Os trabalhos resenhados neste capítulo mostram as tentativas de estudiosos de diferentes posicionamentos teóricos e metodológicos de lidar com as relações entre as construções possessivas, locativas e existenciais, enquanto outros focalizaram mais o papel do comitativas. Desde os primeiros trabalhos iniciados nas décadas de 1960 a 1970, as tentativas foram de buscar um denominador comum entre todas as construções que apresentavam similaridades significativas. Fazemos agora uma apreciação do conjunto dos trabalhos apresentados nas seções anteriores, buscando organizar os resultados de cada abordagem de acordo com uma postura epistemológica pluralista (Feyerabend, 2007) e que será tema do Capítulo 5.
4.5.1 Gramaticalização, incorporação e construções de pontos de referência
Dentre as quatro principais estratégias de posse predicativa nas línguas do mundo, três fazem uso de construções intransitivas e uma possui uma configuração transitiva. Do exame da literatura sobre a tipologia das construções possessivas e das relações dessas com locativos e existenciais, verificamos que pelo menos três abordagens teóricas se destacam sobremaneira
12 “If the affinity between possessive and locative/existential constructions does not reside in a common
diachronic origin, nor in a common underlying structure, to what can we attribute it? The answer should already be apparent from the foregoing discussion and analyses: possessives and locatives share an abstract conceptual characterization based on the reference point ability. (...) This abstract commonality is the link permitting locative constructions to be used for possession, and conversely.”
à questão, os estudos sobre gramaticalização, representados por Heine (1997), os da linha gerativista, representado por Freeze (1992), e o arcabouço cognitivista, na figura de Langacker (2003). A abordagem de gramaticalização é capitaneada por Heine (1997) e como foi assunto de outro capítulo, não nos deteremos em pormenores aqui. É necessário, no entanto, recapitular os alcances e limites dessa abordagem. Iniciamos com as observações de Evans e Green (2007, p. 714) que denominam a abordagem de Heine como uma “Abordagem de Extensão Metafórica” (Metaphorical Extension Approaches). Nessa abordagem o processo de gramaticalização é entendido como uma extensão metafórica, um mapeamento de conceitos esquemáticos e imagéticos de formas menos concretas para formas mais abstratas, indo de conceitos-fonte básicos (basic source concepts) para conceitos-alvo (target concepts) mais abstratos. Nesse sentido, o construto de Esquemas de Evento se adéqua bem aos pressupostos da gramaticalização, respeitando o princípio da unidirecionalidade advogado pelo autor. Nessa perspectiva, o domínio de possessivos só comprova ser bastante abstrato, mas não deixa de ter uma origem e uma base corporificada (embodiment) que ao mesmo tempo une os conceitos-fonte.
A abordagem de Heine tem sido bastante influente, pelo menos nos trabalhos funcionalistas e cognitivistas (Baron; Herslund; Sorensen, 2001) e tipológicos voltados para o estudo de línguas sinalizadas (Zeshan; Perniss, 2008). No entanto, a proposta do arcabouço teórico da gramaticalização encara algumas limitações conceituais. Um ponto a ser mencionado é a já clássica hierarquia dos domínios conceituais que servem de fonte para o caminho de gramaticalização encontrada em Heine, Claudi e Hünnemeyer (1991, p. 48). Essa mesma hierarquia é diagramada de forma diferente por Evans e Green (2006, p. 715), reproduzida abaixo:
Figura 4.3 – Hierarquia de domínios-fonte (Evans; Green, 2006, p. 715)
Não discutiremos os pormenores da hierarquia proposta pelos autores, mas chamamos a atenção para a observação feita por Evans e Green (2006, p. 715) sobre a dificuldade de localizar na hierarquia de Heine e associados o próprio domínio de POSSE, que para estes autores deveria ficar à direita de ESPAÇO. Com isso, Heine (1997) em seu trabalho tipológico recorre ao construto de Esquemas de Evento, como forma de indicar a não centralidade de um único domínio-fonte. Os Esquemas de Evento têm em comum apenas o caráter mais “concreto” em relação ao de possessivos. Outra observação a ser guardada é a preocupação diacrônica dos trabalhos na linha dos pressupostos da gramaticalização.
