2.1 Innovation
2.1.2 Several types of innovation
Apresento a seguir o caso do único entrevistado que não se comunicava através da fala.
A comunicação oral por parte de Marcio é praticamente inviável. Quando abre a boca na intenção de falar, tudo o que consegue pronunciar são sons guturais e, em sua maioria, vocálicos. Ainda assim, Marcio utiliza-se de algumas palavras, facilmente reconhecidas pela família (“Mon” para mãe, “Pô” para pai, “Ai ão” para sei
não, “óa” para vamos embora, e outras). Em casa, a comunicação corrente se dá
basicamente por varredura oral105. As irmãs, em especial desenvolveram uma habilidade impressionante nessa técnica. Mas seu principal veículo de comunicação são as “cartas” que ele costuma escrever através de um computador adaptado com
104 Certamente que muita fala não implica muito conteúdo. Do ponto de vista da elaboração não
poderia falar de uma desigualdade entre os dois tipos de entrevistados. Mas vale ressaltar que essa diferença de “quantidade” de palavras não está ligada, por exemplo, às pausas para pensar (ou os silêncios normalmente encontrados numa conversa) ou ao ritmo pessoal de falar de cada entrevistado. Ela acontece por conta dos entraves na compreensão (como descritos no parágrafo sobre as transcrições) e na articulação da palavra etc. No campo, observei várias vezes situações em que essa demora para expressar/compreender acabava em abandonos: “Depois você diz, tenho que fazer o almoço agora”; “Ah, deixa pra lá, não posso ligar o computador, estou ocupado”. A laconicidade nem sempre é uma escolha...
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Estratégia de comunicação que lança mão de perguntas que permitem respostas de “sim” e “não” e que, na tentativa de decifrar uma palavra, oferece alternativas relacionadas ao assunto em questão: “Você quer pão? Biscoito? Chocolate? Bolacha?
um programa do tipo editor de texto por escaneamento106 e uma tecla posicionada em sua cadeira de rodas atrás da cabeça.
O diálogo corrente propriamente dito é apenas vivenciado através das perguntas de sim e não, das poucas palavras pronunciadas e do apontar com a cabeça. O computador é usado como uma comunicação “unilateral” em que Marcio escreve textos em formato de cartas para comunicar uma ideia ou desejo a determinada pessoa. Na rotina de Marcio, o microcomputador não é utilizado para conversas corriqueiras e espontâneas do tipo: “Olá, como você está? Estou bem. Vamos comer alguma coisa? Sim, claro”. O computador é fixo na sala da casa, os equipamentos precisam estar ligados e funcionando adequadamente e o processo de escrita é muito lento107.
Dentro desta dinâmica, como eu poderia então realizar as entrevistas? Certamente elas seriam mediadas pela tecnologia já utilizada e, inicialmente, pensei em recorrer somente aos textos escritos por Marcio. Mas eu queria efetivar uma interação mais dinâmica, mais próxima de um diálogo, de uma entrevista do modo como a conhecemos. Então, experimentei durante algumas sessões fazer as perguntas oralmente enquanto Marcio escreveria as respostas. Mas a lentidão no processo de grafia por parte de Marcio tornava o processo muito desgastante e, de certo modo, artificial. Mais uma vez, eu acabava falando mais que escutando (quer dizer, lendo).
Dificuldades na comunicação já haviam sido vivenciadas por mim em situações anteriores quando por vários anos interagi com pessoas surdas (no trabalho e na pesquisa de mestrado). Mas desta vez, os desafios impostos eram de outra ordem.
Na surdez, os entraves na comunicação ocorrem quando ambos interlocutores (surdo e ouvinte) permanecem cada um em sua própria modalidade linguística (língua oral, língua de sinais – LS) dissipando-se enormemente quando ocorre um deslocamento de sistema: por exemplo, quando o ouvinte passa a usar a língua de sinais. Assim, na minha relação com os surdos, embora ainda existissem “ruídos” na comunicação (pois eu não detinha domínio fluente da LS) havia
106 Trata-se de um software que escaneia (varre) as letras uma a uma, enquanto o usuário aciona
uma tecla que irá selecionar a letra em destaque no momento do toque.
