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2.1 Taushetsretten
A entrevista realizada com as professoras foi o ponto de partida para o entendimento de como esses cursos deixaram marcas significativas em suas práticas docentes. Assim, seguem-se, em sequência, temas equivalentes aos conteúdos destacados nas entrevistas2.
4.4.1 A inspiração para o trabalho
Em um primeiro momento, foi necessário entender o surgimento, ou a inspiração para o exercício da profissão docente. Para tanto, buscou-se observar, nos relatos, se existiam pessoas que deixaram referências ou propostas que foram seguidas ou adaptadas pelas professoras entrevistadas. De onde surgiu a inspiração para cada professor desenvolver seu trabalho? As respostas variaram entre os primeiros professores, professores da formação inicial, familiares e teóricos.
Inicialmente, é importante rever algumas colocações sobre a concepção da matriz inicial, ou onde a experiência docente foi gerada e amadurecida. Furlanetto (2003) reporta-a a um conceito inicial sobre a palavra matriz (matrice) que, em meio a outros significados apresentados pela autora, destaca-se por apresentar a essência do contexto inicial, o
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É importante mencionar que o roteiro da entrevista recebeu contribuição da professora Ecleide Furlanetto, que contribuiu significativamente para o sucesso do mesmo.
significado referente ao lugar onde é gerado ou criado, “[...] existindo uma analogia ao útero, órgão, nas fêmeas, responsável pela geração de outro ser” (FURLANETTO, 2003, p. 26).
Assim, várias professoras disseram que o desejo de ser professor surgiu na infância, por meio de experiências que deixaram marcas, principalmente as vivências proporcionadas pelas suas primeiras professoras. Perceberam, nelas, as características relacionadas à afetividade, à organização, ao cuidado com cada um e, em especial o comprometimento com a educação.
[...] eu tinha uma professora, Joana, que era assim, uma professora excelente, que a gente até dizia que não era uma professora era uma mãe. Ela tinha toda uma preocupação conosco. Organizava a atividade, ‘será que você realmente aprendeu? Será que você esta fazendo a atividade?’ Se ficou alguma dúvida [...]. Se o aluno faltava ela tinha aquele cuidado de até fazer a visita na casa do aluno. Ela tinha toda uma preocupação não só com o cognitivo, mas com todos os aspectos relacionados à família, com o emocional do aluno, alguma coisa que tava acontecendo. [...] Tudo dela era muito organizado, encadernado, numa pasta, numa escarcela. Eu tenho bem esse trabalho também assim. (Professora M. F.).
Minha inspiração vem lá do começo. Quando eu fazia primeiro ano, segundo ano, minha professora do fundamental menor era uma professora única, tanto é que eu carrego muito das características dela. Muito disciplinada, muito organizada e o mais importante de tudo, ela não gostava de faltar aula de jeito nenhum. E uma coisa que eu tenho comigo, que ela sempre dizia que os alunos não têm culpa dos problemas de casa e quando a gente escolhe uma profissão a gente já sabe o que vem junto com ela. Ela sempre conversava muito com a turma porque ela era bastante participativa nesse sentido. Então, ela não gostava de faltar aula. Ela achava que quem perdia era o aluno. Então, ela era muito comprometida e isso eu trouxe comigo desde aquela época de infância ate hoje e, se hoje eu sou professora eu devo muito a ela, professora, Marilucy. E hoje, a gente é colega, e companheira, e as vezes quando ela me encontra: - L. M., pra quem foi e minha aluna lá no jardim e hoje estamos juntas! (Professora L. M.).
Algumas referências ou características dessas professoras tornaram-se verdadeiros símbolos que foram construindo suas matrizes pedagógicas, mediando outros possíveis saberes e práticas, que deram significado ao que se faz e se vivencia atualmente como profissional. Características do tipo organização, cuidado e afeto para com a turma constituem processos que, de alguma forma, preencheram lacunas presentes, ou exigências afetivas desses alunos que encontraram, nessas referências, sentido e ponto de mediação para aquilo que se desejava construir.
Segundo estudos elaborados por Freud e, mais tarde, apresentados por Piaget (1964), no processo de desenvolvimento, principalmente, no desenvolvimento de esquemas afetivos, a criança, ao criar seus primeiros laços afetivos, irá tomá-los como referência para futuras projeções afetivas. Assim, a professora, por chegar tão cedo na vida do indivíduo, transforma- se em objeto de ternura do aluno, fazendo parte de seus esquemas criados, inicialmente, no
seio materno e que acabam sendo projetados nela, o que torna a professora das séries iniciais uma referência importantíssima para essa criança.
