Regina Corrêa Caixeta
Resumo: O presente trabalho se propõe a discutir o processo de alfabetização de crianças
cegas no âmbito da aquisição da leitura e da escrita, além das fundamentações, metodologias e recursos específicos, incluindo também a aquisição de conceitos necessários à alfabetização. Para conseguirmos aduzir parte deste processo, partimos da hipótese de que crianças cegas são possíveis de serem alfabetizadas. Para tanto, partimos de um levantamento bibliográfico e de entrevistas realizadas com professoras especializadas em alfabetização de crianças cegas, como recurso de análise de fatos. Face aos resultados, foi possível asseverar que métodos, procedimentos didáticos e recursos materiais são variados, além de requerer criatividade, dedicação e compromisso do professor e aluno. Além disso, observamos que o trabalho deve ser iniciado com estimulação das vias sensoriais remanescentes (táteis, auditivas, olfativas e gustativas). É importante ainda trabalhar a motivação, aceitação e auto-estima do educando.
Palavras-chave: Alfabetização. Aprendizagem. Cegueira. Metodologia.
Abstract: This paper aims to discuss about the process of learning of blinds children in
the acquisition of reading and so as well writing, besides the foundations, methodologies and features, including also the acquisition of concepts necessary for literacy. To be able to adduce part of this process here, we start from the hypothesis that blinds children are likely to be literate. To this end, we start with a literature review and interviews with teachers specializing in literacy of blind children, as a means of analysis of facts. In front of the results, it was possible to assert that methods, procedures, instructional materials and resources are varied, and requires creativity, dedication and commitment of the teacher and student. Furthermore, we note that the work should be initiated with stimulation of sensory pathways remaining (tactile, auditory, olfactory and gustatory). It is important to work the motivation, the acceptance and the self-esteem of the students.
Keywords: Literacy. Learning. Blindness. Methodology.
Graduada em Pedagogia pelo Centro Universitário de Patos de Minas – UNIPAM. Pós-graduanda em Educação Especial pela Advice – Patos de Minas – MG. Trabalho orientado pelo Doutorando Hélder Sousa Santos.
Palavras iniciais
A natureza desse trabalho é teórica-analítica, a qual não deixa de ser também descritiva-interpretativa. O presente artigo visa a inventariar as peculiaridades do processo de alfabetização de crianças cegas. Analisar metodologias e recursos apropriados para a aquisição de conceitos e alfabetização dessas crianças. Embasados pela revisão da literatura, esperamos encontrar pontos de vista e argumentações sobre tais processos. Coletar e analisar depoimentos de professoras alfabetizadoras do Sistema Braille: funcionárias do CAP – Patos de Minas e APAE – Patos de Minas, focalizando as diferenças encontradas, os avanços na aprendizagem dos alunos, os métodos adotados, relacionando com a revisão da literatura.
Supomos que toda criança cega é capaz de aprender a leitura e escrita através do Sistema Braille. Partindo dessa hipótese, este estudo permitirá uma análise crítica sobre o processo de alfabetização de crianças cegas. Com o objetivo de verificar a realidade da temática em questão e descrever pontos essenciais para a alfabetização de crianças cegas, esperamos contribuir com os estudos no processo de inclusão de alunos com necessidades especiais no campo da cegueira.
O presente trabalho está fundamentado principalmente pela teoria MEC BRASIL,51 (2001) e de Almeida (2001), faremos um estudo detalhado sobre os fatores que contribuem para a alfabetização de tais crianças.
Sabemos que a criança vidente está sempre em contato com a escrita no dia-a-dia, através de rótulos, outdoors, placas, revistas, livros, etc. A criança cega demora mais para ter acesso a escrita, esse contato somente acontece quando chega à escola, pois o Sistema
Braille só é utilizado por cegos.
Breve histórico sobre a criação do sistema Braille
A partir da invenção do Sistema Braille, em 1825, pelo jovem francês Louis Braille, registrou-se uma importante conquista para a educação e a integração das pessoas com deficiência visual na sociedade. Seu autor desenvolveu estudos que resultaram, em 1837, na proposta que definiu a estrutura básica do sistema, ainda hoje utilizada mundialmente.
