6. Data analysis and discussion
6.3 Use of languages in different contexts
pós a Segunda Guerra Mundial, a Igreja Católica Apostólica Romana entrou numa fase de aceso debate quanto à necessidade da instituição adequar-se aos novos rumos do mundo. Uma tarefa ao mesmo tempo momentosa e terrivelmente difícil. Antes de tudo, jamais existe um forte consenso em torno de quais são os rumos do mundo. Nesse campo, com regularidade, os atores estão mais preocupados em defender seus projetos específicos do que dedicados a frias e realistas análises de conjuntura. Assim, raramente se alcançam conclusões claras. O que costuma acontecer é a formação de tendências, que logo são agrupadas pelo olhar dos especialistas em grupos conservadores, linhas progressistas e setores que procuram sustentar posições centristas de equilíbrio.
Evidentemente que não é intenção aprofundar os meandros dos debates internos da Igreja, especialmente nas entranhas dos trabalhos do Concílio Vaticano II, cuja convocação deu-se por meio de uma bula emitida pelo Papa João XXIII no ano de 1961, e cujas sessões só se encerraram em dezembro de 1965, durante o pontificado do Papa Paulo VI. Não seria prudente tecer análises detalhadas sobre o assunto pois, indubitavelmente, faltaria engenho e arte para tanto. Contudo é possível assinalar que muitas das conclusões do Concílio podem receber tratamento diferenciado ao longo dos sucessivos pontificados, ora predominando interpretações de caráter progressista de
cunho reformista, ora imperando inclinações conservadoras, fortemente compromissadas com a preservação da tradição.
Sobral viveu esse debate principalmente como membro do Centro Dom Vital. Na década de 60, assistiu ao debate sobre as interpretações das orientações do Concílio Vaticano II e do próprio papel da Igreja, cujo antagonismo mais importante no seio do laicado foi protagonizado por Alceu e Gustavo Corção. No ano de 1969, o cardeal arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Jaime de Barros Câmara, substituiu a diretoria inteira da instituição.
O advogado, além de participar intensamente ao longo de várias décadas do movimento católico laico, ganhou alguma vivência internacional quando foi convidado para liderar a delegação brasileira laica num Seminário Católico Interamericano, organizado pela National Catholic Welfare Conference, sediada em Washington D.C. As reuniões estavam marcadas para ocorrer em agosto/setembro de 1942. A princípio, Sobral recusou o convite. Alegou que não poderia se ausentar do país para o Seminário, pois seria um tempo em que ficaria sem trabalhar, deixando sua família no desamparo financeiro. Sobral não tinha qualquer fonte de rendas, a não ser os honorários que recebia por seu trabalho, e o conceito de manter reservas de dinheiro guardadas era-lhe completamente estranho. Coube a diversos amigos, capitaneados pelo cardeal Leme – à época bastante enfermo –, instarem-no que aceitasse o convite. O prelado garantiu que a família de Sobral seria amparada enquanto o advogado estivesse fora do país.
Diante disso, Sobral aceitou o convite e participou do Seminário. As reuniões eram itinerantes. A primeira sessão foi em Washington D.C. As demais ocorreram em Chicago, Detroit, Niágara Falls, Búffalo, Nova York e Washington novamente. Quando retornou ao Brasil, Sobral fez um relatório oral do Seminário ao cardeal Leme, falou para uma sessão plenária da Junta Nacional da Ação Católica Brasileira e escreveu vários artigos sobre o evento.
A iniciativa da National Catholic Welfare Conference, em promover um seminário interamericano, pode ser inscrita no conjunto de ações levadas a cabo pelos dirigentes dos Estados Unidos para incentivar a integração continental, a política pan-americana, durante a Segunda Guerra Mundial. O núcleo da Igreja Católica norte-americana, que internamente colaborara com o governo durante o New Deal para enfrentar a Grande Depressão, não se furtaria a cerrar fileiras e fazer a sua parte em conjugar uma união intercontinental em torno da liderança dos Estados Unidos. É verdade que, a despeito de todo esse alinhamento ao governo Roosevelt, interno e
externo, a Igreja Católica americana era ferreamente dominada por conservadores. E isso não destoava nem um pouco dos sentimentos mais fortes de Sobral Pinto.
Sobral não deixou de ter contatos intermitentes com a Igreja Católica dos Estados Unidos. No início da década de 60, organizações católicas daquele país, amparadas pelo governo, promoveram visitas do padre irlandês radicado nos Estados Unidos, Patrick Peyton, à América do Sul. Peyton tinha grande apelo popular, era o pároco de Hollywood, que entre outras proe zas era capaz de mobilizar estrelas de cinema e da música para gravar discos e participar de suas aparições na TV e na rádio em sessões de oração. O padre Peyton foi o organizador do movimento “Cruzada do Rosário em Família”, cujo lema era “A família que reza unida permanece unida”. O padre Peyton realizou visitas espetaculares a vários países da América do Sul, conseguindo ampla cobertura das mídias e organizando eventos que, sem qualquer exagero, reuniram milhões de pessoas.
