O conto Amor, de Clarice Lispector estrutura-se em quarenta e oito parágrafos, explora a terceira pessoa do singular e narrador onisciente, além de uma linguagem poética carregada de metáforas. A trama articula-se ressaltando o conflito dicotômico existência/essência vivido pela protagonista Ana e acentuado pelo antagonista, representado na figura do cego.
As ações, neste conto, são internas e se desmembram em fatos externos provocando reações/ interações no comportamento da protagonista. A linguagem é de períodos curtos e incisivos, que sugere ao leitor, a sensação de um ritmo proposital, marcado estilisticamente pela omissão de algumas vírgulas que remetem à monotonia e ao correr do dia-a-dia, como segue: “O calor era forte no apartamento que estavam aos poucos pagando. Mas o vento batendo nas cortinas que ela mesma cortara lembrava-lhe ue se quisesse podia parar e enxugar a testa, olhando o calmo horizonte.” (LISPECTOR, 1991, p.29) 58.
Além desses efeitos estilísticos e da aparente calmaria, o narrador utiliza-se de um jogo de aparência, que na primeira instância, induz uma ideia de simplicidade corriqueira do cotidiano, mas ao se “abrir” o texto, o leitor descobrirá uma complexidade camuflada “aos olhos”, presentes nas entrelinhas, desenvolvendo, aparentemente, uma trama tranquila. O primeiro momento compreende os dois primeiros parágrafos, iniciando um paralelismo bonde versus vida de Ana, evidenciando certo conformismo, sobretudo na passagem: “Recostou-se então no banco, procurando conforto, num suspiro de meia satisfação” (1991, p.29).
Entre o primeiro e o segundo momentos há uma sugestão de transição, quando a conformidade é perturbada por algum incômodo. “Certa hora da tarde era mais perigosa”. “... tudo era passível de aperfeiçoamento... a vida podia ser feita pela mão do homem” (1991, p.30). No sexto parágrafo, o bonde e a vida vacilam. “O bonde vacilava nos trilhos...” (1991, p.31) e, esta transição retoma a ideia de conformação da protagonista mulher: “Ana respirou profundamente e uma grande aceitação deu a seu rosto um ar de mulher” (1991, p.31).
No sétimo parágrafo tem início o segundo momento do conto, a personagem Ana “acorda” e surge o conflito, a presença do outro: “o cego”. O bonde e a vida continuam na simetria: “A rede perdera o sentido e estar num bonde era um fio partido...” (1991, p.33). A visão/aparência que a personagem Ana tem do cego é dada a posteriori como acontecimento. Como em: “(Ana) Teria esquecido de que havia cegos?” (1991, p.33). A piedade a sufocava. Ana respirava pesadamente. Mesmo as coisas que existiam antes do acontecimento estavam agora de sobreaviso, tinham um ar mais hostil, perecível.
58 Todas as citações do conto farão alusão à esta edição. [LISPECTOR, Clarice. Amor In: Laços de família. Rio de Janeiro. Francisco Alves. 1991. pp.29-41].
A partir daí, o acontecimento transforma a personagem, como se quisesse fortalecê- la enquanto sujeito narrativo. Ele cria/demarca um antes e um depois, valoriza a um e o outro, acarretando uma evolução não-linear da experiência solitária na vida de Ana. Esse fortalecimento do indivíduo/Ana, paradoxalmente, a deixa vacilar, uma vez que surge o conflito, ameaçando sua paz resignadora: “Um cego mascando chicles mergulhara o mundo em escura sofreguidão” [...] “E um cego mascando goma despedaçara tudo isso” (1991, p.34).
