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O trabalho de Stassen (2009) é, até o momento, o estudo tipológico mais exaustivo sobre posse predicativa. Após quinze anos de investigação sobre posse, o autor apresenta um estudo detalhado das construções de posse na maioria das famílias linguísticas, em uma amostra de 420 línguas. O autor propõe uma tipologia de posse predicativa para as línguas do mundo ao mesmo tempo em que acredita ter identificado outros fatores linguísticos intrinsecamente relacionados à forma como as línguas do mundo selecionam suas estratégias para a expressão de posse: sequência temporal e predicação não verbal. Partindo de uma revisão da vasta literatura sobre posse e do seu corpus abrangendo as principais famílias linguísticas, Stassen propõe quatro grandes tipos de estruturas de posse predicativa.

Os quatro principais tipos de posse predicativa enumerados pelo autor são as que seguem: possessivos locacionais, possessivos comitativos, possessivos de Tópico e possessivos do tipo “ter” (Have-possessive). Para cada tipo de possessivo, o autor apresenta uma definição e uma fórmula.

Tabela 3.4 – Principais Tipos de Construções Possessivas (Stassen, 2009)

Tipos de Construções Possessivas Fórmula 8 Exemplo Possessivo Locacional (Locational Possessive) Em/para PR, existe um PD At/to PR, (there) is/exists a PE

(i) Russo

U Ivana byl sinij avtomobil. Em I. GEN. COP.PASS azul carro

‘Ivan tinha um carro azul.’

(p. 51)

Possessivo Comitativo

(With-Possessive) PR está com um PD PR is/exists with a PE (ii) Hauçá Ya-nàa dà kudii 3sg..PROG COM dinheiro

‘Ele tem dinheiro’. (p. 56) Possessivo de Tópico9

(Topic Possessive) Quanto ao PR, PD existe As for PR, PE is/exists (iii) Tagalog May relos ang nanay. Existe relógio TOP mãe

‘A mãe tem um relógio.’

(p. 60)

Ter-Possessivos

(Have-possessive)

PR tem um PD

PR has a PE (iv) X Da’a//om-kx’ao kx’ae peri Cortador de lenha ter carneiro

‘O lenhador tem carneiros.’

(p. 69) Além dos quatro grandes tipos de construções possessivas nas línguas do mundo, Stassen (2009, p. 70-106) enumera os seguintes casos de variantes não-padrão: (i) Índice do possuidor no possuído – que pode ocorrer nos quatro tipos de posse predicativa. Nela vai existir algum elemento marcando a posse de PR no PD; (ii) Código zero (zero-encoding) – nesta variante, a cópula utilizada para posse não é expressa, o que pode ocasionar em certas condições uma ambiguidade entre construções de identidade e posse; (iii) Possessivos conjuncionais (conjuctional possessives) – são os casos em que a construção de posse

8 Decidimos deixar a fórmula no original em inglês e chamar a atenção para a semelhança das fórmulas entre os

Tipos de Possessivos de Stassen com os Esquemas de Evento de Heine.

9 O uso que Stassen faz do termo “Tópico” em sua tipologia não deve ser confundido com a categoria Tópico

dos trabalhos funcionalistas e discursivos. Nas palavras de Stassen (2009, p. 58): “Um tópico de uma sentence é um item que tem uma função semântica específica, denominada, ‘para constituir um enquadre de referência em respeito ao qual a oração principal ou verdadeira (se é uma proposição) ou falsa (se não é uma proposição). No original: “A sentence topic is an item which has a specific semantic function, namely, ‘to constitute the frame of reference with respect to which the main clause is either true (if a proposition) or felicitous (if not)’.”

predicativa se dá com o uso de partículas coordenativas, como o sentido da conjunção “and” ou outra; (iv) os Possessivos oracionais (clausal possessives) – são alguns casos raros nas línguas do mundo em que a predicação de posse é expressa em duas orações e não apenas em uma como na maioria das línguas do mundo; por fim, o (v) os Tópico-locacionais híbridos (Topic-Locational hybrids) - nos quais há uma certa hibridização entre posse locacional e de tópico. Nessas construções, o PR é marcado como oblíquo e o PD é o sujeito gramatical.

Para Stassen, todas essas variantes não devem ser consideradas como um tipo à parte por se mostrarem fenômenos marginais, que acontecem nos quatro principais tipos de posse predicativa propostos por ele. Para ele, esses “desvios” dos tipos padrão de posse predicativa se devem a processos de gramaticalização.10 Para o autor (2009, p. 107-243), pelo menos os seguintes processos de gramaticalização são os responsáveis por criarem as variantes não padrão de posse predicativa, quais sejam: adnominalizacão, predicativizacão e transitivizacão. Iremos nos ocupar deles de forma indireta em outras seções, no entanto, desses três processos, o de transitivização é o que mais nos interessa para o estudo sobre posse predicativa em línguas bantas.

Após apresentar os mais diversos casos de variantes não padrão dos quatro principais tipos de construções de posse nas línguas do mundo, Stassen (2009) propõe dois fatores que seriam determinantes para a escolha que as línguas fazem para a configuração de um ou outro tipo de construção de posse: (i) o sequenciamento temporal; e (ii) predicação não verbal.

