• No results found

Upublisert materiale

Eric Hobsbawn (1995), ao tratar da progressiva influência exercida pelos Estados Unidos da América sobre as expressões populares de massa no decorrer do século XX, faz uma

importante ressalva: tal não ocorreu no campo do esporte. Para ele: “O esporte que o mundo

tornou seu foi o futebol de clubes, filho da presença global britânica (...). Esse jogo simples e elegante, não perturbado por regras e/ou equipamentos complexos (...), abriu caminho no mundo

inteiramente por seus próprios méritos” (HOBSBAWN, 1995, p. 197).

De fato, o futebol constituiu-se como uma atividade de apelo mundial. Ele move paixões, multidões e fortunas, e mostra-se, certamente, como a principal modalidade esportiva do contexto contemporâneo.

No Brasil, em particular, esta relação é especialmente incisiva, pois o país cultua e projeta uma imagem segundo a qual seus jogadores seriam notadamente habilidosos. Como nos indica novamente Hobsbawn (1995): “(...) e quem, tendo visto a seleção brasileira em seus dias de glória, negará sua pretensão à condição de arte? ”(p. 197). De fato, o “futebol arte” é uma expressão reiteradamente aventada para definir o que seria o espírito genuíno deste esporte no país – o qual, não por acaso, é também referido frequentemente como “o país do futebol.”

O futebol é tema indelevelmente associado à brasilidade. Carrilho (2010, p. 13) nota:

“É impossível ignorar o fenômeno do futebol quando se estuda a história recente do Brasil. Ao

longo dos últimos cem anos, pelo menos, vivenciamos um processo de enraizamento desse jogo

na alma do brasileiro.” O autor vê neste esporte “uma janela para o Brasil”. Mas Carrilho aponta

55

também seu estranhamento frente à desconsideração do mesmo como objeto de estudo: a intelectualidade brasileira historicamente não o encampou enquanto tema relevante. Lovisolo (2001), em sentido convergente, observa que há três décadas quem se ocupava deste esporte eram os jornalistas e as pessoas comuns e que, dentre os estudiosos, prevalecia a máxima segundo a qual o futebol constituía-se tão somente como instrumento de alienação das massas.

Todavia, há uma ressalva a ser feita: o futebol passou a figurar como matéria de estudo pioneiramente em uma interface com a questão racial. A obra de Mario Filho, lançada em

1947, “O negro no futebol brasileiro”, tratou exatamente desta perspectiva. O autor era jornalista

e atuou na reformulação da linguagem que então retratava os eventos esportivos. O livro tinha a ambição de registrar a história do futebol, mas sob uma ótica que para muitos pareceu inusitada: ele elegeu como norte de análise a caracterização da situação dos negros envolvidos com este esporte. Mas antes de enfocar este aspecto, faz-se necessário visitar um pouco da história deste esporte no país.

O futebol foi introduzido no Brasil em 1894 por Charles Miller. O jogo em que se

usavam os pés para rebater uma bola representava “(...) uma normatização inglesa diante da ideia

que havia séculos já habitava o inconsciente coletivo dos mais diversos povos” (UNZELTE, 2010, p. 10).

Tanto aqui como na Inglaterra, o futebol, em seus primórdios, era um esporte da elite. No Brasil, inicialmente, ele atraía ingleses, alemães e seus descendentes. Era também um

esporte amador, que funcionava como uma espécie de passatempo para os jovens „bem

nascidos‟. Ainda na primeira década do século XX surgiram vários clubes com esta proposta de

atuação e, neles, uma questão era pacífica: só brancos jogavam. Como sintetiza Franco Junior:

Esporte de bacharéis num país caracterizado por gigantesca desigualdade social, esporte de brancos em uma sociedade com marcas ainda expostas do escravismo, esporte associado a ícones do progresso e da industrialização (os ingleses) numa economia ainda essencialmente agrária, o futebol tornou-se desde o início um dos ingredientes mais importantes dos debates acerca da modernização do Brasil e da construção da identidade nacional (FRANCO JUNIOR apud CARRILHO, 2010, p. 37).

