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3   NÅR MÅ POLITIET OPPLYSE OM TAUSHETSRETTEN?

3.3   Straffeprosessloven § 232: Avhør

3.3.5   Uoppfordret informasjon

Faço 78 anos neste mês, sou avó de dois netos que estudam no PROEM (Promoção Educativa de Menores). Um deles vivia na Casa de Ismael e de lá ele foi para a EPC (Escola do Parque da Cidade). Ele, agora, mora comigo e a tia aqui em casa há seis anos. Ele veio pequenino e depois começou a crescer e ficar difícil. A mãe dele teve 12 filhos antes de morrer. Eu criava seis e, depois que ela morreu, vieram os outros seis. Isso ficou muito pesado, ainda está pesado até hoje, então, no início, foram colocados lá na Casa de Ismael e ficaram lá alguns anos.

Não estou tão bem para andar de ônibus, fico tonta, tenho labirintite e, de vez em quando, me dá tonteira, então estou evitando andar na rua e pegar ônibus. De primeiro eu mexia com essas coisas todas, ia lá ao Plano, onde mandava ir eu ia, mas hoje eu acho muito difícil. Tenho uma bisneta operada lá na L2 e eu nunca fui lá; ela foi operada do coração, eu não sei que dia ela vai vir embora. Ela vai fazer quatro anos no final do ano. Graças a Deus que ela já está ficando boa.

Eu recebo uma pensão do INSS e ajudo na casa, com mais um sobrinho. Minha filha não pode trabalhar porque precisa olhar a sobrinha dela que tem cinco anos. A mãe deixou aqui com ela, não tem com quem deixar a menina, a minha filha é muito doente. É ela quem vai à escola, ela é quem comanda tudo por aqui. Esses meninos não têm mãe nem pai, fica tudo aqui, desde que nasceu. Aqui tem um dos filhos que está trabalhando e eu que ganho a minha pensão. Essa casa aqui é minha.

O neto lá na escola está muito desobediente. Hoje mesmo a tia dele (a filha de Vega que vem tratando com a escola) ligou lá, ele está saindo da escola e está chegando aqui 9 horas da noite. A irmã dele de 16 anos, que também estuda lá, estava brigando com ele porque ele só estava chegando tarde, “o que ele estava fazendo?” Ele respondeu: “eu tenho a minha liberdade”. Esse menino não tem essa liberdade não; ele só tem 15 anos; nem que fosse maior de idade não tem, porque está vivendo à custa da gente, então não tem liberdade nenhuma. E

ele acha que tem liberdade de sair, brincar e de namorar. Às vezes, ele diz que o ônibus quebrou; todos os dias o ônibus quebra para ele. Ele não mexeu com nada de ruim ainda. Acho que é porque ele se encontra com os colegas da Casa de Ismael e ele fica entretido por lá brincando, eu acho que é isso, as meninas também, e ai arruma amizade, eu acho que é o que envolve ele, e aí chega aqui fica mentindo que o ônibus quebrou e aprendendo a ficar errado, porque fica aprendendo a mentir.

A tia fala que a escola é muito boa, mas eu não sei o que ele faz lá, mas ele mata aula e chega atrasado. Eu acho que ele melhorou o comportamento. E a outra neta estuda de manhã lá e trabalha à tarde, num serviço que eles, a escola, arrumou para ela. Eu não sei bem em que ela trabalha. Agora estavam falando de arrumar um serviço para ele também, mas até agora não arrumou.

A tia deles algumas vezes é chamada lá na escola, e sempre que ela é chamada ela vai. Eu não preciso ir, porque ela está dominando ele, então eu não preciso ir. Hoje mesmo ela estava falando lá, porque ele está chegando tarde, fica lá na parada de ônibus brincado então tudo de ruim aparece, mas por enquanto não vi envolver em nada.

Nós vivemos aqui, eu e a minha filha, os dois netos que estuda na EPC, mais dois outros netos e uma bisneta, mas essa a mãe está para lá, ela vem de vez em quando. Essa é a mais velha dos filhos do segundo marido.

