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Tyskland og Kinas blikk

In document Uventet heder og tomme stoler (sider 107-110)

6. Sammenligning

6.3 Tyskland og Kinas blikk

Minha segunda visita a Salvador – e primeira com o olhar orientado para a pesquisa – aconteceu entre os dias 30 de maio de 07 de junho de 2014. Logo que cheguei à cidade pude observar as obras que estavam ainda em andamento no Aeroporto Internacional Luís Eduardo Magalhães. No aeroporto, também pude observar alguns painéis de combate ao tráfico de pessoas e o estande da FIFA de informações ao turista, onde pude obter o Guia do Espectador – Salvador, produzido pela FIFA em parceria com o governo da Bahia e a prefeitura de Salvador. Além disso, nos estandes de empresas turísticas, obtive material de divulgação de pontos turísticos traduzidos para o espanhol e o inglês assim como mapas da cidade, também traduzidos.

Como se pode ver a seguir, um dos folders de informação turística, elaborado pela BahiaTursa (empresa pública de promoção turística da Bahia no Brasil e no exterior) e pela Secretaria de Turismo do Estado da Bahia, trazia uma baiana de acarajé como figura representativa das

atrações que o estado tem a oferecer. A baiana está em uma ladeira do Pelourinho, e, sorridente, convida o turista a conhecer a cidade, em sinal de receptividade e hospitalidade. Figura 1 – Excerto do Folder Turístico da Bahia Tursa

Fonte: Secretaria de Turismo do Estado da Bahia, 2014. Cf. Anexo X

Em uma rápida pesquisa na Internet, percebe-se que a baiana de acarajé e o acarajé também figuram em um dos sites mais importantes de divulgação da Copa do Mundo: o Portal da Copa, sítio oficial do Governo brasileiro para a Copa do Mundo da FIFATM de 2014. Para o link serviços em Salvador, vê-se as baianas vestidas para a festa de Santa Bárbara, na aba de “cultura” e o acarajé completo na aba de “gastronomia”. A seguir, a figura mostra a primeira página desse sítio, com os elementos acima descritos.

Figura 2 – Portal da Copa – Salvador57.

O que primeiro observo ao sair do aeroporto são os enormes banners pendurados nos postes, com boas vindas ao turista que vem a Salvador. Na maioria deles, está uma mulher negra, com torso azul, balangandãs e sorriso no rosto. Ora o banner focaliza o rosto da mulher, ora o enquadramento é ampliado e mostra um tabuleiro com acarajés ao lado da baiana.

É, perceptível, pois, nesses banners que aí estão as baianas de acarajé dando as boas vindas aos visitantes de Salvador. Isso realmente me surpreendeu bastante, porque tive a impressão de que teria havido uma mudança radical na relação entre as baianas de acarajé e o poder público desde as conversas nas quais pude me acercar do caso, tanto em setembro de 2013 quanto em maio de 2014. Entendi que seriam as baianas de acarajé importantes agentes da promoção do setor turístico na Bahia, já que eram as garotas propaganda em todos os materiais turísticos que tinha visto até então. Ou, nas palavras das próprias baianas ouvidas na ocasião das entrevistas semiestruturadas, elas são o cartão-postal da cidade, vendidas como parte integrantes do turismo da cidade.

A esse respeito, Gerlaine Torres (2007) nos explica que do resultado das trocas que atualmente se define como universo afro-brasileiro, frequentemente encarado como representação nacional da afro-brasilidade, uma face étnica específica se torna cada vez mais global. E as baianas de tabuleiro têm relação muito próxima desse tipo de representação: elas são parte disso (TORRES, 2007, pp. 16-17) Como veremos no Capítulo 3, ao analisar um

57

Fonte: Brasil, 2014. Disponível em: <www.copa2014.gov.br/pt-br/servicos/salvador>. Acesso em 01 jul. 2015.

pôster da FIFA, percebo que as baianas integram uma unidade, como representação da e na nação.