Mas, paulatinamente, outra gama de clubes surgiu: frequentemente reunindo operários, o futebol espalhava-se pelos subúrbios. Cumpre notar que foram exatamente os clubes dos pobres os responsáveis pela popularização do esporte no país. Nestes, não era respeitada qualquer regra de segregação racial. Dentre os clubes dos socialmente excluídos, destacam-se o Bangu e o Vasco. Este último, inclusive, teria sido pioneiro em aceitar negros. Para Vieira (2003):

(...) o clube que primeiro aceitou uma quantidade maior de negros e desta forma deve ser visto como aquele que democratizou racialmente o acesso ao futebol foi o Vasco da Gama. Tal atitude chocou e abalou os valores da elite branca da época, uma vez que tal

time, repleto de suburbanos, negros e pardos passou a ter êxito dentro do campeonato estadual do Rio de Janeiro (VIEIRA, 2003, p. 227).

Na obra de Mário Filho (1947), os eventos que envolveram jogadores negros são descritos em detalhes. A aceitação dos mesmos nas equipes foi processo que, por um lado, acompanhou a tensa transição rumo à profissionalização e, por outro, espelhou a disseminação deste esporte junto às massas.

Dentre as inúmeras situações que o autor aponta, destacamos as histórias de dois jogadores negros que se tornaram ícones deste processo.

O primeiro chamava-se Carlos Alberto e deu origem ao apelido que até hoje acompanha o time do Fluminense: pó de arroz. Mario Filho assim descreve o caso:

[Carlos Alberto] tinha vindo do América. Enquanto esteve no América, jogando no segundo time, quase ninguém reparou que ele era mulato. (...) No Fluminense foi para o primeiro time, ficou logo em exposição. Tinha de entrar em campo, correr para o lugar mais cheio de moças na arquibancada (...). Era o momento que Carlos Alberto mais temia. Preparava-se para ele, por isso mesmo, cuidadosamente, enchendo a cara de pó de arroz, ficando quase cinzento. Não podia enganar ninguém, chamava até mais atenção. O cabelo de escadinha ficava mais escadinha, emoldurando o rosto, cinzento de tanto pó de arroz. Quando o Fluminense ia jogar com o América, a torcida de Campos Sales caía em cima de Carlos Alberto: - Pó de arroz! Pó de arroz! A torcida do Fluminense procurava esquecer-se que Carlos Alberto era mulato. Um bom rapaz, muito fino (MARIO FILHO, 1964, p. 42-43).

O Fluminense, à época, era um time marcadamente aristocrático, que resguardava de forma tenaz a exclusividade de brancos em seu plantel. A exceção aberta a Carlos Alberto constituía-se uma deferência ao seu talento, mas, como indicado, a custo de um esforço (mal sucedido) de camuflar a pele negra.

O segundo jogador chamava-se Friedenreich. Para Carrilho (2010), este filho de um comerciante alemão e de uma lavadeira negra foi a primeira grande estrela do futebol nacional. Ele foi convocado para a Seleção Brasileira e foi decisivo para a conquista do Campeonato Sul- Americano de 1919. Mas apesar de se destacar, também ele não ficou incólume ao preconceito racial neste esporte. De acordo com Mário Filho:

Friedenreich, de olhos verdes, um leve tom de azeitona no rosto moreno, podia passar [por branco] se não fosse o cabelo. O cabelo farto, mas duro, rebelde. Friedenreich levava, pelo menos, meio hora amansando o cabelo. Primeiro untava o cabelo de brilhantina. Depois, com o pente, puxava o cabelo para trás. O cabelo não cedendo ao pente, não se deitando na cabeça, querendo se levantar (...). O pente, a mão, não bastavam. Era preciso amarrar a cabeça com uma toalha, fazer da toalha um turbante e enterrá-lo na cabeça. E ficar esperando que o cabelo assentasse. (...) Era sempre o último a entrar em campo. Quando aparecia, finalmente, a multidão batia palmas mais fortes para ele. Era sempre o jogador mais aplaudido (MARIO FILHO, 1964, p. 44).

Ora, como nos aponta Gomes (2003) em nosso país, o cabelo e a cor da pele são largamente usados no nosso critério de classificação racial como indicativos para se estabelecer quem é negro e quem é branco. Em especial, sobre o cabelo a autora indica:

(...) o cabelo não é um elemento neutro no conjunto corporal. Ele é maleável, visível, possível de alterações e foi transformado, pela cultura, em uma marca de pertencimento étnico/racial. No caso dos negros, o cabelo crespo é visto como um sinal diacrítico que imprime a marca da negritude nos corpos (GOMES, 2003, p. 7).

E acrescenta ela: “O cabelo crespo na sociedade brasileira é uma linguagem e,

enquanto tal, ele comunica e informa sobre as relações raciais. Dessa forma, ele também pode ser pensado como um signo, pois representa algo mais, algo distinto de si mesmo (GOMES,

2003, p. 8).”

