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Rodrigo da Costa Araujo56

Resumo: Este ensaio faz uma leitura do conto Amor, de Clarice Lispector [1925-1977].

Privilegiam-se, além de algumas transgressões da protagonista, as metáforas do olhar e dos bichos ao longo da narrativa e em manifestações dos paradoxos na linguagem do texto.

Palavras chave: bichos - Amor - olhar - Clarice Lispector

Abstract: This essay is a reading of the story Love, Clarice Lispector [1925-1977]. Focus is,

and some transgressions of the protagonist, the metaphors and the look of the animals throughout the narrative and manifestations of the paradoxes in the language of the text.

Key words: animals - love - look - Clarice Lispector

Exuberâncias de Clarice

Não ter nascido bicho parece ser uma de minhas secretas nostalgias. Eles às vezes clamam do longe de muitas gerações e eu não posso responder senão ficando desassossegada [LISPECTOR, 1992, p.363].

Inquietações, confrontos, silêncio. Esses adjetivos ou características perpassam o livro Laços de Família ou vários contos de Clarice Lispector [1925-1977]. Aliás, esse livro de contos permitiu à Literatura Brasileira não apenas renovar-se, mas também atingir o mais alto patamar da arte da escrita ficcional. Esta arte exercida de forma tão perfeita e singular tornou Laços de Família uma espécie de obra de referência para se compreender a grandeza da narrativa curta contemporânea.

Da coletânea, objetivamos através do conto Amor ler a vitalidade nauseante e desejável do Jardim Botânico, como, também, as metáforas do olhar e dos bichos que acompanham a personagem e a construção da narrativa. Pelo olhar e pelos bichos, a escritura cede lugar a uma melodia específica, configurando movimentos quase invisíveis,

56 Rodrigo da Costa Araújo é professor de Literatura Infantojuvenil e Teoria da Literatura na FAFIMA - Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Macaé, Mestre em Ciência da Arte [2008 - UFF] e Doutorando em Literatura Comparada [UFF]. Ex Coordenador Pedagógico do Curso de Letras da FAFIMA, pesquisador do Grupo Estéticas de Fim de Século, da Linha de Pesquisa em Estudos Semiológicos: Leitura, Texto e Transdisciplinaridade da UFRJ/ CNPq e do Grupo Literatura e outras artes, da UFF. Coautor dos livros Literatura e Interfaces e Leituras em Educação, ambos da Editora Opção (2011). E-mail: [email protected]

carregados de detalhes e, pelo ritmo narrativo, entregues ao registro de uma câmara, ora lenta , ora ampliada.

Obra imprescindível a leitores especialistas ou não, que queiram estar em contato com texto cuja força visual - maximamente condensada, por meio da captação espessa, exata, milimétrica dos estados humanos - gera-se de um domínio extraordinário das possibilidades musicais e plásticas do uso da língua portuguesa e de uma inteligência sensorial que aceita colher dos parcos acontecimentos a sutileza e o seu sumo mais precioso. Os contos dessa coletânea infiltram-se na mecânica do cotidiano, assinalam, de certa forma, a peça que o desorganiza e, então, num descuido da ordem, abrem-se os palpáveis e antes insuspeitados sentidos da vida diária: a aura das coisas, o êxtase das revelações feitas diante até do quase inexpressivo, as forças renovadas da natureza, as fantasias, os sustos diante do mundo e das pessoas, o apetite vital, as potências todas dos afetos em vertigem. Tudo face à delicadeza do reconhecimento de um olhar surpreendente, que sabe ir ao encontro do mundo e dos homens, como se pela primeira vez.

Essas também podem ser as sensações e as forças plásticas que irradiam do conto

Amor. A personagem feminina é construtora de sua narrativa, história pessoal e intimidade.

Ela é produzida pela sua linguagem, pelo seu (de)equilíbrio e gesto andarilho pelo jardim, como, também, seus hábitos imagísticos e verbais. Algumas vezes essas ações remetem sutilmente à história de Alice no país das maravilhas ou à minuciosidade do gesto agricultor que cuida da terra para o ato de semear. De certa forma, a fantasia romanesca mostra um sujeito que constroi uma ilusão de controle sobre a vida e, diante disso, aquilo que ele vivera antes parecia errado, deslocado, excessivo, errante.

Do pensamento dessas ações-errantes e do confronto com a vida, o cego lhe revela a fragilidade do controle ilusório, mostra-lhe que o impulso e o fluxo da vida são irrefreáveis. Por isso mesmo, há muitas interpretações possíveis para a metáfora do cego, mas não há como escapar da metáfora do olhar: a visão do cego potencializa a sensibilidade de Ana para uma percepção do que está oculto na aparência das coisas.

O cego, diante dessa multiplicidade de sentidos, a “liberta” da imagem construída de mulher, mãe, esposa, dona de casa, amoldada a partir do olhar daqueles com quem ela convive. Ele não a vê e o seu “não olhar” lhe dá a possibilidade de se reinventar, fazer com que ela perca a sua frágil identidade constituída na negação das angústias da existência. O narrador também menciona a “piedade” profunda que a visão do cego fez Ana sentir, como se no seu mundo perfeito subitamente adentrassem as vicissitudes da existência, inclusive a impossibilidade de ver (seja por imposição da natureza, seja por incapacidade de lidar com a intensidade da vida).

Para além do cego, a epifania57, nesse contexto, é a revelação que nasce desses acontecimentos banais. Objetivamente, nada parecia haver na figura de um cego mascando chiclete que pudesse afetar a vida da protagonista; no entanto, desse pequeno

57 A este respeito ler o capítulo Laços de família e legião Estrangeira, de Affonso Romano de Sant’Anna do livro Análise Estrutural dos Romances Brasileiros que se dedica ao estudo das narrativas curtas de Clarice Lispector. Ou outro texto do mesmo autor intitulado Clarice: a epifania da Escrita espécie de prefácio do livro Legião Estrangeira da referida autora.

acontecimento, algo se revela e toda uma experiência de dor, descoberta e intensidade existencial a arrebata e se desmembra no conto.