Na apresentação das zonas K e R da savana ocidental, Sommer (2003) dedica os últimos parágrafos do seu texto à negação nas línguas por ela estudadas, porém não trata da predicação não verbal como também não menciona algumas das estratégias de topicalização ou focalização. Achamos necessário fazer uma apresentação desses temas, mesmo que brevemente, porque serão considerados em nossas discussões posteriores sobre possessivos e domínios relacionados. A partir daqui deixaremos de apresentar as estruturas das línguas bantas em forma de tabela para podermos nos concentrar nos aspectos mais semânticos, e para isso, tomaremos a particularidade de algumas das línguas selecionadas por nós. Um outro motivo para isso é a maior dificuldade de encontrar na bibliografia de línguas bantas um tratamento mais detalhado dos temas a seguir. Apenas nas gramáticas de referência foi possível encontrar alguma seção dedicada à predicação não verbal. E as seções sobre tópico e foco são trabalhadas de forma muito breve ao final de teses e gramáticas.
4.5.1 Cópula e negação
Os verbos utilizados em construções de cópula são geralmente discutidos pelos autores de uma forma não muito sistemática, o que nos impossibilitou de elaborar uma tabela com as principais formas e funções dessas palavras. Além disso, as diferentes estratégias utilizadas pelas línguas bantas para a expressão da predicação não verbal nos forçariam a ter que inter- relacioná-las com os sistemas tonais e aspectuais de cada língua. Como ilustração, vejamos o caso do herero, para o qual uma sentença copulativa é formada sem um morfema de cópula expresso, sendo então um tom alto extra após um tom alto comum que serve para formar uma sentença copulativa (22)b ou um predicado nominal (22)c:
(22) Herero (R31) (Möhlig; Kavari, 2008, p. 237)
Padrão de tom básico sentença copulativa predicado nominal a. omu-âtjé b. mú-âtjé o o mu-néné c. Omu-âtjé mú-néné.
1-criança MLP-1-criança 1-grande 1-criança MLP-grande ‘uma criança’ ‘É uma criança grande’ ‘A criança é grande’
Dessa forma, reservamos algum espaço para mencionar alguns verbos, comumente considerados defectivos ou irregulares, e que são muito comuns nas construções de
predicados não verbais mais discutidos na literatura (Dryer, 2007; Payne, T., 1997), os predicados nominais, adjetivais e locativos/existenciais, e que, portanto, serão úteis para discussões posteriores sobre possessivos.
Os verbos em questão têm geralmente a forma na (para LCZ; OCH; HRR e YEY), ou
ni (para o QMB), poder ser também que tenham a forma li (para YEY; OCH; LCZ) ou ri
(para o HRR), outras vezes a forma kala(QCG; NGL; OCH; UMB), ou kara (para HRR) e
kasi (para UMB). A distribuição e produtividade de cada um desses itens variam
substancialmente de língua para língua, a depender do tempo verbal. Por exemplo, para o presente é utilizada uma forma, enquanto para o futuro e passado outra. Em ganguela, a forma
-li é usada para o presente (23)a, e -kala para o passado (23)b:
(23) Ganguela (K12) (Maniacky, 2003, p. 157) a. nji-li ‘eu sou/estou’
b. njina-kééle ‘eu era/fui’
Para o umbundo, os verbos -kasi e -li são intercambiáveis para o presente, nas formas afirmativas e negativas (24). Os dois verbos juntamente com la expressa posse predicativa:
(24) Umbundo (R11) (Schadeberg, 1991, p. 49) a. vá-li (ng’así) v-ónjó
3pl-COP (1sg.-COP) 18-casa ‘Eles estão (eu estou) na casa’
b. ó-li-pó/-kó/-mó (ká-kasí-po/-kó/-mó) 3ps-COP-16/-17/-18 (NEG-COP-16/-17/-18)
‘Ele está aqui/lá/dentro’ (‘Ele não está aqui/lá/dentro’)
(25) Umbundo (R11) (Schadeberg, 1991, p. 49)
a. ha-vá-lí l’-ólombóngo
NEG-3pl-COP COM-10.dinheiro ‘Eles não têm dinheiro’
b. onjó í-kasí l’-ápítò ávalí 9.casa MS-COP COM-6.porta NUM ‘a casa tem duas portas’
Para o passado, o umbundo usa a forma -kala, como muitas outras línguas bantas.