O décimo sexto parágrafo marca a transição desse estágio momentâneo: “Só então percebeu. Parecia ter saltado no meio da noite” (1991, p.34) - Aqui o espaço físico e o viver de Ana se confundem; Ela “desce do bonde”, sentindo-se violada em sua vida, desarmoniosa, perdida. A partir desse episódio o cego e o Jardim Botânico se contrapõem e Ana “pára sua vida” como num corte que busca derrubar obstáculos: “Depositou os embrulhos na terra, sentou-se no banco de um atalho e ali ficou muito tempo” (1991, p.35). Neste momento instala-se no âmago da personagem uma guerra fria, em que animais e vegetais disputam o destino da protagonista (os vegetais apaziguam, os animais perturbam), e num movimento ascendente cria-se uma grande expectativa de quem sairá vitoriosa nessa luta interna. A aléia central do Jardim Botânico metaforiza a vida segura ladeada pelos elementos familiares, mas espreitada pelo gato - elemento que traduz a traição silenciosa de si mesma.
Esta “guerra fria” é intensificada com o surgimento de um pardal ciscando a terra e comendo as sementes, obstruindo “a agricultura” e, consequentemente, o trabalho árduo de Ana. Por outro lado, a ferocidade da vida é sustentada com outras metáforas: “No tronco da árvore pregavam-se as luxuosas patas de uma aranha” (1991, p.36). Ana colhera bons frutos, mas deixava de colher alguns que (apodreceram) e agora lhe faziam falta. “Os troncos eram percorridos por parasitas folhudas, o abraço era macio, colado”. Como a repulsa que precedesse uma entrega - era fascinante, a mulher tinha nojo, e era fascinante - os troncos eram o esteio do lar, os parasitas folhudos seus “dependentes”- o abraço era macio, aconchegante, caloroso, prazeroso, mas ele também era colado, pegajoso, viçoso - a mulher tinha nojo e era fascinante, como ao ato sexual que garante a continuidade da vida e arrebata o espírito.
Essas ações, também, reforçam os paradoxos da vida e os extremos no mundo nas reflexões da personagem - “As árvores estavam carregadas, o mundo era tão rico que apodrecia” (1991, p.36) ou, ainda “... como se ela estivesse grávida e abandonada. A moral do jardim era outra” (LISPECTOR, 1991, p.36). - ela precisava desabrochar e tomar uma decisão, porque seria indecente permanecer naquele mundo paradisíaco.
Quase no ponto culminante dessa batalha, Ana percebe a “impersonalidade soberba” (1991, p.37) do jardim (O jardim Edênico?), e, por isso, sacode os portões fechados, segurando a madeira áspera e “sai, novamente para a vida”. Ela estava numa nova terra? ; Era um modo loucamente de viver? ; “... pernas compridas e rosto igual ao seu...” - o caminho desvendando novos caminhos; a ostra - fechada e valiosa, mas asquerosa; “A vida era horrível...”, “De que tinha vergonha? (1991, p.38)” seu coração se enchera com a pior vontade de viver. E então, o clímax: “Já não sabia se estava do lado do cego ou da espessas plantas” (1991, p.38).
Clarice Lispector, em tom metalinguístico, brinca com o enigma proposto pela Esfinge - que explica os movimentos do ciclo vital do homem, único animal que caminha de quatro pés pela manhã (criança que engatinha), de dois ao meio dia (o jovem que se mantém aprumado) e de três à noite (o velho que se apóia numa bengala). Tecendo a personagem principal neste conto: Ana se apruma pela manhã (1º estágio do dia), quando toda família se deixa depender dela (marido, filhos e o próprio lar) - “De manhã acordaria aureolada pelos calmos deveres” (1991, p.31); se “apóia” à tarde, numa bengala qualquer (2º estágio diário), quando todos estão vivendo seus instantes cotidianos independentes dela, inclusive a casa que já está toda em ordem. Ana - “Certa hora da tarde era mais perigosa.”, “Quando nada mais precisava de sua força, inquietava-se” (1991, p.30), “Saía então para fazer compras ou levar objetos para consertar, cuidando do lar e da família à revelia deles”. (1991, p.31); e voltava à engatinhar a noite (3º estágio do dia-a-dia) - “Assim chegaria a noite com sua tranquila vibração” (1991, p.41), “É hora de dormir, disse ele, é tarde. Num gesto que não era seu, mas que pareceu natural, segurou a mão da mulher, levando-a consigo sem olhar para trás, afastando-a do perigo de viver” (1991, p.41).
