Conforme a lição de Jacques Le Goff (2003), a palavra história tem sua origem no grego antigo historie, em dialeto jônico. Essa forma deriva da raiz indo-européia
wid-, weid , ver. O sânscrito vettas significa “aquele que vê”. Do sentido “ver” passa a ser fonte do saber, daí se conclui que histor é aquele que vê e aquele que sabe, pois
A História surgiu como um relato, uma narração do visto, pelas mãos de Heródoto, considerado o pai da História. A História se constituía em uma narração, verdadeira ou falsa, com base na realidade histórica ou imaginada. Posteriormente, passa a ser entendida como explicação e interpretação do fato histórico. Atualmente, a questão da cientificidade é que desperta a atenção de historiadores, gerando polêmicas.
Paul Veyne (1998) nega a existência da História como ciência, já que essa condição obriga a uma explicação total, o que não ocorre porque, segundo ele, ela não tem método nem explica os fenômenos. Dessa forma, não existindo a História, o que se conhece é a história particular, recortada por uma dada perspectiva. Para ele, os historiadores são meros narradores de fatos reais e o homem é o ator. A História é considerada um romance real, já que, como a narrativa de eventos significativos, seleciona, simplifica e organiza de maneira completa e direta por meio de documentos, testemunhos, indícios.
O campo da História é vasto e indeterminado, mas, ao mesmo tempo, tudo o que o engloba tem de ter acontecido, o que permite ao historiador colocar a história em compartimentos, tais como: história política, etnológica, sociológica, natural entre outras. Também é importante o caráter subjetivo da história, que se manifesta na escolha do fato a ser explicado pelo historiador, pois implica preferência e seleção, perdendo seu caráter científico. Além desse aspecto, há outro que é a presença do historiador na explicação do fato, o que permite outros pontos de vista, transformando a explicação histórica em múltiplas e questionando-a como verdade absoluta.
Os eventos não são fatos isolados, pois se relacionam a outros fatos, cabendo ao historiador reencontrar essa organização, essas ligações objetivas que o fato tem com outros, possibilitando a trama. O fato não é a totalidade, mas um núcleo de relações que determinam o caráter subjetivo da história. É o que apresenta a assertiva de Paul Veyne (1998.:42):
Os fatos não existem isoladamente, no sentido de que o tecido da história é o que chamaremos de uma trama, de uma mistura muito humana e muito pouco científica de causas materiais, de fins e de acasos; de uma fatia que o historiador segundo sua conveniência, em que os fatos têm seus laços objetivos e sua importância relativa...
Em síntese, a História é uma atividade cultural, intelectual, uma criação humana, um gênero de escrita em que, por meio da inteligência, se organizam osdados de um determinado tempo, explicando-os de acordo com a trama escolhida, tornando-os compreensíveis ao leitor, função desempenhada pelo historiador.
P. Veyne esclarece que entre a explicação histórica e a explicação científica existe um abismo, pois o ato de explicar em história é um ato sublunar em que reinam, lado a lado, liberdade, acaso, causas e fins, em oposição ao mundo da ciência que se pauta em leis. As explicações históricas tornam-se incompletas, porque são muitas as tramas possíveis de um fato, tais como: o acaso (causas superficiais), causas e condições (dados objetivos) e liberdade e deliberação (causas finais). A História é casual, nesse sentido de descrever o que passa, de explicar como as coisas acontecem, já que tudo é histórico, mas existem somente histórias parciais. A história, portanto, não é uma ciência.
Michel de Certeau (2000) admite o caráter científico da História, por tratar-se de uma disciplina com objeto e metodologia próprios. A História é uma prática, uma disciplina, o seu resultado é o discurso ou a relação de ambos, disciplina e discurso, que juntos constituem a produção. O próprio termo história conota, ao mesmo tempo, a ciência e seu objeto, ou seja, a explicação que se diz e a realidade do fato que passou ou se passa. Ele insinua a união entre a operação científica e a realidade analisada.
Com base em práticas e no discurso historiográfico, o autor salienta que a ideologia é inerente à própria história; há uma historicidade da história, que propicia um movimento, ligando a prática interpretativa a uma prática social; sobrevive entre dois pólos: o da prática, que consiste na realidade e o outro do discurso fechado, que se materializa no texto; é um mito, à medida que combina o pensável e a origem, no processo de compreensão da sociedade.
A História das Idéias foi uma resposta à fragmentação das disciplinas, pois é necessário compreender a unidade e os princípios organizadores da obra, pois não se explica uma obra em termos de influências, de exaustão de um corpus, devolvendo-o às origens, que ocasionam um recuo por meio de fragmentos e gera o desaparecimento das totalidades, das delimitações, das rupturas que compõem a História. Eliminou-se a ideologia no objeto de estudo, devido aos métodos de pesquisa, mas se reintroduziu em forma de pressupostos dos modelos, implícita nos sistemas de interpretação.
O historiador de hoje não detém o sentido como objeto de seu trabalho, mas o encontra no modo de sua atividade, pois o que desaparece no produto, aparece na produção. Esse deslocamento do sentido em termos de escolhas históricas investidas no processo científico substituiu o fazer historiográfico pelo dado histórico, transformando a pesquisa de produto de uma realidade observada para análise das opções ou das organizações de sentido implicadas por operações interpretativas.
A História não renuncia à realidade dos fatos, mas há uma mudança em sua relação com o real. O sentido deixa de ser entendido como um conhecimento particular, extraído do real, pois o fato histórico resulta de uma práxis. Leva em consideração o
fazer e encontra as suas raízes na ação que faz história. Se existe uma função histórica que possibilita a confrontação do passado com o presente, entre o que organiza a vida ou o pensamento e aquilo que permite pensá-los, existe, também, uma série indefinida de sentidos históricos.
