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Os trabalhos de Heine (1997) e Stassen (2009) compartilham de uma perspectiva tipológica. Entretanto, Stassen diferencia seu trabalho do de Heine por considerar que este autor faz uso de um viés teórico para construir sua tipologia. No caso, um viés cognitivo/semântico (Stassen, 2009, p. 39), alguns pressupostos da linguística cognitiva e do arcabouço da gramaticalização. Uma diferença básica entre os dois trabalhos é que Heine não acredita haver uma construção comum que reúna todas as construções de posse predicativa nas línguas do mundo, enquanto Stassen acredita ter identificado os processos básicos para a

possibilidade de expressão de posse nas diferentes línguas, tipologicamente distantes, a partir de uma “estrutura profunda” similar (termo emprestado pelo autor do gerativismo). A posição de Heine se sustenta pela sua convicção teórica de que os processos de gramaticalização que dão origem às formas possessivas nas línguas são unidirecionais, portanto, os oito diferentes Esquemas de Evento propostos por ele dificilmente teriam uma mesma origem histórica no desenvolvimento das construções de posse predicativa.

Os dois autores concordam, no entanto, com a existência de pelo menos quatro formas tipologicamente atestadas na expressão de posse predicativa nas línguas do mundo, quais sejam: (i) línguas que fazem uso de locativos para expressar posse, a partir daqui possessivos locacionais (locational possessive), (ii) línguas que fazem uso do comitativos, possessivos comitativos: (with-possessive), (iii) aquelas que fazem uso de construções de tópico, possessivos de tópico (topic possessive). (estes relacionados ao domínio de existenciais, e (iv) as que fazem uso de uma forma gramaticalizada de verbo equivalente a “to have” do inglês, os possessivos do tipo “ter” ou Ter-posessivos (have-possessive).12

Os dois trabalhos tipológicos mostram que a grande parte das línguas bantas utiliza como estratégia principal para a expressão de posse predicativa construções com valor de Comitativo, na tipologia de Stassen, uma “WITH-construction”, nos termos de Heine o “Esquema de Companhia”, bem exemplificada na fórmula: X is with Y (X está com Y).

Em síntese, as duas propostas tipológicas resenhadas acima podem ser contrastadas com o último parágrafo do trabalho de Stassen:

Estou ciente de que o argumento que levou à formulação desse gráfico em forma de fluxograma é forte e mais convincente em algumas partes do que em outras. No entanto, sinto que há ampla evidência para assegurar que a variação translinguística na codificação de posse predicativa não é aleatória, e que é restrita por fatores que tem a ver com propriedades estruturais da linguagem humana. No fim do seu livro sobre possessivos, Heine (1997, p. 239) afirma como sua conclusão que ‘qualquer tentativa de estabelecer uma estrutura universal única para posse predicativa, de forma que dê conta de toda a variação morfossintática encontrada nas línguas do mundo, está condenada ao fracaso’. O presente trabalho pode ser visto como um argumento a favor de que a posição da afirmação de Heine deve ter sido apenas muito pessimista. (Stassen, 2009, p. 724)13

12 Os dois trabalhos fazem menção ao português brasileiro como língua que faz uso, nos termos de Heine, do

Action Schema e Companion Schema, nos termos de Stassen, de uma Have-construction e de uma With- construction, respectivamente, as construções com ter e estar com para a expressão de posse predicativa.

Conferir Stolz (2001) e Stolz et al (2008) para um tratamento dessa questão.

13

“I am aware that the argumentation which has led to the formulation of this flow chart is stronger and more convincing in some parts than in others. Nonetheless, I feel that there is ample evidence to hold that the crosslinguistic variation in the encoding of predicative possession is not random, and that it is restricted by factors that have to do with structural properties of human language. At the end of his book on possession, Heine (1997: 239) states as his conclusion that ‘any attempt at setting up one single universal structure of predicative possession, to account for all the morphosyntactic variation to be found in the languages of the world, is doomed

Mesmo se posicionando contra a “Hipótese Localista” que também toma a posição de ter encontrado a estrutura universal para a expressão de posse predicativa nas línguas do mundo, qual seja, a de locativo, Stassen afirma ter chegado a “Universais da Codificação de Posse Predicativa” na elaboração da sua tipologia. Para Heine, a variação na codificação de posse predicativa nas línguas do mundo é explicada da melhor forma a partir dos processos de gramaticalização que podem ser utilizados como “pistas” de como as diversas construções de posse surgem nas línguas.

3.5.1 Para uma tipologia de posse predicativa em línguas faladas e sinalizadas

Seria oportuno mencionar um aspecto dos estudos sobre possessivos a que tivemos acesso, mas que devido à abrangência do tópico não nos será possível dedicar mais do que alguns parágrafos, o dos estudos sobre possessivos e outros domínios em línguas sinalizadas (Zeshan; Perniss, 2008; Quadros; Vasconcelos, 2008; Hendriks, 2008; Cormier; Fenlon, 2009;

inter alia). O conjunto desses trabalhos pode permitir uma comparação tipológica entre as

modalidades falada e sinalizada de línguas para a expressão de possessivos, da mesma forma que já foi feito quanto à expressão do espaço (Talmy, 2006). Até o momento tem sido uma pequena, mas importante lacuna nos estudos tipológicos sobre posse predicativa não atentar para a modalidade das línguas sinalizadas, conforme crítica de Zeshan e Perniss (2008).

Poderá ser uma área de estudo instigante verificar se as discussões sobre possessivos, até então concentrada em línguas orais, se aplicam para línguas sinalizadas, e se não, quais seriam as diferenças. Tendo tal empreendimento em mente, acreditamos que será de inestimável contribuição o conhecimento sobre línguas sinalizadas da África, campo ainda incipiente até mesmo nos estudos em Linguística Africana. Do corpus utilizado em Zeshan e Perniss (2008), apenas uma língua de sinais africana mereceu atenção: a língua de sinais de Adamorobe, do Gana. A língua de sinais da Tanzânia foi utilizada na pesquisa, mas não recebeu um capítulo naquela publicação.

Queríamos deixar registrado nessa pequena seção, a contribuição que um estudo nesse sentido, focalizando as modalisdades faladas e sinalizadas, para uma tipologia de posse predicativa transmodalidade, lacuna compreensível em Heine (1997) e Stassen (2009), mas que não poderá fazer falta em um próximo trabalho de fôlego sobre o tópico.

to failure’. The present book can be seen as an argument in favour of the position that Heine’s assessment of the situation may just be too pessimistic.”