Conforme MEC (BRASIL, 2001 p.34) o Sistema Braille consta do arranjo de seis pontos em relevo, dispostos em duas colunas de três pontos, configurando um retângulo de seis milímetros de altura por dois milímetros de largura. Os seis pontos formam o que se convencionou chamar “cela braile”. Os pontos são numerados da seguinte forma: do alto para baixo, coluna da esquerda, pontos 1-2-3; do alto para baixo, coluna da direita: pontos 4-5-6. As diferentes disposições dos seis pontos permitem a formação de 63 combinações ou símbolos Braille. Comprovadamente, o Sistema Braille teve plena aceitação por parte das pessoas cegas, tendo-se registrado, no entanto, algumas tentativas para a adoção de outras formas de leitura e escrita sem resultado prático, para o aperfeiçoamento da invenção de Louis Braille. Os chamados “Símbolos Universais do Sistema Braille” representam não só as
51 Cabe lembrar ao leitor que o MEC BRASIL corresponde a um programa de capacitação de recursos humanos do ensino fundamental: deficiência visual, o qual serve-nos de respaldo teórico para o que construímos sobre o objeto alfabetização de crianças cegas.
letras do alfabeto, mas também os sinais de pontuação, números, notações musicais e científicas, enfim, tudo o que se utiliza na grafia comum, sendo ainda de extraordinária universalidade; ele pode inclusive exprimir as diferentes línguas e escritas da Europa, Ásia e África.
Processos mentais de aprendizagem
Masini (apud NARDI, 2003 p. 117) ressalta que o desenvolvimento e aprendizagem dos deficientes visuais são definidos a partir de padrões adotados para os videntes. Verificou-se que o “conhecer” esperado na educação do deficiente visual tem como pressuposto o “ver” e que, portanto, não se leva em conta as diferenças de percepção entre o deficiente visual e o vidente.
O autor coloca que é preciso lembrar que as imagens mentais que o indivíduo possui são condições necessárias para o ensino deste. Estímulos sensoriais, além do visual, são responsáveis pelo conjunto de experiências vivenciadas por um indivíduo. São necessárias, com efeito, metodologias especiais, recursos materiais, atendimento diferenciado, recursos humanos especializados e fundamentos que norteiam suas orientações.
De acordo com Almeida, (2001 p. 294), tendo em vista os grandes problemas verificados durante o processo de alfabetização de cegos, é preciso que os alfabetizadores desenvolvam uma nova relação com seus alunos. Nesse sentido, faz-se necessário que os profissionais que militam nesse campo revejam suas metas de ensino e que tenham consciência de que precisam aprofundar seus conhecimentos a fim de que a ação educativa esteja, realmente, em consonância com as necessidades do educando. Para o Construtivismo, o alfabetizando não é um produto elaborado pelo seu alfabetizador, e sim que ele carrega em si um saber particular, que foi sendo construído ao longo do tempo. Ainda, para Almeida (idem) o período de alfabetização é considerado como
um período em que acriança se apropria conscientemente do sistema representativo da escrita. Verifica-se que esse processo de apropriação dá-se naturalmente e permeia todo o processo evolutivo da criança. É comum ver crianças ainda bem pequenas manuseando revistas, jornais, livros, calendários, etc... Uma caneta, um pedaço de giz, uma pedra de carvão, um graveto transformam-se em instrumentos poderosos dos quais a criança lança mão para expressar suas concepções originais quanto à ação de escrever. (ALMEIDA, 2001, p. 295)
Parafraseando Almeida (idem), entendemos que como a vidente a criança cega necessita desenvolver capacidades básicas e habilidades motoras e também necessita de contato com livros em escrita Braille, manusear caixas de remédios e de alimentos com escrita Braille. A partir do momento que esta estiver apta, escrever recados, bilhetes, cartões e outros procedimentos rotineiros, sempre utilizando de situações comuns no processo de alfabetização. É importante que a criança faça uso da sua forma de leitura e escrita, que é o Sistema Braille.
Começando pela família e depois pela escola é necessário que a criança seja estimulada a perceber e tocar os objetos. Aprender a reconhecer, distinguir formas e espessuras. Tudo o que rodeia a criança precisa ser explorado, oralmente, por quem estiver
próximo a ela e depois explorado tatilmente pela criança aprendendo a manusear, manipular, perceber e reconhecer objetos e miniaturas.
Metodologia
Diante da proposta de alfabetização de cegos, BRUNO & HEYMEYER in
Benjamin Constant/Mec, (2003 p. 12) postulam que:
os objetivos gerais, os conteúdos, os temas e as atividades são os mesmos dados aos videntes, os objetivos específicos, as estratégias didático-metodológicas, os materiais, os recursos e equipamentos é que se diferenciam. As atividades e as formas de avaliar são diferenciadas para todos.