O sequenciamento temporal pode ser entendido como a construção que expressa a relação entre dois eventos, A e B, como convergentes (overlapping), precedendo ou seguindo cada um (Traugott, 1975 apud Stassen, 2009). O autor chama a atenção para a possibilidade do Sequenciamento Temporal nas línguas ser convergente, o que será considerado simultâneo, caso contrário, será considerado consecutivo. O autor faz ainda a distinção entre a sequência com o mesmo sujeito: SS-SEQUÊNCIA (Same-Subject Sequencing) e a sequência com sujeitos diferentes: DS-SEQUÊNCIA (Different-Subject Sequencing). Para a tipologia de posse predicativa, apenas o sequenciamento temporal com sujeitos diferentes e simultânea, ou “DS-Sequência simultânea”, será necessário (Stassen, 2009, p. 255). Para esse caso, dois parâmetros serão usados: as línguas serão classificadas como de Codificacão Equilibrada vs. Codificacão “Quebrada” (Balanced vs. Deranked encoding). Stassen (2009, p. 263) alerta para a dificuldade de delimitar uma língua como “Equilibrada” ou “Quebrada”. A distinção

10 Vale chamar a atenção para algumas diferenças entre a tipologia apresentada por Stassen (2009) e (2005).

Nesta, o autor define seis tipos de posse predicativa, nesse caso, uma posse genitival e a posse conjuncional, o que naquele trabalho são considerados subtipos dos quatro grandes tipos. Conferir Anexo A com mapa retirado de Stassen (2006).

entre Deranking e Balanced languages deve ser vista não como excludente. Uma língua considerada “Equilibrada” pode apresentar construções consideradas “Quebradas” e vice- versa, no entanto, a língua exibirá uma preferência entre uma ou outra estratégia de sequenciamento temporal de sujeitos diferentes.11 Em (5a-b), apresentamos exemplos aproximados de como se comportaria uma língua com preferência Equilibrada; e em (5c-d), exemplos aproximados de língua que escolhe uma codificação “quebrada”:

(5) Português

a. O João estava atrasado e a Maria ficou preocupada. b. Quando o João atrasou, a Maria ficou preocupada.

c. (Com) o João estando atrasado, a Maria ficou preocupada. d. Estando o João atrasado, a Maria se preocupou.

Quanto à predicação não verbal, uma língua é chamada “Compartilhante” (shared-

language ou sharer) se a estratégia de codificação para predicado locacional for (ou pude ser)

usada também para predicado nominal, e uma língua “Cindida” (Split-language ou splitter) se a estratégia de codificação para as duas construções for diferente. Exemplo de língua compartilhante é o inglês e cindida o português:

(6) Inglês

a. He is a teacher.

3sg. COP ART professor. ‘Ele é um professor’

b. He is at school.

3sg. COP PREP escola ‘Ele está na escola’

(7) Português

a. Ele estava na escola. b. Ele era professor.

11 Stassen (2009) apresenta diversos casos em que determinadas línguas não parecem seguir as previsões de sua

tipologia, porém, para o tipólogo, esses podem ser considerados casos marginais para a configuração de uma tipologia de posse predicativa.

3.4.1 Um modelo para a codificação de posse predicativa

Toda essa apresentação se fez necessária para apresentarmos a proposta de Stassen de como as línguas do mundo codificam os quatro principais tipos de posse predicativa. O modelo do autor é bastante conciso, no entanto, ainda não teve suas reais implicações teóricas e descritivas examinadas, como atestado pelo próprio estudioso. Vejamos como Stassen (2009) acredita ter encontrado a forma como as línguas do mundo “escolhem” uma estratégia ou outra para a expressão de posse predicativa. O autor apresenta um gráfico que representa os caminhos que as línguas fazem para a codificação de posse predicativa, partindo dos fatores determinantes considerados por ele como decisivos numa das possíveis configurações de construção possessiva:

Figura 3.3 – Codificação de posse predicativa (Adaptado de Stassen, 2009, p. 723) + LOC Ǝ(PR) & Ǝ(PD) QUEBRA CINDIDO ANTERIOR COM TOP TER + + - - -

No Figura 3.3 acima, a partir da expressão da existência de possuidor (PR) e possuído (PD) em dois predicados, as línguas seguem o caminho do Sequenciamento Temporal para configurar suas estruturas de posse. Sendo assim, as línguas irão optar por “quebrar” (derank) ou não um dos predicados no qual a existência de PR ou PD é expressa. Nesse caso, se a língua “quebra” seus predicados, elas ainda terão que selecionar entre uma “quebra” anterior ou por uma “quebra” posterior, dando origem à possibilidade dos possessivos locacionais ou comitativos, respectivamente. Para o caso das línguas que seguem o caminho de não “quebrar”, no caso, as línguas equilibradas, elas terão que fazer uso de outro fator para a possibilidade de expressão de posse, sem cair em possíveis ambiguidades estruturais. Nesse caso, a Predicação Não Verbal será crucial para isso. Para o caso das línguas equilibradas, algumas irão fazer um uso “cindido” da cópula, nesse caso, diferenciando nelas as cópulas utilizadas para as construções de predicado nominal e construções para locativo/existência. Nesse caso, a preferência será para a expressão de possessivos de tópico, expresso na forma de um existencial, geralmente. Para outras línguas, resta a alternativa de selecionar entre as possibilidades de expressão de posse uma forma não pautada em uma construção com cópula e de locativo/existência. Essas línguas não farão uso de uma estratégia intransitiva para a expressão de posse, mas terão que arregimentar um verbo pleno para a expressão de posse predicativa, geralmente com o sentido de “to take”, “to grasp”, etc. É o caso do inglês e diversas outras línguas que utilizam um verbo equivalente a “to have” e que dificilmente pode ter sua origem em algum esquema de locativo/existência, ou nos termos de Heine, em algum evento de esquema pautado nos domínios de locativo ou existência.

Como o autor afirma, as reais implicações teóricas das suas descobertas tipológicas ainda estão por ser exploradas devidamente.