2. THE HUAWEI CASE
2.2 U.S. GOVERNMENT ’ S PUNITIVE MEASURES AGAINST H UAWEI
A história do prédio, hoje ocupado pelo Museu, merece um capítulo a parte. Repleto de significados a grande estação ferroviária transformada em Museu, é mais que um símbolo para a cidade. Tornou-se um marco urbano com grande destaque na fisionomia urbana londrinense. Mesmo não sendo tombado pela Coordenadoria do Patrimônio Histórico e Artístico da Secretaria de Estado da Cultura e Esporte, o prédio está cada vez mais consolidado como edifício remanescente da história da colonização do norte do Paraná e da formação da cidade de Londrina, transformando-o em monumento citadino
Apesar de vários pedidos feitos pela comunidade, para que o prédio da estação ferroviária fosse tombado pelo governo estadual, o único processo elaborado para tal empreitada foi arquivado por tratar-se, o prédio, de uma construção de arquitetura eclética, o que, no período de análise, depreciava segundo a comissão que analisou o processo, o valor do mesmo para um possível tombamento.
Excetuando-se aqueles que utilizaram o prédio ainda como estação ferroviária, para a grande maioria da população, especialmente após a transferência da sede do museu histórico para este prédio, em 1986, é quase impossível dissociar a imagem do prédio do próprio Museu. É como se o prédio da estação tivesse sido construído para ser sede de Museu. Mas como bem analisou Paula (2010, p. 15), o Museu apenas ocupa o prédio que um dia foi uma estação ferroviária. A mudança de função foi possível por conta da construção da variante ferroviária, desdobramento direto do crescimento da cidade.
Transformar uma estação ferroviária, desativada, em Museu Histórico ou de Arte não é privilégio da cidade de Londrina. No mundo e no Brasil são inúmeros os exemplos dessas resignificações e reutilizações de prédios que, reformados ou revitalizados, são remodelados
para visando atender outras funções. Em Paris, a antiga estação Orsay se transformou em Museu de referência ao século XIX; No Brasil podemos citar o Museu de Artes e Ofícios, de Belo Horizonte; Em Curitiba, o Museu Ferroviário está dentro de um Shopping, instalado em uma antiga estação ferroviária; Em São Paulo destaca-se o Museu da Língua Portuguesa, ocupando partes das dependências da estação ferroviária da Luz, ainda em funcionamento.
Figura 27 - A primeira estação ferroviária de Londrina173
Inaugurado em 1950, o prédio da estação ferroviária, de estilo eclético, não foi a primeira estação que Londrina teve. Antes dessa, uma menor mais modesta, serviu como porta de entrada da cidade para todos aqueles, futuros compradores de terras, trabalhadores, fazendeiros e empresários que ali desembarcavam com a esperança de fazer a vida no
eldorado do norte do Paraná.
A primeira estação foi construída em 1935. Pela imagem (figura 27) podemos observar que ela não passava de uma pequena estrutura com uma plataforma. A cidade apenas
começava a ocupar espaços da mata fechada. Com destaque na imagem às primeiras casas da cidade.
Na segunda imagem (figura 28) pode-se perceber a festa e o significado, para a população local, da chegada do primeiro trem à cidade. Destacam-se, tanto no trem quanto na estação, as bandeiras da Grã-Bretanha, comunidade de origem da CTNP.
173
Com o crescimento acelerado da cidade, o aumento do número de passageiros e da produção cafeeira, a pequena estação começou a ter sua capacidade de atendimento comprometida.
Figura 28 - Chegada do primeiro trem a Estação de Londrina.174
Em 1944, após a Companhia Ferroviária São Paulo-Paraná ter sido vendida à Rede Ferroviária Federal e consequentemente ter sido incorporada à Rede de Viação Paraná-Santa Catarina, iniciaram os planos para a construção de uma nova Estação com uma estrutura que comportasse a importância econômica da região. Londrina, por ter sido, por muitos anos, sede da CTNP, centralizava os negócios do café e demais produtos comercializados na região.
A justificativa para o orçamento da nova estação, datada de 11 de agosto de 1945, confirmava a grandiosidade do projeto:
A atual estação de Londrina é insuficiente ao movimento de mercadorias e passageiros naquela localidade. Por esse motivo e diante do crescente desenvolvimento daquele próspero município do Norte do Estado, foi organizado o presente projeto e orçamento de uma nova e ampla estação em alvenaria, com todas as instalações necessárias ao tráfego, tais como agência e dependências e serviço comercial. Os escritórios da residência da Via Permanente, serão ali instalados. O projeto prevê as melhores acomodações aos serviços da Rede e conforto público.175
174 37 Anos: A Velha Jovem Londrina. Novo Jornal, Londrina, p.3, 12 a 19/12/1971. Imagem da Foto Galante
autor; José Juliani,1935.