Os dois jogadores buscavam manejar as características corporais que os associavam à sua origem étnico-racial. Com os parcos recursos de então, tratavam de dissimular a cor da pele, fazer comportado o crespo do cabelo56. Na vã tentativa de se passarem por brancos estava em questão a busca pela inserção em um campo profissional que então se abria. O dilema de ambos abarcava, então, para além do âmbito subjetivo, o enfrentamento da discriminação aberta.

Carlos Alberto e Friedenreich são frequentemente lembrados por estes esforços em parecer o que não eram – a intenção de driblar o preconceito pela via do escamoteamento do corpo negro expunha-os ao deboche público. Eram corpos sem lugar em um campo em que a segregação compunha o jogo. Seus esforços, por um lado, podem ser entendidos como uma busca de assimilação. Mas se olharmos para a cena em sua complexidade, somos convidados a lhes dispensarmos um olhar mais generoso: o recurso ao disfarce das características negras se era falho no resultado que alcançava, foi extremamente bem sucedido em dar visibilidade à discriminação racial então em curso. A conjuntura que os instava a mimetizarem os brancos tornou-se, por esta via, explicitada.57

Estas experiências dolorosas perfazem a história dos primórdios do futebol no Brasil. Todavia, de lá pra cá, os jogadores negros foram paulatinamente sendo inseridos nos clubes existentes e o esporte de elite foi abraçado intensamente pelos setores populares.

De fato, pode-se indicar que a relação entre futebol e a questão racial sofreu uma notável transformação, de forma que, de atividade caracteristicamente segregacionista, este esporte foi alçado ao patamar de esperança de ascensão social para pobres e negros.

56 E não deve passar despercebida a metáfora preconceituosa que Mario Filho utilizou para descrever esta última ação: buscava-se amansar o cabelo.

57 Os negros então contratados pelos clubes enfrentaram inúmeros percalços. Para além das experiências de Carlos Alberto e de Friedenreich, destacamos ainda a história de Manteiga, jogador do América. Segundo Mario Filho (1964), sua contratação fez com que nove jogadores do time pedissem demissão. Outros atletas não o cumprimentavam. Um abaixo assinado de sócios pediu a sua saída. Manteiga, com talento reconhecido, foi mantido, mas sequer frequentava a sede do clube. Mario Filho (1964, p. 113) nota: “(...) ele não tomava intimidade com ninguém. Tratando todo mundo de senhor, tirando logo o chapéu quando alguém se aproximava para falar com ele.” Convivendo com um ambiente abertamente hostil, ele preferiu abandonar o América por ocasião de uma excursão à Bahia. Com sua saída, os atletas que haviam se desligado, retornaram.

Por certo, a consideração do futebol como via de mobilidade social concatena-se com as amplas expectativas que rondam o campo esportivo em geral. Para Vieira:

(...) se delega ao esporte a competência de amenizar conflitos entre grupos e até mesmo países, retirar ou evitar que jovens se envolvam com a marginalidade e as drogas, auxiliar na resolução de problemas complexos como a falta de perspectiva de trabalho, profissionalização e ainda, mobilidade social de parcela da população brasileira e, inclusive ser um local onde as desigualdades presenciadas em nossa sociedade não se reproduzem ou seja, um espaço onde obstáculos sociais e raciais não existem (VIEIRA, 2003, p. 221).

Mas, deve-se notar, o fato de o futebol constituir-se como modalidade de maior popularidade, bem como a existência de inúmeras histórias em que jovens negros foram alçados à condição de estrelas em times, tornam este esporte o alvo maior das esperanças de ascensão social. Ser jogador de futebol é um sonho que anima milhares de crianças e adolescentes, que participam das seleções empreendidas pelos clubes – as chamadas “peneiras” – e que precocemente tomam parte de escolinhas e campeonatos de futebol. Como a inserção nesta seara depende basicamente da demonstração de condições de saúde e de habilidade com a bola, o futebol diferencia-se de outros campos profissionais para os quais a educação e a posse de recursos constituem-se como pré-condições.

