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URO, HARMONI OG PRESTASJON

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Opposisjon og psykologisk trygghet

URO, HARMONI OG PRESTASJON

No nível de relação interpessoal, no início do namoro ambos se aceitavam mutuamente, apesar dos respectivos medos. A aceitação continuou presente na relação e colabora até hoje para a construção do vínculo do casal. Esta se mantém quando comentam sobre si e o outro na relação, pois sentem que recebem apoio mútuo e afetividade. Ela diz:

Tudo o que eu não tive antes eu tive ao lado dele [...] me sinto protegida [...] quando ele não está legal, fico totalmente desprotegida [...] eu retribuo o que ele faz para mim, eu faço para ele [...] então eu faço tudo pra ver ele bem [...] só quando eu não tô fazendo as minhas besteiras que é a minha compulsão [...]

Ele diz:

[...] essa relação me deu até mais vontade de viver, uma relação muito forte [...] ela me preenche um vazio que eu sempre tive [...] eu sempre fui uma pessoa solitária.

Ela diz:

[...] fazia um ano [...] ele bebendo todo dia [...] falou assim ‘eu não vou beber mais, você não merece’ [...] e não bebeu mesmo [...] quando a gente foi morar juntos (com

três meses de namoro) [...]. (Grifo nosso)

Algo que facilita a aceitação está presente em suas histórias. Ele diz: “[...] ela me falou ‘eu não consigo ter uma relação, eu acho que faço tudo ao contrário, eu tive uma vida sofrida [...] hoje eu procuro fugir disso [...] aí eu falei: ‘eu também’ [...] ambos tiveram um passado muito sofrido”. Ao mesmo tempo a desqualificação se processa no relacionamento, indica que o casal ainda mantém o padrão desqualificador vivido em suas famílias de origem, mas tentam construir um relacionamento diferente em termos afetivos. Contudo, isso não impede que ele utilize comunicação desqualificadora, como a rejeição:

M3: [...] o atrito que a gente tem em casa é por causa do meu filho. O jeito dele, ele

não aceita de jeito nenhum, mas ele procura tentar [...] eu acho que eu não sei educar, não dô pra isso, eu não tenho paciência, eu não sei como eu sou. Então muitas vezes eu fecho os olhos pra não ver as coisas, e ele não, tudo ele vê. H3: [...] eu fiquei muito mau no ano passado, eu fui internado, eu fiquei por causa das dívidas, eu pirei de vez, pirei, pirei, eu tava no hospital psiquiátrico [...] eu falo ‘vai comprar’ [...] ela quer cumplicidade [...] quando vem o cartão, ela fala ‘eu te falei’ [...] você falou que ia comprar uma calça, ‘da bermuda eu te falei’, e ‘a camiseta?, a camiseta eu também falei’ [...] Antigamente a vontade que eu tinha era de quebrar tudo dentro de casa, eu ficava com raiva [...] o dia que eu fui pro hospital eu quebrei tudo [...] eu sai quebrando o banheiro, guarda-roupa [...].

Há presença do tangenciamento:

[...] Só que ele não falava o motivo [...] é mais difícil falar o que tá sentindo [...] eu tenho que tentar perceber o que tá sentindo [...] liguei para o médico [...] falou pra mim ‘é as dívidas que você tá fazendo’, e ele pirou, como ele é um cara honesto, gosta de pagar tudo direitinho, ele pirou, surtou de vez” [...] vai te que internar [...] ‘foi a dívida que você fez, as cosias que você está fazendo, não é que você é culpada, mas você precisa ajudar’. E ele chegou pra mim e disse ‘eu to desse jeito por causa das dívidas’ [...] Ele não falava ‘eu to desse jeito por causa das dívidas’ [...] ele falava ‘você é uma egoísta’ [...].