Entendemos que para alfabetizar uma criança cega requer por parte do alfabetizador o uso de técnicas e recursos especiais, possibilitando formar estruturas internas, ampliar seus movimentos, fortalecer músculos, desenvolver percepções, atenção e concentração.
Encontrar métodos que favoreçam a aprendizagem da leitura e escrita tem sido preocupação entre os profissionais do mundo da educação. Para qualquer método utilizado deverão ser propostos conteúdos significativos para o sujeito e adequados à idade, como estimulante e motivador. O professor deve ainda buscar sugestões de atividades de acordo com a metodologia de sua opção.
A alfabetização (não só do deficiente visual) é uma situação educativa complexa. Exige uma análise crítica dos conteúdos propostos, estratégias, alternativas metodológicas e procedimentos didáticos que promovam a autonomia, socialização, comunicação e a interação do aluno no contexto escolar. Dentro da nova proposta da educação no projeto de inclusão, a escola e os profissionais da educação são agentes que se modificam para que o aluno obtenha êxito na aprendizagem e adquira conhecimento.
De acordo com FRANCO (s.d.), a aprendizagem é pessoal, intransferível e contínua. Evolui e se organiza em esquemas mentais. As associações cognitivas se dão, as generalizações acontecem, conceitos são revistos, eliminados, confirmados e/ou ampliados por cada indivíduo, frente às experiências já vivenciadas, pelos estímulos recebidos e desequilíbrios ocorridos. A alfabetização se dá através da experiência ativa onde a criança elabora questões e propõe respostas; compara, analisa, conclui. A leitura e a escrita se complementam e vão além da linguagem oral, isto é, o registro do pensamento humano, através de signos e normas criados por este pensamento.
Dentro deste contexto, os professores do ensino regular e do ensino especial, precisam estar atualizados e buscando se adequarem ao processo ensino-aprendizagem. O professor especial tem a função de ser o mediador e articulador do projeto de inclusão. Deve haver também participação da família, de especialistas como psicólogos, terapeutas e outros profissionais.
Atualmente, a Pedagogia tem buscado formas que propiciam e favorecem a aquisição da leitura e da escrita numa concepção construtivista. O trabalho coletivo, a
discussão em grupo, a troca, a partilha são fundamentais para a aprendizagem da leitura e escrita. Em consequência dessa busca, foram elaborados processos de alfabetização baseados nos métodos: analítico ou sintético.
Segundo FRANCO (s.d), o método sintético parte das partes para o todo, isto é, da síntese para a análise, implica em memorização e repetição. É graduado, estuda as famílias silábicas, começando pelas sílabas simples (silábico), ou pelas vogais e consoantes (fonético). Apóia-se na corrente behaviorista, que preconiza aprender e usar comportamentos operantes de natureza concreta do tipo estímulo-resposta; o reforço é uma condição associada a resposta; só estímulos significativos para o sujeito são reforçadores. O método analítico parte de um todo para chegar às partes que o compõem. A análise do todo precede a análise das partes e a síntese, implica em repetição, memorização, generalização. É graduado, exige leitura suplementar, período preparatório enfatizando a discriminação auditiva e visual, definição da lateralidade, análise e síntese. Apóia-se na teoria do “sincretismo infantil” – visão globalizante, reforçada pela teoria gestaltista, que preconiza: totalidade do fenômeno psíquico; a aprendizagem se dá por insight.
Paulo Freire (apud LEITE, p. 5) em seu método de alfabetização baseou-se na realidade do educando, levando em conta suas experiências, suas opiniões e sua história de vida. Para ele, o diálogo é a base entre educador e educando, essencial no processo de alfabetização, por meio dele, podem surgir os temas geradores. Os conteúdos de ensino resultam dessa metodologia dialógica, visando à libertação. Não somente no campo cognitivo, mas também no campo sociocultural e político.
O processo de escrita e leitura do Sistema Braille, utilizado pelas pessoas cegas exige treinamento de longa duração. As crianças videntes aos 6/7 anos estão lendo e escrevendo, as crianças cegas às vezes demoram mais tempo para estar aptas a ler e escrever, ter desenvolvido habilidades motoras para o uso da reglete52 e punção53 (instrumentos utilizados para o aprendizado do Sistema Braille). Além da reglete, o Braille pode ser produzido por meio da máquina de datilografia Perkins54.