A professora, então, torna-se referência, “modelo” a ser seguido, alguém tão importante que, muitas vezes, é imitada pela criança em suas brincadeiras, aumentando o desejo de ser como ela. Piaget (1964) acredita que nos construímos à medida que assimilamos as características que observamos em nosso meio, em que as selecionamos e as tomamos para nós. Tudo isso acaba compondo nossa matriz pessoal e profissional.
Cunha (2010), para explicar o processo de individuação que ocorre no sujeito, faz uma comparação entre as vivências que vão sendo observadas e irão ajudar a compor a matriz pedagógica única em cada sujeito e que, por sua vez, Staude (1995, p. 43, grifo do autor) compara ao “Self” junguiano, “[...] o campo e o horizonte da nossa experiência, o contexto para os conteúdos da consciência e do inconsciente”, com as sementes ao caírem no chão. Afirma que cada semente cai em um determinado lugar e em tempo específico e que são vários os fatores que intervêm no processo: qualidade do solo, inclinação do terreno e exposição ao sol. O mesmo acontece com as experiências que vivemos e que vão tomando proporções em nossas vidas e que não podemos prever ou imaginar quais caminhos elas irão tomar diante da singularidade do sujeito e suas relações com o meio.
Retomando a importância das contribuições dos primeiros professores para a constituição do sujeito docente, percebe-se o depoimento sobre da professora L. M. que expressa a mais pura demonstração de admiração e afeto pela professora, a qual cultivou nela o amor pela profissão docente. Confessa que, muito antes, já sonhava em ser professora, mas essa referência contribuiu e consolidou esse sonho.
Ela relata que, apesar de vários problemas enfrentados durante seu estágio na formação inicial, como os casos em que vivenciou situações de violência na escola e ouviu palavras de negativismo sobre o trabalho docente, palavras proferidas pela própria supervisora de estágio, tais problemas não fizeram com que ela desistisse, afirmando que os laços afetivos criados com essa professora inicial intensificaram e consolidaram seus desejos nessa direção. Já outros professores relataram que foram inspirados pelos colegas de trabalho, ao observarem sua atuação em serviço e por se identificarem com elementos presentes em sua prática. É o caso que podemos observar a seguir:
No caso foi a Sheila, Regina Sheila, ela era no caso, a diretora da escola, mas ela era diretora e faz tudo, né? Porque nós não tínhamos coordenador nem ninguém pra acompanhar o trabalho. Então ela fazia tudo, ela era muito [...] é porque assim, geralmente agente encontra profissionais que, não, [...] ah, eu sou diretora! Eu vou ficar só aqui no meu posto de diretora. Não, ela era muita preocupada com a escola
como um todo. Então, ela foi assim, minha inspiração, já no ano de 2003. Eu comecei na rede em 2002. (Professora T. C.).
[...] foi a primeira vez que eu comecei a me identificar com a minha profissão, foi no meu curso de magistério, né? Que eu vi como você pode fazer um diferencial na vida de uma pessoa. Então acho que nós, quando escolhemos essa profissão, nós escolhemos fazer um diferencial na vida de alguém. Eu acho que ali, naquele momento ela foi uma das pessoas decisivas pra eu continuar a minha trajetória. (Professora E. V.).
A professora E. V. relata, ainda, que o ponto de partida para a escolha do magistério foi a vontade que sua mãe cultivava em ter uma filha professora, o que a levou a procurar o curso.
Além dessas situações apresentadas, outra professora confessou que sua opção pelo magistério aconteceu por acaso, na verdade pelas facilidades apresentadas na época, pois o caminho mais fácil para a mulher adentrar o mercado de trabalho era o do magistério. Esses dois depoimentos denotam mulheres que, por diferentes motivos, exceto a vocação pelo ofício, foram levadas à profissão docente. Ambas confessam que, após o ingresso no magistério, começaram a ter amor pela profissão. Isto nos apresenta algo muito importante, o fato de que, a todo o momento, somos ressignificados por eventos que acontecem em nosso meio. Esse processo permite crescimento e mudança, processos essenciais à ressignificação. Nesse depoimento, pode-se perceber que uma prática pedagógica, um jeito de ser, um exemplo dado nos forma, nos conduz, nos transforma.
Algumas professoras citaram o estágio como momento decisivo para a permanência na profissão e de onde tiraram parte de sua inspiração. Foi o caso citado pela professora E. V.: “[...] já tiveram alguns estágios que mexeram comigo, que eu vi, ‘olha, eu posso fazer isso na minha sala!’[...]”.
É natural que o estágio mexa tanto com uma matriz, pois é o momento onde realidade e teorias se entrelaçam, facilitando, assim, o processo de construção do conhecimento. É momento de rever hipóteses, assumir ideias novas, rever práticas e constatar a realidade tal qual ela é.