A inserção progressiva de negros em times de futebol seria acompanhada por uma paulatina alteração na valorização dos mesmos, que passariam a ser associados, especialmente pela imprensa, a uma ginga particular, a uma habilidade intrínseca e diferenciada. Tal representação espraiou-se apoiada nos ídolos negros que se sucediam e que passaram a gozar de grande popularidade. Gordon Junior (1995) lembra-nos, por exemplo, que Leônidas da Silva, o inventor do gol de bicicleta, tornou-se garoto propaganda de diferentes marcas e que, inclusive, seu apelido, Diamante Negro, passou a nomear um famoso chocolate. Vieira (2001) destaca a importância de Pelé – mas, enfatiza também o uso controverso da imagem do atleta:

(...) com o surgimento do “fenômeno Pelé”, temos uma espécie de redenção do jogador negro e pardo neste período e o reforço e, em alguns casos, surgimento dos maiores mitos relacionados aos negros e pardos e o futebol brasileiro. Pelé foi assim, utilizado de diversas formas, para evidenciar o que seria o comportamento esperado de um “bom negro” em contraposição ao que seria um negro indesejado em nossa sociedade, materializado e exemplificado no Garrincha (Vieira, 2001, p. 228).58

Aos jogadores negros era atribuida não somente uma agilidade singular, mas também uma força física supostamente diferenciada. Estas assertivas tomavam, em conjunto, a presença dos negros no futebol brasileiro como o diferencial deste esporte no país. Murad (1996), por exemplo, nos indica que:

Indubitavelmente, foi o jogador negro que imprimiu no futebol brasileiro um estilo próprio de magia e arte, diferente das formas arcaicas do jogo de bola, bem como de sua

58

descendência inglesa imediata. Fausto, Leônidas, Domingos, Waldemar, Petronilho desenharam este instante inaugural, cujo destaque pictórico é a bicicleta (MURAD, 1996, p. 165).

Esta associação entre a presença negra e o desenvolvimento de uma técnica especial pelo futebol brasileiro coaduna-se, contudo, com uma leitura vinculada às premissas da chamada democracia racial.59 O elogio à mestiçagem assume papel central e o futebol é apresentado como um exemplo das relações raciais nacionais as quais, diferentemente de outros países, não obstariam a inserção e o desenvolvimento de atletas negros. Soares (2001), embora lhe reconheça méritos, aponta na já referida obra de Mário Filho tal direção. Para o autor:

A visão de Mario Filho, como a de outros intelectuais, artistas e escritores de sua época, está condicionada pela crença em um Brasil que, em poucos anos, teria passado da escravidão para a integração racial, via mestiçagem, caldeamento, amálgama ou conciliação. A mensagem que se poderia extrair dessa visão é de que não só nosso racismo seria diferente, como estaríamos superando o racismo (...). Por esta razão seríamos originais, especiais e teríamos nossa própria história, identidade e futuro (SOARES, 2001, p. 16).

De fato, Mario Filho enfatiza a convivência harmoniosa que existiria no futebol. Um exemplo disto é a reprodução que ele faz de um comentário do escritor José Lins do Rego por ocasião de uma vitória da seleção brasileira contra a seleção uruguaia em 1932:

Os rapazes que venceram, em Montevidéu, eram um retrato da nossa democracia social, onde Paulinho, filho de família importante, se uniu ao negro Leônidas, ao mulato Oscarino. Ao branco Martin. Tudo feito à moda brasileira (REGO apud MARIO FILHO, 1964, p. 214).

Para Soares (2001), diferentes estudiosos deram sequência à lógica proposta por Mario Filho para analisar a dinâmica de inserção dos negros no futebol: a segregação inicial é seguida pelo reconhecimento da habilidade dos negros e culmina na democratização da modalidade e na consequente afirmação destes. Mas o autor indica que tal percurso é subliminarmente sustentado pela pressuposição de que:

[o] negro seria „naturalmente‟ bom para o trabalho pesado e para a expressão estética na dança, na luta da capoeira e na música. A capacidade intelectual ou de razão e de condução ficava, por certo, fora do elogio. O argumento a favor do negro no futebol poderia tornar o preconceito tradicional [uma] virtude esportiva (SAORES, 2001, p. 30).60

Todavia, a inclusão – mesmo que ambivalente – de jogadores negros não eliminou as formas explícitas de expressão do racismo. Ao contrário, como indica Vieira (2003), a questão racial permanece figurando como um tema de relevo. Em algumas situações de tensionamento,

59 Gilberto Freyre, inclusive, publicou no Diário de Pernambuco em 1938 o texto “Foot ball mulato”, em que associava esta atividade esportiva à positividade da convivência racial no país. Gordon Júnior (1995) aponta a este respeito: “Cumpre notar que tais adjetivações – futebol artístico, futebol de gala, gingado ou sambado, ou mesmo essa „dança dionísiaca‟ que era o futebol brasileiro para Gilberto Freyre (apud Mario Filho: 244) – além de ligadas à própria identidade nacional estavam calcadas nos mais profundos estereótipos construídos pelo pensamento racista brasileiro e, basicamente, na questão da mestiçagem” (GORDON JUNIOR, 1995, p. 75).