Na historiografia, o real sofre uma dicotomia; há o real que é conhecido, ou seja, o que o historiador compreende e organiza da história passada e o real implicado pela operação científica, com a sociedade descrita pelo historiador com seus procedimentos, métodos e a prática do sentido. No primeiro caso, o real constitui-se em resultado de análise e, no segundo, é o seu postulado. São duas formas de realidade que não se excluem, mas se relacionam, pois a ciência histórica existe graças a essa relação.
A supremacia de uma dessas duas formas do real determina dois tipos de história: um que se interroga sobre o que é pensável e sobre as condições de compreensão e outro que objetiva encontrar o vivido, revivido no conhecimento do passado. Ao operar um inventário, o historiador precisa elaborar modelos que permitam reconstruir e compreender o documento, ou seja, modelos econômicos, culturais entre outros, o que possibilita levantar hipóteses metodológicas sobre seu trabalho apoiado em um intercâmbio interdisciplinar, em princípios de inteligibilidade suscetíveis de instaurar pertinências e produzir fatos sempre coerentes com a teoria que norteia a pesquisa.
Ao ressuscitar um passado,o historiador traz à luz um fato esquecido ao mesmo tempo em que reencontra o homem por meio das marcas que ele deixou. O corte feito em qualquer ciência propicia um limite original que delimita a tarefa de fazer história. O passado retorna na prática historiográfica. Essa delimitação, necessária e denegada, caracteriza a História como ciência humana; portanto, o limite torna-se instrumento e
objeto de pesquisa, ou seja, instrumento de seu trabalho e o lugar em que se aplica a metodologia.
Existe, em cada história, um processo de significação que objetiva preencher o sentido de História; o historiador deixa de ser um mero compilador de fatos, passando a enfatizar o significante. Nessa perspectiva, a operação histórica refere-se à combinação de um lugar social, com as práticas científicas e de uma escrita, o que modifica a noção de fato histórico como objeto dado e acabado, pois o fato histórico resulta da construção do historiador.
Já J. Le Goff (2003) expõe que a história, como ciência, se consolida por meio de documentos escritos, propiciados pela fundação de bibliotecas e de arquivos que preservem os materiais de estudo da história e permitam a elaboração de métodos de crítica científica, conferindo-lhe um caráter erudito. O documento deixa de ser visto como um material bruto, objetivo e inocente, para ser visto como o poder da sociedade do passado sobre a memória e o futuro do documento; é, pois, monumento, que deve ser desestruturado e desmontado. Cabe ao historiador avaliar a credibilidade do documento. Hoje, consideram-se documentos, além dos textos e dos produtos da arqueologia, os gestos, as palavras que se constituem em arquivos orais, que são coletados, chamados de etnotextos.
A tomada de consciência da construção do fato histórico, da não inocência do documento, demonstra a possibilidade de manipulação em todos os níveis do saber histórico, o que levanta o problema da objetividade do historiador, restando a ele questionar a documentação histórica, de acordo com os documentos ou da ausência de documentos, sempre em posição crítica. A História tem que ser entendida como uma prática social, pois toda história é história social. A noção de fato histórico tem tomado várias feições: há história política, história econômica e social, história cultural e das representações, que caminham juntas em um mesmo tempo; enfim, a própria ciência histórica coloca-se em uma perspectiva histórica com o desenvolvimento da historiografia ou história da história.
Outro aspecto a destacar é o cronológico, que possui um papel essencial como fio condutor e ciência auxiliar da história. Instrumentaliza-se em calendário, que ultrapassa a barreira histórica, pois é o quadro temporal do funcionamento da sociedade, representando o esforço das sociedades humanas em domesticar o tempo.
J. Le Goff ( 2003: 12-13) afirma:
O calendário é produto e expressão da história: está ligado às origens míticas e religiosas da humanidade (festas), aos progressos tecnológicos e científicos (medida de tempo), à evolução econômica, social e cultural (tempo de trabalho e tempo de lazer). Ele manifesta o esforço das sociedades humanas para transformar o tempo cíclico da natureza e dos mitos, do eterno retorno, num tempo linear escandido por grupos de anos: lustro, olimpíadas, século, eras etc..
O calendário permite que a história se conecte a dois progressos essenciais: a definição de pontos de partida cronológicos e a busca de uma periodização, que a criação de unidades iguais, mensuráveis, de tempo: dia de vinte quatro horas, séculos e outros; hoje, acrescido pela noção de duração, de tempo vivido, de tempos múltiplos e relativos, tempos subjetivos ou simbólicos, até encontrar o tempo da memória, que atravessa e alimenta a História. A periodização é indispensável a qualquer forma de compreensão histórica. É um processo empírico delineado pelo historiador. Não há história estática, o que não significa que é só mudança, mas é o estudo das mudanças significativas, tendo como seu principal instrumento de inteligibilidade a periodização.
A História é uma ciência do passado, agrupa, classifica e organiza fatos do passado em função do presente, pois é essa a sua função social. A historiografia surge como uma seqüência de novas leituras do passado e marcada por perdas e ressurreições, falhas de memória e revisões. A relação entre o passado e o presente constitui o objeto de reflexão do historiador, pois o passado é um aspecto ou uma função do presente. A língua, por ser um produto histórico-social, articula-se com as duas áreas de conhecimento: a Lingüística e a História e, por seu caráter interdisciplinar, alia-se a outras ciências, proporcionando o surgimento da Historiografia Lingüística.