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Analysestrategi

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Posto toda a dinâmica interna desenvolvida entre as famílias e o MTST na construção da ocupação, vale voltarmos novamente a situação do confronto territorial desenvolvido entre os condomínios e a ocupação a fim de compreendermos um pouco dos projetos que se localizavam por trás das reivindicações do terreno.

O que o torna aqui o conflito ainda mais interessante é a própria disposição que os sujeitos já ocupam anteriormente no bairro.

Se repararmos no mapa anteriormente utilizado para delinear visualmente a região, veremos que entre o condomínio que se localiza ao lado da ocupação e, propriamente, a favela do Colombo (de onde vem grande parte dos acampados da Chico Mendes) existe uma distância relativamente pequena – posto que separada apenas pelo cemitério Gethsêmani. Dessa forma, a disputa territorial enfrentada pelos condomínios visa impedir que uma população que já reside muito próxima, se aproxime ainda mais.

Como relatado, sendo uma área que possui padrões mistos de ocupação do território, é constante a mudança brusca das formas de moradia. No entanto, inclusive por essa situação, a disputa localizada em terrenos específicos parece intensificar-se, posto que transcendem seus “enclaves fortificados”109, buscam delimitar não só a produção interna do condomínio como também o espaço externo a estes, organizando-se no que tange a gestão do espaço público.

E, neste ínterim, vale ressaltar que a própria implantação do parque linear possui em si uma dupla fase. Ao mesmo tempo em que é planejado como forma de preservar e aumentar áreas ambientais, favorecendo a qualidade de vida de toda a população à sua volta – inclusive a população de baixa renda, a qual representa uma das preocupações centrais do projeto –, ela também é fundamentalmente planejada a partir dos incentivos privados. Como mencionado no próprio projeto que prevê a implantação do Parque Linear Itararé:

A viabilidade da implantação do Parque Linear está diretamente vinculada à possibilidade de implementação de instrumentos urbanísticos capazes de gerar recursos financeiros ou fundiários capazes de suprir a carência orçamentária presente na administração municipal. Frente ao grande interesse imobiliário existente na região, neste caso parece ser viável obter do processo imobiliário meios para garantir a

109 Caldeira (2003)

implantação do parque. (“PESQUISA E ANÁLISE DE APLICAÇÃO DE

INSTRUMENTOS EM PLANEJAMENTO URBANO AMBIENTAL NO

MUNICÍPIO DE SÃO PAULO”, p. 71)

Indo ao encontro dos interesses expressos por parte da população dos condomínios, o parque linear ao mesmo tempo em que projeta um benefício socioambiental, também se estrutura na base sobre a qual se sustenta a crítica do MTST: a apropriação da cidade enquanto uma mercadoria, tendo aqueles que podem pagar vantagens sobre aqueles que não podem.

Quando da elaboração do Parque Linear se conta com o alto interesse do mercado imobiliário e com o investimento que esse designa ao espaço urbano como modo de valorizá- lo para, assim, valorizar também as moradias e comércios existentes na região.

E, aqui, vale ressaltar, como, ao se amparar no mercado imobiliário, a produção de melhorias para o espaço urbano conta, de certa forma, com a reprodução mercadológica do espaço.

Por sua via, este será um dos fatores que levam a aproximação do movimento. Pois, com o aumento da especulação imobiliária, aumenta a dificuldade das famílias em se manterem na região – o que, estrategicamente, forma uma população que favorece as chances de massificação do movimento. Apesar de o movimento aparecer hoje como um meio utilizado para driblar a situação de vulnerabilidade a que são submetidos nesses territórios, é interessante notar nos acampados que acompanharam o processo de formação da região do Morumbi, como estes enfrentaram até então o processo de valorização imobiliária que vem sendo fomentado da região desde a década de 70.

Dentre esses, vale destacar o fato de reclamarem junto ao poder público o título de comunidade, posto que eram taxados nas cobranças de serviços da mesma forma que eram cobrados os moradores de classe alta e média da região. Será através da apropriação dessas interfaces do poder público que eles conseguem lidar com as necessidades mais imediatas que os afligem permanecendo, mesmo que de forma muito precária, sobre a mesma região que as classes mais altas.

Dentre os relatos de parte dos coordenadores de grupo e dos acampados com que tive contato, é de fato a questão da moradia e não um conhecimento prévio sobre o MTST que os atrai para o movimento. No entanto, é importante ser aqui ressaltado que a aproximação que essas famílias realizam do movimento se trata menos de uma “alienação” sobre a estrutura social a que estão submetidos do que, propriamente, uma estratégia escolhida por estes como forma de lidar com as contradições sociais que experienciam cotidianamente através da

condição de moradia e emprego que possuem em relação à população de classe alta e média que se situa em seu entorno.

Não sem refletir, optam por adentrar ao movimento. E mais, frente às diferentes funções existentes neste, optam ainda sobre de que forma permanecem dentro dele ou se consideram melhor dele sair.

De modo interessante, dentre os motivos que fazem diversos dos acampados entrarem no movimento e nele permanecerem está a preocupação em conceder alguma forma de segurança à família. Em quase todos os relatos dos acampados que pude conviver, aparecia marcado a intenção de participar do movimento para que pudessem deixar alguma forma de herança para os filhos. Dentre outros casos, destacam-se até casos em que os jovens que não possuem família constituída e participam da luta a fim de depois ceder a casa a algum irmão, posto que nem mesmo pretendiam permanecer em São Paulo. Daí também se desencadeiam a grande presença das mães dentro da ocupação, posto que mesmo sendo a “luta” do filho, o fato de estarem lá por eles também é uma forma de garantir uma segurança que não puderam dar a eles antes.

No mês de dezembro, o MTST decreta a data final da ocupação territorial da Chico Mendes. Com a questão da instabilidade do terreno e com o fato de tratar-se de uma área de APP, o MTST não consegue conquistar o terreno. No entanto, um dado importantíssimo entra em cena: o fato de para o MTST a conquista da moradia não estar necessariamente vinculada à conquista do terreno no qual permaneceram acampados. Em acordo com a prefeitura, garante-se a construção de moradias para as famílias, entrando em processo de escolha de um novo terreno onde estas possam ser construídas.

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