Como o enigma da Esfinge às avessas, Ana engatinhava à noite - momento de equilíbrio, tranquilidade, descomprometimento e segurança. Assim como uma criança que engatinha se preparando para a vida, Ana lança mão feito mediadora que neutraliza as conturbações do dia, preparando-se para reengrenar na rotina diária; pela manhã tem a vitalidade de um jovem que caminha aprumado e confiante no melhor de seu vigor; já à tarde é o momento de fragilidade, tanto quanto uma vida: repleta de conhecimento, sensatez e reflexão, no entanto, com pouca força e menos ousadia ainda para mudar o rumo do futuro - “Antes de deitar, como se apagasse um vida, soprou a pequena flama do dia”. (1991, p.41) - A noite aproxima e dissipa a luta e o sofrimento da hora perigosa: a tarde. E a vida continua rotineira.
Sutilezas do olhar
Segundo Afonso Romano de Sant’Anna, em Análise estrutural de romances brasileiros (1989, p.182), ao listar elementos pertinentes aos contos e romances de Clarice Lispector, e ao se referir aos “olhos” afirma: olhos - “motivo articulador”, “... abre-se por um campo semântico definido recorrentemente por termos como: cegueira, óculos, estrabismo, miopia. É um cego que desencadeia a epifania em Ana. Esse jogo de olhares pode ser percebido nos seguintes fragmentos:
“Foi então que olhou para o homem parado no ponto” (1991, p.31).
“Ele mastigava goma na escuridão. Sem sofrimento, com os olhos abertos. O movimento da mastigação fazia-o sorrir e de repente deixar de sorrir, sorrir e deixar de sorrir - como se ele a tivesse insultado, Ana olhava-o” (1991, p.32).
“Poucos instantes depois já não a olhavam mais” (1991, p.33)
“O que chamava de crise viera afinal. E uma marca era o prazer intenso com que
olhava agora as coisas, sofrendo, espantada” (1991, p.33).
“Ficou parada olhando o muro” ou “Inquieta, olhou em torno” (1991, p.35)
“A criança mal sentiu o braço se afrouxar, escapou e correu até a porta do quarto, de onde olhou-a mais segura. Era o pior olhar que jamais recebera” ou “... que lhe haviam ferido os olhos ...” (1991, p.38)
“Oh! Mas ela amava o cego! Pensou com os olhos molhados” (1991, p.39). “A fé a quebrantava, o calor do forno ardia nos seus olhos” (1991, p.40).
“Num gesto que não era seu, mas que pareceu natural, segurou a mão da mulher, levando-a consigo sem olhar para trás, afastando-a do perigo de viver” (1991, p.41).
Já no quadragésimo terceiro parágrafo, o verbo “olhar” é substituído pelo verbo “espiar”, pois semanticamente ele possui menor intensidade na construção discursiva: “Mas diante do estranho rosto de Ana, espiou-a com maior atenção. Depois atraiu-a a si, em rápido afago” (1991, p.41). Assim, o conto vai traduzindo a diferença entre olhar e espiar. Enquanto olhar é dirigir os olhos para, fitar os olhos em, interessar-se por, observar, considerar, espiar é, nesse conto, sinônimo de espreitar. Portanto, o verbo olhar além de ser contundente nessa trama, reforça, semanticamente, o jogo de cenas na retina mental.
Nesta semiótica e delicadeza do olhar59, também está a sede, morada do outro: farol e enigma. Espécie de reflexo de dentro que está fora, ao mesmo tempo em que é ponte para o que está dentro: o outro, o desejo e a singularidade que carregam. A visão de si, no olhar do outro, é de alguma forma, um pouco dela mesma. Encontra-se no outro, perdendo-se dela mesma - um modo de saber de si e entendendo-se nessa perda, conhecer o outro.