(26) Umbundo (R11) (Chacusanga, 2006, p. 33)19
Ame ndi-ka-kala 1ps. 1.MS-Fo-COP ‘Eu estarei/serei’
Em yeyi existe uma forma de cópula negativa kha ~ qha, (27)a com o sentido de “não ser/estar”, e -qhu, com sentido “não_ser_com”. Esta ltima pode ser usada em sentenças possessivas negativas (27)b:
(27) Yeyi (R41) (Seidel, 2008, p. 426-7) a. Qha inyama
NEG.COP 9.carne ‘Não é carne’
b. Mu-pundi mu-qhu ma-shita. 1-criança 1.MS-NEG.COP 6-leite ‘A criança não tem leite’
Não nos deteremos muito nas formas negativas, pois, considerando nossos objetivos nesse capítulo e na tese, consideramos suficientes esses exemplos. É válido, ainda, ressaltar a natureza flexional de algumas marcas de negação, o que leva muitos autores a tratar de negação juntamente com o sistema aspectual da língua. Os exemplos (13) e (14), do umbundo e quizombo, respectivamente, demonstram duas das principais estratégias de negação em línguas bantas. A primeira com a marca de negação prefixada ao complexo verbal e a segunda no formato de dupla negação, com os morfemas de negação nas posições pré e pós-verbal.
Por essa rápida explanação sobre cópula e negação, vemos a grande proximidade das estruturas de cópula com possessivos (25) e (27)b. As marcas de negação também exercem papel importante na configuração semântica de definitude, relacionada às construções existenciais, como será discutido no Capítulo 6. Um outro fator importante para a questão de definitude é o foco, para o qual dedicamos algumas palavras.
19 Chacusanga (2006, p. 33) chama o primeiro -ka- de “formativo de gaveta temporal”, que serviria de elo de
4.5.2 Foco e tópico
As categorias discursivas de tópico e foco são frequentemente discutidas na literatura, seja de viés formalista ou funcionalista, como relacionadas a diversos fatores semânticos ou pragmáticos, como também a informação velha e nova (Payne, T., 1997). Para os estudos das línguas bantas, a temática é ainda um campo a ser explorado de forma mais aprofundada, conforme atesta o trabalho de Zerbian (2006).
Para nosso trabalho, muitas vezes precisaremos mencionar os fatores relacionados a foco, principalmente nas discussões referentes ao efeito de definitude, o que justifica que dediquemos algumas palavras à temática. Da bibliografia de línguas angolanas, utilizada para a produção de nosso corpus escrito, poucos autores dedicaram alguma seção aos processos de topicalização e focalização nas suas línguas de estudo (Ndonga, 1995; Pedro, 1993; Möhlig; Kavari, 2008). Para o quissicongo, Ndonga atesta pelo menos três mecanismos de focalização na língua: (i) a anteposição do termo a ser focalizado; (ii) o uso de itens focalizadores (kìkìlù e
yì); e (iii) a omissão do pré-prefixo. Desses mecanismos, o último é o que irá requerer alguma
atenção quando tratarmos das construções existenciais e o efeito de definitude em línguas bantas. Um exemplo do quissicongo para o último caso seria:
(28) Quissicongo (H16) (Ndonga, 1995, p. 436) a. ò-mwàn(à) ò-léèlè
PPF-1.criança MS-dormir.PERF ‘A criança dorme.’
b. mwàn(à) ó-lèèlè
1.criança MS-dormir.PERF
‘É a criança que dorme.’ (‘uma criança dorme.’)
Apesar de nosso interesse recair principalmente sobre foco, mencionamos também a categoria tópico porque os casos de topicalização não raramente estão entrelaçados com os processos de focalização, como se pode observar em quimbundo:
(29) Quimbundo (H21) (Pedro, 1993, p. 338) a. mùlòjì w-á-fù
bruxo MS- PERF-morrer ‘O bruxo morreu.’
b. ò-mùlò:jí w-á-fú mwènè PPF-bruxo MS-PERF-morrer FOC ‘Quanto ao bruxo, ele morreu mesmo.’
Para nosso estudo, então, nos concentraremos nos casos em que os processos de focalização tiverem algo a ver com existenciais e definitude.