Como parte dessa unidade, dessa nação, que está sendo conquistada/explorada pela FIFA, as baianas se tornam corpos-territórios58, a ser visitados e explorados. Vários estudos mostram o domínio dos corpos femininos tanto como emblemas da singularidade e da diferença de um povo quanto da conquista de um território. Aos estrangeiros, mostrar-lhes as mulheres para mostrar o que se pretende ou escondê-las para manter em segredo o que se quer resguardar. No documentário On boys, girls and the veils (NASRALLAH,1995), por exemplo, discute-se a função que a proibição ou a liberação do uso do véu no Egito, nas décadas de 70, 80 e 90 tem estreita relação com o objetivo das elites dirigentes de mostrar um determinado Egito ao mundo. O Egito moderno tem mulheres liberadas do uso do véu; o Egito tradicional, resistente às pressões da modernidade, tem disseminado entre as mulheres o uso do véu como forma de resguardo do orientalismo frente à expansão da universalização dos padrões ocidentais de conduta e de comportamento.

As baianas de acarajé representam o tradicional, o colonial, o diferente que é a Bahia. Ao mesmo tempo, o tradicional convive com o moderno, já que as baianas circulam por uma cidade que está sendo modernizada, recebendo diversos investimentos para ser transformada em uma “cidade global”, completa, no sentido de que é capaz de reunir beleza e atrações turísticas, eficiência e competitividade necessárias para atrair investidores e entrar na rede de fluxos globais de capital.

Se que queria mostrar nos materiais turísticos acima mencionados era que o tradicional, diferente e exótico pulsa livremente nas ruas modernas/modernizadas de Salvador, uma cidade onde as mulheres têm autonomia econômica, circulam livremente, alegres e satisfeitas, e ocupam a cidade. Isso em parte é verdade. Contudo, subjacente ao que está evidenciado é a tentativa de encobrir a opressão e vulnerabilização a que foram submetidas essas mulheres: mostra-se a cara da baiana, bonita, com seu trabalho; esconde-se sofrimentos e angústias delas em não saber do dia de amanhã, já que a FIFA e os poderes públicos tem o poder de decidir até onde vai essa autonomia e liberdade.

Uma situação muito parecida é analisada por Alejandra Cebrelli (2005): a autora busca compreender a relação entre as mudanças nas fachadas dos edifícios em Salta e as violências cometidas contra mulheres nessa cidade. Salta é uma cidade argentina bastante visitada por

turistas, e é considerada bela (“Salta, la linda!”). Por outro lado, aí também é local de uma percentagem bastante alta de feminicídios, além de outras violências consideradas parte dos “costumes” dessas terras: frequentemente ocorre o “chineo” (violação de meninas e adolescentes índias e mestiças por homens brancos) e o “derecho de pernada” (“direito” que os fazendeiros têm sobre as esposas de seus peões, numa relação literalmente feudal).

A autora compreende que a mudança na estrutura arquitetônica da cidade com fins de atração turística não consegue esconder a memória de violência impregnada nas paredes reformadas. Memória essa constituída na experiência das mulheres na cidade. Ou seja, paradoxalmente, as elites pretendiam mostrar uma cidade linda e bela, como um perfil de mulher, e esconder a violência realizada em seus corpos-territórios.

Em diálogo com Cebrelli (2005), concluo que, paradoxalmente, à semelhança de Salta, em Salvador, as elites procuram mostrar uma cidade modernizada que convive com o tradicional, mas não conseguem esconder as ações que promovem a vulnerabilização das mulheres negras, uma vez que discriminação das baianas de acarajé é explícita (não só no caso da relação com a FIFA, mas também com a retirada das baianas das praias, no processo de revitalização das orlas, descritas no capitulo 1).

2.4 Produção de acarajé e Orixás: conhecimento mitológico sobre as baianas no espaço

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