107 No caso de Marcio, apesar das limitações do sistema que ele utiliza, os recursos tecnológicos têm
sido fundamentais na sua conquista diária pela autonomia, sobretudo do campo da comunicação. Retomarei esse tema em capítulos posteriores quando falaremos sobre tecnologia, deficiência e processos de autonomia.
velocidade, clareza e fluidez da comunicação. Além disso, o instrumento de efetivação da linguagem continuava sendo o próprio corpo, no caso, as mãos ao invés da boca.
Na paralisia cerebral, no caso de Marcio, embora ambos interlocutores mantivessem domínio sobre a mesma língua (português) os entraves eram maiores pelos seguintes aspectos: (1) a deficiência da movimentação que vai exigir (2) o uso de um instrumento artificial, o computador, o qual substituiu a função corporal perdida e necessita (3) da utilização de uma modalidade diferenciada da língua usada entre os interlocutores (escrita – falada).
Falar e escrever não requer as mesmas competências. No ato de escrever, a ausência da impostação da voz, da variação de velocidade da fala e da ênfase em determinadas palavras exigem outras estratégias para fazer a mensagem chegar com clareza e exatidão ao interlocutor (que, em geral, está ausente).
No entanto, as hiper-mídias têm introduzido novos estilos de comunicação, uma nova linguagem (chamada internetês) que tem surgido com o uso do Internet Relay Chat (IRC – os chamados chats ou bate-papo em sistema de MSN ou ICQ) e que têm como característica a aproximação da linguagem escrita à linguagem falada através do uso de símbolos, abreviações e outras. Pensei então, porque não utilizar uma estratégia similar nas entrevistas com Marcio? Talvez se eu escrevesse pudesse também diminuir o desnível de eficiência na emissão das mensagens (até aquele momento, faladas de minha parte, escrita da parte dele).
Na verdade, essa ideia surgiu em um dia que Marcio, diante do computador, olhava na direção da cozinha onde estava a mãe para certificar-se que ela continuava lá, e apressadamente escrevia uma mensagem no computador na tentativa de me contar um segredo. Para interagir sem revelar em alta voz suas confissões, decidi escrever no computador também. Assim, em silêncio, ficamos ambos escrevendo, conversando por quase duas horas sobre as aventuras amorosas de Marcio. E assim, acabou se definindo a estratégia de realização das entrevistas com ele: eu lhe escrevia as perguntas em silêncio, ele respondia escrevendo também em silencio, entrecortado apenas por nossas risadas ou minhas expressões: “Sério? Não? Ah!!!”
Estabeleceu-se assim uma espécie de chat de bate-papo semivirtual. Em que ambos estavam corporalmente presentes, mas usando uma máquina na mediação da linguagem. Nós dois estávamos em silêncio, mas um silêncio pleno de sentido,
de conteúdo, de palavras; como na frase de Maurice Blanchot citado por Le Breton (1997, p. 66):
O essencial não é que aquele homem fale, ou aquele outro escute, mas não estando ninguém em especial a falar e ninguém em especial a escutar, haja todavia fala como que uma promessa indefinida de comunicar, garantida pelo incessante vaivém das palavras soltas.
Gostaria de finalizar esse subtópico sobre o trabalho de campo com um trecho do diário que ilustra brevemente o que essa experiência significou para mim:
Novamente Marcio me entregou uma “carta” na qual resumia suas principais atividades da semana. Dentre elas, minha última visita, sobre a qual ele escreveu: “Minha amiga Erika esteve aqui de novo. Eu fiquei muito orgulhoso dela, porque ela disse para o professor da faculdade que ia fazer uma entrevista comigo mesmo eu não falando. Ele disse que não dava certo, mas ela disse que ia provar como dava certo, sim. Obrigada, Erika, por não ter desistido de me entrevistar!”. Fiquei emocionada com o agradecimento dele... Na hora apenas respondi: “De nada, Marcio”, passando a mão sobre sua cabeça. Mas creio que se eu também tivesse o habito de comunicar sempre através da escrita teria entregue o seguinte texto de volta para ele: “A única pessoa que deveria agradecer aqui sou eu. Obrigada, Marcio, por me receber em sua casa, por confiar em mim, pela sua enorme paciência com minha incapacidade de compreender o que você tenta dizer e por me ensinar tanto, sobre tantas coisas”. (Diário de pesquisa 30/09/2008).