175
A nova estação teria que ser construída no mesmo local da primeira e deveria estar situada à esquerda da linha. As dimensões previstas foram: 99,44 x 13,50 m de edifício sendo que a plataforma ocuparia um espaço de 109,64 x 6,00 m. O prédio seria de dois pavimentos, sendo que no andar inferior seriam alojados “os escritórios da agência, bagagem, encomendas, escritórios de notas, serviço rodoviário, composição de trens, depósito de materiais, bar e café, instalações sanitárias e sala de espera”.176
O piso superior seria ocupado pelos escritórios
da residência da via permanente, instalações sanitárias e serviços de rádio e telégrafo.
A concorrência para a construção da futura estação foi vencida, em 1945, pela Construtora curitibana Thá Filhos Ltda. O projeto arquitetônico foi coordenado por Durival de Brito e Silva e contou com a participação de técnicos e engenheiros como Laércio Forbeck, Lineu Ferreira do Amaral e Euro Brandão. Na época Euro Brandão, engenheiro recém formado pela Universidade Federal do Paraná, trabalhava na Viação Paraná-Santa Catarina, foi um dos encarregados pela construção do prédio.
Por muitos anos discutiu-se qual teria sido o prédio que teria inspirado o desenho da estação londrinense. Para muitos, especialmente aquelas pessoas defensoras de que Londrina é fruto de uma colonização, não só financeira, mas também cultural, da Inglaterra, tentando, dessa forma, forçar e inventar uma tradição, era relevante insistir na ideia de que o projetista teve como modelo a Estação Vitória, de Londres.
Porém outra versão apontou para uma inspiração paranaense. Segundo Euro Brandão, em entrevista para a jornalista da Universidade, Lia Mendonça, o projetista teria usado como modelo uma residência existente na Avenida Batel em Curitiba (figura 29). Ainda segundo a jornalista, que também entrevistou os herdeiros do referido imóvel, o projetista que fez o desenho da casa foi o mesmo que projetou o prédio da estação londrinense. Ainda que a diferença de proporções, entre as duas obras, seja imensa, não há como negar semelhanças, em alguns detalhes, entre elas.177
O início da construção se deu em janeiro de 1946.178 Em abril daquele ano a Prefeitura e outras instituições, preocupadas com o urbanismo da cidade, solicitaram à Rede Ferroviária,
176 Idem, p.14
177 MENDONÇA, Lia. Casa Curitiba inspirou a antiga ferroviária. Boletim Notícia – UEL, Londrina, p.8,
10/03/2007. Controvérsias à parte a “inspiração” do desenhista da obra continua um mistério.
178
Um documento intitulado: “Especificações para construção de uma estação em Londrina”, assinada pelo engenheiro chefe do Departamento da via permanente da Rede de Viação Paraná-Santa Catarina, Sr. Linneu do Amaral, destaca detalhes sobre a qualidade e exigências técnicas relativas ao material que seria usado na construção do prédio. Concreto armado, madeira de pinho e de lei, calçamento com paralelepípedos aparelhados e rejuntados, revestimentos com azulejos brancos para os sanitários, ladrilhos e pisos cerâmicos São Caetano,
o alinhamento da futura estação com a rua Benjamin Constant. O pedido foi negado pela Rede que justificou a necessidade de grandes gastos para tal adequação. Mas, segundo Miguel Barreto o não atendimento ao pedido da prefeitura foi um ato político. Segundo ele o diretor da Rede era ligado ao PSD ao passo que as instituições londrinenses seriam ligadas à UDN. Em agosto de 1946 a Rede construiu uma maquete da futura estação visando dar conhecimento ao público da cidade.179
Figura 29 - Residência no bairro Batel em Curitiba 180 Figura 30 - Museu Histórico de Londrina181
Na história da arquitetura o chamado ecletismo foi herdeiro do ecletismo nas belas artes, iniciado ainda no século XVII com tentativas de se produzir obras de arte a partir de uma síntese da contribuição dos diferentes mestres da Renascença. Na arquitetura o ecletismo surgiu no século XIX, e teve como característica a mistura de estilos arquitetônicos, historicamente já existentes, quando os arquitetos buscaram conciliar as técnicas, e materiais modernos às construções monumentais. No Brasil o ecletismo exerceu grande domínio na arquitetura entre o fim do século XIX e a primeira metade do século XX.