Entretanto, desde aquela época, emergiram denúncias de que as movimentações do padre Peyton eram apoiadas pela CIA e tinham como objetivo mobilizar os católicos na oposição a governos considerados “esquerdistas” por Washington; entre eles, o governo do presidente João Goulart. Com as mobilizações em torno do padre Peyton acontecendo principalmente entre os anos de 1962 e 1963 e o golpe brasileiro dando-se em 1964, proliferaram opiniões de que a missão do padre Peyton guardava intenções políticas muito além dos compromissos puramente religiosos.
Anos depois, em 1983, o então governador do Rio de Janeiro, Leonel Brizola, ao reclamar dos distúrbios que enfrentava durante sua administração, associou-os à possibilidade de existir uma conspiração com a participação de poderes internacionais interessados em desestabilizar seu governo. Para exemplificar, aludiu à Cruzada do Rosário em Família, liderada pelo padre Peyton, e seus vínculos secretos com a CIA na orquestração da derrubada do presidente Jango. A manifestação de Brizola foi rapidamente contraditada por meio de uma carta a ele endereçada, da autoria de Sobral Pinto, e publicada no jornal Tribuna da Imprensa. Diz o advogado em alguns trechos da missiva:
[...] Eis, com efeito, o que foi publicado no referido matutino (Jornal do Brasil): Sobre a sua afirmação de que os distúrbios do Rio são promovidos por movimento de direita, Brizola lembrou que desde que assumiu o cargo enfrenta esse tipo de problema, ressaltando o escândalo Proconsult, seguido de invasão de terras e quebra-quebras no centro da cidade. Lembrando
1964, citou o episódio do padre Peyton, “que encheu o país de cartazes Família que reza unida permanece unida, e atrás daquilo estava a CIA”. Continuando, afirmou que “recebeu para um chazinho o padre Peyton, e ele era um agente da CIA. Portanto, por trás disso tudo há coisas que nem imaginamos”, finalizou o governador.
Católico de credo e de Sacramentos, adepto entusiástico do movimento religioso “Família que reza unida permanece unida” e conhecedor direito e perfeito da atuação religiosa deste admirável católico, que é o padre Peyton, não devo, não posso e não quero deixar que prevaleça no seio da opinião pública do país a versão inverídica de suas afirmações transcritas acima, sobre esse santo movimento religioso e o seu extraordinário e piedoso paladino, por serem elas – quem sabe? – filhas, quiçá da paixão, da irreflexão e, talvez, da vingança, como vou demonstrar, com serenidade e isenção, certo de que V.Exa. não hesitará, em face da presente argumentação, em retificar, sem demora, tais afirmações contrárias à vontade e à justiça.91
Sobral naturalmente sabia que era mais fácil o inferno congelar do que Leonel Brizola retificar alguma coisa que tivesse dito em público. Ainda assim, via-se na obrigação de defender o padre Peyton, a Cruzada do Rosário em Família, movimento que abraçara com convicção, e sentia-se furioso em vê-lo associado com a CIA, com o escândalo da Proconsult e coisas do gênero:
Não lhe assistia, proclamo, agora, o direito de associar o revoltante episódio Proconsult, no qual intervi em defesa de seu direito, abusiva e ilegalmente ameaçado, às atuações religiosas do movimento “Família que reza unida permanece unida” e de seu dedicado apóstolo e organizador, o padre Peyton.
Tal movimento, promovido e executado em toda a catolicidade religiosa, tem por única e exclusiva finalidade santificar as famílias cristãs, mediante recitação da oração ensinada por Jesus Cristo: o Pai Nosso e a oração angélica: a Ave Maria, associados em torno da meditação dos quinze mistérios: gozosos, dolorosos e triunfantes da fé católica, visando, com esta salutar prece, unir pais e filhos no amor e respeito recíprocos, sob a proteção da Virgem.92
O “escândalo da Proconsult” foi uma tentativa de fraudar os resultados nas eleições de 1982 no estado do Rio de Janeiro. A empresa contratada para consolidar a totalização dos votos no estado, a
Proconsult, foi acusada de, com a anuência de pessoas ligadas ao regime civil-militar, transferir os votos nulos e em branco para o principal adversário de Leonel Brizola, o candidato Moreira Franco, do PDS, o partido do regime. Na época houve a denúncia de que as Organizações Globo estavam envolvidas na tentativa de fraude. Os representantes da empresa negaram tudo. Nunca ficou comprovado que as Organizações Globo ou o candidato Moreira Franco estivessem ligados ao crime. Pode-se dizer, arrematando a questão, que não foi aberta nenhuma investigação que mereça este nome. O que se sabe de concreto e cristalino é que houve uma tentativa de fraude com o intuito de prejudicar Leonel Brizola nas eleições para o governo do Rio de Janeiro. Sobral Pinto, uma figura insuspeita, pois jamais simpatizou com o projeto político de Brizola, veio a público somar sua voz à denúncia de tentativa de fraude e em favor do direito do candidato que estava sendo agredido. Isto posto, a afirmação de Sobral de que defendera Brizola no episódio era inteiramente verdadeira, e o próprio governador reconhecia isso.