Para tal, é imprescindível que os professores estejam atentos ao desenvolvimento do aluno procurando adequar métodos e recursos que auxiliarão o bom andamento do trabalho, alcançando assim seu objetivo maior.
Segundo MEC (BRASIL, 2001 p. 46), dentre os fundamentos essenciais para a escrita do Sistema Braille, estão as habilidades motoras, que através de movimentos amplos darão ao aluno a possibilidade de analisar detalhes, bem como adquirir flexibilidade de punho e destreza dos dedos. Para isso, será necessário adquirir força muscular, mobilidade
52 Consiste essencialmente de duas placas de metal ou plástico, fixas de um lado com dobradiças, de modo a permitir a introdução do papel. A placa superior funciona como a primitiva régua e possui as janelas correspondentes às celas Braille. Sob cada janela, a placa inferior possui, em baixo relevo, a configuração da cela.
53 Ponta de aço com proteção na parte superior para segurá-lo, utilizado para perfurar o papel, ponto por ponto, que formam o símbolo correspondente às letras, números ou abreviaturas desejadas.
54 Máquina Perkins são máquinas especiais de datilografia de sete teclas. Cada tecla corresponde a um ponto e ao espaço. O papel é fixo e enrolado em rolo comum. O toque de uma ou mais teclas simultaneamente produz a combinação dos pontos em relevo, correspondente ao símbolo desejado.
adequada e precisa nos movimentos das mãos, com atividades como: uso funcional das duas mãos; tampar – destampar frascos (tampas de pressão, de atarraxar); subir – descer zíper de calças, bolsas e vestidos; empilhar – desempilhar e construir com objetos; colar – descolar etiquetas e fitas adesivas; abrir – fechar diferentes tipos de portas e de janelas; aparafusar – desaparafusar; alinhavar – desalinhavar – bordar – costurar; enfiar – desenfiar contas (elaborar objetos com contas); abotoar – desabotoar; fazer – desfazer nós grossos, laços; armar – desarmar quebra-cabeças (primeiramente simples, depois fazendo crescer o grau de complexidade); pintar e modelar com as mãos; tocar instrumentos como violão e piano.
Aquisição de conceitos
Destacamos aqui, a necessidade de interiorização de conceitos essenciais para a alfabetização: igual, diferente, grande, pequeno, em cima, embaixo, longe, perto, dentro, fora, direita, esquerda, entre outros.
Conforme MEC (BRASIL, 2001 p. 54), realizar as atividades de classificação que começam com objetos familiares grandes, introduzindo-se gradualmente outros pequenos. Podem ser incluídos também conteúdos para a discriminação de tamanhos, formas, posições texturas e lateralidade. Explorar, identificar, classificar objetos, seriar (gradação crescente e decrescente), visando sempre preparar o aluno para compreender a forma de escrita e leitura.
Para tal, sugerimos atividades utilizando material concreto: objetos escolares, brinquedos, miniaturas. Trabalhar formas, espessuras, classificação, maior e menor, em cima da mesa, abaixo da mesa, à direita, à esquerda, e outros conceitos citados anteriormente.
Para desenvolver movimentos específicos das mãos e dedos MEC (BRASIL, 2001 p. 48), recomenda
amassar a massa plástica; fazer rolinhos com ela; trabalhar bolinhas de massa; criar formas de massa no começo livremente e seguindo um modelo. Concomitantemente, o professor deve dar oportunidade ao aluno para ir entrando em contato com a reglete, o punção ou a máquina Perkins, para a escrita Braille. Algumas orientações preliminares fazem-se necessárias para que o aluno cego utilize adequadamente o material de escrita: apresentar o material por parte, explicando a utilidade de cada componente; mostrar como abrir e fechar a reglete; orientar como encaixar a reglete nos ofícios da prancha; ensinar a colocar e retirar o papel da reglete; orientar para que descubra as várias fileiras de celas que formam a parte superior da reglete; conduzir o aluno a explorar a cela na reglete; pedir que, após a colocação do papel, pressione o punção, à vontade, nos diferentes pontos da cela, começando sempre da direita para a esquerda.
A partir de tais afirmações, observamos que para o domínio do sistema de leitura e escrita Braille é necessário que o aluno tenha bom desempenho no que se refere à localização espacial e lateralização e que tenha desenvolvido boa habilidade manual.
