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Transkribering og datareduksjon

In document Merkebygging av Synsam (sider 36-0)

Enquanto se estabeleciam novas formas de organização e controle em torno das cozinhas, desenvolviam-se os cadastramentos da prefeitura. Como bem apontado pelos coordenadores, conforme este foi se dando, mais se reduzia a presença dos acampados na ocupação. De modo geral, algumas reclamações apareciam na cozinha durante esse período. Alguns foram realizar o cadastro achando que a partir deste receberiam bolsa aluguel. Outros, após terem se cadastrado, cogitavam deixar de atuar junto ao movimento, achando que por terem seu cadastro na prefeitura a moradia já seria garantida. O fato, no entanto, é que a participação destes diminuiu ainda mais dentro da ocupação – fato que através dos coordenadores de grupo aparece de certa forma como “normal”, posto que já haviam sido avisados pelos militantes que isso comumente acontecia.

É interessante o fato de ser frequente dentro da ocupação a presença de outros militantes que não as responsáveis por esta. No decorrer dos meses, alguns apareciam para conhecer a nova ocupação e outros lá passavam para se informar sobre o decorrer da "luta" e, caso fosse necessário, resolver alguma eventualidade que lá acontecia. Contudo, pelo menos nas dimensões mais imediatas em que se desenvolvia a ocupação, a dissipação dos acampados não aparecia apontado por estes como uma questão a ser solucionada.

Diferentemente destes, tal dimensão aparecia dentre os questionamentos de alguns coordenadores de grupo e acampados. Os primeiros, mesmo que de certo modo normalizando a situação, se confrontavam com tal fato nos momentos em que necessitavam da presença dos

acampados para ajudarem na sustentação da ocupação. Isso apareceu exaltado de diferentes formas. Por exemplo, no questionamento sobre a ausência dos acampados durante a noite. Preocupados com a proposição conflitiva colocada pela ocupação, os coordenadores apontavam a alta vulnerabilidade em que esta se encontrava diante da ausência de cada um dos acampados. Segundo os coordenadores, essa ausência deles se apoiava em uma ilusória sensação de que a ocupação já não se encontrava mais vulnerável, o que fazia presença destes parecer desnecessária.

Também sobre a organização da ocupação, podemos destacar duas situações em que apareceu bem a dificuldade enfrentada pela ausência dos acampados. Quais sejam: a manutenção da trilha e a realização de um mutirão.

A Trilha é um dos importantes elementos que correspondem a estrutura organizativa utilizada pelo MTST dentro da ocupação. Voltada à manutenção da segurança noturna, a trilha corresponde ao procedimento de caminhar por toda a ocupação, olhando barraca por barraca a fim coibir qualquer ação de fora voltada contra a ocupação ou ação interna direcionada contra algum membro desta. Para além disso, controlavam ainda a utilização de drogas, álcool e a posse de armas (mesmo que brancas) dentro do terreno, as quais eram proibidas pelo MTST a fim de reduzir qualquer desenvolvimento de possíveis conflitos. Com todas as luzes já apagadas, a trilha (formada por um grupo de pessoas) só pode andar com lanternas, sempre são apontadas para o chão, tentando impedir que sejam vistos com facilidade conforme caminham no terreno. Tanto homens quanto mulheres podem fazer parte da trilha. No entanto, quando casadas ou quando namoram, elas só podem fazer parte da trilha se estiverem junto a seus companheiros. Segundo uma das coordenadoras, tal medida foi tomada para que não tivessem problema com o parceiro das moças caso essas se relacionassem com alguém durante a trilha.

Enquanto a trilha ocorria, precisavam ainda de pessoas responsáveis por ficar na entrada da ocupação, na altura do barracão, para também manter o controle dos que entravam na ocupação.

Especificamente na Chico Mendes, apresentava-se para os coordenadores um outro problema: o fundo da ocupação. Em uma mobilização em específico – o ato de protesto da síndica – a ocupação abriu ao fundo da ocupação, no morro, uma escada na terra. Utilizada no momento para possibilitar um caminho mais fácil aos acampados, tornou-se posteriormente um problema por deixar a ocupação em vulnerabilidade.

Um pouco após completarem um mês de ocupação, já começaram a sofrer bastante com a falta de acampados que pudessem integrar o grupo da trilha. Com a ausência destes

dentro da ocupação, diminuíram-se os voluntários, mas também, certa sensação de insegurança dentro da ocupação. Como grande parte das pessoas que permaneciam a noite na ocupação eram os coordenadores, estes passaram a se responsabilizar pela realização das trilhas com ou sem acampados para acompanhá-los. Preocupados com tal ausência, para além das incessantes pedidas de ajuda, buscaram elaborar novas estratégias utilizando o sistema de pontuação e uma divisão de dias em que cada grupo ficava responsável por realizá-la, mas, mesmo assim, a falta que esses faziam foi apenas em parte suprida.