No caso do prédio da Estação londrinense, o ecletismo do projeto ia desde seu desenho até a diversidade de materiais utilizados em sua construção. Com relação ao desenho percebe- se a incorporação de vários elementos que remetem à arquitetura clássica, renascentista, medieval, neoclássica e barroca. Como bem aponta Zueleide Casagrande de Paula, este procedimento refletia os diversos estilos em uso em nosso país:
portas externas em imbuia, dentre outras especificações que denotam o custo e relevância da obra para a Cia. Ferroviária. O telhado, por ser de estilo europeu, exigia especificações mais detalhadas. Vigas e ripamento de sustentação deveriam ser em pinho de primeira qualidade. Forro e partes expostas deveriam ser de madeira de lei. Para cobertura do telhado, telhas chatas São Caetano que seriam presas com arame e argamassa. AMARAL, 1945, p.3.
179 MUSEU Histórico de Londrina. A Estação Ferroviária de Londrina. Londrina, s.d.. p. 6-7 (texto
datilografado)
180 Foto: Assessoria de Comunicação da UEL, 2007. 181
O edifício do Museu Histórico tem essa característica dentro dos estilos arquitetônicos, é deliberadamente eclético.(...). Esta edificação apresenta elementos de vários estilos, as mansardas e o enxaimel usados por povos europeus, com predominância na Alemanha entre o século XVI e XVIII e trazido ao Brasil em final do século XIX, por imigrantes europeus; as colunas de pedra, o telhado íngreme e os incrustes de pedras nas paredes, oriundos dos Alpes suíços trazidos por imigrantes sulistas. (PAULA, 2010, p. 12-13)
Figura 31 - Construção da 2ª Estação Ferroviária 182 Figura 32 - Construção da 2ª Estação Ferroviária [194 ]183
Mesmo com estes elementos remetendo a estilos arquitetônicos mais antigos o prédio apresenta janelas laterais que remetem ao estilo modernista. Como já apontado, no segundo capítulo, Londrina vivenciou um período com construções modernistas, algumas que são referências até hoje, como Cine-Teatro Ouro Verde e a antiga Rodoviária, hoje Museu de Arte de Londrina.
Visualmente o que mais chama atenção para aqueles que passam, em sua frente, são os telhados inclinados e o uso de arcos e decorações que remetem a uma inspiração germânica. Para Castelnou, que também referenda o ecletismo do prédio, a profusão de elementos medievalistas “como o enxaimel, o uso de arcos de pedra rústica e de telhados íngremes com falsas mansardas”, lhe dão características que o transformam em importante testemunho do passado londrinense (CASTELNOU, 2002, p.89).
Já com relação aos elementos da construção, o ecletismo aparece na mistura de materiais utilizados. Estruturas de madeira aliadas ao ferro forjado, aproveitando-se dos novos avanços proporcionados pela engenharia do século XIX estão presentes.
Como já apresentado, o prédio sofreu uma grande reforma, no início da década de 1980, para adaptar seus espaços internos e externos a fim de viabilizar seu funcionamento
182 Fonte: acervo do MHL, [194..]. 183
como Museu Histórico. Aberto em 1986 o MHL a partir da reforma, transformou principalmente o espaço localizado no térreo, para receber as novas funções de Museu, com salas para exposições, de longa duração e temporária, além de um auditório que foi na segunda reforma de revitalização do Museu, ocorrida entre 1997 e 2000, desativado e desmontado para dar lugar à reserva técnica do acervo.
O fato é que o prédio da estação, hoje museu, transformou-se em importante ícone da imagem e imaginário urbano de Londrina. Sua localização espacial o deixa em maior evidência. Situado no que é considerado o centro histórico da cidade, tem a sua frente, a Praça Rocha Pombo. Além da praça os não menos imponentes arcos da antiga Rodoviária, hoje Museu de Arte. Ao lado do Museu encontramos, de um lado, o Planetário de Londrina e um grande Centro de Educação Infantil, do outro, o Terminal Urbano de ônibus. Como já comentado, a Praça Rocha Pombo e o Museu de Arte, antiga rodoviária, são tombados pelo Patrimônio Histórico do Paraná.
Além de ser um marco referencial para a cidade, o prédio do Museu transformou-se, com o passar dos anos, em um grande monumento que consolidou no espaço urbano as reminiscências gloriosas e ufanistas da colonização e fundação da cidade. O fato das exposições do MHL referendarem este discurso de memória, o qual enaltece a CTNP e a figura do pioneiro, transformou o prédio em um grande baluarte da tradição londrinense. A história da ferrovia e dos ferroviários, apesar de sua importância para o desenvolvimento, não só da cidade como também de toda a região, acabaram ficando em segundo plano na narrativa museológica da instituição.
Mais que um monumento arquitetônico da história citadina, o prédio da antiga estação, faz parte com suas formas do espetáculo da memória, espetáculo este que é complementado pelas exposições que são nele apresentadas.