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In document Merkebygging av Synsam (sider 30-0)

Diferente do amplo número de coordenadores que havíamos encontrado durante a nossa primeira ida a ocupação, neste pequeno interstício de tempo passa a ocorrer um amplo decréscimo no número de coordenadores que atuam na Chico Mendes. Isso porque, o MTST dá início a uma nova ocupação que passava por algumas dificuldades na realização da sua organização. Por conta disso, grande parte dos apoios que integravam a ocupação se deslocaram para a ocupação Carlos Marighella a fim de auxiliá-la.

Estes não foram os únicos casos. Em grande medida, o grupo de sujeitos que compunham a coordenação dos grupos também foi amplamente alterado.

Andréia, a quem destacamos no primeiro tópico deste capítulo através da problematização do termo “invasão”, foi um destes casos. Segundo Rosalinda, Andréia foi afastada do grupo de coordenação por “falar muito”. Completando o comentário, Rosalinda afirmou que já havia avisado para ela ficar quieta, mas que ela não quis ouvir. Pude presenciar um destes momentos: enquanto Andréia conversava com outras coordenadoras tecendo críticas a algumas posturas que não concordava dentro do movimento, Rosalinda atravessou do seu lado dizendo para ela prestar atenção porque “o peixe morre pela boca”.

Dentre alguns outros coordenadores que se afastaram, comentavam que haviam apenas deixado de ir à ocupação sem dar nenhum tipo de satisfação. E ainda tinham aqueles outros que apenas não eram comentados. Isso porque o caso destes coordenadores era mencionado durante situações específicas da ocupação que nem sempre se remetiam aos casos particulares que ocorreram. No entanto, vale aqui ressaltar que em grande medida a maioria destes sujeitos não deixam de participar do movimento, mas sim, do grupo de coordenação. Assim, voltam a participar do movimento “apenas” enquanto acampados.

Dentre estes casos pudemos acompanhar em especial uma das coordenadoras que optou por se afastar da coordenação do movimento. E, em vista disso, buscaremos esboçar aqui uma das conversas que tivemos a fim de desvelarmos – mesmo que de modo singular – alguns conjuntos de significados que podem ter embaçado sua trajetória dentro do movimento.

4.2.1 Uma percepção, um sentido.

Como Jéssica havia mencionado sobre o cadastramento das famílias no MTST, em sequência a este deram início a construção de planilhas onde criavam o controle da pontuação das famílias.

Mexendo no computador, Amanda começou a me mostrar as planilhas que tinham criado no computador com o nome das famílias, número da barraca, a participação nos atos, as presenças, as doações e a trilhas que cada acampado havia acumulado. Divididas também por cores, mostrava-me também aqueles cadastrados que eram demarcados pelo fato de não ter pontuação alguma e que, portanto, eram por eles considerados como os “andorinhas”, os quais não faziam parte do movimento. Em seguida, mostrou-me tudo o que tinha dos outros grupos. Alguns, apenas com um nome e pequenas anotações. Outros, com preenchimento muito semelhante ao da planilha de seu grupo. Explicou-me que como depois isso tudo era passado “lá para dentro”, que então auxiliavam também os grupos que não davam conta de fazer a sua parte e cadastravam e pontuavam também a eles, por isso alguns grupos possuíam tantas anotações e outros não.

Enquanto prosseguia comentando sobre a ocupação, disse que tudo o que via no movimento a lembrava muito do livro “A Revolução dos Bichos”105 e que nas últimas

105Do autor George Orwell, o livro “A Revolução dos Bichos” é um livro ficcional que realiza uma sátira à

Revolução Russa. Fazendo uma analogia entre este momento histórico e uma granja na qual os animais realizam uma insurreição contra os humanos, o autor trabalha a partir da figura dos animais uma crítica clara à forma como se desenvolveram as relações políticas e sociais que deram base ao “governo revolucionário”.

semanas ficou pensando, a partir dessa referência, sobre qual a posição que ocupa dentro do movimento. Dando sequência à sua analogia entre a ocupação e o livro, disse que o porco106 ela tinha certeza que não era. Mas que não sabia se ela fazia parte dos animais que comiam apenas os restos ou se ela era o cavalo107 que morria de tanto trabalhar.