Com o uso de um aparato formalista, Freeze (1992) oferece uma proposta simples, mas teoricamente dependente para a complexidade das construções em questão. Talvez o principal problema da abordagem formalista de Freeze seja sua tentativa de generalização tipológica a partir de uma operação sintática, a incorporação, para todos os casos de construções de posse predicativa. Os exemplos das línguas da amostra selecionada por ele têm um sério enviesamento, grande parte das línguas do seu estudo faz uso basicamente da estratégia locativa, ou seja, são línguas de possessivos locacionais, outras de possessivos
QUALIDADE TEMPO ESPAÇO PROCESSO OBJETO PESSOA
existenciais ou de tópico, na terminologia de Stassen (2009), como demonstrado com os exemplos do russo, hindi, tagalog, etc. A solução encontrada pelas abordagens formalistas para manter o Paradigma Localista, para a qual todas as construções possessivas são na verdade locativas em uma estrutura profunda, acabam por tornar a operação que faz o “casamento” conceitual entre locativos, existenciais e possessivas como o principal ponto de discordância entre os estudiosos. Nesse caso, a operação de incorporação, da forma como proposta inicialmente por Freeze (1992), tem levantado diversos questionamentos sobre até que ponto essa operação pode dar conta de todas as construções possessivas nas línguas do mundo e não só para as línguas de possessivos locacionais.
Olhando sob outro ângulo, o Paradigma Localista gerativista parece cair em uma tautologia: partir da constatação que existenciais são relacionados a locativos, e que da mesma forma possessivos são relacionados a locativos, e para esta última constatação ter que recorrer a processos sintáticos como o de incorporação de P=>COP acaba por ensejar o contrário do que deveria ser. Da observação de que línguas de possessivos locacionais podem passar por processos de incorporação, como descrito originalmente por Baker (1988), o processo de incorporação, entendido apenas como movimento de núcleos, faz com que a incorporação seja usada como a única e suficiente justificativa que demonstraria a união conceitual entre possessivos com existenciais e locativos. Resulta disso o fato de tornar a relação entre os domínios conceituais muito dependente de uma operação sintática sem uma base empírica condizente com todos os fenômenos observados nas línguas do mundo, isso para uma proposta que se quer suficientemente geral para ser aplicada a todos os possíveis casos. É, porém, necessário apontar que o processo de incorporação, como proposto por Baker (1988) realmente acontece em algumas línguas. Tal evidência é pautada no fenômeno descrito por Stassen (2009) e chamado por ele de transitivização. Em rápidas palavras, Stassen demonstra que as línguas que utilizam construções intransitivas para possessivos, as de possessivos locacionais, de possessivos de tópico e de possessivos comitatvos, podem vir a criar um verbo com propriedades transitivas, fazendo com que o possuidor nessas línguas ganhe atributo de sujeito, enquanto o possuído ganha traços de um objeto direto, como em uma construção transitiva prototípica. Desses três caminhos de transitivização, interessa por agora o que ocorre para línguas de possessivos locacionais, para as quais Stassen (2009) descreve a possibilidade de categorias funcionais incorporarem na cópula produzindo verbos do tipo “ter”, o que é condizente com o que Freeze (1992) postula para seu Paradigma Localista. Não deixa de ser interessante a forma como Stassen descreve a particularidade da transitivização em línguas de possessivos locacionais:
Portanto, no curso de uma mudança de um possessivo de tópico-locacional para um Ter-possessivo, o sintagma locacional pronominal é incorporado em um verbo do tipo ser. O resultado final é uma combinação da marca de locativo e o verbo do tipo
ser existencial que é reanalisado como um item verbal monomorfêmico. Esse item
toma um estatuto transitivo, tomando o possuidor como seu sujeito e o possuído como seu objeto. Em outras palavras, línguas que passaram por esse caminho de gramaticalização até sua conclusão criaram um novo verbo do tipo ter. (Stassen, 2009, p. 232) (Grifo nosso)13
A semelhança do processo de transitivização descrito por Stassen acima para as línguas de possessivos locacionais é sem dúvida bastante similar ao da análise unitarista de Freeze (1992), guardadas as devidas particularidades. O que os achados tipológicos de Stassen podem indicar é que o Paradigma Localista desenvolvido por Freeze (1992) pode ter sido apenas um pequeno erro de generalização. Tomar como parâmetro os casos de transitivização de línguas de Possessivos Locacionais para todos os demais tipos de possessivos, tanto possessivos comitativos como os de tópico, é desconsiderar as particularidades conceituais e estruturais que as línguas empregam para a expressão de uma mesma relação, mesmo que por meio de domínios conceituais distintos. Pelas evidências apontadas por Stassen (2009), línguas de possessivos locacionais podem, sim, criar um novo verbo do tipo “ter”, o problema com esse fenômeno é o de aplicar para outros processos de criação de verbos do tipo “ter”, uma mesma operação abstrata de incorporação de P=>COP. Um ponto crucial a ser discutido com essas últimas observações é de que, dentro de todas as possibilidades, a Hipótese Localista não se mantém caso o domínio do comitativo, exemplificado com as línguas bantas, seja considerado.