Confrontos de Ana com o outro
Amor explora, predominantemente, a linguagem poética, a mensagem valoriza a
expressividade da língua portuguesa, onde novos significados são criados para apontar a superficialidade do mundo em relação a maneira verdadeira de ser. A descrição do ambiente, alinhada com objetos e palavras formam frases turvas e maçantes, apesar da leveza da poesia na prosa. Isso pode ser percebido em “De longe via a aléia onde a tarde era clara e redonda. Mas a penumbra dos ramos cobria o atalho” (1991, p.35) ou, ainda, em: “ Os filhos de Ana eram bons, uma coisa verdadeira e sumarenta” (1991, p.29).
Retratam-se, pela linguagem poética e sutileza dos sentidos, momentos em que a experiência do sujeito se manifesta mais plenamente, quando o enredo e decurso ficam reduzidos a função de criar uma inútil coerência entre momentos, entre os raros momentos em que o substrato (humano) transparece no mundo empírico. Os episódios soltos da trama interagem por acúmulo e insistência. Sua estruturação se dá por jogos de contradições estanques, e por isso mesmo, o tempo não surge como fonte de modificação. Ele - o tempo - inexiste como possibilidade de modificação da protagonista.
O dinamismo das ações, ao caracterizarem a personagem e seu processo interior, sugere, além da agonia, a surpresa de descobertas para o leitor. Essa dinâmica de Ana fica
59 A temática do olhar, também pode ser vista quanto ao ponto de vista narrativo neste conto. Carlos Felipe Moisés em Clarice Lispector: ficção em crise fala da falsa distância quando fala da descrição: “A narração de terceira pessoa na verdade acompanha, como uma sombra cúmplice, o movimento errático de Ana e adere a este, simbioticamente, fazendo que o olhar narrativo ou narrante reproduza o modo de ver, e de ser, da personagem. Não se trata, portanto, daquele foco narrativo onisciente, da ficção tradicional, que, dono da cena, acione o conjunto por ele próprio engendrado, mas de uma perspectiva só aparentemente distante, que mergulha num desvão da realidade mais ampla, suposta pela narrativa, para assumir, em regime de perfeita empatia, o ângulo de visão da protagonista. Visão de dentro e não de fora, visão subjetiva que aspira, em última instância a ultrapassar os limites da subjetividade” (MOISÉS, 1989, p.155).
mais evidente na sua relação e desmembramento com o amor - pela vida, existência, pelo próximo, familiares e pelos atos (ações e criações, amor carnal, fértil e essencial). Isso também fica mais evidente nas ações corriqueiras de Ana quando parafraseadas com o valor e trabalho de um lavrador: “Os filhos de Ana eram bons, uma coisa verdadeira e sumarenta” (1991, p.29). Além da metáfora e sinestesia exploradas nesse fragmento, “sumarenta” é, também, o bom fruto que Ana-lavradora fizera germinar no solo da vida, pois, afinal, “Ela plantara as sementes que tinha na mão, não outras, mas essas apenas” (1991, p.29).
Assim como um lavrador que cultiva as sementes “da estação”, Ana cultiva, delicamente, a vida que se faz alcançável naquele tempo: “O calor era forte no apartamento” [...] “O apartamento era o canteiro onde Ana cultivava” (1991, p.29). Por outro lado, o tempo demarca o crescimento e processo das ações: “Certa hora da tarde as árvores que plantara riam dela” - as sementes transformadas em árvores, agora, representam metáforas de filhos em momentos de independência e, sobretudo, quando se julgam árvores adultas. Dessa paráfrase sutil e metafórica do texto, também surgem outros sentidos -“Quando nada mais precisa de sua força inquieta-se” - assim era a personagem quando não se ocupava, revolvia a “a terra” (a vida) inquietante, na busca de descobertas. O cego em relação às ações do lavrador opõe sentidos e atitudes despreocupadas diante da vida e dos afazeres domésticos e corriqueiros de Ana.
