teriam aprofundado sua análise do passado. Algumas anotações esparsas de seus cadernos sugerem-nos, com efeito, a interessante impressão de que estava lidando com a história social.”
excluída da nova disciplina acadêmica.” (BURKE, 1997, p.18). Sob esse prisma, no século XIX, foram criados inúmeros comêndios e revistas profissionais que serviram como veículos de divulgação das sistematizações acerca do método histórico.
Como vimos, a apreensão de documento como fonte histórica fora reconhecida academicamente e explicitada com a noção de História Metódica (ou “Positivista”) rankeana. Podemos dizer que esta corrente estava em consonância com o “espírito positivo”, todavia, ela adquiriu – disciplinarmente – características específicas que a particularizaram.
Diante disso, se fazem presentes as seguintes indagações: a noção de “História Positivista” para o filósofo Auguste Comte e para o historiador Leopold von Ranke constituiria um mesmo enfoque disciplinar? Em outras palavras, a noção “positiva” de História se diferencia para esses dois teóricos?
Estudiosos como Chartier (1978, p.516) e Burke (1992, p.19) mencionaram o débito que os historiadores do movimento dos Annales (item 1.3) tiveram para com o “pai” do Positivismo, Auguste Comte. Para Burke, a maior contribuição de Comte para o desenvolvimento da historiografia do século XX foi o seu interesse em estudar as estruturas, ao invés de priorizar os acontecimentos, o que comumente se fazia.52
As questões levantadas por Comte no plano histórico foram essenciais para a formulação e fundamentação do seu sistema filosófico, o qual procurou no passado subsídios para refletir sobre os problemas sociais de sua época. Em uma outra perspectiva, a formalização acadêmica da teoria de Comte cumpriria a função de complementar e viabilizar instrumentalmente o seu projeto político mediante o desenvolvimento de uma ciência social pretensamente com o mesmo rigor que as ciências da natureza.
O sistema comteano foi elaborado buscando atingir um distanciamento de tal ordem que pudesse abranger um campo de visão da história da humanidade (em sua evolução temporal e espiritual). Ou seja, Comte visou “desvendar” respectivamente as configurações institucionais e morais apreendidas como uma grande estrutura, a qual poderia estar sujeita a análise e a uma classificação de acordo com as suas particularidades e características.
Um outro fator importante que fornece elementos para o entendimento da concepção estrutural da ciência positiva de Comte está presente na sua proposta de categorizar os fatos históricos tomando como referência as classificações realizadas nas ciências da natureza (em
52 Burke (1992, p.19) apontou, além de Comte, outros teóricos do século XIX como, por exemplo, Herbert
Spencer e Karl Marx que, igualmente, foram relevantes para o desenvolvimento das pesquisas historiográficas, especificamente por considerarem as estruturas ao invés dos acontecimentos. Tais perspectivas influenciaram, em alguma medida, as investigações historiográficas que ocorreram no movimento dos Annales e em seu desdobramento na História Nova.
particular, com a taxonomia biológica), adaptando-as ao social e tornando-as mais complexas, seguindo as hierarquias das famílias, espécies, gêneros, etc. para a busca da apreensão, por meio da observação, das relações político-sociais. Para a análise histórica comteana, as classificações foram importantes para a pretensa compreensão da história geral da espécie humana que resultaria no entendimento das diferentes épocas da civilização de acordo com as