Agregando-se a tais fatos, o mutirão para realizar "a trilha" torna-se mais um exemplo desse processo de estranhamento da ausência dos acampados, agora, desenvolvido por eles mesmos.

Como já destacado acima, dentre a estrutura de organização interna a ocupação, o cuidado com as barracas possui um lugar de destaque. Junto a isso, desenvolve-se também uma preocupação em manter uma limpeza das ruas (esses espaços criados na vertical que facilita o trânsito dentro da ocupação) e do espaço interno das barracas. No entanto, entre todas as quatro cozinhas e, portanto, entre os quatro grupos, o G1 aparecia na Chico Mendes como o mais voltado a manter o tipo de organização interna requerida pelo movimento. Até mesmo como uma preocupação e cuidado com a gestão do espaço de seu grupo, Rosalinda – enquanto coordenadora de grupo –chamou um mutirão no G1. Comumente, segundo um dos coordenadores que auxiliavam as militantes, os mutirões são feitos no MTST englobando toda a ocupação e, portanto, todos os grupos. No entanto, este, especificamente, envolvia apenas o G1. O mutirão durou dois dias e contou com a presença de pouquíssimos acampados – os quais praticamente se repetiram durante os dias. Nesses dias o grupo presente se dividiu, uma parte dos acampados ficaram retirando as gramas e recolhendo os entulhos do meio das ruas, outro ajudava a coordenadora do grupo na construção de um banheiro no G1.

A expectativa tanto de Rosalinda quanto dos acampados que lá estavam era de conseguir a presença de pelo menos uma parte considerável do grupo. No entanto, no decorrer do dia, conforme aumentava o cansaço, os acampados que lá estavam passaram a questionar a ausência do resto do grupo. Os comentários feitos eram sempre pautados sobre um sentimento grande de injustiça, sendo que estavam lá se esforçando por aqueles que se ausentavam.

Depois de um tempo de comentários e reclamações entre estes, comentaram com Rosalinda sobre o fato. Esta, que também tinha expectativas maiores sobre a quantidade de acampados, justificou dizendo que era difícil mesmo, mas que podiam ficar tranquilos porque o esforço que faziam ali seria reconhecido pelo movimento mais tarde.

De fato, no dia seguinte voltaram praticamente as mesmas pessoas e ainda faltou tempo para dar fim a todo o trabalho. Enquanto o G1 cuidava de sua parte da ocupação, os outros coordenadores de grupo e os poucos acampados dos outros G's que lá estavam permaneciam apenas no entorno, sem em nada ajudar. Tanto no segundo dia de mutirão, quanto no próprio dia de retirada da ocupação, muitos dos acampados apontavam que a única coisa que os consolava no fato dos outros acampados não ajudarem era o fato de não dependerem deles para conseguirem a moradia, posto que dentro do movimento era visto individualmente o que eles faziam.

É interessante notar que nos três casos aqui elencados (tanto da ausência dos acampados dormindo na ocupação; quanto da trilha e do mutirão) foram, de formas diferentes, questionamentos sobre a participação e a atuação em conjunto das famílias acampadas em torno do que seria a constituição de "uma luta comum a todos".

Isso é importante ressaltar, os questionamentos partem de uma indagação sobre a lógica da participação conjunta dos acampados – elemento este que, como visto, também já vinha sendo questionado nas cozinhas.

Como visto desde o início da atuação do MTST no Jardim Colombo, trata-se aqui de um movimento extremamente organizado que traz consigo uma proposição já estruturada de como se deve organizar uma mobilização social. A ocupação territorial faz parte dessa estruturação prévia, possuindo assim, toda uma organização interna que é prevista pelo movimento como forma de organizar as famílias. Ocorre que mesmo possuindo um sistema já pré-estruturado, ele depende intrinsecamente dos próprios acampados, coordenadores e militantes. Isso posto, cada ocupação aparece não só, de modo geral, como o fruto de um conjunto de famílias em luta pela moradia, mas, antes, como um resultado dessa relação interna que se estabelece a partir da ocupação.

Portanto, a fim de compreendermos como as famílias acampadas permanecem atuando dentro do movimento como parte fundamental deste, precisamos nos reclinar sobre o alicerce de todo seu sistema de organização: o sistema de pontuação.

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