A família, neste conto, aparece como elemento trivial, apenas pretexto da protagonista para falar de si mesma, e não como elemento desencadeador do enredo. Os filhos representam tipos mais comuns e desafiadores em confronto com os adultos. Os elementos da natureza, além dos bichos, são citados com frequência nos parágrafos: 18: - coqueiros/terra.; 20: - ramos; 21: - árvores/ cipós; 24:- árvores/ frutas; 25:- dálias/tulipas/troncos/ parasitas folhudas; 26: - árvores/ vitórias-régias/ flores; 27:- terra fofa; 34:- flor; 38:- vitórias-régias/frutos.
O mundo semiológico dos bichos
Um animal jamais substitui uma coisa por outra, jamais sublima como nós somos forçados a fazer. E move-se, essa coisa viva! Move-se independente, por força mesmo dessa coisa sem nome que é a Vida. [...] Ter bicho é uma experiência vital. E a quem não conviveu com um animal falta um certo tipo de intuição do mundo vivo. Quem se recusa à visão de um bicho está com medo de si próprio. [LISPECTOR, Clarice. 1992, p.359].
Os bichos que aparecem no conto Amor demarcam os valores e situações da vida da personagem. Eles compõem, de certa forma, as linguagens e o silêncio dos personagens, das ações retomadas do pensamento, do equilíbrio ou desequilíbrio de reflexões ou hábitos imagísticos e verbais, além de situarem o dinamismo na construção da narrativa. Pela língua e construção sintática, como, também, por sua melodia específica, as passagens de tempo e de sensações fluem como leveza ou peso, como verdadeiras e sutis cenas cinematográficas60 a marcarem as mudanças e estágios do corpo: a sensualidade, a solidão, a paisagem interior.
60 Para entender este conto em cenas, ler a análise: SCHREINER, Renate. As Cenas no texto narrativo: análise do conto Amor, de Clarice Lispector. In: Revista Signos. Ano 20, nº 1.1999. Lajeado. UNIVATES.1999.
Uma quase coreografia que compõe o jardim de Ana “no país das maravilhas”, nas descobertas e inquietações do raciocínio.
Os amimais, além de instigarem variados sentidos e identificação com a personagem, demarcam a excelência de suas diferenças, da linguagem que se traduz, também, pelo silêncio, ainda que se depare com o assemelhável. Eles confirmam, de algum modo ou de outro, a beleza dos diferentes, a vitalidade nauseante e desejável do Jardim Botânico, os frutos que apodrecem, a vitórias-régias que encantam, a grandeza das descobertas interiores. Para além de quem olha a cena ou o personagem, os bichos remontam o lirismo e a percepção distraída, como, também, os atos neles mesmos, como se os próprios acontecimentos pulsassem nas pequenas e discretas ações. Comentando alguns deles, temos:
Gato versus poder, esperteza (traição): “... um poderoso gato” (1991, p.35). Pardal
versus destruição, receios de Ana. : “Um pardal ciscava na terra” (1991, p.35) - o pardal nas
lavouras representa um prejuízo, pois eles costumam destruí-las.
Aranha versus morte - certa “a crueza do mundo...” - a aranha traduz a firmeza de sua presa, até eliminá-la. “O assassinato era profundo” (1991, p.36). Parasitas versus dependência - Ana dependia daquela situação para continuar seus dias, seus filhos e marido. Eles, em relação a ela, também eram dependentes. Ao mesmo tempo em que ela se fascinava por se sentir útil, tinha nojo e repulsa. “Como a repulsa que precedesse uma entrega - era fascinante, a mulher tinha nojo era fascinante” (1991, p.36).