Há presença da incoerência. Ela diz:

M3: Antes ele ficava sofrendo, ele me levava ao shopping, ‘vai gastar’, só que eu

não percebia, porque eu tava ali dentro, e eu não percebia, mas ele mandava pra ver se eu ia mesmo. H3: Então, quando tem alguma coisa ‘gostei daquela calça’, aí ela vem ‘você me dá’, e ela sabe que quando ela vem assim eu dou, eu falo ‘vai comprar’ [...] ela quer ser aceita e quando vem o cartão ela fala ‘eu te falei’ [...] você falou que ia comprar uma calça, ‘da bermuda eu te falei’, e ‘a camiseta?’ [...] ‘a camiseta eu também falei’ [...].

Ele usa ironias: [...] “eu só fico irritado quando eu acordo pra trabalhar e o guarda- roupa não tem camisa passada: ‘aquela roupa lá na máquina, você nem precisa estender mais porque ela vai secar na máquina mesmo’”.

O estilo brusco está presente ao abordar a questão das compras. Ele diz: “Eu brigava

com ela, ela gastava, escondia o extrato, me revoltava, eu xingava, não adiantou porque começou a comprar fiado, disse ‘não aguento mais essa vida [...] do jeito que estamos não tem condição’ [...]”.

H3: A gente procura conversar pra lidar com as diferenças [...] a gente admite o

nosso erro [...]. M3: Eu acho bacana o jeito da gente se comunicar assim, eu e ele, acho legal [...]. Aprender usar humor para se comunicar; ser menos agressiva.

Ele diz:

“Compartilho da ideia [...] de vez em quando ela usa (o humor), ela tá aprendendo agora, ela tá aprendendo ser menos ranzinza [...] ela tem atitudes agressivas [...] a forma que ela achou de se defender foi sendo agressiva. (Grifo nosso)

O sintoma deles, as compras e a dependência química e de álcool, pode comunicar a

carência, a violência e o abandono que viveram. Os sintomas emergem como uma forma de lidar, tanto com a vitimização nas famílias de origem quanto com as diferenças conjugais. Parecem refletir o significado da herança que ao mesmo tempo que os vitimiza os coloca em círculos viciosos de repetição, em um processo que lhes foge ao controle (transtornos do impulso), esboçando padrões de interação em que o conteúdo fica em segundo plano e a natureza da relação adquire destaque. Aponta para um padrão de comunicação no qual parece significar a disfuncionalidade da comunicação, com a qual ambos não se sentem satisfeitos.

A circularidade se dá entre as carências de ambos, ela pela necessidade de aceitação de M3 e ele por medo da solidão de H3.

O sintoma dela pode ser compreendido como forma de lidar com as frustrações, privações e a necessidade de ser aceita:

Eu deixava faltar coisa em casa, eu passava necessidade pra poder comprar um sapato e uma roupa [...] porque lá no meu pai [...] o primeiro dinheiro que eu ganhei, lá na roça, eu fui e comprei um vestido [...] um vestido de chita, nunca esqueço [...] eu falava pro meu pai: ‘sabe qual é o meu sonho? É um dia andar bem chique, com aquelas roupas maravilhosas, aqueles saltões’.

O simbolismo da posse para ela de roupas na vida em família e na conjugal é visto como sinônimo de amor, aceitação e reconhecimento. Antes de o marido ser internado ela não se posicionava, talvez repetindo o comportamento aprendido em sua origem. Como suas necessidades afetivas não foram atendidas, ela não consegue atender às do marido também, repetindo o modelo. Ela se mantém insatisfeita e com vontade de comprar mais roupas; mesmo com o guarda-roupa cheio, compra e desconfirma o marido.

Ela aprendeu a fugir das situações que eram abusivas e talvez use o comportamento de fuga para lidar com suas insatisfações e abuso de poder no relacionamento atual. Ela propõe

separar e ele fica agressivo: ‘“Então vamos nos separar’ [...] foi aí que ele quebrou tudo, ele falou: ‘se você sair daqui, eu quebro tudo, eu ponho fogo nesse apartamento’”.