Ainda no plano interno do debate brasileiro, o advogado publicava artigos e entrevistas que expressavam sua firme defesa da interpretação católica tradicionalista. De modo intransigente, defendia o que julgava serem os valores da família. Condenava o aborto, o jogo, o divórcio, e era rigoroso ao falar de temas relativos ao comportamento feminino. Uma das grandes lutas travadas por Sobral Pinto dentro da Igreja foi contra a Teologia da Libertação. Para ele, a Teologia da Libertação nada mais era do que “um movimento rebelde que usa a teoria materialista para substituir o dogma de Cristo”.93 Sobral deu esta declaração durante a inauguração das novas
instalações do Seminário São José, situado no bairro do Rio Comprido, cidade do Rio de Janeiro. O advogado havia sido convidado para proferir uma conferência, em termos acadêmicos, o ponto alto do evento.
Na presença do então arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Eugenio Sales, e de bispos auxiliares, Sobral disse que a Teologia da Libertação, o progressismo e a Igreja do Povo nada mais eram do que a negação atrevida e clara do magistério de Roma. O advogado afirmou que o marxismo conseguiu empolgar alguns teólogos da Igreja Católica. Justificou sua condenação, alegando se tratar de uma doutrina materialista que nega a existência de Deus.94
Sobral enxergava que todo o ideário da Teologia da Libertação, sem exceção, era inspirado na filosofia marxista. Segundo ele, o marxismo é ateu, nega a sobrevivência da alma. Então é
impossível estabelecer uma harmonia entre ele e a Igreja. Considerava que a Igreja estava sendo infiltrada pela influência marxista, e instava os católicos a manterem-se alertas:
Acho que uma infiltração marxista na filosofia da Igreja põe em risco a cultura católica, que é incompatível com a marxista. Não podemos, sob nenhum pretexto, adotar a cultura marxista como pretendem alguns setores católicos.95
No ano de 1984, Sobral, já contando com 91 anos de idade, lança o livro Teologia da Libertação: materialismo marxista na teologia espiritualista. A obra continha uma introdução da autoria do cardeal arcebispo do Rio de Janeiro Dom Eugenio Sales. Na entrevista concedida ao jornal Folha de S. Paulo, durante a noite de lançamento do livro, em livraria no Rio Design Center, no Leblon, Sobral, que literalmente ditava suas respostas à repórter, apresentou os elementos centrais contidos na obra e fez questão de recusar o rótulo de “conservador”:
Eu sou um católico fiel ao magistério da Igreja. O católico ou aceita a fé e o magistério da Igreja ou diverge da fé e do magistério e não é mais católico. Este movimento diverge da fé e do magistério.96
Sobral disse ainda que sua disciplina era de tal ordem que, caso a Sagrada Congregação da Doutrina e da Fé houvesse referendado os ideais da Teologia da Libertação e o Santo Padre aceitasse tal orientação, ele, Sobral Pinto, como católico, acataria. Só lançara o livro porque a Sagrada Congregação da Doutrina e da Fé oficialmente condenara a Teologia da Libertação.
O então frei Leonardo Boff, um dos principais defensores da Teologia da Libertação e incentivador do movimento das comunidades de base da Igreja, foi procurado pela Folha de S. Paulo para comentar o livro e a entrevista de Sobral. Boff é o autor do clássico Igreja: Carisma e Poder (Ed. Vozes). O teólogo, depois de elogiar Sobral e o seu papel como defensor da justiça e das liberdades, negou que as teses que sustentava haviam sido condenadas oficialmente por Roma. Afirmou que o Vaticano não rejeitava inteiramente as ideias marxistas. O próprio Papa, em sua carta sobre o trabalho, usou várias categorias dessa filosofia, tais como alienação, relações de produção, capital e luta de classes, provocada pela opressão do capital sobre o trabalho.