Insetos versus incômodo - as descobertas incomodavam Ana. “... Mas todas as pesadas coisas ela via com a cabeça rodeada por um enxame de insetos enviados pela vida mais fina do mundo” (1991, p.36).
Esquilo versus rapidez - no conto, a simbologia do esquilo remete ao tempo e a passagem vida. “Era quase noite agora e tudo parecia cheio, pesado, um esquilo voou na sombra” (1991, p.37).
Ostras versus as coisas valiosas e os valores da vida - “Apertou-o com força... a vida era periclitante. Ela amava o mundo... Do mesmo modo como sempre fora fascinada pelas ostras...” (1991, p.37). Leão versus fortaleza. Ana se descobriu forte, repleta de amor para dar, apesar da fragilidade dos que a rodeavam. “Com horror descobria que pertencia a parte forte do mundo - ... não fora verdadeira a piedade que sondara no seu coração as águas mais profundas? Mas era uma piedade de leão” (1991, p.37).
Lobisomem (homem monstro) versus medo, pavor, insegurança. “Estou com medo...” (1991, p.39). Pequena Aranha e a Formiga versus a insignificância e a fragilidade - “... horror da poeira ligando em fios a parte inferior do fogão, onde descobriu a pequena formiga”. “Perto da lata de lixo, esmagou com o pé a formiga” (1991, p.39).
Besouros inexpressivos versus morbidez, mesmice, lentidão. O horror dos besouros inexpressivos. Ao redor havia uma vida silenciosa, lenta e insistente” (1991, p.39). Mosquitos versus as chatices da vida, a impertinência (1991, p.40). Borboleta versus
momentos bons, coloridos, felizes, liberdade da protagonista. “E como uma borboleta, Ana prendeu o instante entre os dedos antes que ele nunca mais fosse seu” (1991, p.40).
Carlos Mendes de Sousa em Clarice Lispector: Figuras da escrita (2000) diz que ao se ler a obra de Lispector nos deparamos com uma singularíssima atualização dos imaginários animais numa obra que se distancia de uma pura reprodução das expressões arquetípicas enraizadas no inconsciente coletivo. Para ele “do animal e do devir-animal dir-se-á que instauram uma realidade que reconduz à escrita, que é a mesma escrita” (SOUSA, 2000, p.236).
Para Nádia Batella (1995, p. 74) os bichos, na poética clariceana, alinham-se em séries que vão desde um corpo muito frágil - uma esperança que irrompe no umbral da ordem doméstica - cruzando por tantos outros. Brutos ou primitivos, domésticos ou silvestres, sem discriminação de espécies ou reinos eles invadem os textos, fazendo-se confundir suas naturezas com as das personagens. Na ficção de Clarice, a peripécia romanesca atrelada aos bichos e a natureza, aparece substituída por um verdadeiro jogo, tramado pelo discurso associativo e que, de certo modo, explica o certo pasmo ou a fascinação do leitor, que se arrisca a confundir-se e até se perder na floresta de sentidos que se denuncia à sua intuição.
Considerações finais
A literatura de Clarice Lispector apresenta, concomitantemente, a resistência das personagens à norma patriarcal e aos parâmetros sociais que levam as mulheres a incorporarem os mecanismos opressores a que elas tentam resistir. Vistos por esta perspectiva, seus textos se tornam contrapontos que desestabilizam qualquer posição de dominação61 até mesmo dentro do próprio texto.
No conto Amor é a voz da mulher (Ana) que desenvolve o confronto entre dois elementos - Ana versus cego que permanecem em descobertas, encontros e desencontros, num movimento que se completa. Ana representa a vida pulsante por excelência, consiste em cercar o ser que se debate entre os seus próprios limites, quando o desespero e o desnudamento levados até ao limite podem desembocar numa espécie de revelação, ora delicada, ora nauseante.
Por isso, o “amor” - sentimento e paratexto que nomeia o conto e que dissemina