Ainda segundo MEC (BRASIL, 2001 p. 51), dentre os fundamentos essenciais para a leitura do Sistema Braille deve haver desenvolvimento da linguagem, e também desde pequenos ambiente rico em estimulação sonora com significado e discriminação tátil, de modo a: perceber, reconhecer, identificar, discriminar e localizar a gama variada de sons existentes; reconhecer, por meio de jogos, palavras começadas e terminadas pelo mesmo som; discriminar a identidade sons em palavras que contenham rimas. Podem ser propostas atividades como: repetir corretamente orações curtas, aprender e repetir pequenas canções e poemas rimados, escutar e obedecer ordens, marchar e dançar seguindo ritmos, cantar canções e executar as ações ditas por elas, caminhar acompanhando ritmos diferenciados produzidos por um tambor, reproduzir modelos de ritmos apresentados.
Essas considerações se complementam, propiciando uma visão mais abrangente das características da alfabetização de crianças cegas. A leitura tátil e a escrita dos símbolos
Braille devem ser processadas concomitantemente. De forma mais prática, durante todo o
trabalho de discriminação tátil, o professor deve estar empenhado em estimular a criança cega a explorar objetos, estabelecer diferenças entre eles, compreender a organização da página escrita trabalhando movimentos corretos das mãos no ato da leitura. Lembramos que o tato e a audição são os sentidos de extrema importância para a criança, utilizados continuamente, através dos quais a criança irá organizar o pensamento e realizar as atividades propostas.
Análise de fatos55
Em entrevista oral realizada com duas professoras alfabetizadoras de crianças cegas, profissionais do CAP – Patos de Minas e uma professora da APAE – Patos de Minas, afirmamos que a linguagem verbal e adoção do construtivismo são importantes durante todo o processo de ensino aprendizagem. Partindo sempre de situações contextualizadas através de experiências concretas, palpáveis e vivenciadas pelo aluno, onde os sentidos de audição, tato e gustação são estimulados para suprir a perda visual.
Segundo professora “A” entrevistada do CAP – Patos de Minas, é necessário conhecer o ambiente em que o aluno vive, o que ele freqüenta, tentar pesquisar o que é de interesse do aluno. Ex: Uma criança que tem o hábito de ir ao sacolão com a mãe ou a avó. O professor poderá comprar frutas de várias qualidades e levar para a sala. Trabalhar o cheiro de cada fruta, a gustação, e depois com que letra começa o nome da fruta, quais as sílabas formamos, como se escreve a palavra, formar novas palavras, frases e assim por diante, utilizando o método sintético. Trabalho vários gêneros textuais: músicas, textos, contação de histórias, poemas etc. Depois escolho uma palavra do texto, da palavra retiro uma letra e trabalho os pontos que formam aquela letra, depois a sílaba e a palavra. Formamos então outras palavras com aquela letra (usando escrita e leitura alternadamente). Evitar palavras que não tem significado para o aluno. Evitar também palavras abstratas como saudade, amor, e sempre que for usá-las, usar dentro de uma frase, de um contexto. Introduzir sinal de maiúscula, travessão, hífen, separação de sílaba, e toda simbologia no
55 O nome “fatos” e não “dados” vem aqui como forma de caracterizar nossa análise. Não se tratam de dados, mas de fatos o que exibimos nessa seção, já que não se trata de nada dado ao pesquisador.
momento em que se fizer necessário para a escrita daquela palavra. O professor alfabetizador precisa dominar e gostar da escrita e leitura Braille.
Conforme professora “B” entrevistada do CAP – Patos de Minas,
o método usado por ela é eclético: usa o sintético para decifrar letras, sílabas, palavras, frases mas às vezes é necessário usar o analítico, para dar ao aluno a oportunidade de trabalhar com várias formas, pois alfabetizar não é só reconhecer sinais, letras, fonemas, procedimentos de leitura e escrita, é também levar o aluno a trilhar o caminho do aprender consciente para a vida. “É a primeira vez que estou trabalhando com crianças cegas. É um desafio constante, pois é preciso estimular, orientar, favorecer o crescimento global, e também compreender que elas necessitam de mais tempo para adquirir habilidades sensório-motoras, simbólicas e pré-operatórias, onde o desenvolvimento da percepção tátil é fundamental para a facilitação do processo de leitura e escrita do Sistema Braille.”