A mãe deles (a outra filha de Vega), quando morreu, eu e a minha filha já cuidávamos de seis filhos dela, ela morreu ficaram mais seis. Desses ficaram dois pequeninos, um tinha um ano, o outro estava com três anos, era um atrás do outro. Ela morreu matada.

Nenhum deles quer saber de estudar, um deles largou de estudar, não quer saber de nada. Não arruma serviço, fica aqui. O outro que já tem 21 anos, não importa com nada, não quer saber de trabalhar, hoje ele saiu dizendo que ia ver um serviço, era uma entrevista. Não sei no que deu ainda.

A minha vida não foi boa não. Eu tinha um marido que foi muito mau. Primeiro eu casei e o marido morreu, aí eu juntei com outro, e sofri muito, muitos anos com esse homem. Nós fomos morar no Goiás, e eu não tinha saída de jeito nenhum, vivia lá pelas matas, eu não tinha saída para nada, eu não sei nem como é que eu ia sair de lá. Eu deixei uma filha do primeiro marido com uma tia, que a trouxe aqui para Brasília, foi aí eu consegui vir para cá. Quando eu vim para Brasília, ela já estava com 20 anos, hoje ela já está com 60 anos. Eu tive treze filhos, dois ficaram na Bahia com a minha mãe e dois morreram. Um dos que ficaram com minha mãe saiu pelo mundo já rapaz e nem sei se está vivo, vive em São Paulo e eu não tenho notícia, não sei se morreu, porque não dá mais noticia. O outro morreu. Tem uma que

mora no P Sul, tem um que mora lá no Goiás, outra mora lá para baixo nas 600 das mais novas (uma das quadras da mesma Região Administrativa em que mora a avó Vega), essa que vive aqui, a que morreu, e tem o filho que é presidiário que está trabalhando na Ceilândia. Ele agora está vindo para casa e ajuda a filha daqui. Ele não cumpriu a pena, mas ele está no galpão, mas acho que ele está melhor do que quando estava preso, sei não, mas deve de estar. Eu não gosto dessas coisas, ele passou três anos preso e eu não fui visitar ele.

Eu trabalhei muito na roça lá na Bahia, lá era difícil trabalhar. Trabalhava somente em casa de família. Na Bahia tinha muita água, onde eu morei, tinha rio, e os rios eram limpos, hoje não tem mais rio limpo. Lá no Goiás eu plantava, tinha um pedaço grande de terra, eu plantava tinha de tudo, tinha muita manga, muita fruta e pequi.

7.1.1.1 Análise da fala da avó Vega

A avó Vega apresenta um imaginário com estrutura mística, e se apresenta com dificuldades abrindo mão da sua luta (como a responsabilidade junto à escola) para sua filha lutar por ela. Essa situação aparece na fala quando ela abre mão de lutar ela mesma e passa sua “espada” para a filha continuar a luta que seria sua. Ela assume a ideia social de velhice e a fragilidade física. Esse elemento arquétipo pode representar o fim, a morte. Ela parece demonstrar que seu “monstro” é o abandono dos filhos, mas, percebe-se apenas que ela passa

pela própria vida sempre se escondendo dos seus monstros. Ela diz: “Isso ficou muito pesado,

ainda está pesada até hoje [...] Hoje eu acho muito difícil. [...] Tenho uma bisneta operada lá na L2 e eu nunca fui lá, ela foi operada do coração, eu não sei que dia ela vai vir embora. Graças a Deus que ela já esta ficando boa”. Ela se refugia dentro da própria casa.

Essa avó sente a responsabilidade parental de assumir seu neto adolescente pela impossibilidade dos pais assumirem esse papel, conforme colocam Arrais, Brasil e Pinto

(2012). Como remete nessa fala: “Esse menino não tem essa liberdade não; ele só tem 15

anos; nem que fosse maior de idade não tem, porque está vivendo à custa da gente, então não tem liberdade nenhuma”.