Seria interessante traçar uma história do processo de incorporação em teorias linguísticas, desde a sua primeira aplicação por Baker (1988), inicialmente utilizando-a como uma ferramenta para explicar vários fenômenos sintáticos, como causativos, até sua aplicação às construções possessivas com Freeze (1992) e seus desenvolvimentos posteriores e debates. As línguas bantas tiveram um papel importante para a proposta de incorporação de preposição de Baker, mas depois da aplicação para possessivos de Freeze (1992) o termo incorporação passou a ser entendido apenas como um processo sintático, de movimento de núcleos, para o
13“Thus, in the course of the shift from a Topic-Locational Possessive to a Have-Possessive, the pronominal
locational phrase gets incorporated into the be-verb. A final result is that the combination of the locational marker and the existential be-verb is reanalyzed as a monomorphemic verbal item. This item then gets transitive status, taking the possessor as its subject and the possessee as its object. In other words, languages which have run this grammaticalization path to its conclusion have created a new have-verb.”
qual qualquer contraevidência é deixada às margens.14 É possível que nas línguas bantas o
processo de incorporação funcione de forma diferente de línguas de possessivos locacionais e existenciais, ou até mesmo nem seja tão necessário,como deve ser o caso também para as línguas que possuem uma estratégia transitiva para a expressão de posse predicativa. Neste caso, um processo de incorporação de P=>COP para dar como resultado um spell-out “have” ou “ter”; para o caso do português, torna-se um pouco mais complicado se adotado como uma operação válida para todas as línguas, independente das suas preferências tipológicas.15
A abordagem da Gramática Cognitiva de Langacker (2008) busca também em um único construto teórico a ligação entre as diferentes instanciações das construções possessivas. Suas conclusões são as que tomam um posicionamento mais abstrato, pautada grandemente nas relações de pontos de referência (a partir daqui nos referiremos à aplicação de Langacker como Análise do Ponto de Referência, para a diferenciarmos dos mais diferentes tipos de relações de pontos de referências estudados nas ciências cognitivas). Frente à proposta cognitivista de Langacker, seria uma boa pedida uma análise empírica mais fundamentada, considerando os diferentes processos cognitivos de construal, empregados na Gramática Cognitiva. Poderia ser que, de certa forma, achados empíricos como os de Stolz e associados possam aprimorar a análise conceitualista conduzida por Langacker. Como vimos, em Stolz, Stroh e Urdze (2006) o comitativo é parte central do estudo, no entanto, a preocupação dos autores é a de sistematizar os diversos sincretismos encontrados nas línguas, deixando o cerne da questão do porquê esses sincretismos ocorrerem para autores mais (pre)ocupados com essas questões de conceitualização, que seriam então os cognitivistas mais alinhados à linha de anáise de Langacker e Talmy. Para esse caso, os linguistas cognitivistas teriam mais a ganhar se tomassem os resultados de trabalhos tipológicos mais seriamente, fazendo jus ao título de Gramática Cognitiva como teoria baseada no uso.
Boa parte de todas essas considerações delineadas aqui tem como propósito mais específico chamar a atenção dos estudiosos para a importância de uma das estratégias utilizadas pelas línguas para a expressão de possessivos, o domínio conceitual do comitativo.
14 Indicamos o trabalho de Li (2005, p. 45) para uma crítica à proposta de incorporação de preposição de Baker
(1988).
15 Os trabalhos resenhados nas seções anteriores, de Blaszczak (2009), Levinson (2011) e Jung (2011) são bons
exemplos do debate sobre a necessidade ou não da operação de incorporação para o caso de línguas que utilizam cópula ou construções intransitivas para possessivos.
4.6 Um lugar para o comitativo: casando as tipologias com os debates sobre