O sintoma dele pode ser compreendido como uma forma de lidar com a solidão e abandono:

Eu fiquei muito mau no ano passado, eu fui internado, eu fiquei por causa das dívidas, eu pirei de vez, pirei, pirei, eu tava no hospital psiquiátrico [...] foi por causa justamente de compra [...] a questão da bebida, tive algumas internações antes que a gente estava juntos. Era uma compulsão muito forte [...] foram umas três ou quatro internações [...] a gente veio a viver juntos e nunca mais tive nenhuma internação, tem dez anos.

Quanto aos padrões de interação, o casal hoje é simétrico com aceitação mútua.

Durante o início dos problemas com compras, a comunicação do casal pode ser caracterizada inicialmente como simétrica e evoluiu das disputas e escaladas para aceitação mútua. No entanto, tratava-se de uma comunicação não efetiva ou impotente, impermeável, com discrepâncias, na medida em que cada um mantém guardado para si uma informação, gerando impasses. Foi marcada pelos padrões hierárquicos, violentos e desqualificadores que o casal recebeu de suas famílias de origem, além da tendência a lidar com o conteúdo das trocas comunicacionais por meio da rejeição e do tangenciamento. O papel de vítima os coloca no mesmo patamar se considerarmos relações de poder. Além disso, na comunicação observamos a impossibilidade de ressignificar essas experiências trazidas da família de origem.

Desse modo, as sequências das trocas comunicacionais caracterizavam-se por um padrão de interação simétrico com disputas e brigas e escalação simétrica, para simétrico

com aceitação mútua, que ainda está em construção, pois conseguiram melhoras na

comunicação em geral e talvez por compaixão com o sofrimento de cada um. Ele diz:

Ela tá aprendendo ser menos ranzinza, ela tem atitude agressivas [...] a forma que ela achou de se defender foi sendo agressiva [...] eu tenho que tomar muito cuidado pra falar as coisas pra ela [...] Da mesma forma que eu to aprendendo também, sem xingar, sem ser intolerante [...].

O antimodelo se dá por não usar a violência física. Ele explica como faz com ela:

[...] conversando [...] externar meus sentimentos [...] eu amo você e você está fazendo eu sofrer demais com isso [...] ela chorava [...] ficava naquela depressão, e

aí não adiantava, porque ela comprava e escondia as coisas [...] extrato de cartão, mentia. E era uma mentira atrás da outra, tinha coisa que eu fingiaque eu acreditava.

Outro antimodelo se dá quanto ao filho, pois eles o educam sem agredir, indicando transformações da aprendizagem desqualificadora. Assim, apesar de não terem recebido segurança, são capazes de construí-la em seu relacionamento familiar. As dificuldades em pontuar as insatisfações se repetiram no relacionamento até que ele fosse capaz de encontrar soluções por outros caminhos que não o da violência. Ambos são capazes de dialogar, provável resultado da construção de antimodelos. Ele diz: “Eu não consigo ter uma relação, eu acho que faço tudo ao contrário, eu tive uma vida sofrida [...] hoje eu procuro fugir disso [...]”.

Quanto ao nível de percepção interpessoal, o casal viveu em famílias que frequentemente os negligenciaram e os submetiam à violência verbal, física, e ela também à sexual. Ambos repetem o padrão de impermeabilidade nos conflitos. Ela, em especial, mantém a impermeabilidade frente aos momentos que precisa assumir responsabilidade por seu comportamento. E ela diz:

Quando eu gasto alguma coisa, que chega a fatura, ele olha, aí ele vai e chama: ‘é, precisava você comprar isso aqui? A gente ainda não tá pagando as dívidas que você fez anterior? Você sabe que a gente não tá podendo’ [...] Aí na hora eu fico brava [...] ele fala: ‘mas você tava precisando de roupa?’ [...]. Aí eu falo ‘não, eu realmente comprei porque tava barata’.