Em alguns momentos de sua fala, percebe-se a desestrutura ao mencionar os filhos e netos de forma indireta, como se não lhe pertencessem. Somado a isso, menciona o seu passado de forma bastante confusa, onde ela não deixa claro quantos foram os filhos deixados na Bahia com a mãe e quantos convivem com ela hoje. Ela conta: “Eu tive treze filhos, dois ficaram na Bahia com a minha mãe, e dois morreram. Um dos que ficaram com minha mãe nem sei se está vivo, eu não tenho notícia, não sei se morreu. O outro morreu. Tem uma que

mora no P Sul, tem um que mora lá no Goiás, outra mora lá para baixo nas 600 (uma das quadras da Região Administrativa) das mais novas. Essa que vive aqui e a que morreu; tem o filho que é presidiário que está trabalhando na Ceilândia. [...] acho que ele está melhor do que quando estava preso, sei não, mas deve de estar. Eu não gosto dessas coisas, ele passou três anos preso e eu não fui visitar ele”. Analisada as palavras da avó Vega, encontra-se que ela não luta contra o preestabelecido; ela se encapsula em si mesma e na sua casa: “seu

refúgio” yvesdurandiano.

Tudo indica que ela foge dos monstros. Ela, com 78 anos confessados, não luta, não apresenta um imaginário heroico e sim, místico, com laivos grandes de desestrutura. Para Y. Durand, um dos fatores de diferenciação na constatação do imaginário pode ser a idade e registra, amparado em suas pesquisas, que o “mais comum entre as pessoas mais velhas é a temática defeituosa” (DURAND, Y., 1988, p. 138).

Ela pensa em proteger os netos matriculando-os na escola, mas deixa que a tia tome conta deles. Mesmo não indo à escola, deixando que a filha o faça, ela acompanha o comportamento dos netos que estudam naquela escola. Ela conta satisfeita que sua neta de 16 anos está trabalhando e que a escola arrumou esse emprego.

A avó Vega conta o abandono de seus seis netos mesmo antes da morte de sua filha, trazendo em si o abandono dos próprios filhos. Esse ciclo se repete e ela coloca o abandono dos próprios filhos, lembrando o abandono que ela mesma cometeu. Percebe-se, aí, a “geracionalidade” se cumprindo “[...] entre as dificuldades dos pais com seus filhos e as suas as vivências com seus próprios pais [...]” (PENSO, 2004, p. 44). É um ciclo que se repete.

A avó Vega relata sua fragilidade pela idade. Essa fala remete ao “preconceito social”

da velhice em que está exposta. Ela conta: “De primeiro eu mexia com essas coisas todas, ia

lá ao Plano, onde mandava ir eu ia, mas hoje eu acho muito difícil”. “O próprio ato de recordar, lembrando o já acontecido, deforma-se para, talvez inconscientemente, enquadrá-lo

aos ditames do necessário, do exigido pela sociedade, pelo grupo [...]” (LOUREIRO, 2000, p.

26).

A avó Vega relata sobre a desobediência de seu neto: o mau comportamento. Aqui o

fato relatado está representando o elemento yvesdurandiano “queda”. “Cair significa perder o

equilíbrio, descer, ir ao fundo. Lembra a angústia humana” (LOUREIRO, 2004, p. 24).

Ela fala da escola também de forma indireta. Relaciona a escola à possível melhora do comportamento do neto, mas o faz de forma impessoal. A avó Vega se refugia dentro da sua

armas para lutar contra o monstro que sabe existir. Isso identifica o imaginário da avó Vega com estrutura mística.

A avó Vega, ao historiar sua vida, mostra a fragilidade de ser mulher e viver sob as ordens de um homem. Segundo G. Durand (1989), as culturas patriarcais reforçaram a potência do animus, o homem, que recalcariam a anima, a mulher. Existe apenas uma tênue vontade de lutar, mas o que caracteriza o imaginário da avó Vega é a ESTRUTURA MÍSTICA, de colocar o perigo nas mãos de outro (sua filha, a tia de seus netos) e de Deus. E a DESESTRUTURA ronda o seu imaginário.