Buscando esclarecer, afinal, o que dizia, explicou que quando chegou na ocupação e viu que os militantes comiam antes dos acampados, ela estranhou muito. E que apesar de entender que fazem isso porque trabalham muito, não acha que tem que ser assim porque foi criada com outra lógica. Dando sequência, disse que da mesma forma como acontecia com a comida, acontecia com a informação dentro da ocupação.

Fazendo um gesto com a mão representando um círculo, disse que era tudo muito centralizado. Que ninguém sabia ao certo o que estava acontecendo. Que cada um continha um pouco de informação e que estas não eram passadas. Disse que o outro coordenador do grupo sabia mais coisas do que ela porque confiam mais nele, mas que ela também tinha informações que não podiam ser passadas para os acampados. E que eles não explicam a situação do movimento, não explicam o que acontece, mesmo sabendo. Que não precisavam falar tudo, mas que tem coisas que precisam ser esclarecidas para o povo saber da situação.

Mas que apesar disso tudo, uma coisa que ela achava bom no movimento: era o que o Guilherme, coordenador nacional do MTST, falava sobre a conquista deles não depender do que o militante faz, mas do que eles fazem. Que é a luta deles que está em jogo para conseguirem suas conquistas, e que isso “eles veem”. Se você não tiver uma ficha gorda de tudo o que você fez, na hora que for "para os cabeças”, isso não vai valer nada para eles.

Fazendo referência a quando decidiu entrar na ocupação, conta que quando começou a ouvir as assembleias deu um “negócio” nela. Que as assembleias eram sempre da mesma forma, feitas para incentivar as pessoas a buscarem por seus direitos. Que o MTST era muito mais que uma luta de moradia porque eles lutavam por diversas coisas que a comunidade precisa e ensinam que eles têm sim direitos, e que isso ela descobriu lá, na ocupação.

Neste momento, Amanda foi interrompida por um dos coordenadores que subiam pela ocupação falando alto e que estava levando uma cesta de frutas para ser dividido entre as cozinhas. Indo direto para a cozinha onde estávamos, já com expressão de alegria Amanda e o outro coordenador de grupo que lá estava conosco foram pegar as frutas.

106 Fazendo referência a personagens como Stalin e Trotsky, os porcos são representados no livro como os

animais que dirigem o processo revolucionário na granja mas que aos poucos vão ocupando as mesmas posições que os humanos tinham, se utilizando dos outros animais a fim de suprirem seus interesses.

107 O cavalo a que Amanda faz referência é Sansão. Um cavalo que se dedica integralmente a trabalhar para que

No entanto, assim que o coordenador olhou para as frutas que lá estavam, nervoso, ele perguntou para o rapaz que subiu com a cesta: “as frutas foram doação? ”. Após ouvir que sim, retornou outra pergunta: “mas não foram só essas frutas que chegaram né? Elas

passaram pelo barracão antes de subir, não foi? ”. Afirmando novamente que sim, o

coordenador muito nervoso disse que isso não poderia acontecer. Que era por isso que ele pedia para seus acampados que quando fossem doar comida subissem direto para a cozinha do seu respectivo grupo porque era sempre a mesma coisa, quando a comida passava pela cozinha dos militantes eles sempre escolhiam as melhores partes e só mandavam o que sobrava para subir para as outras cozinhas. Nesse momento, Amanda foi me mostrar as frutas, as quais encontravam-se quase todas em um avançado estado de apodrecimento. Concordando com o que o outro coordenador do grupo dizia, virou no meio da conversa para minha direção e disse “não te falei que isso aqui parecia a revolução dos bichos?”.

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