Boff contou que há dois anos Sobral Pinto enviou-lhe uma carta de 53 páginas sobre um artigo que escrevera no Jornal do Brasil, sobre o marxismo na teologia. “Ele respondeu à carta criticando o advogado por reduzir o cristianismo ao mesmo nível do marxismo, isto é, ao nível da ideologia”. Destacou “que estamos observando que as comunidades de base assimilam de forma tranquila, elementos úteis do marxismo sem com isto deturpar a fé cristã, tornando-se pelo contrário mais crítica e mais efetiva no seu compromisso contra a opressão”.97
Não entrando no mérito de se a doutrina marxista deturpa ou não a fé cristã, a avaliação de Sobral quanto à interpretação de Roma às teses da Teologia da Libertação, e certamente apresentadas na carta de 53 páginas mencionada na entrevista, estavam bem mais corretas do que as manifestadas por Leonardo Boff. Durante o pontificado do Papa João Paulo II (1978-2005), a Teologia da Libertação foi efetivamente rejeitada pela Sagrada Congregação da Doutrina e da Fé, à época presidida pelo cardeal Ratzinger, o futuro Papa Bento XVI. Em 1985, o frei Leonardo Boff foi condenado a um ano de “silêncio obsequioso” e deposto de todas as suas funções editoriais e de magistério religioso. Segundo o site de Leonardo Boff, um ano depois, devido a pressões internacionais, pôde retomar algumas de suas funções. Em 1992, vendo-se ameaçado por novas punições, afastou-se da Ordem dos Frades Menores – franciscanos – e da própria Igreja, passando à condição de católico laico.98
Ao mesmo tempo em que despejava fogo nutrido contra a Teologia da Libertação, Sobral rejeitava a tese de que ele e os católicos que defendiam o tradicionalismo eram insensíveis às desigualdades sociais e à opressão do capital contra o trabalho. Numa entrevista concedida ao periódico Jornal da Tarde, o advogado diz o seguinte:
Muitos católicos, clérigos e leigos, têm deixado de condenar a Teologia da Libertação porque desconhecem o que seja o marxismo, e também porque a Igreja tem uma doutrina social obrigatória para católicos, que condena a opressão dos trabalhadores e dos humildes. Essa opressão é condenável, quer seja exercida pelo regime de força, quer pela política econômica de alguns industriais poderosos. Se todos os católicos aplicassem nas suas respectivas atividades normais a doutrina social da Igreja, a miséria e a fome teriam desaparecido do mundo, pelo menos diminuído de maneira espantosa. Os papas, de Leão XIII (pontificado de 1878-1903)
para cá, nas suas Encíclicas chamadas sociais, condenam em termos candentes esse regime que enriquece um grupo pequeno e empobrece uma multidão de trabalhadores.99
Anos antes, em 1980 e 1981, entrara em atrito com o arcebispo de Olinda e Recife, Dom Hélder Câmara, por conta do debate sobre a Teologia da Libertação. Dom Eugenio Sales, cardeal arcebispo do Rio de Janeiro, havia declarado que as posições defendidas por Sobral eram impecáveis. Aquilo contrariou Dom Hélder, que tendia a dar suporte às teses progressistas. Resolveu assim enviar para Sobral uma cópia com alguns de seus pronunciamentos públicos sobre o tema. Sobral comentou em carta escrita a Henrique Hargreaves que as posições de Dom Hélder eram inaceitáveis. Segundo ele, o prelado chegava ao ridículo de sugerir que, assim como a teologia de São Tomás de Aquino ganhara suporte na filosofia de Aristóteles, o pensamento do mesmo São Tomás servia para sustentar as teses de Marx.
Na mesma época, fevereiro de 1981, como uma manifestação clara de que a alta hierarquia eclesiástica romana estava ao seu lado, Sobral, que se achava internado na clínica São José por causa de uma crise de asma, recebeu uma chamada telefônica de Dom Eugenio Sales. O cardeal notificou-lhe que o Papa João Paulo II o havia agraciado com o título de Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno. Mais tarde o núncio apostólico papal, Carmine Rocco, confirmou oficialmente a honraria, dizendo que a decisão do Sumo Apóstolo era datada de dezembro de 1980.
91. Rio de Janeiro, Tribuna da Imprensa, 30 de março de 1983.
92. Rio de Janeiro, Tribuna da Imprensa, 30 de março de 1983.
93. Rio de Janeiro, Jornal do Brasil, 30 de junho de 1985.
94. Idem.
95. Porto Alegre, Correio do Povo, 14 de março de 1980.
96. São Paulo, Folha de S. Paulo, 2 de novembro de 1984.
97. São Paulo, Folha de S. Paulo, 3 de novembro de 1984.
98. http://www.leonardoboff.com/site/lboff.htm