A pontuação da sequência ocorre, porém em menor quantidade, e é marcada por discrepâncias de informações. Ela mantém informações que ele não possui, esconde e mente sobre as compras, gerando discrepâncias:

M3: Quando comecei a namorar ele [...] eu ganhava o meu dinheiro [...] e comprava

presentes pra mim [...] ele banca casa, então vou comprar coisas pra mim [...] eu ficava contando que eu tinha problema no banco [...] eu pegava o dinheiro (dele) e não pagava o banco [...] eu não contava. H3: até hoje eu não sabia, eu só fiquei sabendo agora [...] eu pensava [...] vou deixar sujar o nome dela, quanto é, vai lá e paga [...] aí ela ficava: ‘tão me ligando’ [...] ‘vai lá e paga’ [...] chegou uma hora que eu disse: ‘deixa ligar, troca de telefone, porque isso não vai ter mais fim.

Em alguns momentos há mensagens ambíguas da parte dela gerando mais discrepâncias na comunicação. Ele diz:

Fizemos outro planejamento com projeção de dívida [...] eu preciso pegar um tanto emprestado [...] e ela falou: ‘não, eu acho melhor você pegá um pouco mais [...] porque eu tenho fiadinhos [...] eu falei: ‘fiadinhos é problema seu [...] assuma sua responsabilidade’; e era ligação lá em casa e eu dizia ‘você vai atender’, e passava o telefone; eu pensava que ela tem que passar por esse constrangimento pra ver se cai a ficha [...] a maioria das coisas que ela compra eu falo pra não ter comprado [...] estamos endividados até o pescoço [...]. O salário é pra pagar conta e mais o cheque especial [...].

Quando ele sente o abandono, ele costuma ter reações explosivas, violentas, com

escalação simétrica. Uma dessas situações se deu quando a esposa estava no auge das

compras compulsivas – algo que ele sente como uma traição por parte dela –, e acabou sendo internado. De acordo com o esposo, a maneira que ele aprendeu a lidar na vida foi pelo

amadurecimento surgido por meio da dor e do sofrimento, que o fez se responsabilizar por suas escolhas. Ele tenta repetir essa aprendizagem com a esposa para que ela aprenda a lidar com as suas escolhas, talvez configurando uma atitude de ensinamento cujo modelo primário era via agressão e xingamentos. Ele diz:

Eu poderia ter dado ocorte nisso lá trás, pra mim ia ser simples, era só eu tirar os cartões e tudo dela, tirava cheque, tirava cartão, e falava: ‘te dou um tanto por mês e você faz o que quiser’ [...] eu imaginei que pela própria história de vida [...] não tinha maturidade, e se eu fizesse isso como é que ela ia ter essa maturidade e como é que ia crescer, se não vivenciasse essa situação. Se ela não vivenciar isso, ela não vai conseguir [...] eu tentei deixar ela crescer [...].

Neste casal, em que ela é a compradora compulsiva, o desequilíbrio de responsabilidades leva a se tornar hiper-responsável. O relacionamento se organiza em função dos problemas psiquiátricos. Há evidente desequilíbrio de poder financeiro entre os dois. Ela elevou seu status econômico com o casamento (assim como a mãe), o que pode ter colaborado para que o transtorno de enraizasse cada vez mais, devido ao acesso ao dinheiro. Ele não consegue impor os limites de forma consistente, e acabam por estabelecer jogos de poder em que um desafia a vulnerabilidade do outro.

Quanto à resiliência, é possível dizer que a violência atenuada, a busca de tratamento, o reconhecimento da negligência com seu próprio filho (de M3), a possibilidade de idealizar o tipo de relacionamento pretendido e a percepção da possibilidade de diálogo favorecem certo grau de permeabilidade na relação, no sentido de transformar padrões relacionais disfuncionais em uma comunicação saudável.

Diante o padrão de desequilíbrio emocional de suas famílias, o casal tornou-se capacitado a lidar com as adversidades e, no caso das compras compulsivas, o vínculo forte e experiências passadas colaboraram para que pudesse, mais uma vez na vida, fazer de seu casamento um refúgio, uma fortaleza, que os ajudam a transformar a dor em potencialidades. Isso tudo pode explicar por que ambos foram capazes de ressignificar seus problemas e construírem laço conjugal sólido, dadas às dificuldades que viveram, transformando em forças de conexão entre o par a fim de lutar contra um estressor que os afeta.

12 ANÁLISE DO CASAL 4

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