60

ela é prontamente sacada. Um exemplo disto ocorreu quando, em 1950, a seleção brasileira foi derrotada em pleno Maracanã, como descreve Gordon Junior:

O país cobriu-se de luto e vergonha, o povo tinha sido humilhado. Era preciso reconhecer os culpados. E, como era de se esperar, os culpados foram reconhecidos nos negros. Não só em três negros do time – Barbosa, Bigode e Juvenal – mas também na gota de sangue negro que havia constituído a própria civilização brasileira. A derrota para os uruguaios trouxe à tona toda a carga racista enraizada em nossa sociedade. As acusações, repletas de rancor racista, vinham de todos os lados. „Bigode se intimidara frente a Obdúlio Varela, apanhara, era um covarde.‟ „A culpa é de Barbosa.‟ Por outro lado, o técnico Flávio Costa responsabilizava Juvenal lembrando de seus defeitos: „cachaceiro‟ (GORDON JUNIOR, 1996, p. 71). 61

Neste contexto, reitera o autor: “(...) o processo de integração do negro através do

esporte não se deu contra a ideologia racista (...), mas dentro dela (GORDON JUNIOR, 1995, p.75)62.” Desta forma, os processos de discriminação e de integração assentavam-se nas mesmas

justificativas: “(...) perdíamos porque éramos um povo mestiço („emocionalmente instáveis‟, „moralmente fracos‟), ganhávamos porque éramos um povo mestiço („cheios de ginga e malícia‟, artísticos‟, „musicais‟) (GORDON JUNIOR, 1995, p.75) ”63

.

Contemporaneamente, expressões de racismo dentro das quatro linhas surgem com recorrência – notadamente, aquelas que envolvem injúrias raciais 64. Mas há outra forma de discriminação que, embora comum a esta modalidade, costuma passar despercebida: a barreira ao desejado cargo de técnico de futebol. A efemeridade da carreira de jogador, a vivência intensa neste universo, bem como o desenvolvimento de um saber pela prática induzem, entre os jogadores, a procura pela carreira de técnico. Mas atletas negros raramente ascendem a tal posto, o qual, na dinâmica deste esporte, coordena as estratégias de jogo e congrega o poder de decisão65. As habilidades requeridas a um técnico envolvem diligência analítica capaz de sustentar o planejamento tático, capacidade de motivar os jogadores e de impor autoridade sobre os mesmos. As imagens de força e gingado que costumam acompanhar os atletas negros não

61 Grifo do autor. 62 Grifos do autor. 63

Grifos do autor.

64 Dois exemplos recentes ilustram a presença do racismo no cenário do futebol brasileiro. Em 2009, pela Copa Libertadores, Maxi López, jogador do Grêmio, foi acusado por Elicarlos, jogador do Cruzeiro, de tê-lo ofendido com termos racistas. Em 2011, Antônio Carlos, atacante do Internacional foi à imprensa denunciar que a torcida do Grêmio entoava cantos racistas ou imitava macacos quando ele tinha posse de bola (ALLIATTI, 2011).

65 A este respeito, Juca Kfouri, jornalista esportivo, registrou em seu blog, no dia 29 de novembro de 2009, ter sido Jorge Luiz Andrade da Silva, conhecido como Andrade, então treinador do Flamengo, o primeiro negro a obter tal cargo em um grande time de futebol no país (ele permaneceu no posto de 01/08/2009 a 23/04/2010) (mais informações em: http://blogdojuca.blog.uol.com.br/arch2009-11-29_2009-12-05.html). Em setembro de 2010 o caso teria outro desdobramento: Andrade, em prantos, concedeu entrevista a uma emissora de televisão e apontou seu incômodo por permanecer, passados cinco meses da demissão pelo Flamengo, desempregado. Ele lembrou ter sido campeão em 2009 pelo time carioca. Disse ele: “Uns dizem que é por causa do meu vinculo com o Flamengo e outros falam de preconceito. Não existe treinador negro trabalhando na Série A. Alguns amigos me dizem que não estou trabalhando por causa da minha cor. Mas não quero acreditar nisso”, comentou. Mais detalhes em: http://esporte.uol.com.br/futebol/ultimas-noticias/2010/09/12/desempregado-desde-abril-andrade-chora-e-ainda-nao-